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A Ciência, a Igreja e o Islã

-> Apresentação e Índice
Muitas pessoas não compreendem que o que define "ciência" não é a mera descoberta de fenômenos e o desenvolvimento de tecnologias. Por ciência temos um sistema de busca pelo conhecimento, pautado em método, repousando sobre uma determinada filosofia - a saber, de que a verdade sobre os seres e fenômenos pode ser conhecida e de que o mundo em que vivemos é real e possui leis constantes e que podem ser vislumbradas e entendidas. O método tradicional de pesquisa científica é, obviamente, o "método científico", que valoriza a observação do fenômeno, o experimento e a repetição do mesmo para a tomada de conclusões críveis - os precursores desse pensamento foram os monges Roger Bacon, padre franciscano (1214-1294), e Tomás de Aquino, frade dominicano (1225-1274). Mesmo que uma cultura tenha indivíduos de grande potencial, eles dificilmente buscarão pelas "leis da natureza" se acreditarem que o mundo natural é habitado e governado por milhões de pequenas divindades que controlam, ao seu bel prazer, cada fenômeno.
Fonte: Revista Aventuras na História, Coleção Grandes Guerras, Ed. 8, Abril, novembro de 2005, pg 52.

Observação: esse é um artigo sobre a história da origem da ciência. Nesse caso, não se trata de opinião do autor.

1 - Por qual motivo apenas o Ocidente produziu a ciência?
A Índia antiga produziu grandes cirurgiões, mas não chegou a desenvolver a medicina científica; no século V, o indiano Arybhata sugeriu que a Terra gira entorno do seu eixo e ao redor do Sol, mas sua proposta não gerou debates como no Ocidente. Uso da Índia como primeiro exemplo, pois minha fonte inicial é Vishal Mngalwadi, erudito indiano convertido ao cristianismo. Segundo ele, a Índia, mesmo tendo uma riquíssima tradição histórica de intelectuais, não foi a precursora da ciência porque sua cosmovisão sustentava que o mundo visível não passava de uma ilusão, um sonho. Esse tipo de perspectiva levou tanto os sábios hindus quanto budistas a perder a motivação filosófica - eles buscavam um paraíso psicológico. A mesma busca se deu no Ocidente cristão até o século XVI, quando que "uma porção maior da cristandade teve condições de ler a Bíblia e a levou a sério" - daí em diante se espalhou o entendimento de que, por exemplo, a saída do Éden foi a perda de um paraíso literal, terrestre, e não apenas uma alegoria, como se pensava anteriormente. A paixão Ocidental pela ciência começou precisamente quando os cristãos dedicaram-se no resgate do mandato que Deus deu ao homem: que ele dominasse a natureza.

Os pioneiros da ciência acreditavam que o mundo natural era um reino real, não uma dimensão mágica, dominada por espíritos e demônios. Seu pressuposto era de que o mundo é inteligível, pois Deus o "criou de maneira racional, ordenada e regido por leis naturais" - o mundo não fora criado por uma divindade maligna para fazer a humanidade cair no engano através do contato com a "matéria impura". Os cristãos logo compreenderam que a matéria, tendo sido criada por Deus, não é maligna e que, portanto, é digna de ser estudada - daí começaram a se perceber como gerentes da Criação, podendo administrá-la para o benefício do futuro e da humanidade. Essa mentalidade nasceu com a crítica ao racionalismo aristotélico - o método científico presume que a lógica humana tem valor, mas que os fatos observador estão acima de suas conclusões particulares. Essa lógica é usada, por sua vez, para interpretar e encontrar sentido nos fatos - teorias são formuladas para entender o mundo. Essas teorias, porém, só são científicas se fazem predições quantitativas empiricamente verificáveis ou falseáveis. Para esse sistema funcionar, a ciência precisa de objetividade, de observação e de uma constante atitude cética.

Percepções panteístas impossibilitam o desenvolvimento científico, pois "se Deus e a natureza são um, então a natureza não tem um Legislador, nem há 'leis da natureza' para serem descobertas". Na percepção da natureza como Gaia, a ordem natural não é nada além de uma "dança" imprevisível, sem leis matemáticas quantificáveis. A China antiga também teve seus grande intelectuais e promoveu admiráveis descobertas e inventos, mas igualmente não pôde desenvolver a ciência. Segundo Alfred North Whitehead, a ciência originou-se diretamente do ensino bíblico de que o cosmo é produto da "racionalidade inteligível de um ser pessoal" - a China, portanto, não desenvolveu a ciência porque na maior parte da sua história não nutriu a firme convicção em um Criador todo-poderoso. A posição quanto ao pensamento chinês foi sustentada por Joseph Needhem, historiados marxista: após sua pesquisa, ele concluiu que "não havia boas razões geográficas, raciais, políticas ou econômicas para explicar o fracasso da China para desenvolver a ciência" - os chineses "não desenvolveram a ciência porque nunca lhes ocorreu que esta fosse possível".

Gregos, egípcios, chineses, indianos e muçulmanos pré-modernos nutriram incontáveis percepções da natureza, observando e catalogando fatos, desenvolvendo aptidões, acumulando e transmitindo conhecimento. O astrônomo, geógrafo e poeta grego Eratóstenes (276-196 a.C.), mediu a circunferência da Terra; Arquimedes (287-212 a.C.) desenvolveu princípios matemáticos sobre alavancas, polias e parafusos; Hiparco (190-120 a.C.) calculou o ano solar em 365 dias e 6 horas... mas, ainda assim, os antigos nunca geraram uma cultura da ciência. Ainda que tivessem observado atentamente o mundo natural, eles não se esforçaram para verificar empiricamente as suas explicações - na tentativa de explicar o mundo, eles se valeram da intuição, da lógica, dos mitos, do misticismo e do racionalismo, sem atentar para o empirismo. Por exemplo: a lógica baseada na intuição, de Aristóteles, afirmava que, se duas pedras fossem atiradas de um penhasco, a que tivesse o dobro do peso da outra cairia duas vezes mais rápido - nenhum estudioso aristotélico antigo chegou a testar empiricamente essa afirmação para constatá-la ou reprová-la, até que Galileu Galilei (1564-1642), tomando como fundamento a Bíblia, testou a afirmação e a reprovou.

Intuição, lógica, observação, experimentação, informação, técnica, especulação e a análise de textos imbuídos de autoridade são coisas que precedem o Século XVI, mas elas, por si mesmas, não podem constituir uma ciência sustentável. Foi só na Europa cristã que a astrologia se transformou em astronomia, que a alquimia virou química e que a matemática tomou o posto de linguagem da ciência - e isso só aconteceu nos séculos XVI e XVII, quando a cristandade ocidental levou a sério Gênesis 1:28. É lógico que Gênesis já era conhecido há milhares de anos quando a ciência propriamente dita passou a existir - a novidade dos séculos XVI e XVII, segundo Peter Harrison, foi uma leitura literal do relato, não alegórica:

"Apenas quando a narrativa da Criação foi despida de seus elementos simbólicos é que o mandamento de Deus a Adão pôde ser relacionado a atividades mundanas. Se o jardim do Éden fosse apenas uma alegoria sublime, tal como Fílon, Orígenes e mais tarde Hugo de São Vítor sugeriram, não haveria muito incentivo em tentar restabelecer um paraíso na terra. Se o mandamento de Deus a Adão de cultivar o jardim tivesse um significado primariamente simbólico, como Agostinho acreditava, então a ideia de que o homem deveria estabelecer o paraíso pela jardinagem e pela agricultura não teria tido o impacto que teve na mentalidade do século XVII."

