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Como Resistir ao Curso de Nosso Mundo

Índice: 1 - O conceito de Verdade Absoluta; 2 - Moralidade; 3 - Deus; 4 - Defesa da Fé Cristã; 5 - Fortalecimento dos vínculos na Igreja; 6 - Fortalecimento dos vínculos familiares e das amizades; 7 - Valorização da pátria; 8 - Cultura; 9 - Ação social; 10 - Devoção individual

Cada vez mais tenho percebido a complexidade dos problemas que a Igreja está enfrentando e projetado um futuro de complicações ainda maiores. Nossa civilização está definhando. Sinto que nós, como cristãos, não teremos muito o que fazer diante do quadro que se levanta, tendo em mente a resistência doutrinária e moral até o limite, seja ele qual for, mas isso não significa que não possamos encontrar meios de viver de modo mais saudável e frutífero nesse "vale da sombra da morte" - é nobre da nossa parte "combater o bom combate", 2 Timóteo 4:7, preservando o que pudermos da Verdade, da moral, da integridade humana. Tendo em mente o crescente relativismo, que levou ao ceticismo e agora desemboca numa puramente estética cultura hedonista, que visa a maximização do prazer e a minimização da dor, infectando a comunicação do homem consigo mesmo e as suas relações com a natureza, outros seres humanos e bens de consumo - quando o próximo não é tido também como um "bem a ser consumido" -, entendendo que não podemos simplesmente viver sem reflexão, sem foco, sem prioridades, pois a ausência de prioridades nos tornará vulneráveis, formulei uma lista de 10 pontos que eu considero serem de especial relevância para o depósito de nossas energias físicas e intelectuais, almejando a transformação do mundo que nos cerca. Que esse esboço te sirva de inspiração e norte para se organizar na defesa do Evangelho e da própria humanidade.

1 - O conceito de Verdade Absoluta: 
É no relativismo que se baseia a nossa cultura hedonista. Quando se pensa que tudo é igualmente verdadeiro e, portanto, falso, não há nada sólido no que se apegar, restando o desespero e o enfoque nos prazeres anestésicos, que distraem. Sem um senso de Verdade Absoluta, o ser humano não encontra sentido para resistir aos seus impulsos bestiais e a vida, nessa espécie de niilismo que não lhe atribui valor e motivação de ser, só é bem vivida se resumida à banalidade, ao estágio animal do ser, ao que não nos diferencia dos outros animais. Isso suprime a moral e a própria crença em Deus, que podem ser desacreditados ou igualmente relativizados em distorções sem sentido. Uma sociedade que não encontra nenhum fundamento sólido sob o qual se estabelecer, está destinada à selvageria, à barbárie. Nossa ênfase inicial diante dos homens, portanto, deve residir na defesa racional da Verdade Absoluta pura e simples.

A civilização grega já experimentou algo parecido com o que temos visto acontecer em nosso mundo ocidental. Seus filósofos mais famosos, como Aristóteles e Platão, forneceram bases morais sólidas justificadas pela suficiência da Razão, do Logos, para a construção da civilização, fundamentos que, afastando a barbárie, puderam organizar a sociedade para o benefício dos homens. Uma demonstração de como o Logos, pensado para justificar a moral, suprimiu a barbárie, está na crítica que esses filósofos fizeram aos deuses do velho panteão grego, tidos como inaceitáveis por sua imoralidade. O desenvolvimento dessa civilização e o crescente ócio levou à ascensão dos céticos e sofistas, que começaram a minar a ideia de que existe uma Verdade que pode ser conhecida fazendo uso da Razão. Aniquilando o conceito de Razão, os sofistas e céticos propiciaram um severo declínio da civilização grega. Foram os cristãos, especialmente o apóstolo João e os Pais da Igreja, que resgataram o conceito de Razão, de Logos, da possibilidade de se encontrar a Verdade Absoluta para sustentar a fé e a moralidade, vindo a salvar tanto a filosofia grega, quanto a própria Civilização Ocidental. Parece-me que mais uma vez esse encargo será nosso.
Fonte: O Livro que Fez o Seu Mundo, Vishal Mangalwadi, Vida, 2013, pgs 103-119.

Vale ressaltar que foi com o abandono da ideia de uma Verdade Absoluta e a resultante degeneração moral, que os epicuristas e cínicos ganharam espaço. Os cínicos, em especial, viviam basicamente regidos por seus instintos mais básicos e eram conhecidos, inclusive, por evacuarem em público. Os epicuristas, por sua vez, tinham o corpo físico como inferior e, portanto, destruíam-no submetendo-o a todo o tipo de depravação. A mentalidade hedonista que permeou esses movimentos também aparece em gente como o francês Marquês de Sade, de quem se tirou a palavra "sádico". Sem ter uma base de verdade na qual se situar, Sade afirmou que os seres humanos são "Criaturas lastimáveis atiradas por um momento sobre a superfície dessa pequena poça de lama" - não é de se surpreender, portanto, que ele tenha defendido o aborto e o infanticídio. Não é curioso como, com o retorno do hedonismo, o aborto, o infanticídio, a pedofilia, a zoofilia e outros comportamentos outrora silenciados,estejam retornando com força argumentativa e determinada aceitação?

Céticos como David Hume (1711-1776) e Edward Gibbon (1737-1794) justificaram a prática da escravidão como um preço "lamentável, mas necessário para a civilização". Para Gibbon, a escravidão é "quase justificada pela lei soberana da autopreservação". Hume vai além: "os negros e, em geral, todas as outras espécies de homens (uma vez que há quatro ou cinco tipos diferentes) [são] naturalmente inferiores em relação aos brancos." Immanuel Kant é ainda mais severo: "Os negros da África não possuem, naturalmente, nenhum sentimento maior do que o de brincadeiras." 

Maquiavel, Thomas Hobbes, Jeremy Bentham e John Austin, entre outros pensadores anticristãos, rejeitaram a ideia dos direitos humanos. Bentham considerava os direitos humanos como sendo "falácias anárquicas"; Maquiavel afirmou que "os homens devem ou ser mimados ou completamente destruídos"; Hobbes tinha como certo que os homens abrissem mão de seus direitos naturais em nome de um Estado totalitário; para Austin, a validade de uma lei reside unicamente no fato de ela ter sido proclamada por um governante.

Outros resultados da descrença numa Verdade Absoluta que sustente a moral:
"Se vais às mulheres, não vos esqueçais de vosso chicote." Friedrich Nietzsche.
"O destino da mulher é ser uma devassa, como a cadela, a loba; ela deve pertencer a todos aqueles que a reivindicam." Marquês de Sade. 
"A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística." Joseph Stálin.
Fontes: Uma História Politicamente Incorreta da Bíblia, Robert J. Hutchinson, Agir, 2007, pgs 16, 21, 87, 97 e 62-163; O Jesus Fabricado, Craig Evans, Cultura Cristã, 2009, pgs 95-100.

Um argumento muito simples para se defender a Verdade Absoluta pode ser encontrado no livro "Não Tenho Fé Suficiente Para Ser Ateu", de Norman Geisler e Frank Turek, Vida, 2012, que torna questionável a suposta verdade de que não existe verdade absoluta. Segue um resumo da lógica dos autores que eu publiquei no Facebook:

"É engraçado quando alguém afirma que é moralmente correto defender o relativismo moral (é certo dizer que não existe 'certo e errado'?), que é verdade que não existe Verdade Absoluta, ou que é coerente valorizar e definir a inexistência de 'valores absolutos'. Isso tudo é o mesmo que usar da razão para afirmar que só existe o 'irracional' ou, vestindo verde, bradar que tudo o que existe é azul! Você diz que não podemos desferir julgamentos? Então acaba de julgar meu juízo."

Para defender esse ponto, parece-me suficiente disseminar esse tipo de raciocínio, fazendo teus conhecidos refletirem. É interessante, também, observar as ocasiões nas quais os relativistas - qualquer indivíduo que não possa sustentar um padrão moral por meio de suas crenças - se contradizem desferindo julgamentos morais e de valor, e aproveitar tais circunstâncias para acusar a falha e ilustrar a irracionalidade de sua postura.

2 - Moralidade:
Enfatizada a ideia de uma Verdade Absoluta, de um fundamento para a existência, possibilita-se a reflexão sobre um padrão moral estabelecido. Como já trabalhado no ponto anterior, o relativismo, quando irradiado para a moralidade, só pode resultar em caos moral e retorno à barbárie, pois não sobra sustentação alguma para aquilo que é "Certo e Errado". Søren Kierkegaard categorizou o ser humano em três níveis: o banal, que é um estágio infantilizado, regido pelo imediato e pelo instinto animal; o moral, que é quando o homem percebe que existe um padrão de moralidade a ser respeitado e, considerando a suas exigências, decide embasá-lo em Deus ou regressa ao estágio da banalidade; e o estágio religioso, onde a moralidade se sustenta. Se desejamos fazer do homem uma criatura mais humana, tirando-o da "ação e reação" do estágio bestial, precisamos apresentar-lhe a proposta moral. É aqui que se começa a vencer o hedonismo - reconhece-se que há algo que impele o homem a abster-se de certos prazeres em momentos em favor de algo maior.

A moral é universal e todos os seres humanos possuem, em si, um senso de "Certo e Errado", que podem ou não ouvir. Esse sendo moral, com suas exigências, é por muitos parcialmente suprimido por vícios e artifícios de prazer, que anestesiam a consciência, cauterizando-a, mas, ainda que a culpa se amenize diante da transgressão, o entendimento racional do erro prossegue consciente. Quando falamos da moralidade, portanto, estamos atingindo o âmago de todo e qualquer ser humano e, querendo ou não, despertando em qualquer ouvinte um proveitoso conflito interno. Diante desse conflito, muitos respondem com exageradas intelectualizações e filosofias que possam embasar a prática do abominável, o que é esperado e deve ser respeitado, embora respondido com refutações apropriadas. No final das contas, a melhor forma de argumentar a validade da moralidade está num comportamento moralmente reto - todas as pessoas sabem distinguir quando somos coerentes e acham isso benéfico -, assim como, na defesa da Verdade Absoluta, eu não posso me comportar como um relativista, embora seja saudável estar aberto ao diálogo.

Entre os séculos XVII e XVIII, a Inglaterra mergulhou no caos moral resultante de uma sequência lógica de mentalidade: deísmo, racionalismo, ceticismo, ateísmo e, por fim, cinismo. Nesse período, com os clérigos silenciados e a Bíblia fechada, o tráfico de escravos de intensificou, o trabalho passou a ser visto como indigno, a corrupção se alastrou em todos os setores da sociedade, passou a haver severa exploração da classe dominante por sobre os mais pobres, houve piora no cuidado das crianças e maior mortalidade infantil, presenciou-se o alastrar do alcoolismo, da jogatina, da prostituição, da violência, dos assaltos e do assassinato, percebeu-se a ocorrência de fornicação inclusive em locais públicos e durante o dia, desencadeou-se a popularização de lutas entre homens e rinhas de animais, incluindo leões e ursos, testemunhou-se a deterioração da vida acadêmica... o fechamento da Bíblia, portanto, produziu apenas impiedade, ignorância e selvageria. Isso se comprovou, pois John Wesley, ao reapresentar as Escrituras para o povo e pros acadêmicos ingleses, levou a Inglaterra a um reavivamento moral e espiritual que a privou de acabar com uma revolução como a francesa que, sem uma base moral sólida, culminou no extermínio cerca de 40 mil pessoas dentro de apenas um ano.
Fonte: O Livro que Fez o Seu Mundo, Vishal Mangalwadi, Vida, 2013, pgs 302-317.

O declínio moral, que acompanha uma fase estética, sensorial, é, em diversas ocasiões, indício de que uma civilização está chegando ao seu fim. Quando os valores mais elevados são abandonados e as pessoas, envoltas em ceticismo, começam a ocupar-se apenas com o suprir dos anseios animais e com a estética, os anos da civilização da qual fazem parte estão contados. 

