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O Que Pensar do Fragmento 7Q5, de Qumran?

Quão antigos podem ser os fragmentos do Novo Testamento? Será possível que tenhamos fragmentos de manuscritos neotestamentários que pertençam ao tempo das testemunhas oculares, ainda no Primeiro Século, antes mesmo de alguns dos livros que compõem o NT terem sido redigidos? Desde 1972, a comunidade científica está analisando aquele que pode ser uma das maiores descobertas da papirologia do Novo Testamento: um pequeno fragmento, supostamente do Evangelho de Marcos, que data da década de 50 d.C., o que está dentro de uma década após a redação original de João Marcos.

Os Manuscritos do Mar Morto foram encontrados em Qumran, Palestina, em 1947, e são considerados um dos maiores achados arqueológicos de todos os tempos. O clima seco da região possibilitou a preservação de uma grande quantidade de documentos redigidos pelos essênios, uma ordem religiosa judaica que se isolou no deserto para purificar-se para o Dia do Senhor, tendo encontrado seu fim com a chegada dos romanos no final dos anos 60 d.C. Em meio às centenas de redações aramaicas e hebraicas, 19 fragmentos em grego foram vislumbrados na Caverna 7 - todos eles reunidos, sem serem misturados com os hebraicos e aramaicos, e feitos de papiro, como peças de rolos, não pergaminhos, encontrados em outras cavernas de Qumran -, um deles referente aos versículos 4-7 de Êxodo 28 e um outro identificado como pertencente ao apócrifo de Baruc. Algumas décadas depois da grandiosa descoberta, em 1971, o padre José O'Callaghan, professor do Pontifício Instituto Bíblico de Roma, pôs-se a analisar os fragmentos gregos ainda não identificados, debruçando-se especialmente sobre o fragmento de número 5. Com base em critérios paleográficos bastante confiáveis, O'Callaghan conseguiu datá-lo de cerca do ano 50 d.C., inicialmente rejeitando-o como uma possível cópia dos sinóticos, comumente tidos como redigidos entre 70 e 100 d.C.

Como Qumran foi fechada e abandonada em 68 d.C., não é possível conceber uma redação dentro dos anos 70 d.C. A análise da escrita do fragmento 5, levando em conta o original grego de Marcos e a maneira como os antigos escreviam, precisou situá-lo nos anos 50 d.C. A escrita do fragmento é contínua, uma técnica chamada de 'zierstil', que é um estilo decorativo corrente entre os essênios no período que vai de 50 a.C. até 50 d.C., indicando que o fragmento 5 é de antes de 68 d.C., tendo sido confeccionado em 50 d.C., ou até mesmo nos anos predecessores. O 7Q5, como ficou conhecido, possui 20 letras dispostas em 5 linhas e mede 3x4 cm. 

O'Callaghan falhou em sua busca por correspondentes veterotestamentários para as palavras do fragmento 5 e então, em 1972, se colocou, por curiosidade, a avaliar o Novo Testamento, surpreendendo-se com o fato de encontrar um trecho correspondente em Marcos 6:52-53 - além disso, havia outras correspondências entre o 7Q5 e o trecho lido do original grego de Marcos: um espaçamento entre duas letras quando havia interrupção no discurso e okαí inicial, comum a Marcos.

O achado não foi divulgado rapidamente, considerando a recepção dos círculos de estudiosos da papirologia, que realmente foram muito hostis quando informados da proposta de O'Callaghan, iniciando uma longa controvérsia, levando o fragmento a ser submetido a inúmeros testes.

Em Liverpool, o 7Q5 foi confrontado com toda a literatura greco-cristã, mas nunca deixou de se encaixar em Marcos. Em 1987, o Instituto Bíblico de Roma publicou uma análise liderada por Carsten Peter Thiede, que fez uso de critérios paleográficos e crítico-textuais, vindo a afirmar que, sim, 7Q5 é de Marcos 6:52 e 53, com uma redação dada nos anos 50 d.C. e obviamente antes de 68 d.C. Desse momento em diante, ainda envolto em controvérsias, o fragmento passou a ser considerado o mais antigo do NT.

Em 1991, entre os dias 18 e 21 de outubro, foi realizado um congresso internacional na Universidade Católica de Eichstätt, Alemanha, especialmente para resolver a polêmica do 7Q5, que resultou na confirmação da proposta de O'Callaghan e Thiede. Os opositores de O'Callaghan não compareceram e não chegaram a propôr uma tese alternativa, ocupando-se em acusar as análises de tendenciosas e arbitrárias, especialmente com base numa traço vertical na segunda linha do manuscrito, afirmando ser um iota, enquanto O'Callaghan insistia se tratar de um ni. Essa controvérsia só foi resolvida com análises feitas pela Polícia de Israel, que fotografou o fragmento com técnicas especiais, vindo a confirmar a sugestão de O'Callaghan, conforme o padre fez questão de deixar claro no ano de 1992, quando estivera no Brasil.