2 - As limitações do pensamento grego antigo:
Primeiramente, a Bíblia não é um livro Europeu e, por esse motivo, dos séculos V ao XI, os eruditos europeus tinham a tendência de observar o mundo sob a ótica platônica. Segundo Platão, o Reino das Ideias é o mundo real e o mundo material não passa de uma sombra. Vishal Mangalwadi exemplifica Platão da seguinte forma: mesmo que as casas tenham grandes diferenças entre si, todas elas são consideradas "casa" porque são sombras da mesma "Ideia" do que é "casa" que existe no mundo real, não material ou espiritual das ideias. Cada objeto real pode ter um número incalculável de sombras no mundo material. Tendo esse princípio em mente, os eruditos medievais inicialmente estudavam a natureza da sombra para, acima de tudo, entender a realidade espiritual.

Essa influência grega propiciou a percepção de que o mundo material é inferior ao espiritual, apenas uma imagem transitória e decadente do mundo espiritual, eterno e imutável. A natureza era considerada basicamente um livro pictórico escrito por Deus para transmitir uma mensagem superior: todos os animais, plantas, rochas e fenômenos eram, sobretudo, símbolos destinados a nos levar a compreender melhor as realidades espirituais - eles observavam a formiga mais para extrair ensinamentos e virtudes do seu comportamento trabalhador, do que para compreendê-la como o ser que é em si mesma. O método alegórico foi incorporado justamente para extrair do mundo material, inferior, esses ensinamentos superiores. Esse método fora desenvolvido pelos filósofos gregos para auxiliar na interpretação dos seus poemas, mitos e das suas lendas, objetivando "higienizar narrativas moralmente problemáticas". Fílon, o judeu alexandrino, adotou o método hermenêutico alegórico para encontrar a filosofia grega no Antigo Testamento.

Os cristãos alexandrinos, seguindo o exemplo de Fílon, adotaram a alegoria para ler tanto a Bíblia quanto o mundo natural e, obviamente, essa postura prejudicou a compreensão da natureza. A ciência ocidental só passou a existir quando a Bíblia começou a ser lida literalmente, sem ser obscurecida pela alegoria - a ciência desabrochou quando as Escrituras e a natureza passaram a ler lidas objetiva ou indutivamente, com o objetivo de descobrir a mensagem que traziam por elas mesmas. Segundo Peter Harrison, a ciência só veio a ser tornar "revolução" porque os Reformadores protestantes insistiram que a palavra de Deus inserida na Bíblia e na natureza deve ser interceptada de maneira literal. Os teólogos católicos estabeleceram as bases da ciência nos séculos XIII e XIV e a Reforma estabeleceu a autoridade intelectual da Bíblia e disseminou na cultura popular os ensinamentos da Palavra a respeito de Deus, da criação, do homem, do pecado, da salvação, do conhecimento, da educação e do sacerdócio universal de todos os crentes - ideias cruciais para a Revolução Científica.

Segundo Rodney Stark, 50 dos 52 mais importantes cientistas que foram pioneiros na Revolução Científica eram cristãos. 60% dos homens que criaram a ciência foram cristãos devotos - os demais eram "cristãos nominais". 

3 - A ciência e a Bíblia:
 Ainda que Tomás de Aquino e Roger Bacon tenham sido os responsáveis pelas base do pensamento científico, os fundadores do método científico foram Francis Bacon (1561-1626) e Galileu Galilei (1564-1642), confiando mais na observação empírica do que na lógica ou autoridade humana. Os dois intelectuais cristãos defendiam a acurada leitura dos "dois livros de Deus", a Bíblia e a natureza. Sobre isso, Francis Bacon declarou:

"Pois nosso Salvador disse: 'Vós errais não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus' (Mt 22:29), deixando-nos livres para estudar, se quisermos nos livrar do erro: primeiro, as Escrituras, que revelam a vontade de Deus, e depois as criaturas [ciência natural], que expressam seu poder, sendo o último uma chave para o primeiro: não apenas abrindo o nosso entendimento para conceber o verdadeiro sentido das Escrituras pelas noções gerais da razão e das regras do discurso, mas principalmente por abrir nossa crença, ao nos fazer meditar sobre a onipotência de Deus, que está assinada e esculpida principalmente em suas obras."

Galileu Galilei também declara algo nesse sentido:

"Pois a Bíblia Sagrada e os fenômenos da natureza procedem igualmente da palavra divina, a primeira, dita pelo Espírito Santo, e os últimos como executores obedientes do mandamento de Deus."

Os Estados Unidos da América, como afirma a Declaração de Independência, 1776, foram fundados sobre as "leis da natureza e da natureza de Deus". A abertura intelectual do Ocidente se deu, fundamentalmente, por uma teologia resultante da aproximação da Bíblia e do afastamento de Platão e do Islã. Os nomalistas medievais perceberam que "a doutrina de Deus faz mais sentido que uma lógica subserviente à observação empírica" - ao evitarem a heresia averroísta de pensar que Deus agiu de acordo com uma necessidade intrínseca, sendo a criação um ato totalmente livre do Criador, que configurou a natureza conforme o Seu desejo, descobriram que a ordem do universo não pode ser conhecida por dedução de quaisquer princípios, mas apenas por observação e por revelação. Dessa forma, os nomalistas constataram que o mundo físico só poder ser discernido de modo empírico - Deus poderia fazer tudo o que desejasse independente de qualquer ordem racional que pudesse guiar a mente humana em suas predições, de modo que nada pode ser previsível em absoluto. 

Os filósofos gregos, como Aristóteles e Platão, fitaram a natureza para vislumbrar verdades metafísicas universais, trabalhando de modo abstrato e dedutivo, disso oferecendo conclusões que se tornaram pressuposições "a priori" de gerações futuras, vindo a acorrentar a mentalidade europeia, que só foi solta quando a doutrina da liberdade de Deus foi discernida com base na Bíblia, propiciando o método científico. Além disso, a percepção da natureza boa do mundo material criado por Deus, tornou o elemento material digno de ser estudado. Disso, Vishal Mangalwadi conclui: "A ciência é um estudo objetivo ('secular') das leis da natureza por causa de sua inspiração bíblica como criação de Deus, não apesar disso." A ciência não veio a existir sobre a pressuposição de um materialismo sem Deus.