Nos últimos séculos do Império Romano, a moral sexual estava profundamente degradada. A promiscuidade generalizada, segundo o satírico Juvenal, levou Roma, inclusive, a abandonar a sua deusa "Castidade". Ovídio observou que as práticas sexuais tinham se rebaixado a um nível especialmente perverso, chegando ao sádico. Tácito, no Século II, afirmava que encontrar uma mulher virgem era algo raríssimo. Um exemplo do lento crepúsculo estético que encaminhou Roma para o colapso também pode ser encontrado em Juvenal, quando este declarou que "se espalhavam como praga" jovens efeminados que vestiam cores vivas e usavam perfumes adocicados, além de rasparem todos os pelos do corpo para exalarem mais jovialidade.
Fontes: Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, Thomas E. Woods Jr., Quadrante, 2008, pg 199; Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo, Leandro Narloch, LeYa, 2013, pg 19.

Um dos exemplos mais claros daquilo que pode acontecer quando não é possível sustentar a moral objetiva está no Século XX, evidente nas movimentações do comunismo, como o Prof. Felipe Aquino define:

"As filosofias de fundo ateísta, como por exemplo o racionalismo do século XIX; o marxismo - comunismo e nazismo, são perigosas porque alimentam sistemas desumanos que não respeitam a dignidade da pessoa humana, como mostrou muito bem a história recente do século XX. Dezenas de milhões foram assassinados no século XX em nome dessas ideologias sem Deus. A negação de Deus leva ao desprezo pelo homem."

Karl Marx (1818-1883) percebia que o ateísmo era essencial para o comunismo se instalar - "O comunismo começa no ateísmo." (K. Marx. Colectânea, über Religion und Kirche. Moscovo 1977, p. 7) -, pois, como ele reconhecia, "há verdades eternas que precisam ser suprimidas", o que não seria possível se houvesse uma sustentação sólida para a moralidade:

"Há verdades eternas como a liberdade, a justiça, etc. Mas o comunismo suprimirá estas verdades eternas, abolirá a religião e a moral em vez de as reorganizar. O comunismo contradiz, portanto a evolução histórica que conhecemos até agora. Seja sob que forma for a exploração foi uma realidade em todas as épocas. A Revolução Comunista é a ruptura mais radical com todas as formas tradicionais de propriedade. Portanto não é de admirar que rompa de maneira tão radical com as ideias tradicionais." (Manifest der Kommunist Partei. in: Reclam Stgt., 1969, p. 45-46).

Sua mentalidade só poderia acarretar nas seguintes máximas: 
"O que é verdadeiro não é já a realidade, mas sim o que me é útil."; "O que é útil para os russos é com, digo abertamente que pomos a violência e a mentira ao nosso serviço." (Die Bibel der Welt. Nr. 4, 1978); "O nosso inimigo é Deus. O ódio a Deus é o princípio da sabedoria."; "Odeio qualquer Deus." (Seg. Giordani. The polit. Atheism: C. Boyer, Philos, of Comm. N.Y., 52.p. 134; Differenz d. demokr. Und epikureischer Naturphilos.: ME. Vol I-1, p.10).

Não é de se admirar que essa percepção de mundo, compartilhada por Lênin, Joseph Stálin e Adolf Hitler, tenha custado, só na URSS, 49 milhões de vidas - sem contar os mortos em batalha. Segundo o Livro Negro do Comunismo, de Stéphane Courtois, o comunismo causou a morte de 100 milhões de pessoas - só na China foram 63 milhões e, na Rússia, 20 milhões. A Comissão sobre Repressão, governo russo, afirma que só os bolchevistas mataram, pelo menos, 43 milhões de pessoas entre 1917 e 1953. Segundo a agência católica Zenit, o comunismo da Coréia do Norte matou de fome 3,5 milhões de pessoas.
Fonte: Fé e Ciência em Harmonia, Prof. Felipe Aquino, Cléofas, 2012, pgs 122-135 e 143.

A preservação da moral objetiva comprovou-se, portanto, essencial para a sobrevivência da nossa civilização, tornando a sua defesa imprescindível para o bom cristão. Uma das formas mais eficazes de demonstrar o valor de se nutrir um padrão moral está na disseminação dos fatos históricos que demonstram o perigo de abandoná-lo. Uma segunda maneira de defender a Lei Natural está na constante acusação e reprovação, justificada, da imoralidade que se expressa em eventos, notícias, literaturas e nas demais formas de arte. Outra abordagem interessante reside no evidenciar de que, de fato, existe uma moral objetiva partilhada entre todos os seres humanos a qual, não encontrando nenhuma fonte de origem no mundo natural, necessariamente veio do próprio Deus e, portanto, precisa ser obedecida. Leia mais sobre isso no seguinte artigo do EOMEAB: Origens: A Moralidade Humana.

3 - Deus:
Conforme Kierkegaard, o estágio mais elevado da existência humana é o religioso, que deve resultar do estágio transitório da Lei, da moral, que, ou aponta para Deus para sustentar-se, ou retrocede para o estágio banal. É necessário, portanto, que os cristãos, diante de uma sociedade hedonista, profundamente encorada no estágio banal, apresentem propostas de mundo morais e de benefício evidente com tanta ou maior ênfase do que defendam a existência do Criador e Legislador, produzindo a antessala da fé. Mas, que fique claro, é impossível defender a moral objetiva sem a ideia de Deus, do contrário, a moralidade não passa de convenção social, não havendo empecilho nenhum, além do incômodo diante dos outros, para burlá-la.

Somente quando as pessoas reconhecem a existência do Criador, é que elas encontram base suficiente para sustentar um comportamento moral. Além disso, sem Deus, não há razão clara para se viver, resultando em falta de esperança e angústia que, para ser suprimida, exige o anestésico dos contínuos prazeres bestiais. Evidências claras de como a ausência de uma percepção de divindade acarreta em desespero estão na quantidade de suicídios de jovens que leram Werther, de Goethe; no fato de Marcuse também ter levado jovens à morte; no pessimismo e na tristeza disseminados por Schopenhauer; na percepção de Jean Paul Sartre sobre a vida, como algo estúpido e uma agonia sem sentido; no complexo de inferioridade sustentado no pensamento do estoico Zenão; e no relato da jovem que, depois de ler "A Nova Heloísa", de Russeau, estourou a própria cabeça em uma praça de Genebra. Além disso, diversas condenações resultaram da influência d'A Comédia Humana, de Balzac. Todos esses são filósofos desprovidos de fé e, portanto, incapazes de discernir o sofrimento num mundo sem sentido. Em oposição a isso, a atitude positiva dos cristãos diante da vida é que levou o suicídio, que na Antiguidade era considerado o fim mais honroso para o estoico, a uma posição de rejeição, conforme Agostinho: "Grandeza de espírito não é o termo correto para designar alguém que se mata por lhe faltar coragem para enfrentar o sofrimento ou as injustiças dos outros." Não é de se estranhar que cada vez mais as pessoas estão optando por tirar a própria vida, conforme a sociedade se seculariza e paganiza.
Fontes: Ciência e Fé em Harmonia, Prof. Felipe Aquino, Cléofas, 2012, pgs 122-123; Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, Thomas E. Woods Jr., Quadrante, 2008, pg 192.

Vale ressaltar que o Século XX, no qual foram mortas mais pessoas do que nos 19 séculos anteriores somados, foi o primeiro século no qual Deus foi rejeitado no mundo acadêmico, na política e na educação das crianças.
Fonte: Por Que Confiar na Bíblia?, Amy Orr-Ewing, Ultimato, 2008, pg 101.

Para contrastar com aquilo que foi exposto sobre a carência de motivação pró-vida que geralmente reside na descrença - reforço o "geralmente" - é interessante apontar para a generosidade daqueles que creem, como evidência de uma percepção de mundo mais otimista. Apenas um exemplo para ilustrar tal alegação: segundo a Gallup Organization, indivíduos praticantes de alguma forma de religião doam dois terços do total de 280 bilhões de dólares de filantropia que circulam anualmente nos Estados Unidos, o que dá 185 bilhões - as fundações doam 25 bilhões e as corporações norte-americanas, 9 bilhões. O amor cristão já é reconhecido desde o início da Era Cristã, conforme observou Pacômio, um soldado pagão que presenciou a caridade cristã quando, no Século IV, doença e fome assolaram os exércitos de Constantino - a verdade é que um dos motivos que levaram o imperador a oficializar o cristianismo no Império Romano foi o tratamento humanitário que os cristãos destinavam a todos, sem discernir religião, raça ou povo. Um estudo completo sobre o tema você encontrará no seguinte artigo do EOMEAB: A Fé e os Seus Benefícios Para a Sociedade.
Fonte: Uma História Politicamente Incorreta da Bíblia, Robert J. Hutchinson, Agir, 2012, pg 99; Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, Thomas E. Woods Jr., Quadrante, 2008, pg 159; Uma Breve História do Cristianismo, Geoffrey Blainey, Fundamento, 2011, pgs 55-59.

Quando, porém, falamos de argumentar em favor da existência de Deus, estamos pensando no Deus Criador, onipotente, onisciente e onipresente, que pode justificar a existência do mundo natural e sua complexidade absurda partindo do Nada. Um Deus Criador, eterno, imutável. Não se trata, portanto, do deus inexistente do panteísmo que, ao afirmar que "tudo é Deus", declara que "Deus é nada", e nem uma divindade criada de algum politeísmo qualquer. Precisamos de um Deus que pode ser a fonte da moral humana. A defesa dessa ideia vital reside numa argumentação filosófica da existência de Deus, no estudo e divulgação de evidências científicas que atestem para a existência de um Criador - criacionismo, Design Inteligente ou evolucionismo teísta - e na própria preservação de uma fé inabalável no Deus que nos está revelado nas Escrituras. Uma vida de fé, que move o sobrenatural, transmite autenticidade e é, por si só, evidência de que o Criador existe. Quando levamos os outros ao entendimento de que Deus existe e lhes oferecemos o Evangelho, proporcionamos uma base sólida de esperança, identidade e razão de viver e agir de modo moralmente correto.

4 - Defesa da Fé Cristã:
Quem sai do estágio da banalidade para o ético e, então, para o religioso, há de se surpreender ao encontrar nas Escrituras um tratado extremamente coerente sobre aquilo que, em seu coração, de certo modo, já sabia ser "Certo e Errado", e sobre o Deus Criador. Deus é ser de outra instância, único e exclusivo em Si mesmo, de modo que ninguém além dEle pode revelá-Lo, logo, é de se esperar que o Seu conhecimento esteja disposto em revelação que, no caso, é escrita. Não somos relativistas, então não podemos cair no vazio pluralismo religioso que, ao afirmar que todas as religiões e divindades estão certas, deixa entendido que nenhuma é verdadeira. O cristão acredita num único Deus e defende a Bíblia como a Sua revelação.

Quando defendemos a veracidade das Escrituras, procuramos demonstrar que, de fato, ela brota do próprio e único Deus. Isso se faz através, primeiramente, de um profundo estudo da Palavra em si (1), embasado numa vida devocional frutífera e de zelosa erudição. Ninguém que não maneje bem a Bíblia é capaz de defendê-la e, assim, acastelar a fé cristã. Além do estudo do texto em si, faz-se necessário o conhecimento da teologia cristã em toda a sua tradição histórica (2), além das confissões e credos cristãos que foram formulados ao longo dos tempos. Esse ponto nos incentiva a ter uma noção adequada da História da Igreja - e pode exigir um estudo da História de Israel no Antigo Testamento. Sendo as histórias de Israel e da Igreja (3) profundamente entrelaçadas com a História Mundial (4), uma defesa coerente da fé cristã demanda um bom conhecimento de história do mundo e, especialmente, das raízes e do desenvolvimento da Civilização Ocidental (5) - precisamos aprender a defender a nossa fé de uma forma que seja compatível com a nossa cultura. Quando falamos de Civilização Ocidental, lembramo-nos, especialmente, de filosofia, política, moralidade e ciência (6), e essas são quatro esferas para as quais deve ser canalizada grande parte de nossa dedicação. É notável, ao estudarmos a História da Civilização Ocidental, como a Igreja desenvolveu a filosofia, permeou grandes movimentos políticos, fundamentou revoluções morais e deu base para a própria ciência moderna. Se você observar a influência positiva da cosmovisão bíblica no trabalho, na tecnologia, na formulação dos Direitos Humanos, no direito, na arte, na economia, na arquitetura, na política, e em todas as esferas fundamentais da civilização e for capaz de transmitir isso, estará disseminando a ideia de que o cristianismo, quando essencialmente bíblico, possui uma proposta sólida, completa e desejável de civilização.