Sobre o 7Q5, Peter Thiede declarou: "Quem quer considerar o 7Q5 = Mc 6:52-53 como o mais antigo fragmento até hoje conservado do texto do Novo Testamento, pode fazê-lo com consciência tranquila." 

No congresso de Eichstätt, Thiede informou que O'Callaghan descobrira outro fragmento de grande relevância na Caverna 7. Enquanto trabalhava com os outros 16 manuscritos gregos, o padre, com grande cautela, supôs ter encontrado no fragmento 4 a parte final de 1 Timóteo 4:1 - "... obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios." -, que também é de antes de 68 d.C. Sobre isso, Thiede se posicionou:

"Esse fragmento contém palavras muito claras e é ainda mais incontestável que 7Q5, porque vem do lado direito de um papiro e contém a parte final das palavras. Do ponto de vista científico, é um caso excepcional e um elemento muito precioso. Podemos concluir que o fragmento 7Q4 foi identificado com certeza."

Isso comprovou que podem haver outros manuscritos neotestamentários em Qumran, levando um grupo de estudiosos de renome a assinar, ainda em Eichstätt, um pedido ao governo israelense para que autorize novas pesquisas na área da Caverna 7. Algumas das assinaturas são de Bargil Pixner, Bernhard Mayer, Rainer Reisner, Otto Benz, Benedikt Schwank e James Charlesworth.

O'Callaghan lançou as seguintes propostas sobre os fragmentos gregos da Caverna 7:

7Q4 = 1 Timóteo 3:16; 4:1-3, + 70 d.C.
7Q5 = Marcos 6:52-53, 50 d.C.
7Q6 = Marcos 4:28, 50 d.C.
7Q6 = Atos 27:38, 60 d.C.
7Q7 = Marcos 12:17, 50 d.C.
7Q8 = Tiago 1:23-24, + 70 d.C.
7Q9 = Romanos 5:11-12, + 70 d.C.
7Q10 = 2 Pedro 1:15, + 70 d.C.
7Q15 = Marcos 6:48, - 70 d.C.

Fontes: Crítica Textual do Novo Testamento, Wilson Paroschi, Vida Nova, 2008, pgs 211-213; Ciência e Fé em Harmonia, Prof. Felipe Aquino, Cléofas, 2012, pgs 159-161; Por que Confiar na Bíblia?, Amy Orr-Ewing, Ultimato, 2008, pg 49.

É importante notar, especialmente quanto ao fragmento 5, de Marcos, o quanto os principais fundamentos teológicos do cristianismo já estavam estabelecidos na década de 50 d.C., cerca de 20 anos depois da Ressurreição do Mestre e dentro dos primeiros 10 anos depois do original de Marcos - é fato que o 7Q5 foi copiado de algum documento ligeiramente próximo do original. É curioso como ele foi encontrado em papiro, isolado junto com outros papiros, diferindo das outras cavernas de Qumran, que continham pergaminhos. Conforme evidenciei no artigo do EOMEAB "Testemunho Ocular? O Papiro de Jesus e o Fragmento de Marcos", o fragmento 5 foi achado perto de um jarro com o nome "Roma", o que combina com a redação do autógrafo de Marcos em Roma e sugere que os rolos gregos de papiro da Caverna 7 tenham vindo do mundo gentílico, ou, ao menos, que tenham sido copiados de textos greco-romanos - jarros como o que foi encontrado eram realmente utilizados para guardar rolos. Vale ressaltar que o fragmento contém, na quarta linha, a palavra "Genesaré", o nome antigo do Mar da Galileia, que só aparece no Evangelho de Marcos, combinando com o jarro catalogado como "Roma".

Vide um pequeno trecho de minhas análises de autoria, data e teologia dos Evangelhos, Os Evangelhos - Autoria, Data e Confiabilidade, publicado no EOMEAB:

Desde o início desse evangelho nos deparamos com a expressão "Jesus Cristo, o Filho de Deus". Assim como ocorre em Mateus, Marcos apresenta diversos milagres messiânicos (2:1-12; 3:1-6; 3:11, 20-30; 5:1-20; 4:35-41; 5:21-24, 35-43); Jesus aqui também aparece como alguém que transcende a Lei (2:23-28). É claro que o relato da ressurreição de Cristo é a maior evidência da Sua divindade, apresentado em Marcos de modo claro e objetivo, sem os característicos floreios e exageros de maquinações mitológicas. Assim como em Mateus, Jesus aparece andando sobre as águas e declarando "Eu Sou" (Marcos 6:50) e, em diversas passagens, tendo-se como o "Filho do Homem" (por exemplo, Marcos 2:28), que, como já dito, usava-se como afirmação de divindade no Antigo Testamento.

Sendo assim, temos uma consciência clara de Jesus Cristo como Deus nos primórdios da fé cristã, quando a maioria das testemunhas oculares do mestre ainda estava viva.

Natanael Pedro Castoldi

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