Até mesmo as teologias bíblicas do Pecado, da Queda e da Salvação influenciaram o desenvolvimento inicial da ciência. Diante da percepção dos males que afligem o homem e o mundo, a conclusão mais óbvia dos antigos, especialmente dos gnósticos, foi a de que a matéria é inerentemente má, de modo que Deus não pode encarnar-Se num corpo humano. O Novo Testamento, em especial João, refuta com poder essa percepção gnóstica e, concordando com o Antigo Testamento, deixa claro que a matéria é boa. Movimentos influenciados por filosofias orientais observam os problemas físicos como meramente ilusórios, enquanto a Palavra os apresenta como problemas reais, resultantes da rebelião de Adão e Eva - a desordem do mundo natural veio a dificultar o mandato humano de domínio da natureza. Essa compreensão, apoiada no sacrifício expiatório de Cristo e na Sua ressurreição, fez o homem compreender que pode vir a restaurar a si mesmo através da entrega ao Salvador e ao mundo através das artes e das ciências, conforme declara Francis Bacon.

Quando a Bíblia começou a ser entendida com mais profundidade, se observou que Adão e Eva conheceram a natureza tal como ela era antes da Queda e que a Queda resultou na perda do conhecimento da natureza, de modo que, para recuperar a imagem do Criador, era necessário ao homem ter a mente renovada e, redescobrindo o mundo, iniciar a sua restauração para a unidade original, isso através do domínio e do controle da natureza.

Mosteiros budistas e hinduístas até hoje não ensinam ciência, mas as universidades europeias - originadas da própria Igreja - a desenvolveram e a divulgam. Por qual motivo isso acontece? Os estudiosos bíblicos aprenderam há muito tempo que a leitura do "livro da natureza" era mais importante do que a análise de livros em grego e em latim - estes foram escritos por homens, mas o primeiro foi escrito pelo próprio Deus. Paracelso disse que o livro da natureza deveria ser lido com mais atenção e proeminência do que as obras de Galeno, Avicena e Aristóteles, pois ao primeiro "Deus mesmo fez, escreveu e encadernou". Houve até os que ousaram afirmar que o estudo da natureza deve preceder o das próprias Escrituras.

Muitos filósofos e cientistas de hoje aproximam-se do niilismo, pois duvidam da possibilidade de se encontrar respostas para as "grandes questões" da humanidade. Quase todos os fundadores da ciência, porém, acreditavam que as "grandes questões" já estavam devidamente respondidas nas Escrituras e que a sua função, dada por Deus, era de estudar as "questões pequenas e específicas" da natureza - como eram e funcionavam, como poderiam ser dominadas para o proveito do homem. Nesse sentido, eles não usavam do método científico para encontrar a Verdade sobre tudo, pois eles estavam convictos que as verdades centrais já estavam reveladas na Palavra - seu método existia para conhecer os seres e fenômenos e, com isso, recuperar o conhecimento e o domínio do homem sobre a natureza.
Fonte: O Livro que Fez o Seu Mundo, Vishal Mangalwadi, Vida, 2013, pgs 259-276, 281-287.

4 - Os muçulmanos e a ciência:
Sendo direto, conforme aquilo que define ciência, podemos afirmar que o Islã não produziu ou desenvolveu a ciência. Mas precisamos ser honestos quanto ao legado muçulmano para o posterior advento da Revolução Científica. 

A Europa Ocidental perdeu quase todos os seus registros da Cultura Clássica quando o Império Romano do Ocidente finalmente foi arruinado - muito do que sobrou foi resgatado e copiado por monges em mosteiros isolados, protegidos dos bárbaros, especialmente os monges da Irlanda que, segundo Thomas Cahill, salvaram a Civilização Ocidental (Como os Irlandeses Salvaram a Civilização Ocidental, Thomas Cahill, Objetiva, 1999) -, havendo uma quantidade significativa de material depositada em cidades antigas do Norte da África, da Ásia Menor e do Oriente Médio - regiões que os maometanos vieram a conquistar em suas campanhas iniciais, confiscando esses documentos gregos e latinos. Outra fonte considerável de manuscritos clássicos o Islã encontrou na Igreja Oriental, que preservara e copiara as obras gregas. Do grego, os muçulmanos passaram esses documentos para o árabe e, com base neles, desenvolveram significativos avanços na astronomia, na medicina, na alquimia e na tecnologia. Quando o mundo muçulmano estava no seu período dourado (séculos VIII ao XIII), sendo muito maior do que a Europa cristã e estando bastante adiantado no desenvolvimento do conhecimento, diversas escolas, observatórios e bibliotecas foram fundadas, assim como hospitais e hospitais-escola. Já no século VIII, o califado de Abbasid montou uma magnífica biblioteca em Bagdá. Ao incorporarem o uso do papel, mais barato, bibliotecas imensas foram fundadas na vastidão das suas terras, como a de Córdoba, com aproximadamente 400 mil volumes. Até o século XVI, os maiores centros na arte de produção de livros ficavam em Herat, Afeganistão, em Tabriz e Shiraz, Irã. A arte da caligrafia se tornou tão importante para os muçulmanos, que eles resistiram ao uso da imprensa, mantendo mais de 100 mil copistas para o abastecimento das bibliotecas e dos estudiosos. Obviamente essa resistência cobrou um preço. 

Com os avanços muçulmanos dentro da Europa cristã, com a conquista de Portugal e Espanha, principalmente, esses manuscritos árabes que continham o conhecimento clássico foram sendo apresentados aos europeus. Ao longo dos séculos, muitos estudantes universitários da Europa compravam material muçulmano para o seu enriquecimento técnico e filosófico. Ainda assim, foi a Europa cristã, e não o mundo muçulmano, que produziu e desenvolveu a ciência. Por qual motivo isso aconteceu?

Primeiramente, o fracasso dos muçulmanos medievais no desenvolvimento da ciência se deve à sua postura acrítica ao pensamento grego. Nos séculos XII e XIII, a pseudociência grego-islâmica quase tragou o Ocidente - o que salvou a Europa da cosmovisão grega, incompatível com a Bíblia, foi a sua leitura das Escrituras. Mesmo que o Islã creia num Criador todo-poderoso, faltou-lhes a Bíblia - ainda que Maomé tenha declarado a Bíblia como divinamente inspirada, ela só é lida pelos maometanos para ser criticada. 

Por volta do século X, os compiladores de uma obra islâmica, Rasa'il, abraçaram a ideia grega de que o mundo é Gaia, abrindo caminho para percepções panteístas, cíclicas, animistas e mágicas, que vieram a permear a cosmovisão islâmica, infectando o Islã com a perspectiva platônica de que o mundo é compreensível a partir das formas eternas dos seus objetos. Para o grego, conhecer algo é conhecer a sua forma e, concebendo a forma, se discerne a essência, culminando em conclusões definitivas, que não se mudam pela experiência. O necessitarianismo metafísico aristotélico e islâmico tornou desnecessária a verificação empírica do "conhecimento verdadeiro". Os mais destacados filósofos muçulmanos medievais, como Avicena (980-1037) e Averróis (1128-1198), acabaram se tornando inflexíveis defensores de Aristóteles, tendo as suas ideias como completas e infalíveis - a observação que contradissesse Aristóteles estaria, de pronto, errada.