Nesse momento, porém, poderá se deparar com objeções baseadas em movimentações aparentemente vis ou decididamente antibíblicas da igreja ao longo da história (7) - quando isso acontecer, verifique se há motivações históricas que possam levantar alguma justificativa, mas saiba ser humilde em reconhecer a falta e apontar para a contradição da prática com a teoria contida na Escritura. Outras objeções que podem ser levantadas residem em supostos versículos difíceis da Palavra, que aparentemente sugerem um Deus mau - nesses casos, é da maior importância conhecer os estilos literários contidos na Bíblia (sátira, poesia, narrativa histórica, dentre outros) e as singularidades de cada estilo na cultura judaica (8), além de discernir a autoria e motivação de cada passagem dentro de seu contexto. É importante saber interpretar corretamente os versículos fazendo uso da exegese e da hermenêutica e comparando-os com outros trechos das Escrituras (9). Um entendimento dos costumes e dos momentos históricos dos períodos problemático pode auxiliar numa interpretação coerente (10), além do domínio de recursos que facilitem a compreensão conforme o uso na língua original (11), podendo ser hebraico, aramaico ou grego. Existem excelentes comentários bíblicos, dicionários e bíblias de estudo para auxiliar nessa empreitada, além de bons livros sobre dificuldades e supostas contradições da Bíblia. Tenha em mente a infalibilidade das Escrituras.

A noção profunda da Palavra é, mais do que para que ela seja defendida, interessante para o discernimento da essência da fé cristã: o que está no cerne, o que é indiscutível, e o que é discutível e não demanda tanta energia para discussão. A noção ampla e integral das Escrituras, além de nortear a nossa conduta cristã, suprindo e orientando, como Palavra de Deus, a nossa moral (12), pode promover a aproximação de confissões de fé semelhantes e é de suma importância no combate das heresias e distorções da fé. Por isso, também, é pertinente conhecer a História da Igreja e o tema da heresiologia, já que as mesmas heresias sempre acabam voltando.

A Igreja tem um papel vital na sociedade, considerando tudo o que já foi trabalhado até o momento, então não me parece suficiente para o cristão simplesmente se ater na ideia de que a salvação é individual e seguir indiferente. A Congregação dos Crentes tem potencial para transformar a sociedade para melhor - e ao longo da história comumente fez isso -, de modo que, permitir que heresias envenenem-na, infestando-a da mentalidade esteticista e hedonista do presente século, instalando em seu seio os tumores do escândalo, da manipulação e da corrupção, advindos de severas distorções da Verdade, é o mesmo que sentenciar-nos à inefetividade social. Se não fossem os polemistas, provavelmente o cristianismo genuíno teria sucumbido às heresias já nos primeiros séculos de sua existência. Temos uma proposta completa e valorosa de civilização para oferecer e não podemos permitir que movimento sectários maculem nossa imagem e produzam mais resistência do que já existe naturalmente. Nesse ponto, precisaremos mais de polemistas do que de apologetas: que saibamos, com critério, expor publicamente aquilo que, mesmo dizendo-se de Cristo, é diabólico, fazendo com que a sociedade consiga diferenciar o que é cristianismo e o que não é. Parece-me que duas das melhores formas de fazer isso é viver de modo coerente com as Escrituras e expressar publica e rotineiramente, sob uma configuração clara e sucinta, quem é que Cristo foi o que Ele realmente ensinou, introjetando nas pessoas, aos poucos, a compreensão do que, de fato, é a fé cristã - que Jesus seja o centro das atenções e que o Seu amor e a Sua salvação sejam apresentados insistentemente.

Um complemento importante para a lida com as heresias e seitas está no entendimento geral das religiões, crenças e crendices mais significativas do mundo e, em especial, do Brasil (13). A compreensão das diferentes cosmovisões religiosas e o discernimento das suas bases possibilita a comparação dessas religiões com o cristianismo e, através disso, a verificação da razoabilidade da fé cristã, principalmente se considerarmos pontos como a Criação e a moralidade universal. É muito importante entender algo sobre a história e a configuração de outras religiões, pois a defesa da fé cristã exige diálogo (14).

Assim como é necessário que o defensor da fé esteja familiarizado com os grandes nomes da apologética cristã (C. S. Lewis, Chesterton, Pascal, Kierkegaard, Schaeffer, Rookmaaker, Craig, McDowell, Yancey, dentre outros), é pertinente que conheça os argumentos mais comuns que os céticos têm lançado contra a Igreja, a Bíblia, a existência de Deus, a Verdade Absoluta e a Lei Natural (15). Confrontar o ceticismo é importantíssimo, pois é esse tipo de mentalidade que tem alimentado o hedonismo. Desde o início da Era Cristã, a Igreja tem ampliado seu espaço de atuação com o apoio da apologética e com base no confronto das acusações desferidas contra ela, e tem sido assim ao longo de toda a história eclesiástica. Nossa efetividade depende muito de como as pessoas vêem o cristianismo - e nós podemos propiciar uma visão menos turva removendo o máximo de bloqueios que têm sido erigidos contra o seu alastrar. Normalmente, as acusações contra a Igreja se resolvem com um bom entendimento de teologia e da história cristã; as acusações contra a Bíblia se resolvem com uma análise da autoria, do processo de redação e da preservação do texto bíblico, assim como da distância entre os originais e as cópias mais antigas, do número de manuscritos existentes, da Crítica Textual, da Arqueologia Bíblica e doutras evidências para a historicidade e integridade das Escrituras, enfocando nas constatações em favor da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo; as questões da existência de Deus geralmente se solucionam com a demonstração de uma Verdade Absoluta, no uso da boa filosofia e ciência para apontar para a necessidade do Criador, e na própria evidência interna da Palavra, como o cumprimento das profecias; as acusações contra a Lei Natural podem ser facilmente solucionadas quando se aponta para a existência de Deus e da Verdade Absoluta, e da demonstração da existência de um padrão moral universal e da impossibilidade de ele ter sido extraído da natureza.

Algumas precauções são interessantes para a defesa da fé: apenas use fontes confiáveis, evitando vídeos e artigos sensacionalistas; nutra a disposição para um diálogo amoroso, e não uma afronta agressiva que venha a macular a imagem dos cristãos e afastar aquele com quem conversa sobre a fé, uma vez que o objetivo sumo da apologética é evangelístico, por isso ela deve ser, sempre que possível, cristocêntrica; e cuide para não criar um "Deus das lacunas", tornando evidência da existência do Criador qualquer coisa que a ciência ainda não tenha conseguido explicar, pois é possível que as explicações, cedo ou tarde, sejam apresentadas. O objetivo do cristão apologeta não é destruir forçadamente outro sistema de crença, mas apresentar a sua contraposição, oferecer uma alternativa, criticar respeitosamente e levantar questionamentos, sempre valorizando o ser humano acima da discussão.

Alguns cristãos podem ter esse ponto como exageradamente exaustivo, mas são requisitos nossos o conhecimento da Palavra - 2 Timóteo 2:15 - e a capacidade de explicar a "razão da nossa esperança" quando questionados - 1 Pedro 3:15. Infelizmente, a ideia hedonista da maximização do prazer e da minimização do esforço já penetrou na igreja e tem levado a maioria dos cristãos a supervalorizar a emoção e a experiência de euforia e a desprezar a profundidade do conhecimento da Bíblia e dos conhecimentos que podem favorecer o esclarecimento da Palavra diante daqueles que não são cristãos. Uma forma de lutar contra a cultura hedonista pode começar aqui: abrindo mão da preguiça e se disciplinando na busca por conhecimento e capacitação. O saber é uma das nossas mais poderosas armas! O entendimento das Escrituras historicamente promoveu as mudanças mais significativas no Ocidente, por favorecer a ideia de Deus e da Lei Natural sustentada inquestionavelmente no evento histórico da Ressurreição de Cristo, que veio ao mundo para nos salvar das consequências do afastamento do Criador por meio do Seu sangue, mostrando que somos amados e que nEle e para Ele temos razão de ser e viver, daqui para a eternidade - e é esse senso de eternidade que possibilita que vivamos distantes da agonia da desesperança, agonia que leva ao desespero que, por sua vez, precisa ser silenciado com o saciar dos prazeres carnais. Mas tudo isso é revelação e só se encontra na Bíblia, e é por isso que não podemos assistir passivamente à sociedade a desprezando - nós sabemos das consequências desse tipo de comportamento. Segue um trecho do artigo do EOMEAB de nome "Como a Bíblia Salvou a Razão":

"Uma história engraçada sobre a Bíblia se deu quando o rei Henrique VIII, pensando que o povo ficaria mais submisso ao ter acesso às Escrituras, presenteou cada paróquia com uma Bíblia em inglês. O resultado lhe foi desastroso: com a Bíblia acessível, as tabernas e cervejarias da Inglaterra se tornaram sociedades de debate - as pessoas começaram a questionar e julgar cada tradição da Igreja e decisão do rei. As autoridade religiosas e políticas foram analisadas criticamente. Essa grande revolução intelectual se espalhou por todos os cidadãos alfabetizados, não se restringido ao ambiente acadêmico. Todos os aspectos da vida foram atingidos pelo instigar da mente do povo, desde a área social e política, até as vias econômicas - note que, uma vez que os ingleses começaram a usar a lógica para interpretar a Bíblia, foram impelidos para a dianteira da política, da economia e do pensamento mundial. Nos dias de Henrique VIII, as potências mundiais eram as nações católicas de Portugal, Espanha e França, mas algo colocou povos protestantes muito menores, como Inglaterra e a Holanda, na frente delas - e isso não se explica apenas com 'armas, germes e aço'." Que nos sirva de lição!
Fonte: O Livro que Fez o Seu Mundo, Vishal Mangalwadi, Vida, 2013, pgs 114-115.

5 - Fortalecimento dos vínculos na Igreja:
Para combater a cultura hedonista que promove o caos, a Igreja precisa reconhecer, primeiramente, o quanto ela já foi infectada por ela. Deve-se verificar a existência dos erros de ter a emoção como fator de definição doutrinária, de objetificar o outro, de ter por certo aquilo que promove sensações boas, de perceber o amor como sentimentalismo e algo que não exige compromisso. Aqui retorna o papel de todos nós, conscientes da mensagem cristã, como polemistas.

Somente uma Igreja que se move numa sintonia diferente daquela que rege mundo derredor pode ser efetiva. Nossa sociedade hedonista, da maximização do prazer e minimização do esforço, é incapaz de sustentar vínculos duradouros entre as pessoas, já que a ideia presente para o relacionamento reside no uso do outro e no afastamento quando os inevitáveis incômodos surgirem. Para combater essa mentalidade é da maior relevância que os cristãos se interessem em encontros e em manterem-se reunidos mesmo depois dos conflitos que surgirem, sendo aperfeiçoados e aprendendo a resistir aos seus impulsos bestiais de desintegração grupal. Lutar contra o egoísmo e orgulho, submetendo-se em humildade ao próximo e ao Criador, é essencial para a vida reta exigida do cristão e isso torna-se possível na preservação da vida em comunidade.

É nessa comunidade que buscaremos força e suporte para viver e sobreviver num mundo regido pela banalidade - a Igreja será, portanto, um recanto onde os relacionamentos, situados em Cristo, poderão atingir níveis mais profundos. A Comunidade Cristã, então, seguirá como um bastião das relações genuínas e naturais, que não se desfalecem mediante qualquer ofensa, que não visam apenas o consumo, que se suportam e enriquecem. É uma extensão da família - sempre deveria ter sido assim, pois esse é o ideal observado no Novo Testamento e na Igreja Primitiva. Devemos, por conseguinte, enfrentar o inflamado hedonismo dos desigrejados, que, por sua incapacidade de estabelecer vínculos de corresponsabilização e sua ênfase no bem-estar e na experiência estética, preferem viver fora do Corpo de Cristo. Só podemos alterar e melhorar a estrutura se fizermos parte dela.

6 - Fortalecimento dos vínculos familiares e das amizades:
A família estruturada é a base de uma igreja sólida e é em uma congregação de cristãos coerentes que as famílias buscarão suporte para manterem a sua estrutura. Precisamos preservar a família nuclear - pai, mãe e filhos -, que toma como base muito mais do que a mera relação estética de troca de favores, que dificilmente ultrapassa o nível estético. É também numa configuração familiar, com geração de descendentes, que os valores podem ser transmitidos com mais eficácia.

Um dos motivos de a mídia e o mercado favorecerem o hedonismo está no fato de que o fomentar da busca do prazer imediato resulta em enormes lucros em produtos e entretenimento. Geralmente, o indivíduo que não possui vínculos fortes, como o jovem solteiro, é o que está mais propenso a se deixar levar pelas ofertas do mercado. O pertencimento à família gera mais sentido de ser, produz segurança, sustenta com mais poder os valores e ameniza a angústia, de modo que o círculo familiar - também da comunidade cristã e dos amigos verdadeiros - protege-nos das tentações desse mundo de aparências, movido por estetas. É claro que isso torna a instituição familiar um objeto indesejável e que, na nova engenharia social que nos está sendo empurrada, deverá ser superado. E é aqui que resistiremos. Aproxime-se da sua família e dos seus amigos, almejando relacionar-se com eles não como com objetos, mas humanos, e dissemine notícias e estudos que demonstrem a importância da família tradicional.

7 - Valorização da pátria:
Considerei esse ponto importante tendo em vista o quanto, nessa nova engenharia social que se estabelece, a ideia de pátria tem sido desprezada. É interessante que criemos senso de identidade nacional, de pertencimento e de interesse por conhecer a alta cultura que nosso país, em sua tradição histórica, tem a oferecer. O Brasil é considerado uma nação cristã e, de fato, muito do que hoje faz parte de sua constituição é resultado de séculos de interação com o cristianismo - a Constituição, muitas das leis, aspectos da religião dominante, a configuração familiar tradicional... 

Antes de tomarmos como base o que a nossa tradição nacional oferece, porém, está aquilo que definitivamente consta nas Escrituras e o que aprendemos com a própria Igreja. Consideradas a Palavra e o legado da Igreja, a cultura histórica de nossa nação pode ser uma boa fonte de sustentação de valores. Aqui reside, também, o verdadeiro patriotismo: não um otimismo irracional, que não observa as mazelas, e nem um pessimismo desonesto, que só vê o lado ruim, mas um realismo inconformado que, amando a nação, visa a sua melhora.

Devemos conhecer as estruturas de nosso país para melhor nos movermos nele, pois é aqui dentro, fazendo uso da língua portuguesa e inseridos em sua cultura, que temos o nosso imediato solo de atuação, sendo também onde poderemos ser mais efetivos.

8 - Cultura:
Os cristãos precisam reencontrar a cultura como forma de contestação daquilo que está estabelecido. A música, a arte poética, a arte desenhada ou pintada, o teatro, o cinema, e as demais demonstrações artísticas, são ferramentas poderosíssimas para transmitir mensagens que possam ser entendidas pela maioria das pessoas, penetrando em sua mente e coração e instigando suas emoções e seu intelecto. Através do oferecimento de cultura de qualidade e de valor, que seja pertinente para nossos dias, os cristãos podem acusar os males do humanismo, alertar sobre o retorno da barbárie, solidificar os valores, expressar verdades bíblicas, transmitir o amor salvífico de Cristo e promover o auto-conhecimento e o amadurecimento do "eu". O estímulo para a reflexão, que freia a correria hedonista e possibilita que a razão encontre seu lugar por alguns instantes, é essencial para uma gradativa mudança de paradigma, pelo menos para um certo número de pessoas. A arte também ajuda a preservar a nossa própria identidade como cristãos, guardando-nos da crescente influência da mentalidade secular.

O uso da cultura de contestação, porém, exige um profundo conhecimento de nosso mundo contemporâneo e da configuração específica do Brasil hoje, para que se ofereça algo propício para o nosso tempo - não necessariamente que seja aceito, mas que possa vir a criticar as coisas certas e de modo correto.

Outra forma de produção cultural está no desenvolvimento de material analítico, de base teórica que possa alimentar a arte, de reflexão profunda e acadêmica da nossa sociedade, promovendo críticas substanciais, adentrando nos debates acadêmicos, participando das discussões pertinentes de nossos dias, envolvendo e inspirando eruditos e leigos. Precisamos, urgentemente, fornecer artigos e livros de grosso teor argumentativo e farta referência bibliográfica para nossos irmãos cristãos e para aqueles que não são cristãos, fomentando a introspecção e movimentos de reação.

Divulguemos e produzamos cultura pertinente para o nosso tempo!

9 - Ação social:
*Observo que a listagem não está, necessariamente, em ordem de importância.
Foi a caridade cristã um dos fatores que gerou a maior aceitação da Igreja no início da Era Cristã e através dela é que a Igreja promoveu algumas das suas maiores e mais positivas mudanças sociais. Foi por meio da ação social, ao lado do ensino e da cultura, que John Wesley resgatou a Inglaterra das consequências nefastas do hedonismo, como comentado anteriormente. O fato é que o amor de Cristo fomentado entre os cristãos foi tido pelo próprio Jesus como a maior evidência de que "somos Seus discípulos" - João 13:34-35 -, sendo, através dele, acompanhado de uma mensagem coerente, que o Mestre é apresentado ao mundo por Sua Igreja.

A ação social, mais do que evidenciar para a sociedade que somos cristãos genuínos e cooperar, em nosso coração, com o controle de nossos impulsos bestiais narcísicos, tem como enfoque o amor genuíno pelo próximo e o desejo de vê-lo bem, especialmente de vê-lo salvo em Cristo através do evangelismo que deve acompanhar o auxílio material, psicológico e intelectual. Só Jesus Cristo é que tem real poder de vencer a nossa velha natureza e nos levar à excelência de vida, a um patamar de alegria no controle dos impulsos carnais, embasado na paz e na esperança da eternidade de Deus.

É a nossa coerência que manterá, mesmo que minimamente, os ouvidos daqueles que não são cristãos abertos à Mensagem. As pessoas sempre saberão valorizar o amor sincero, mesmo quando quase ninguém mais conseguir colocá-lo em prática. Não podemos viver de discursos vazios, mas praticar o que pregamos e defendemos, e é nos vínculos - amigos, família, igreja e sociedade, através da cultura e da ação social - que o nosso discurso intelectual encontrará quase todo o seu espaço de disseminação, isso através de conversas profundas realizadas no dia-a-dia, no convívio com o outro, com aquele com quem nos relacionamos de modo mais profundo, que está disposto a nos ouvir e a ser ouvido por nós. É assim que o Reino, conforme extraímos da mensagem de Cristo, deve ser disseminado: por meio de relacionamentos, da proximidade, do gradativo fermentar de ideias, e não como um movimento de massas. Nesse ponto, faço questão de deixar claro o quão efetivo é, para o cristão, realizar tudo para a glória de Deus, incluindo o seu trabalho, qualquer que seja - se o seguidor de Cristo tentar imitar o Mestre, por exemplo, no escritório onde trabalha, sua conduta e os vínculos singulares que conseguirá formar serão, por si sós, mantenedores dos valores cristãos, recursos evangelísticos e focos de resistência ao curso hedonista da nossa sociedade.

10 - Devoção individual:
Esse ponto permeia todos os outros. Só Jesus pode vencer nossa velha natureza e, portanto, é dEle que devemos, diariamente, extrair forças e sentido. É na Sua morte que encontramos a nossa vida, é na Sua divindade que encontramos esperança e é na sua plena humanidade que encontramos a completude e excelência do ser humano. Só é possível transmitir a Mensagem de modo seguro e eficaz quando demonstramos que ela brota de nosso coração mais do que de nosso intelecto, só é possível resistir aos apelos bestais e ao mergulhar na banalidade se vivemos, constantemente, crucificando juntamente com Cristo os nossos pecados e desejos inoportunos.

Não existe força motivadora maior para o cristão do que a experiência sobrenatural com Deus, do que o experimentar do Seu infinito amor. Essa deve ser uma busca diária. Antes de tentar fazer com que algo encontre sentido nos outros, devemos conquistar o nosso próprio "eu" e fazer a teoria ter sentido prático em nossa própria vida.

Em nossa vida particular, individual, é que treinamos nossos apetites orgânicos, é que nos disciplinamos. É com o tempo de luta e dedicação na arte do domínio próprio que começamos a incorporar comportamentos salutares, de modo a torná-los praticamente naturais. Isso não significa que não possamos usufruir de prazer algum, pois o próprio prazer é criação de Deus - nós podemos e devemos suprir os desejos de nosso corpo, mas de modo sábio, na quantidade e no tempo certo, sem permitir que o apetite nos controle, tudo sob a estrita orientação bíblica. Embora a perseverança no interesse por viver uma humanidade mais plena, menos bestial, possa culminar numa maior facilidade de ser coerente, nunca podemos relaxar completamente - é necessário que um compromisso de conflito contínuo com nossa própria natureza seja estabelecido. Aqui encontramos o valor das disciplinas do jejum, da solitude e do silêncio, que possibilitam um maior controle de nós mesmos, física e mentalmente. Esse autocontrole também é favorecido pelos vínculos com amigos e irmãos cristãos com quem podemos desabafar e buscar conselhos.

Considerações finais:
Esses são os dez pontos que eu tive como focos de interesse para uma resistência eficaz aos movimentos do nosso mundo atual, mas a lista não é fechada e cada leitor poderá encontrar outros pontos relevantes e estabelecer-lhes como referência. A questão aqui foi mais de dar um Norte, propôr uma ideia, direcionar a defesa da fé, que na maioria dos casos está bastante difusa, para pontos específicos de maior relevância e que merecem ser mais enfatizados. Gostaria de finalizar dando, ainda, alguns conselhos, que possam auxiliar na boa aplicação dos princípios trabalhados:
- Ser firme na resistência, mas não mate o amor. Deus é Amor e, ao representá-Lo, precisamos amar. Lembrando que amor, no sentido cristão, é decisão, não sentimento.
- Não se trata de viver um ascetismo doentio, mas de disciplinar-se e proteger-se de modo a conseguir sair do curso auto-destrutivo da sociedade e ser capaz de administrar os impulsos e apetites, possibilitando uma vida intelectual mais fecunda, abrindo as portas para uma realidade mais consistente e satisfatória, para além da prisão do prazer imediato. Nesse ponto, conseguirmos cultivar os prazeres da alma, que demandam disciplinas como o jejum e a oração. Aprendendo a administrar nossos instintos, temos a possibilidade de desenvolver práticas que alimentem nossa vida interior, que tornem nossa alma mais densa: alta cultura, amizades duradouras, devoção. Quando nos tornamos mais consistentes, com mais vida interior, não cedemos tão facilmente aos estímulos do entretenimento e conseguimos praticar a solitude com excelência - por solitude, entenda a capacidade de não se dissipar no turbilhão do entretenimento.
- Devemos ter consciência de que não sabemos tudo e aceitar aprender mesmo com aqueles de quem discordamos. É essencial que nosso engajamento esteja acompanhado de constante atualização e aprendizado.
- Que aprendamos a praticar a hospitalidade, abrindo nossas casas para receber pessoas, proporcionando-lhes uma experiência vincular poderosa, partilhando com elas nosso alimento físico, intelectual e espiritual.
- Lembrar que, mesmo diante dos desafios de nosso tempo, temos em Cristo o firme fundamento da nossa esperança e que, portanto, verdadeiramente livres das amarras desse mundo - física, emocional, intelectual e espiritualmente -, podemos ser realmente felizes. Sejamos alegres - que a alegria seja a nossa marca num mundo de crescente depressão e suicídio.

"Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos.", Filipenses 4:4

Natanael Pedro Castoldi

A Ciência, a Igreja e o Islã

-> Apresentação e Índice
Muitas pessoas não compreendem que o que define "ciência" não é a mera descoberta de fenômenos e o desenvolvimento de tecnologias. Por ciência temos um sistema de busca pelo conhecimento, pautado em método, repousando sobre uma determinada filosofia - a saber, de que a verdade sobre os seres e fenômenos pode ser conhecida e de que o mundo em que vivemos é real e possui leis constantes e que podem ser vislumbradas e entendidas. O método tradicional de pesquisa científica é, obviamente, o "método científico", que valoriza a observação do fenômeno, o experimento e a repetição do mesmo para a tomada de conclusões críveis - os precursores desse pensamento foram os monges Roger Bacon, padre franciscano (1214-1294), e Tomás de Aquino, frade dominicano (1225-1274). Mesmo que uma cultura tenha indivíduos de grande potencial, eles dificilmente buscarão pelas "leis da natureza" se acreditarem que o mundo natural é habitado e governado por milhões de pequenas divindades que controlam, ao seu bel prazer, cada fenômeno.
Fonte: Revista Aventuras na História, Coleção Grandes Guerras, Ed. 8, Abril, novembro de 2005, pg 52.

Observação: esse é um artigo sobre a história da origem da ciência. Nesse caso, não se trata de opinião do autor.

1 - Por qual motivo apenas o Ocidente produziu a ciência?
A Índia antiga produziu grandes cirurgiões, mas não chegou a desenvolver a medicina científica; no século V, o indiano Arybhata sugeriu que a Terra gira entorno do seu eixo e ao redor do Sol, mas sua proposta não gerou debates como no Ocidente. Uso da Índia como primeiro exemplo, pois minha fonte inicial é Vishal Mngalwadi, erudito indiano convertido ao cristianismo. Segundo ele, a Índia, mesmo tendo uma riquíssima tradição histórica de intelectuais, não foi a precursora da ciência porque sua cosmovisão sustentava que o mundo visível não passava de uma ilusão, um sonho. Esse tipo de perspectiva levou tanto os sábios hindus quanto budistas a perder a motivação filosófica - eles buscavam um paraíso psicológico. A mesma busca se deu no Ocidente cristão até o século XVI, quando que "uma porção maior da cristandade teve condições de ler a Bíblia e a levou a sério" - daí em diante se espalhou o entendimento de que, por exemplo, a saída do Éden foi a perda de um paraíso literal, terrestre, e não apenas uma alegoria, como se pensava anteriormente. A paixão Ocidental pela ciência começou precisamente quando os cristãos dedicaram-se no resgate do mandato que Deus deu ao homem: que ele dominasse a natureza.

Os pioneiros da ciência acreditavam que o mundo natural era um reino real, não uma dimensão mágica, dominada por espíritos e demônios. Seu pressuposto era de que o mundo é inteligível, pois Deus o "criou de maneira racional, ordenada e regido por leis naturais" - o mundo não fora criado por uma divindade maligna para fazer a humanidade cair no engano através do contato com a "matéria impura". Os cristãos logo compreenderam que a matéria, tendo sido criada por Deus, não é maligna e que, portanto, é digna de ser estudada - daí começaram a se perceber como gerentes da Criação, podendo administrá-la para o benefício do futuro e da humanidade. Essa mentalidade nasceu com a crítica ao racionalismo aristotélico - o método científico presume que a lógica humana tem valor, mas que os fatos observador estão acima de suas conclusões particulares. Essa lógica é usada, por sua vez, para interpretar e encontrar sentido nos fatos - teorias são formuladas para entender o mundo. Essas teorias, porém, só são científicas se fazem predições quantitativas empiricamente verificáveis ou falseáveis. Para esse sistema funcionar, a ciência precisa de objetividade, de observação e de uma constante atitude cética.

Percepções panteístas impossibilitam o desenvolvimento científico, pois "se Deus e a natureza são um, então a natureza não tem um Legislador, nem há 'leis da natureza' para serem descobertas". Na percepção da natureza como Gaia, a ordem natural não é nada além de uma "dança" imprevisível, sem leis matemáticas quantificáveis. A China antiga também teve seus grande intelectuais e promoveu admiráveis descobertas e inventos, mas igualmente não pôde desenvolver a ciência. Segundo Alfred North Whitehead, a ciência originou-se diretamente do ensino bíblico de que o cosmo é produto da "racionalidade inteligível de um ser pessoal" - a China, portanto, não desenvolveu a ciência porque na maior parte da sua história não nutriu a firme convicção em um Criador todo-poderoso. A posição quanto ao pensamento chinês foi sustentada por Joseph Needhem, historiados marxista: após sua pesquisa, ele concluiu que "não havia boas razões geográficas, raciais, políticas ou econômicas para explicar o fracasso da China para desenvolver a ciência" - os chineses "não desenvolveram a ciência porque nunca lhes ocorreu que esta fosse possível".

Gregos, egípcios, chineses, indianos e muçulmanos pré-modernos nutriram incontáveis percepções da natureza, observando e catalogando fatos, desenvolvendo aptidões, acumulando e transmitindo conhecimento. O astrônomo, geógrafo e poeta grego Eratóstenes (276-196 a.C.), mediu a circunferência da Terra; Arquimedes (287-212 a.C.) desenvolveu princípios matemáticos sobre alavancas, polias e parafusos; Hiparco (190-120 a.C.) calculou o ano solar em 365 dias e 6 horas... mas, ainda assim, os antigos nunca geraram uma cultura da ciência. Ainda que tivessem observado atentamente o mundo natural, eles não se esforçaram para verificar empiricamente as suas explicações - na tentativa de explicar o mundo, eles se valeram da intuição, da lógica, dos mitos, do misticismo e do racionalismo, sem atentar para o empirismo. Por exemplo: a lógica baseada na intuição, de Aristóteles, afirmava que, se duas pedras fossem atiradas de um penhasco, a que tivesse o dobro do peso da outra cairia duas vezes mais rápido - nenhum estudioso aristotélico antigo chegou a testar empiricamente essa afirmação para constatá-la ou reprová-la, até que Galileu Galilei (1564-1642), tomando como fundamento a Bíblia, testou a afirmação e a reprovou.

Intuição, lógica, observação, experimentação, informação, técnica, especulação e a análise de textos imbuídos de autoridade são coisas que precedem o Século XVI, mas elas, por si mesmas, não podem constituir uma ciência sustentável. Foi só na Europa cristã que a astrologia se transformou em astronomia, que a alquimia virou química e que a matemática tomou o posto de linguagem da ciência - e isso só aconteceu nos séculos XVI e XVII, quando a cristandade ocidental levou a sério Gênesis 1:28. É lógico que Gênesis já era conhecido há milhares de anos quando a ciência propriamente dita passou a existir - a novidade dos séculos XVI e XVII, segundo Peter Harrison, foi uma leitura literal do relato, não alegórica:

"Apenas quando a narrativa da Criação foi despida de seus elementos simbólicos é que o mandamento de Deus a Adão pôde ser relacionado a atividades mundanas. Se o jardim do Éden fosse apenas uma alegoria sublime, tal como Fílon, Orígenes e mais tarde Hugo de São Vítor sugeriram, não haveria muito incentivo em tentar restabelecer um paraíso na terra. Se o mandamento de Deus a Adão de cultivar o jardim tivesse um significado primariamente simbólico, como Agostinho acreditava, então a ideia de que o homem deveria estabelecer o paraíso pela jardinagem e pela agricultura não teria tido o impacto que teve na mentalidade do século XVII."

2 - As limitações do pensamento grego antigo:
Primeiramente, a Bíblia não é um livro Europeu e, por esse motivo, dos séculos V ao XI, os eruditos europeus tinham a tendência de observar o mundo sob a ótica platônica. Segundo Platão, o Reino das Ideias é o mundo real e o mundo material não passa de uma sombra. Vishal Mangalwadi exemplifica Platão da seguinte forma: mesmo que as casas tenham grandes diferenças entre si, todas elas são consideradas "casa" porque são sombras da mesma "Ideia" do que é "casa" que existe no mundo real, não material ou espiritual das ideias. Cada objeto real pode ter um número incalculável de sombras no mundo material. Tendo esse princípio em mente, os eruditos medievais inicialmente estudavam a natureza da sombra para, acima de tudo, entender a realidade espiritual.

Essa influência grega propiciou a percepção de que o mundo material é inferior ao espiritual, apenas uma imagem transitória e decadente do mundo espiritual, eterno e imutável. A natureza era considerada basicamente um livro pictórico escrito por Deus para transmitir uma mensagem superior: todos os animais, plantas, rochas e fenômenos eram, sobretudo, símbolos destinados a nos levar a compreender melhor as realidades espirituais - eles observavam a formiga mais para extrair ensinamentos e virtudes do seu comportamento trabalhador, do que para compreendê-la como o ser que é em si mesma. O método alegórico foi incorporado justamente para extrair do mundo material, inferior, esses ensinamentos superiores. Esse método fora desenvolvido pelos filósofos gregos para auxiliar na interpretação dos seus poemas, mitos e das suas lendas, objetivando "higienizar narrativas moralmente problemáticas". Fílon, o judeu alexandrino, adotou o método hermenêutico alegórico para encontrar a filosofia grega no Antigo Testamento.

Os cristãos alexandrinos, seguindo o exemplo de Fílon, adotaram a alegoria para ler tanto a Bíblia quanto o mundo natural e, obviamente, essa postura prejudicou a compreensão da natureza. A ciência ocidental só passou a existir quando a Bíblia começou a ser lida literalmente, sem ser obscurecida pela alegoria - a ciência desabrochou quando as Escrituras e a natureza passaram a ler lidas objetiva ou indutivamente, com o objetivo de descobrir a mensagem que traziam por elas mesmas. Segundo Peter Harrison, a ciência só veio a ser tornar "revolução" porque os Reformadores protestantes insistiram que a palavra de Deus inserida na Bíblia e na natureza deve ser interceptada de maneira literal. Os teólogos católicos estabeleceram as bases da ciência nos séculos XIII e XIV e a Reforma estabeleceu a autoridade intelectual da Bíblia e disseminou na cultura popular os ensinamentos da Palavra a respeito de Deus, da criação, do homem, do pecado, da salvação, do conhecimento, da educação e do sacerdócio universal de todos os crentes - ideias cruciais para a Revolução Científica.

Segundo Rodney Stark, 50 dos 52 mais importantes cientistas que foram pioneiros na Revolução Científica eram cristãos. 60% dos homens que criaram a ciência foram cristãos devotos - os demais eram "cristãos nominais". 

3 - A ciência e a Bíblia:
 Ainda que Tomás de Aquino e Roger Bacon tenham sido os responsáveis pelas base do pensamento científico, os fundadores do método científico foram Francis Bacon (1561-1626) e Galileu Galilei (1564-1642), confiando mais na observação empírica do que na lógica ou autoridade humana. Os dois intelectuais cristãos defendiam a acurada leitura dos "dois livros de Deus", a Bíblia e a natureza. Sobre isso, Francis Bacon declarou:

"Pois nosso Salvador disse: 'Vós errais não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus' (Mt 22:29), deixando-nos livres para estudar, se quisermos nos livrar do erro: primeiro, as Escrituras, que revelam a vontade de Deus, e depois as criaturas [ciência natural], que expressam seu poder, sendo o último uma chave para o primeiro: não apenas abrindo o nosso entendimento para conceber o verdadeiro sentido das Escrituras pelas noções gerais da razão e das regras do discurso, mas principalmente por abrir nossa crença, ao nos fazer meditar sobre a onipotência de Deus, que está assinada e esculpida principalmente em suas obras."