Os teólogos europeus também estudaram todos os grandes livros, recebendo e valorizando o conhecimento grego, mesmo que ele viesse por meio dos muçulmanos. A diferença é que os europeus, tendo um compromisso com a Bíblia, se colocavam a criticar as posições gregas quando elas contradiziam as Escrituras. A sua cosmovisão bíblica se desenvolveu sobre Aristóteles, purificando a sua confiança na razão humana da influência animista e fortalecendo-a ao fundamentá-la na imagem de Deus. Sobre isso, M. B. Foster declarou:

"A primeira grande contribuição da teologia cristã ao desenvolvimento da moderna ciência natural foi o fortalecimento que ela forneceu ao elemento científico do próprio Aristóteles; em particular, forneceu uma justificativa para a fé, que para Aristóteles era um pressuposto sem base, já que a razão na natureza pode ser descoberta pelo exercício da razão no homem. O elemento 'racionalista' na filosofia da natureza de Aristóteles era incoerente com o 'animismo'que ele manteve lado a lado com aquele. Esse animismo é completamente incompatível com a doutrina cristã, e precisou ser completamente eliminado de qualquer teoria da natureza que pretendia ser coerente com uma teologia cristã."

As conquistas de Alexandre, o Grande, alastraram as ideias gregas para lugares muito distantes, como a Índia, mas em diversas culturas, o animismo, o gnosticismo e o misticismo suprimiram a razão e a evidência. A Bíblia, por sua vez, reforçou a confiança dos gregos na mente humana e removeu a irracionalidade do animismo. Ainda segundo Foster, o nascimento da ciência se deve mais a discordância de Aristóteles do que a concordância sobre a utilidade da razão - essa discordância, aponta ele, são os elementos não-gregos, ou seja, bíblicos, a que os teólogos medievais recorrerem em sua crítica ao pensamento helenístico.

Dentre os elementos não-gregos, ou bíblicos, que favoreceram o advento da ciência, está a percepção de que o cosmos não é eterno e de que Deus não faz parte do universo - estando Ele fora da matéria e sendo livre para criar qualquer coisa, também não existem formas eternas. Intelectuais como Alberto Magno (1206-1280) introduziram a ciência e a filosofia árabes no mundo medieval e as criticaram, compreendendo que o necessitarianismo de Aristóteles contradizia a liberdade e a onipotência de Deus - pela dedução filosófica, se pressupunha o que o Criador precisava ou não realizar. No Concílio Eclesiástico de 1277, foi rejeitada formalmente a ideia grego-islâmica do que "Deus pode ou não pode fazer" - a crença na liberdade total de Deus acabou por se tornar um dos pilares do método científico: precisamos observar o que Deus fez, não presumir o que ele poderia ou não poderia fazer.

A posição do Concílio de 1277, conclamado pelo bispo de Paris, Etienne Tempier, e pelo arcebispo da Cantuária, Robert Kilwardby, foi reforçada por uma crítica ainda mais forte, realizada pelos teólogos franciscanos nomalistas, como William de Ockham (1285-1349). Ockham, através do princípio da "Navalha de Ockham", derrubou a perspectiva aristotélico-muçulmana, fundamentando a lei natural e todos os valores éticos na vontade de Deus, não na necessidade metafísica ou nas formas. O defensor de Ockham, Pierre d'Ailly (1350-1420), influenciou Martinho Lutero e Zwinglio, levando a perspectiva de Ockham sobre a Bíblia para a Reforma Protestante e, assim, estimulando a ciência empírica.

O fato é que o empenho muçulmano no desenvolvimento do conhecimento e das tecnologias perdeu fôlego. O tipo de pesquisa científica que os maometanos desenvolveram entrou em declínio por  intermédio, principalmente, de mudanças políticas: o conhecimento floresceu em tempos de paz e prosperidade, vindo a enfraquecer quando os recursos foram canalizados para a defesa e a agricultura. A situação piorou quando os europeus requisitaram o Novo Mundo, aquecendo o comércio e a riqueza, levando os governantes muçulmanos a perder a sua proeminência global. Outra causa do declínio do conhecimento entre os maometanos se deu por seu sistema de organização social: os muçulmanos favoreciam, em suas escolas, a transmissão do conhecimento local, de um estudioso para o outro ou em pequenos grupos, estimulando a estabilidade. As universidades europeias, por sua vez, sustentavam o debate acadêmico, pautado no desafio e na subversão do conhecimento estabelecido, atividade que os maometanos ortodoxos tinham como herética, já que valorizavam a aprendizagem como meio de aperfeiçoamento espiritual.
Fontes: O Livro da Ciência, GloboLivros, 2014, pgs 13-14; Uma Breve História da Ciência, Ronei Clécio Mocellin, Nova Didática, 2000, pgs 34-35; Uma Breve História da Ciência, Patricia Fara, Fundamento, 2014, pgs 69-76; O Livro, Uma História Viva, Martyn Lyons, 2011, pgs 47-49; O Livro que Fez o Seu Mundo, Vishal Mangalwadi, Vida, 2013, pgs 277-281.

Conclusão:
É comum ouvir ou lermos que o cristianismo apenas obscureceu a ciência, atrasando-a, mas, como vimos, aconteceu justamente o oposto! A única civilização do mundo a ter desenvolvido por conta a ciência foi justamente aquela que orbitava entorno da Igreja e da Bíblia. Também é comum nos depararmos com o argumento de que os muçulmanos foram muito mais longe do que os cristãos no desenvolvimento científico e que, se não fosse o seu declínio, hoje estaríamos muito mais desenvolvidos, o que também não é verdade. É claro que a produção de tecnologias mais primitivas não necessariamente depende de uma visão de mundo pautada na ciência, mas muito do que temos hoje, que faz parte das nossas vidas diárias, é fruto direto de uma visão científica de mundo, que critica, que observa, que experimenta, que tem o mundo material como bom, útil, e dominável para o bem da própria natureza e do homem. A visão grego-islâmica de mundo não foi a causa do desenvolvimento tecnológico os maometanos, mas ela certamente limitaria avanços mais profundos se não fosse contestada e suprimida, na Europa, pela percepção bíblica de mundo. Bastaram apenas alguns séculos depois de a Palavra começar a ser lida e entendida literalmente para termos a ciência como "revolução", para presenciarmos o incrível momento histórico conhecido como Revolução Científica.

Leve na mente algumas questões sobre o artigo:
- Ao contrário do que muitos dizem, a filosofia grega provavelmente não levaria o homem aos avanços científicos que presenciamos na história dos últimos séculos.
- A Bíblia foi a peça fundamental para o esclarecimento, aperfeiçoamento e purificação do pensamento grego. O pensamento grego, por si só, não produziu ciência, pois ele se alastrou no mundo muçulmano e até a Índia e a ciência só veio a existir na Europa, onde havia uma forte tradição cristã.
- Os fundadores da ciência não a percebiam como fonte de autoridade para se descobrir a verdade sobre tudo. A teologia mantinha seu posto central no tratamento das "grandes questões" e a ciência se ocupava com as "pequenas", restritas mais ao funcionamento dos elementos e o seu domínio.

Natanael Pedro Castoldi

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Deus Foi Criado?

"Se tudo o que existe foi criado, quem criou Deus?" Quase qualquer um que tenha tirado algum tempo para debater com céticos se deparou com tal questionamento. Quem observa essa pergunta superficialmente, pode entendê-la como poderosa e, até mesmo, aterradora - colocando em xeque a própria fé. Mas a verdade é que esse argumento não passa pelo crivo de uma análise cuidadosa. Vejamos:

1º - A ciência respalda a noção de que o universo teve um início e que alguma coisa independente dele o fez existir:

É consenso no meio acadêmico e científico que o universo teve uma origem e que está se expandindo - o que está em conformidade com a segunda lei da termodinâmica. As evidências respaldam a origem do universo partindo do nada - é a criação ex nihilo de Gênesis 1. O fato é que as chances de alguma coisa passar a existir do vazio absoluto são nulas - a existência não pode brotar da inexistência, pois não há potencial no não-ser para que dele se origine o ser. Até o cético David Hume considerou isso um absurdo.

O que temos aqui? A ideia de que as coisas vieram a existir nalgum momento, partindo de Algo, não do vazio.

2º - Os cristãos rejeitam a afirmação de que "tudo o que existe tem uma origem", alegando que "o que quer que exista, tem uma origem":

Dizer que "tudo precisa de uma origem" naturalmente excluiria Deus, que não tem origem alguma. Tal afirmação tem por certo algo que ainda precisa de comprovação - ela supõe que, uma vez que toda a realidade é física (o que não pode ser demonstrado), um Deus que não é físico não pode existir. Nada além de suposições.

3º - Faz algum sentido pensar que tudo precisa de uma origem, se uma entidade sem origem é lógica e inteligível?

É interessante como, durante séculos, pensava-se no universo como algo eterno, sem origem, auto-existente - os próprio céticos viam nisso algo lógico e possível -, mas nas últimas décadas, evidenciada a origem do universo, outros céticos estão extrapolando ao afirmar que tudo precisa de uma origem.

Ora, se o universo teve uma origem, então ele veio de algo com potencial para gerá-lo, ou seja: superior a ele em todos os seus atributos. Infinito, atemporal e imaterial. A atemporalidade, por si só, exige a eternidade.

4º - Há muitas coisas sem origem:

As leis lógicas são reais - é impossível pensar com coerência sem usá-las (exemplo: a lei da identidade, X=X, diz: "este livro é este livro"). A leis morais também são reais (amor, justiça, entre outras). Todas elas são, mas nenhuma delas começou a existir - são eternas e sem origem, brotando da mente de Deus.

5º - A pergunta "quem criou Deus?", é uma falácia categórica:

Afirmar que todas as coisas precisam de uma origem é incoerente como perguntar sobre "qual sabor tem a cor verde". Não há motivos claros para alguém encontrar uma falha em Deus pelo fato de Ele não ter uma origem. A pergunta feita pode ser reescrita da seguinte forma: "O que fez existir a Origem que existe por si só, sem origem, a Origem que, por definição, não foi criada?" É evidente que o questionamento não se sustenta como argumento.
Fonte: Bíblia de Estudo Defesa da Fé, CPAD, 2010, pg 949, "Se Deus Criou o Universo, Quem Criou Deus?", artigo de Paul Copan.

A lei da Causa e Efeito afirma que nenhum efeito pode ser maior do que a sua causa, pois ela necessariamente precisa ter potencial para produzi-lo. Duas Leis da Termodinâmica afirmam que: nada se cria, tudo se transforma (ou seja, que nada no universo pode surgir do vazio), e que a energia sempre decai (ou seja, que o universo material não pode ser eterno). Isso significa que o universo teve uma origem, mas não do vazio absoluto - que ele veio a existir de uma existência superior, de outra qualidade, natureza, instância, uma Causa com potencial de produzi-lo em todas as suas características, uma Causa superior em todos os atributos. 

Se o universo veio de uma realidade de mesma qualidade que a dele, então não temos uma origem, mas apenas uma transformação de algo que, por sua vez, precisou originar-se - se essa causa também veio de uma realidade de mesma natureza, então essa tal realidade é que precisou ter tido uma origem. A questão é que a sequência de causas e efeitos não pode ser eterna, considerando duas coisas: o decaimento da energia e a impossibilidade de haver uma sequência infinita de eventos no tempo, pois se assim fosse, o presente momento nunca poderia chegar. Nalgum ponto, algo precisou ser efeito de uma causa superior, atemporal, infinita e imaterial, que não o vazio absoluto. É a essa Causa que chamamos de Deus - uma causa evidentemente intelectual e relacional (considerando a lei moral). 

Deus não pode ter tido uma origem, pois se isso acontecesse, Ele não seria Deus, mas criatura, efeito de uma causa superior - e essa Causa seria Deus. Ele não seria diferente de nós, estado sujeito às mesmas leis que a matéria. Se o que chamamos de Deus tivesse se originado de algo, esse Algo seria maior do que ele - e não seria possível haver uma sequência infinita de "deuses causa-efeito", com todos tendo origem, não havendo eternidade em nenhum. Uma sequência de eventos infinitos é incompatível com o tempo e com os seres temporais. Da mesma forma, se nenhum deles fosse infinito, imaterial e eterno, não seria possível que constituíssem uma sequência infindável de causas e efeitos por carência de energia, havendo, portanto, um começo definido, no qual um "deus" precisou, ou sair do vazio absoluto, coisa impossível, ou de uma Causa superior, imaterial, atemporal e infinita - e essa Causa, repito, seria o Deus em pessoa. Por ser eterna, o mesmo Deus que teria criado "os deuses", estaria presente hoje, sendo Deus sobre tudo e todos. Nesse caso, é mais coerente facilitarmos as coisas, considerando que o Deus Criador não criou deus criador algum, sendo Ele mesmo o eterno e inescapável Arquiteto do universo. Aqui somos obrigados, além de crer em Deus, a considerar o monoteísmo bíblico.

O próprio argumento de que "todas as coisas materiais precisam de uma origem" é evidência para um Deus auto-existente!

Natanael Pedro Castoldi

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Origens: A Religião

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De onde vem a religião? Da natureza ou de um mundo espiritual? Qual foi o primeiro tipo de religião? Existe uma religião primeira, que era a única a ser conhecida no primeiro núcleo da humanidade, e que ainda pode ser conhecida e encontrada dentro das religiões mais recentes? A resposta para tais questões é de grande relevância para quem deseja compreender melhor o ser humano e vislumbrar uma razão para existir. O que o entendimento sobre as bases mais primitivas da religião pode nos ensinar sobre Deus? Me acompanhe nessa jornada.