Galileu Galilei também declara algo nesse sentido:

"Pois a Bíblia Sagrada e os fenômenos da natureza procedem igualmente da palavra divina, a primeira, dita pelo Espírito Santo, e os últimos como executores obedientes do mandamento de Deus."

Os Estados Unidos da América, como afirma a Declaração de Independência, 1776, foram fundados sobre as "leis da natureza e da natureza de Deus". A abertura intelectual do Ocidente se deu, fundamentalmente, por uma teologia resultante da aproximação da Bíblia e do afastamento de Platão e do Islã. Os nomalistas medievais perceberam que "a doutrina de Deus faz mais sentido que uma lógica subserviente à observação empírica" - ao evitarem a heresia averroísta de pensar que Deus agiu de acordo com uma necessidade intrínseca, sendo a criação um ato totalmente livre do Criador, que configurou a natureza conforme o Seu desejo, descobriram que a ordem do universo não pode ser conhecida por dedução de quaisquer princípios, mas apenas por observação e por revelação. Dessa forma, os nomalistas constataram que o mundo físico só poder ser discernido de modo empírico - Deus poderia fazer tudo o que desejasse independente de qualquer ordem racional que pudesse guiar a mente humana em suas predições, de modo que nada pode ser previsível em absoluto. 

Os filósofos gregos, como Aristóteles e Platão, fitaram a natureza para vislumbrar verdades metafísicas universais, trabalhando de modo abstrato e dedutivo, disso oferecendo conclusões que se tornaram pressuposições "a priori" de gerações futuras, vindo a acorrentar a mentalidade europeia, que só foi solta quando a doutrina da liberdade de Deus foi discernida com base na Bíblia, propiciando o método científico. Além disso, a percepção da natureza boa do mundo material criado por Deus, tornou o elemento material digno de ser estudado. Disso, Vishal Mangalwadi conclui: "A ciência é um estudo objetivo ('secular') das leis da natureza por causa de sua inspiração bíblica como criação de Deus, não apesar disso." A ciência não veio a existir sobre a pressuposição de um materialismo sem Deus.

Até mesmo as teologias bíblicas do Pecado, da Queda e da Salvação influenciaram o desenvolvimento inicial da ciência. Diante da percepção dos males que afligem o homem e o mundo, a conclusão mais óbvia dos antigos, especialmente dos gnósticos, foi a de que a matéria é inerentemente má, de modo que Deus não pode encarnar-Se num corpo humano. O Novo Testamento, em especial João, refuta com poder essa percepção gnóstica e, concordando com o Antigo Testamento, deixa claro que a matéria é boa. Movimentos influenciados por filosofias orientais observam os problemas físicos como meramente ilusórios, enquanto a Palavra os apresenta como problemas reais, resultantes da rebelião de Adão e Eva - a desordem do mundo natural veio a dificultar o mandato humano de domínio da natureza. Essa compreensão, apoiada no sacrifício expiatório de Cristo e na Sua ressurreição, fez o homem compreender que pode vir a restaurar a si mesmo através da entrega ao Salvador e ao mundo através das artes e das ciências, conforme declara Francis Bacon.

Quando a Bíblia começou a ser entendida com mais profundidade, se observou que Adão e Eva conheceram a natureza tal como ela era antes da Queda e que a Queda resultou na perda do conhecimento da natureza, de modo que, para recuperar a imagem do Criador, era necessário ao homem ter a mente renovada e, redescobrindo o mundo, iniciar a sua restauração para a unidade original, isso através do domínio e do controle da natureza.

Mosteiros budistas e hinduístas até hoje não ensinam ciência, mas as universidades europeias - originadas da própria Igreja - a desenvolveram e a divulgam. Por qual motivo isso acontece? Os estudiosos bíblicos aprenderam há muito tempo que a leitura do "livro da natureza" era mais importante do que a análise de livros em grego e em latim - estes foram escritos por homens, mas o primeiro foi escrito pelo próprio Deus. Paracelso disse que o livro da natureza deveria ser lido com mais atenção e proeminência do que as obras de Galeno, Avicena e Aristóteles, pois ao primeiro "Deus mesmo fez, escreveu e encadernou". Houve até os que ousaram afirmar que o estudo da natureza deve preceder o das próprias Escrituras.

Muitos filósofos e cientistas de hoje aproximam-se do niilismo, pois duvidam da possibilidade de se encontrar respostas para as "grandes questões" da humanidade. Quase todos os fundadores da ciência, porém, acreditavam que as "grandes questões" já estavam devidamente respondidas nas Escrituras e que a sua função, dada por Deus, era de estudar as "questões pequenas e específicas" da natureza - como eram e funcionavam, como poderiam ser dominadas para o proveito do homem. Nesse sentido, eles não usavam do método científico para encontrar a Verdade sobre tudo, pois eles estavam convictos que as verdades centrais já estavam reveladas na Palavra - seu método existia para conhecer os seres e fenômenos e, com isso, recuperar o conhecimento e o domínio do homem sobre a natureza.
Fonte: O Livro que Fez o Seu Mundo, Vishal Mangalwadi, Vida, 2013, pgs 259-276, 281-287.

4 - Os muçulmanos e a ciência:
Sendo direto, conforme aquilo que define ciência, podemos afirmar que o Islã não produziu ou desenvolveu a ciência. Mas precisamos ser honestos quanto ao legado muçulmano para o posterior advento da Revolução Científica. 

A Europa Ocidental perdeu quase todos os seus registros da Cultura Clássica quando o Império Romano do Ocidente finalmente foi arruinado - muito do que sobrou foi resgatado e copiado por monges em mosteiros isolados, protegidos dos bárbaros, especialmente os monges da Irlanda que, segundo Thomas Cahill, salvaram a Civilização Ocidental (Como os Irlandeses Salvaram a Civilização Ocidental, Thomas Cahill, Objetiva, 1999) -, havendo uma quantidade significativa de material depositada em cidades antigas do Norte da África, da Ásia Menor e do Oriente Médio - regiões que os maometanos vieram a conquistar em suas campanhas iniciais, confiscando esses documentos gregos e latinos. Outra fonte considerável de manuscritos clássicos o Islã encontrou na Igreja Oriental, que preservara e copiara as obras gregas. Do grego, os muçulmanos passaram esses documentos para o árabe e, com base neles, desenvolveram significativos avanços na astronomia, na medicina, na alquimia e na tecnologia. Quando o mundo muçulmano estava no seu período dourado (séculos VIII ao XIII), sendo muito maior do que a Europa cristã e estando bastante adiantado no desenvolvimento do conhecimento, diversas escolas, observatórios e bibliotecas foram fundadas, assim como hospitais e hospitais-escola. Já no século VIII, o califado de Abbasid montou uma magnífica biblioteca em Bagdá. Ao incorporarem o uso do papel, mais barato, bibliotecas imensas foram fundadas na vastidão das suas terras, como a de Córdoba, com aproximadamente 400 mil volumes. Até o século XVI, os maiores centros na arte de produção de livros ficavam em Herat, Afeganistão, em Tabriz e Shiraz, Irã. A arte da caligrafia se tornou tão importante para os muçulmanos, que eles resistiram ao uso da imprensa, mantendo mais de 100 mil copistas para o abastecimento das bibliotecas e dos estudiosos. Obviamente essa resistência cobrou um preço. 

Com os avanços muçulmanos dentro da Europa cristã, com a conquista de Portugal e Espanha, principalmente, esses manuscritos árabes que continham o conhecimento clássico foram sendo apresentados aos europeus. Ao longo dos séculos, muitos estudantes universitários da Europa compravam material muçulmano para o seu enriquecimento técnico e filosófico. Ainda assim, foi a Europa cristã, e não o mundo muçulmano, que produziu e desenvolveu a ciência. Por qual motivo isso aconteceu?

Primeiramente, o fracasso dos muçulmanos medievais no desenvolvimento da ciência se deve à sua postura acrítica ao pensamento grego. Nos séculos XII e XIII, a pseudociência grego-islâmica quase tragou o Ocidente - o que salvou a Europa da cosmovisão grega, incompatível com a Bíblia, foi a sua leitura das Escrituras. Mesmo que o Islã creia num Criador todo-poderoso, faltou-lhes a Bíblia - ainda que Maomé tenha declarado a Bíblia como divinamente inspirada, ela só é lida pelos maometanos para ser criticada. 

Por volta do século X, os compiladores de uma obra islâmica, Rasa'il, abraçaram a ideia grega de que o mundo é Gaia, abrindo caminho para percepções panteístas, cíclicas, animistas e mágicas, que vieram a permear a cosmovisão islâmica, infectando o Islã com a perspectiva platônica de que o mundo é compreensível a partir das formas eternas dos seus objetos. Para o grego, conhecer algo é conhecer a sua forma e, concebendo a forma, se discerne a essência, culminando em conclusões definitivas, que não se mudam pela experiência. O necessitarianismo metafísico aristotélico e islâmico tornou desnecessária a verificação empírica do "conhecimento verdadeiro". Os mais destacados filósofos muçulmanos medievais, como Avicena (980-1037) e Averróis (1128-1198), acabaram se tornando inflexíveis defensores de Aristóteles, tendo as suas ideias como completas e infalíveis - a observação que contradissesse Aristóteles estaria, de pronto, errada.

Os teólogos europeus também estudaram todos os grandes livros, recebendo e valorizando o conhecimento grego, mesmo que ele viesse por meio dos muçulmanos. A diferença é que os europeus, tendo um compromisso com a Bíblia, se colocavam a criticar as posições gregas quando elas contradiziam as Escrituras. A sua cosmovisão bíblica se desenvolveu sobre Aristóteles, purificando a sua confiança na razão humana da influência animista e fortalecendo-a ao fundamentá-la na imagem de Deus. Sobre isso, M. B. Foster declarou:

"A primeira grande contribuição da teologia cristã ao desenvolvimento da moderna ciência natural foi o fortalecimento que ela forneceu ao elemento científico do próprio Aristóteles; em particular, forneceu uma justificativa para a fé, que para Aristóteles era um pressuposto sem base, já que a razão na natureza pode ser descoberta pelo exercício da razão no homem. O elemento 'racionalista' na filosofia da natureza de Aristóteles era incoerente com o 'animismo'que ele manteve lado a lado com aquele. Esse animismo é completamente incompatível com a doutrina cristã, e precisou ser completamente eliminado de qualquer teoria da natureza que pretendia ser coerente com uma teologia cristã."

As conquistas de Alexandre, o Grande, alastraram as ideias gregas para lugares muito distantes, como a Índia, mas em diversas culturas, o animismo, o gnosticismo e o misticismo suprimiram a razão e a evidência. A Bíblia, por sua vez, reforçou a confiança dos gregos na mente humana e removeu a irracionalidade do animismo. Ainda segundo Foster, o nascimento da ciência se deve mais a discordância de Aristóteles do que a concordância sobre a utilidade da razão - essa discordância, aponta ele, são os elementos não-gregos, ou seja, bíblicos, a que os teólogos medievais recorrerem em sua crítica ao pensamento helenístico.

Dentre os elementos não-gregos, ou bíblicos, que favoreceram o advento da ciência, está a percepção de que o cosmos não é eterno e de que Deus não faz parte do universo - estando Ele fora da matéria e sendo livre para criar qualquer coisa, também não existem formas eternas. Intelectuais como Alberto Magno (1206-1280) introduziram a ciência e a filosofia árabes no mundo medieval e as criticaram, compreendendo que o necessitarianismo de Aristóteles contradizia a liberdade e a onipotência de Deus - pela dedução filosófica, se pressupunha o que o Criador precisava ou não realizar. No Concílio Eclesiástico de 1277, foi rejeitada formalmente a ideia grego-islâmica do que "Deus pode ou não pode fazer" - a crença na liberdade total de Deus acabou por se tornar um dos pilares do método científico: precisamos observar o que Deus fez, não presumir o que ele poderia ou não poderia fazer.