Índice: 1 - A religião não pode ter vindo da natureza; 2 - O monoteísmo foi a primeira experiência religiosa?; a - O conhecimento de Deus no paganismo da Antiguidade; b - O Deus Desconhecido; - Theos; - Zeus; - Logos; - El Elyon; - Alá; - Viracocha; - Thakur Jiu; - Magano; -  Koro; - Shang Ti e Hananim; 3 - O desastre da Antiguidade; 4 - A mitologia indica um passado comum; Conclusão.

1 - A religião não pode ter vindo da natureza:
Segundo C. S. Lewis, a religião chegou até nós por meio da descoberta - não se trata de algo que foi criado e que tenha evoluído ao longo da história humana. Para começar, a vida do ser humano nunca foi fácil - vivemos em um universo vasto, no qual reside a morte e o sofrimento e nós, humanos, parecemos especialmente orientados para sofrer, já que temos consciência e razão para prever e intensificar a dor. Uma análise fria do universo em sua atual configuração, partindo do testemunho de Lewis sobre como pensava enquanto ateu, não parece apontar para o amor e a bondade - mas os seres humanos, as criaturas com mais potencial para sofrer, vivendo em uma natureza agressiva e padecendo dos mais terríveis abusos, ainda assim insistem em sustentar a existência de uma divindade plenamente amorosa, tendo-a como criadora daquilo que existe, e reconhecem que deve-se praticar aquilo que é moralmente correto. Para além do "quero", o ser humano afirma que "deve". Pense nos judeus, um dos povos mais sofridos: são ex-escravos, foram atacados continuamente por imensos impérios, acabaram exilados, chegaram a perder suas terras, padeceram das maiores atrocidades já cometidas em guerras e, ainda assim, sustentam que o universo é produto de um Criador Perfeito. É lógico que, nesse caso, a religião não pode ter vindo da experiência humana e da observação do mundo! Mas de onde, então, ela veio?

Muitas pessoas defendem que a religião encontra sua fonte no medo da natureza, mas Lewis discorda: para ele, equiparar o medo do perigo físico ao medo do desconhecido é brincar com a palavra "medo". Existem diferentes categorias de medos: o medo natural, como o temor diante de um tigre, não é quantitativamente, mas qualitativamente distinto do medo que temos de fantasmas - o primeiro não poderia ter se transformado no segundo. Há os que afirmam que o medo de "tigres" evoluiu para o medo de fantasmas por meio da influência e do respeito por chefes tribais, mas isso não resolve a questão principal: de onde veio tal reverência? Imagine que há um tigre no cômodo ao lado e verifique que tipo de medo você sentirá. Agora imagine que há um fantasma... e agora imagine um fantasma ainda mais poderoso - o medo pela entidade pode ser chamado de "horror". Tal terror não está baseado em algo lógico, no conhecimento do potencial mortal do objeto de repulsa - o fantasma é temido por ser um "estranho", não um "perigoso". Podemos chamar isso de "Numioso", em referência ao aspecto irracional da religião. Um fato inquestionável é que o homem, por algum motivo, sempre acreditou que o universo fosse habitado por fantasmas - um lugar verdadeiramente assombrado.

O Numioso aparece em diversos relatos da nossa história, como quando o apóstolo João, no Apocalipse, caiu "como que morto" diante dos pés do Cristo ressurreto; no relato pagão de Ovídio, que retrata o bosque de Aventino como um "local assombrado", afirmando que "há uma presença ali"; na descrição de Virgílio do palácio de Latino, tido como "horrendo com os bosques e a santidade dos tempos antigos"; num fragmento de manuscrito atribuído a Ésquilo que descreve a terra, o mar e a montanha estremecendo sob o "terrível olho de seu Mestre." Por fim, um dos exemplos mais claros pode ser encontrado no testemunho de Jacó que, após uma visão celestial acorda em desespero, bradando: "Temível é este lugar!" O Numioso fascina o ser humano - é diferente parar para assistir um documentário de vida selvagem e um filme de terror. A fera selvagem está longe, mas a presença demoníaca perece estar para além da televisão. As pessoas sentem uma verdadeira e inexplicável atração pelo Numioso, pelo Estranho - sentem um arrepio na espinha, um frio na barriga e um nó na garganta, o ar fica pesado e a visão distorcida. É uma experiência verdadeiramente irreal e jamais poderia ter brotado do mesmo medo que temos da natureza, por mais grandiosa e desconhecida que ela possa ser - tal ocasião não é resultado de uma ideia, de uma má compreensão, mas uma experiência muitíssimo real e experimentada individual e coletivamente em diversos eventos ao longo da jornada humana por esse mundo. Como o homem imaginou seres sobrenaturais e como esses seres foram capazes de produzir tais sentimentos?

É provável que o assombro Numioso seja tão antigo quanto a própria humanidade - e mesmo que seja impossível determinar a sua origem, a questão é que esse sentimento veio a existir, acha-se difundido e não abandonou a mente humana mediante os avanços científicos. O que se sabe é que esse assombro não pode ser resultado de uma inferência do Universo visível - é impossível, partindo do simples perigo, desenvolver um argumento até chegar ao estranho, menos ainda ao Numioso pleno. 

O raciocínio de Lewis prossegue afirmando que a verdadeira origem da religião está plenamente situada no temor divino do sobrenatural - coisa que só os seres humanos possuem. Os seres humanos são as únicas criaturas do mundo que temem os próprios mortos - quando, como e por qual motivo esse medo veio a existir? De que forma os mortos atraíram esse sentimento peculiar? C. S. Lewis insiste na ideia de que o horror e o assombro pertencem a uma categoria distinta da do medo - "nenhuma descrição factual de qualquer ambiente humano seria capaz de incluir o estranho e o Numioso, nem sequer sugeri-los." Há apenas dois pontos de vista que podemos assumir acerca do espanto: ou ele é apenas uma peculiaridade da mente humana, que não corresponde a nada objetivo e que não serve para nenhuma função biológica (e estranhamente persiste em não desaparecer); ou verdadeiramente se trata de uma experiência direta com o sobrenatural. 

Devemos considerar que o Numioso não é moralmente bom - é mais provável que o ser humano, espantado, tenha o Numioso como algo "além do bem e do mal". É aqui que entra um outro aspecto fundador da religião: todos os seres humanos de todos os tempos reconhecem a existência de algum tipo de moralidade - a ideia de que "eu devo fazer algo" é semelhante ao Numioso pelo motivo de não existir nenhuma base natural para a sua existência. A moralidade, assim como o assombro, é um salto - aqui o ser humano vai além de qualquer coisa que possa ser mostrada pela experiência natural. Até podem haver distinções morais entre as diferentes culturas humanas, mas todas nutrem algo em comum: elas prescrevem um comportamento que as pessoas que o adotam não conseguem colocar em prática e, assim, todos os seres humanos reconhecem que estão condenados. Apesar disso, a experiência moral e a experiência Numiosa podem coexistir por muito tempo sem terem contato uma com a outra. Diversas culturas desenvolveram profundas filosofias e, ao mesmo tempo, mantiveram religiões tribais focadas em rituais propostos para suprimir o medo e apetecer a entidade.

O terceiro aspecto que se encontra na base das religiões está no fundir da experiência moral e da experiência numiosa: o Poder Numioso perante o qual sentem um assombro acaba se tornando o guardião da moralidade, gerando um grande senso de obrigação moral. Tal passo também não é óbvio, pois o verdadeiro comportamento de nosso universo, assombrado pelo Numioso, não guarda semelhança alguma com o comportamento que a moralidade exige de nós - o primeiro é implacável, devastador e injusto, enquanto o segundo impõe qualidades opostas. O Numioso já é aterrorizante, mas tê-lo como juiz, o impassível incentivador de um sistema moral impossível de cumprir plenamente, está para além de qualquer coisa que o ser humano pudesse sugerir ou desejar. Talvez essa seja a descoberta mais assustadora de toda a nossa história - como se o universo por si só já não fosse terrível o suficiente.

De todas as religiões, C. S. Lewis termina citando a única que dá o quarto passo que é, inclusive, um acontecimento histórico, tornando tudo mais aceitável: houve um homem nascido entre os judeus que afirmou ser o Algo que é ao mesmo tempo aquele que assombra de modo temível a natureza e quem fornece a lei moral. Sobre a figura de Cristo cabe falar noutra postagem.

A questão é que, para passar das religiões primitivas baseadas no medo para as religiões monoteístas mais sofisticadas (judaísmo, cristianismo e islamismo), deve ocorrer um salto qualitativo para o qual não há qualquer comando evolutivo. O verdadeiro monoteísmo só virá à tona quando Deus instilar em nós um temor espiritual que esteja unido ao Deus que tudo criou e que dirige a moralidade.

O que, por fim, deve ficar claro nesse primeiro tópico do estudo é que a origem primeira da religião precisa ser espiritual - a descoberta da religião, que despertou um interesse antinatural, precisou vir de fora da natureza. A posterior variedade de religiões pode ter vindo de experiências espirituais diversas e das menores variações nos conceitos morais - é claro que, uma vez sentido o Numioso e principiada a religião, muitos movimentos religiosos podem ter surgido como interpretações diferentes de experiências e ensinamentos anteriores. O fato é que o requisito básico para a existência de uma crença religiosa é a existência do sobrenatural que, por sua vez, só pode ser cogitado por ter se revelado primeiro - muitas religiões primitivas tomam base apenas nisso, realizando todo o tipo de ritual. A coexistência da moral e do numioso e o fundir da moralidade com o espanto podem ser passos posteriores, mas nunca se pode imaginar um pensamento religioso dissociado da experiência com o desconhecido.
Fontes: O Problema do Sofrimento, C. S. Lewis, Vida, 2013, pgs 17-31; Apologética Cristã Para o Século XXI, Louis Markos Ph.D., Central Gospel, 2013, pgs 34-35.

2 - O monoteísmo foi a primeira experiência religiosa?
É claro que existe uma lógica do Numioso, para o Numioso e moral separados e para os dois aglutinados, mas isso não necessariamente significa que a primeira experiência religiosa tenha se centrado apenas no Numioso - assim como a experiência com o Numioso pode, ainda hoje, produzir religiões destituídas de moral, orientadas apenas pelo medo. Uma vez que a religião precisou da revelação do sobrenatural, nada mais óbvio do que pensar que o próprio Deus tenha sido o primeiro a fazê-lo, acompanhando a aparição com uma revelação moral - bom, o próprio Gênesis pós-queda demonstra uma certa gradação na formação do judaísmo, tendo homens como Abraão e Jacó vivendo com a moral e o espanto parcialmente separados até que, preparado o povo, o próprio Deus pudesse dar o sofisticado passo que viera a fundir os dois, isso lá no Monte Sinai, por advento da entrega das Tábuas da Lei. A questão que fica é: "existe alguma evidência de que o próprio Deus tenha se revelado na mais longínqua antiguidade?" É possível argumentar nesse sentido, embora não se possa ter certeza. Apresentarei algumas evidências - tire as suas próprias conclusões.

a - O conhecimento de Deus no paganismo da Antiguidade:
Ao contrário daquilo que comumente se pensa, é possível interceptar um profundo conhecimento sobre Deus na Antiguidade Clássica. A ideia de um Criador Todo-Poderoso, Perfeito e Pai da humanidade aparece nos escritos de vários historiadores do mundo antigo e nos ensinamentos dos mais antigos filósofos. A concepção de Deus chegou a ser tão profunda em certos círculos pagãos, em particular no mundo greco-romano, que chegou a ter início uma controvérsia entre os que pregavam a lógica criacionista e os que procuravam evidências para uma espécie de materialismo - é surpreendente verificar a semelhança que há entre esses debates e os atuais, dados por criacionistas e evolucionistas. Verifique o seguinte dizer de Lao-tzé, proveniente da China do sexto século a.C.:

"Antes do tempo, e durante o tempo, tem existido um Ser com existência própria, eterno, infinito, completo e onipresente... Para além deste Ser, antes do início, não havia nada."
Fonte: Lao-Tzé. Teo-te-ching, tr. Léon Weiger. Versão inglesa por Derek Bryce. 1991. Llanerch Publishers. Lampeter. p. 13.

É óbvio que Lao-tzé refletiu sobre o tema sem ter tido influência do livro do Gênesis. Na verdade, considerando os dizeres de diversos outros filósofos pagãos da antiguidade, não é preciso sugerir que o livro do Gênesis tenha sido necessário para a produção de tais convicções - elas simplesmente existiam, de alguma forma, preservadas em diversas culturas do mundo, como se toda a humanidade encontrasse bases numa religião primordial. Mas, assim como ocorre hoje, tal perspectiva tinha os seus inimigos, como Kuo-Hsiang, oponente das ideias de Lao-tzé:

"Aventuro-me a perguntar se o Criador existe ou não. Se não existe, como poderia criar as coisas? ... A criação das coisas não obedece a qualquer Senhor; tudo se cria por si mesmo."
Fonte: Clarke, John. 1993. Nature in Question. Earthscan. p. 24.

A verdade é que exceções assim acabam confirmando a regra: para que a existência do Criador seja negada por um filósofo, ela primeiramente deveria ter sido exposta por outro. No caso de ter sido exposta antes de questionada, de onde teria vindo esse conhecimento? Não das Escrituras e nem de missionários - mesmo sendo imperfeito, o conhecimento de Deus estava bastante vivo entre os povos pagãos da Antiguidade, segundo Bill Cooper B. A. Hons, "somente poderia ter-se fundamentado sobre um corpo de conhecimentos que houvesse sido preservado entre as raças antigas a partir de um determinado ponto na história". Segue um antigo texto de Hierápolis, no Egito:

"Eu sou o criador de tudo o que existe... que surgiu a partir de minha boca. Os céus e a terra não existiam, nem tinha sido criada a erva do campo nem as coisas que rastejam. Eu as fiz surgir do abismo primordial, a partir de um estado de não existência..."
Fonte: Paráfrase de Bill Cooper B. A. Hons da tradução literal de Wallace Budge em The Gods of the Egyptians. Vol. 1. Dover. New York. 1969. pp. 308-313.