A posição do Concílio de 1277, conclamado pelo bispo de Paris, Etienne Tempier, e pelo arcebispo da Cantuária, Robert Kilwardby, foi reforçada por uma crítica ainda mais forte, realizada pelos teólogos franciscanos nomalistas, como William de Ockham (1285-1349). Ockham, através do princípio da "Navalha de Ockham", derrubou a perspectiva aristotélico-muçulmana, fundamentando a lei natural e todos os valores éticos na vontade de Deus, não na necessidade metafísica ou nas formas. O defensor de Ockham, Pierre d'Ailly (1350-1420), influenciou Martinho Lutero e Zwinglio, levando a perspectiva de Ockham sobre a Bíblia para a Reforma Protestante e, assim, estimulando a ciência empírica.

O fato é que o empenho muçulmano no desenvolvimento do conhecimento e das tecnologias perdeu fôlego. O tipo de pesquisa científica que os maometanos desenvolveram entrou em declínio por  intermédio, principalmente, de mudanças políticas: o conhecimento floresceu em tempos de paz e prosperidade, vindo a enfraquecer quando os recursos foram canalizados para a defesa e a agricultura. A situação piorou quando os europeus requisitaram o Novo Mundo, aquecendo o comércio e a riqueza, levando os governantes muçulmanos a perder a sua proeminência global. Outra causa do declínio do conhecimento entre os maometanos se deu por seu sistema de organização social: os muçulmanos favoreciam, em suas escolas, a transmissão do conhecimento local, de um estudioso para o outro ou em pequenos grupos, estimulando a estabilidade. As universidades europeias, por sua vez, sustentavam o debate acadêmico, pautado no desafio e na subversão do conhecimento estabelecido, atividade que os maometanos ortodoxos tinham como herética, já que valorizavam a aprendizagem como meio de aperfeiçoamento espiritual.
Fontes: O Livro da Ciência, GloboLivros, 2014, pgs 13-14; Uma Breve História da Ciência, Ronei Clécio Mocellin, Nova Didática, 2000, pgs 34-35; Uma Breve História da Ciência, Patricia Fara, Fundamento, 2014, pgs 69-76; O Livro, Uma História Viva, Martyn Lyons, 2011, pgs 47-49; O Livro que Fez o Seu Mundo, Vishal Mangalwadi, Vida, 2013, pgs 277-281.

Conclusão:
É comum ouvir ou lermos que o cristianismo apenas obscureceu a ciência, atrasando-a, mas, como vimos, aconteceu justamente o oposto! A única civilização do mundo a ter desenvolvido por conta a ciência foi justamente aquela que orbitava entorno da Igreja e da Bíblia. Também é comum nos depararmos com o argumento de que os muçulmanos foram muito mais longe do que os cristãos no desenvolvimento científico e que, se não fosse o seu declínio, hoje estaríamos muito mais desenvolvidos, o que também não é verdade. É claro que a produção de tecnologias mais primitivas não necessariamente depende de uma visão de mundo pautada na ciência, mas muito do que temos hoje, que faz parte das nossas vidas diárias, é fruto direto de uma visão científica de mundo, que critica, que observa, que experimenta, que tem o mundo material como bom, útil, e dominável para o bem da própria natureza e do homem. A visão grego-islâmica de mundo não foi a causa do desenvolvimento tecnológico os maometanos, mas ela certamente limitaria avanços mais profundos se não fosse contestada e suprimida, na Europa, pela percepção bíblica de mundo. Bastaram apenas alguns séculos depois de a Palavra começar a ser lida e entendida literalmente para termos a ciência como "revolução", para presenciarmos o incrível momento histórico conhecido como Revolução Científica.

Leve na mente algumas questões sobre o artigo:
- Ao contrário do que muitos dizem, a filosofia grega provavelmente não levaria o homem aos avanços científicos que presenciamos na história dos últimos séculos.
- A Bíblia foi a peça fundamental para o esclarecimento, aperfeiçoamento e purificação do pensamento grego. O pensamento grego, por si só, não produziu ciência, pois ele se alastrou no mundo muçulmano e até a Índia e a ciência só veio a existir na Europa, onde havia uma forte tradição cristã.
- Os fundadores da ciência não a percebiam como fonte de autoridade para se descobrir a verdade sobre tudo. A teologia mantinha seu posto central no tratamento das "grandes questões" e a ciência se ocupava com as "pequenas", restritas mais ao funcionamento dos elementos e o seu domínio.

Natanael Pedro Castoldi

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Revisitando o Julgamento de Galileu Galilei

-> Apresentação e Índice
Infelizmente, o caso de Galileu Galilei entrou para a história como um trunfo contra a Igreja e em favor de uma cisão entre a ciência e a religião. Com o estímulo da propaganda anticristã Iluminista, a verdade dos fatos sobre o julgamento do grande cientista foi distorcida e a distorção acabou ocupando o lugar dos eventos reais, adentrando nos livros didáticos, revistas e até mesmo em documentários. A história de que Galileu foi torturado e morto pela Igreja, "inimiga da ciência", se enraizou de tal modo no imaginário popular que, segundo uma pesquisa realizada pelo Conselho da Europa com estudantes de ciências de todo o Continente, 30% dos acadêmicos acreditavam na morte do cientista na fogueira e 97% imaginavam que ele fora torturado. De fato é esse tipo de impressão que os artistas eternizaram ao longo de três séculos de pinturas sobre o julgamento do astrônomo. A verdade é que Galileu não foi aprisionado numa cela, não foi torturado e, muito menos, morto na fogueira. João Paulo II, em 1981, nomeou uma qualificada equipe para a análise profunda e rigorosa do julgamento de que falamos e, após onze anos de estudos, todo o processo foi devidamente esclarecido, abrindo um fecundo campo de debates sobre a questão. Hoje é possível estabelecer com elevado grau de certeza o que de fato aconteceu com Galileu Galilei.

1 - Precedentes e resumo dos fatos:
Galileu Galilei, nascido em Pisa no ano de 1564, tornou-se um homem de temperamento difícil. Por volta dos 25 anos, depois de nomeado assistente de matemática na Universidade de Pisa, redigiu um panfleto contra os seus colegas e foi agressivo num debate contra uma pessoa próxima ao grão-duque, tornando-se em "persona non grata". Esse último acontecimento obrigou-o a sair da Universidade de Pisa. Protegido do cardeal Guidobaldo del Monte, Galileu conseguiu a cátedra da Universidade de Pádua.

Durante seu tempo em Pádua, Galileu encontrou uma luneta holandesa e fabricou um exemplar mais potente. Com ela realizou extensas observações da Lua, suas crateras e montes, da superfície do Sol, de luas de Júpiter, da observação de Saturno e de diversos outros pontos da Via Láctea. Ao observar Vênus, percebeu a existência de fases como as da Lua e concebeu que a sua órbita estava centrada no Sol, não na Terra, em concordância com Copérnico, clérigo cristão que cogitou no heliocentrismo anteriormente. Galileu produziu e publicou um folheto com suas constatações, "O mensageiro celeste", dedicado ao seu antigo aluno Cosme II de Médicis, grão-duque da Toscana no momento. Quando o grão-duque soube que Galileu nomeara as luas de Júpiter de "satélites medicianos", presenteou-o com um colar de ouro e uma medalha. Sob influência do grão-duque, o astrônomo também foi nomeado primeiro-matemático da Universidade de Pisa. Esse cargo não exigia que morasse em Pisa e nem lecionasse, podendo permanecer em Pádua com sua elevada renda, mas a insaciável sede por reconhecimento fez Galilei retornar para Pisa. Ele queria ser admitido nos círculos dos sábios e frequentar o ambiente das autoridades eclesiásticas, e sabia que, caso viesse a comprovar a tese de Copérnico, jamais cairia no esquecimento.

O problema é que, em 1619, a obra de Copérnico fora incluída no Index, levando Galileu a agir com cautela. Somente quando o seu amigo, o cardeal Maffeo Barberini se tornou o papa Urbano VIII, o astrônomo sentiu-se seguro para o desenvolvimento de suas teses. O pontífice recebeu-o com honrarias e o cientista aproveitou para apresentar o projeto de uma obra polêmica, que exporia as teses (a de Copérnico e a vigente na época, a aristotélica) sobre o regimento dos planetas através do colóquio entre três amigos. O papa permitiu a publicação do opúsculo, mas exigiu que nenhum dos lados fosse favorecido. O problema é que, na obra ("Diálogo sobre os dois grandes sistemas do mundo"), o defensor do antigo sistema chama-se Simplício ("simples") e defende seu ponto desferindo os mesmos argumentos que o papa. Além disso, Galileu fez uso de um estratagema para obter o "imprimatur", que é a declaração eclesiástica de que uma obra não vai contra os pilares da Igreja, submetendo apenas uma parte dela para a censura. Descumprindo a promessa feita ao papa, o cientista se coloca abertamente ao lado de Copérnico. 

Apesar de tudo isso - de ter sido comparado ao "simples" (Simplício) e de Galileu defender Copérnico -, o papa estava disposto a perdoar, mas havia algo entre ele e o sábio: a Congregação do Santo Ofício, o Tribunal da Inquisição. Mesmo evitando demonstrar fraqueza, Urbano VIII procurou auxiliar Galileu da melhor forma, encarregando uma comissão de teólogos para examinar a sua obra na esperança de que ele fosse absolvido. Não foi o que aconteceu e Galileu precisou passar pelo julgamento.

O papa Urbano VIII, embora cético quanto a capacidade humana de desvendar os segredos do Cosmos, era amigo de Galileu. Leandro Narloch explica o processo com mais detalhes: o papa permitiu a publicação do livro do astrônomo com a condição de que o heliocentrismo e o geocentrismo foram tratados apenas como teorias, e representantes da Inquisição, depois de analisarem o texto e proporem algumas emendas, chegaram a recomendar a publicação. Galileu, porém, manteve a versão favorável ao heliocentrismo, pelo que foi repreendido pelo papa e, um ano depois de publicado o livro, chamado para o Tribunal da Inquisição, em Roma.

Em Roma, na Basílica de Santa Maria della Minerva, no dia 22 de junho de 1633, Galileu recebeu seu veredicto: sua obra não poderia ser publicada, ele seria preso e deveria abjurar os seus erros. Mesmo se disponibilizando a ensinar apenas o geocentrismo, Galileu Galilei foi tido como suspeito de heresia e, condenado à prisão na sede do Santo Ofício, passou por um "exame rigoroso" de suas crenças, o que foi erroneamente entendido como "tortura" - cópias dessa condenação espalharam-se pela Europa, consolidando a crença de que ele fora, de fato, torturado. Voltaire ajudou a solidificar essa percepção. De fato, Galileu padeceu algum nível de humilhação, mas jamais fora torturado - os modos comuns de tortura eram severos demais para alguém com 69 anos e como Galileu sobreviveu sem sequelas, não pode ter sofrido flagelos. As próprias normas da Inquisição livravam idosos, crianças, doentes e mulheres grávidas da tortura - Galileu era velho e sofria de artrite e hérnia. O grande astrônomo não padeceu maus-tratos.

A sentença foi dada - vários juízes e o próprio papa se negaram a subscrevê-la: o astrônomo iria cumprir pena em prisão domiciliar, por consideração do papa. A prisão de Galileu começou no palácio renascentista do embaixador de Florença, seguiu para os aposentos de um oficial e para a casa do arcebispo Piccolomini - ele nunca ficou um dia numa cela comum. Viveu em palácios de amigos, alguns da alta hierarquia católica, e, por fim, na própria casa. Durante esse tempo, segundo Alfonso Aguiló, ele teve a liberdade de continuar a trabalhar na sua ciência, de receber visitas e de publicar as suas obras. Assim foi até a sua morte natural. Segundo seu discípulo e biógrafo, Vicenzo Viviani, Galileu morreu com firmeza filosófica e cristã aos 77 anos de idade, pacificamente em casa (Arcetri, perto de Florença), na sua cama, depois de ter recebido indulgência plenária e a bênção do papa - segundo ele, o astrônomo viveu e morreu como um bom cristão. Ao contrário do que se faz parecer hoje, o julgamento do cientista foi feito com relativa mansidão.
Fonte: Revista História Viva, nº 45, Eles Mudaram o Mundo, pgs 28-31; Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo, Leandro Narloch, LeYa, 2013, pgs 80-81; Luzes e Sombras na Igreja, Alfonso Aguiló, Quadrante, 2011, pgs 44-45.

2 - O pensamento da época:
Um dos maiores erros com relação do caso de Galileu está em pensar que na sua época havia um grande atrito entre os cientistas, "detentores da razão", e os clérigos, "amantes dos dogmas". Na verdade, havia cientistas que defendiam dogmas e clérigos profundamente apegados ao pensamento científico - inclusive monges cientistas. É interessante observar, por exemplo, que os cientistas da época chegaram a desenvolver complexos cálculos para saber quando Jesus voltaria. Em oposição ao que Galileu e Copérnico defendiam não estava apenas a classe sacerdotal, mas toda uma classe científica secular, e ao lado de Copérnico e Galileu se encontravam muitos abades, freis, monges, padres, bispos, cardeais e até o papa.

O fato é que o heliocentrismo de Copérnico já tinha quase dois mil anos quando proibido pela Igreja. Aristarco, séc. 3 a.C., propôs a teoria de que o Sol estava no centro do Universo e de que a Terra girava entorno de si própria e entorno dele. Mas desde a Grécia Antiga essa percepção fora rejeitada por uma série de observações da época. Vigorou a percepção aristotélica de mundo, com a Terra ao centro, e tal filosofia se encontrava ainda bastante rígida nos dias de Galileu, sendo defendida pela maioria dos sacerdotes e cientistas seculares.

Quando o astrônomo observou que Copérnico estava certo, toda uma teologia entorno da necessidade de a Terra estar no centro do Universo, que sustentava a ideia de o homem ser o projeto central de Deus, se abalou. A cosmovisão predominante há diversos séculos estava sendo agredida. Alfonso Aguiló lamenta que interpretações errôneas do texto bíblico, considerado literalmente quando deveria ser entendido poeticamente, tenham dado sustentação para paradigmas inquestionáveis. É por isso que a maior parte dos astrônomos da época de Galileu preferiu não tomar partido, como Tycho Brahe e William Gilbert, sugerindo teorias bastante peculiares - Tycho, astrônomo mais famoso daqueles dias, dizia que os planetas se moviam entorno do Sol, mas que o Sol e a Lua giravam ao redor da Terra, que estava fixa no centro do Universo; Gilbert não engolia a ideia do movimento de translação do nosso planeta. Mas o próprio Galileu não era de todo razoável - por exemplo, fez pouco das análises de Johannes Kepler, que mais tarde se mostraram verazes, como a órbita elíptica dos planetas. Considere que na época não havia uma divisão muito clara entre ciência, misticismo e imaginação fértil - Galileu chegou a calcular o tamanho do Diabo, baseado nas descrições de Dante Alighieri. O famoso astrônomo também eram considerado um bom astrólogo. A astronomia estava começando a se tornar independente da astrologia e a química estava se separando da alquimia, que visava, sobretudo, transformar metais comuns em ouro. É interessante notar que Isaac Newton, um século depois, foi ridicularizado pelos mais brilhantes matemáticos ao afirmar que a força de atração é proporcional à massa dos corpos - ele foi acusado de acreditar em magias e milagres.

Diversos cientistas e filósofos se colocaram em franca oposição ao heliocentrismo. Muitos chegaram a duvidar das próprias observações no telescópio: segundo Cesare Cremonini, mais destacado filósofo naturalista da Universidade de Pádua, as imagens que apareciam no telescópio de Galileu Galilei eram ilusão de ótica. Giovanni Magini, matemático da Universidade de Bolonha, também não confiava nas imagens do telescópio. Martin Horky, discípulo de Magini, escreveu um livro inteiro para atacar as ideias do astrônomo italiano - chegou a dizer que Galileu se preocupou em anunciar a descoberta dos satélites de Júpiter apenas por interesse financeiro, criticou a sua aparência e afirmou que o telescópio do astrônomo era uma fraude. Dentre os ataques sofridos por Galileu na época, o mais sólido foi escrito pelo filósofo, poeta e matemático Ludovico delle Colombe, e publicado no livro "Contra o Movimento da Terra", no qual considera a teoria de Copérnico "perigosa" e "louca". Um dos argumentos desferidos contra as observações de Galileu foi o de que a Lua, embora aparente ter montanhas e crateras, continuava a ser uma esfera perfeita, como previa a filosofia aristotélica: uma camada cristalina cobria todo o seu relevo. Foram Colombe e Francesco Sizzi, filósofos e não sacerdotes, os maiores responsáveis por acusar o heliocentrismo perante a teologia e, com isso, alimentar a controvérsia. Textos como o de Salmos 104:5 foram apontados para desqualificar a tese defendida por Galileu. É claro que o astrônomo italiano, considerando o seu temperamento, não fugiu da briga e não evitou ridicularizar seus adversários.

Além de o pensamento aristotélico estar consolidado no ambiente eclesiástico e secular há muitos séculos, havia forte resistência à mudanças da parte dos professores de astronomia da época, em geral pouco qualificados, já que astronomia era uma disciplina básica que fazia parte dos cursos introdutórios, ensinada somente até o nível elementar. As percepções de Galileu ameaçavam aquilo que esses professores ensinavam e tinham o potencial de minar a sua posição na comunidade acadêmica. Se já não bastasse essa posição dos acadêmicos, Galileu e outros matemáticos da época desrespeitavam a hierarquia das artes liberais demonstrando as suas descobertas para além dos modelos matemáticos, descrevendo-as dentro dos parâmetros físicos de mundo, coisa que cabia apenas aos filósofos - a matemática era observada como uma disciplina inferior.

Segundo o historiador Stillman Drake, autor de 130 livros e estudos sobre Galileu, é estranho que os historiadores ainda hoje prefiram culpar os teólogos no lugar dos filósofos no caso de Galileu Galilei, sendo que foram os filósofos aqueles que exigiram a intervenção dos teólogos.

3 - Galileu e a Igreja:
Sem conseguir persuadir os astrônomos e filósofos, o cientista italiano recorreu ao Colégio Romano, grande centro astronômico do século XVII e fundado pelos jesuítas. Dentre os seus eminentes membros estava o padre Clávio, considerado por alguns como sendo o maior matemático da época. Galileu manteve bastante contato com Clávio e foi convencendo-o aos poucos, através das observações telescópicas, da tese que defendia. Em abril de 1611, o Colégio Romano homenageou o grande astrônomo, quando o jesuíta Odon van Maelcot disse que Galileu era "digno de ser citado entre os astrônomos mais célebres e felizes".

Ainda assim, o debate teológico acerca do pensamento de Copérnico se acirrava. Houve filósofos, cientistas seculares e sacerdotes contra e a favor de Galileu. Em 1584, o eremita agostiniano, Diego Zúñiga, professor de teologia na Universidade de Salamanca, já havia utilizado de Jó 9:6 para fundamentar a ideia de que a Terra se movia. O teólogo carmelita Paolo Antonio Foscarini defendeu a ideia de que, se a observação sustentasse o movimento da Terra, o certo era conciliar a interpretação bíblica com a natureza. O debate teológico estava em desenvolvimento e Galileu decidiu participar dele.

Mesmo afirmando que a natureza trazia mais verdades sobre Deus do que a Letra Sagrada, Galileu era um bom católico e sabia dividir bem as coisas terrenas e espirituais. A percepção de que a Bíblia nem sempre precisava ser interpretada literalmente, pois muitas vezes fazia uso de linguagem poética ou utilizava de percepções mais antigas, compatíveis com os povos do passado, havia sido trabalhada e defendida por gente como Tomás de Aquino, no século XIII, que percebeu que as ideias de Aristóteles sobre a perfeição e eternidade dos astros iam contra princípios cristãos. O astrônomo italiano em momento algum lutou contra a Igreja, mas se esforçou para torná-la mais aberta às descobertas. A verdade é que Galileu, segundo Stillman Drake, "se sentiu compelido a fazer tudo o que podia para prevenir um erro por parte da Igreja que poderia colocar a sabedoria dela em descrédito". Acerca disso, Leandro Narloch conclui que Galileu "deixa de ser um inimigo e passa a ser fruto da melhor tradição do catolicismo."

É fácil compreender, ao menos em parte, a reação da Igreja aos posicionamentos de Galileu, tanto seu comportamento quanto as suas ideias: a Reforma Protestante tinha se alastrado para quase todo o Norte da Europa, ameaçando a Igreja Católica Apostólica Romana em quase todos os sentidos - números, territórios, poder, prestígio... Como reação, foi convocado o Concílio de Trento, que reafirmou a autoridade do papa, ampliou a luta contra os hereges e firmou a ICAR como a autoridade máxima na interpretação da Bíblia. Diante desse quadro, a oposição ao tradicional sistema aristotélico era a última coisa que a Igreja desejava, e um conflito teológico, encabeçado pelas ideias de um único astrônomo, que chegou a zombar do papa, apenas dificultava as coisas. Foi justamente nesse período turbulento que os textos de Copérnico e de outras influências de Galileu foram banidos. Com a Contrarreforma, houve um recuo teológico e os filósofos, matemáticos e sacerdotes de maior prestígio se posicionavam contra a nova astronomia.

Essa mudança de postura, por advento da Contrarreforma, é melhor entendida quando percebemos que as ideias de Copérnico, algumas décadas antes, foram recebidas com entusiasmo pelo papa Clemente VII e por outras autoridades eclesiásticas.

Em 1741, o erro do tribunal que julgou Galileu Galilei fora reconhecido e Bento XIV ordenou que o Santo Ofício desse o imprimatur à primeira edição das obras completas do astrônomo. Em 1822, a sentença errônea foi reformada sob o aval do papa Pio VII.
Fontes: Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo, Leandro Narloch, LeYa, 2013, pgs 65-83; Luzes e Sombras na Igreja, Alfonso Aguiló, Quadrante, 2011, pgs 40-46.

Conclusão:
Uma das piores formas de analisar o passado é vê-lo com os olhos do presente. O cientista do século XVI não entra nas mesmas definições do cientista do século XXI, assim como o sacerdote. Uma característica essencial da ciência é a mutação: ela sempre se movimenta e se altera, de modo que é incoerente avaliar a relação entre a ciência e a religião no passado com base naquilo que a ciência é hoje. Infelizmente, a história tem sido constantemente reescrita para favorecer determinados grupos e ideologias. Não caiamos no erro de pensar no passado apenas como ferramente de combate para as militâncias de hoje e isso serve tanto para os cristãos quanto para os seus inimigos intelectuais.

Se fizermos uso dos critérios frouxos que colocam Galileu como representante da razão contra uma Igreja "irracional" por matar cientistas, seríamos obrigados a ver a Revolução Francesa, tida como centrada na deusa Razão, como inimiga do conhecimento, pois nela fora guilhotinado, por exemplo, o francês protagonista da revolução científica da química no seu tempo, Antoine Laurent Lavoisier - naquela mesma ocasião, o presidente do tribunal declarou que "a República não precisa de sábios".
Fonte: Luzes e Sombras na Igreja, Alfonso Aguiló, Quadrante, 2011, pg 41.

Natanael Pedro Castoldi

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