A verdade é que não existe nenhum registro de que, em algum momento, o ponto de vista acima retratado tenha sido questionado no Egito antigo. Não parece ter havido um debate. Fica evidente uma consciência razoavelmente comum de que o Egito já havia experimento o monoteísmo e que traços do mesmo ainda residiam no seu famoso politeísmo - na tentativa de remover o entulho de mitologias e superstições que havia sido depositado por sobre a ideia de um Criador, o faraó Aknhathon procurou persuadir todo o Egito de que havia somente uma única divindade e não as muitas que os egípcios adoravam, coisa que, porém, não era um conceito ateísta ou materialista que pudesse negar a posição e a realidade de um Criador. A mesma ausência de ateísmo e materialismo se dá tanto na Mesopotâmia quanto no Israel antigo (exceto pelo Salmo 14:1), o que evidencia o quanto a visão de mundo criacionista era forte no Crescente Fértil. A verdade é que a grande maioria das culturas do mundo antigo (das quais temos algum registro escrito) nutria um abrangente consenso de que o universo havia sido criado por uma única divindade, usualmente suprema - isso se dá até mesmo em culturas politeístas. Além disso, cada cultura nutria a visão de um Criador destituído de perversidade - coisa que também ocorre nas culturas que floresceram em ambiente pagão agressivo e pervertido. Verifiquemos o dizer de Hesíodo na sua "Teogonia", oitavo século a.C.:

"Antes de tudo veio à existência o Vazio... em seguida, a Terra. ... Do Vazio veio a escuridão... e da Noite veio a Luz e o Dia..."
Fonte: Hesíodo. Thogony. tr. Norman Brown. 1953. Bobbs-Merril Co. New York. p. 15.

O relato de Hesíodo se assemelha ao Gênesis, embora evidentemente não encontre bases nele, visto que ele tem uma visão envilecida do Criador. Tal percepção também era compartilhada por Xenófanes, cerca de dois séculos depois de Hesíodo:

"Homero e Hesíodo deram aos deuses todos os atributos que entre os homens são vergonhosos e censuráveis - roubo, adultério e mentira. ... [Porém] existe um Deus, maior entre os deuses e homens, não semelhante aos mortais quer em forma quer em pensamento... que vê como um todo, pensa como um todo, ouve como um todo. ... Ele permanece sempre no mesmo estado, sem qualquer mudança... E longe de se fadigar, governa tudo com sua mente."
Fonte: Barnes, Jonathan. 1987. Early Greek Philosophy. Penguin Classics. Harmondsworth. p. 42.

O interessante é que Xenófanes, conhecedor do nome de todos os deuses gregos, evitou nomear ou identificar o Deus de quem então falava. Não se tratava de Hermes ou Ares. A mesma ideia de um Criador inefável permeou o pensamento de Platão, conforme se percebe no dizer que segue:

"Ressaltemos, portanto, a razão pela qual o grande modelador desde universo dinâmico realmente o modelou. Ele era bom, e o que é bom não possui em si qualquer partícula de cobiça; sendo, portanto, isento de cobiça, ele desejada que todas as coisas fossem tão semelhantes a ele quanto possível. É este um princípio válido para a origem de um mundo dinâmico tanto quanto podemos descobrir a partir da sabedoria humana..."
Fonte: Platão. Timaeus and Criteas. tr. Desmond Lee. 1965. Penguin Classics. Harmondsworth. p. 42.

É interessante perceber aqui outra semelhança com Gênesis: "E viu Deus que era bom". Também é observável que Platão tinha descoberto este conceito no discernimento de filósofos anteriores a ele - sem dúvida ele tomava bases em conceitos filosóficos bem anteriores aos de Hesíodo, além de serem mais profundos. Partindo de Platão, a visão criacionista de mundo ganharia ares mais lógicos e "científicos", sempre atestando para um único Criador. Tales de Mileto (625-545 a.C.) é o responsável por outra forte declaração:

"Das coisas existentes, Deus é a mais antiga - pois ele não é gerado. O mundo é a mais bela, pois é criação de Deus... A mente é a mais veloz, pois tudo perscruta."

Segue uma outra reflexão, pronunciada por Crísipo (280-207 a.C.):

"Se existe algo na natureza que a mente humana, a inteligência, a energia e a força humanas não podem criar, então o criador dessas coisas deve necessariamente ser um ente superior ao homem. Os corpos celestes em suas órbitas eternas certamente não poderiam ser criador pelo homem. Eles, portanto, devem ter sido criados por um ser superior ao homem. ... Somente um tolo arrogante imaginaria que nada houvesse no mundo todo maior que ele próprio. Logo, deve existir algo maior do que o ser humano. E esse algo deve ser Deus."

É estranho como o pensamento grego pôde chegar nesse patamar, indo das reflexões mais grotescas de Hesíodo para a simplicidade e profundidade de Crísipo - consideremos que o cristianismo ainda não tinha nascido e que a sua influência sobre o pensamento grego só seria perceptível séculos no futuro. Alguns sugerem que isso tenha se dado através da influência de judeus helenizados, mas Bill Cooper contesta: aparentemente o primeiro contato dos gregos com o judaísmo se deu em 587 a.C., quando mercenários gregos participaram do exército de Nabucodonozor durante o ataque a Jerusalém - é lógico que junto com os mercenários havia um contingente civil menor que, sem dúvida, deve ter ocupado o tempo livre com longas horas de conversa e reflexão, porém, ver nisso uma possibilidade de aceitação do judaísmo está fora dos limites do aceitável: os judeus eram vistos com muito desprezo pelos gregos, isso de tal forma que se viram obrigados a aceitar a cultura grega para sobreviver. Um marcante exemplo dessa hostilidade reside em Antíoco IV Epifânio (175-163 a.C.), que perseguiu os judeus e procurou erradicar o judaísmo da face da Terra. Outro fator que inviabiliza a influência judaica sobre o pensamento grego está na tardia tradução da Torá para o grego, dada em 250 a.C., dezessete anos antes de Crísipo se tornar o condutor da escola estóica  - desse modo, a notável tradução do Gênesis para o grego se deu 58 anos depois da fundação da escola estóica, 308 a.C., e, portanto, o estoicismo nenhuma relação teve com o livro de Gênesis. Sua percepção de Deus foi independente - resta saber de onde foram tiradas as suas ideias.

Seguindo a linha de raciocínio do estoicismo acerca do criacionismo, Cícero, um estóico posterior, é o autor dos surpreendentes parágrafos que seguem:

"Ao observarmos um gnomon (relógio de sol) ou uma clepsidra (relógio hidráulico), vemos que eles indicam o tempo de maneira propositada, e não por acaso. Como podemos imaginar, então, que o universo como um todo seja destituído de propósito e inteligência, ao abarcar tudo, incluindo esses próprios artefatos e seus artífices? Nosso amigo Possidônio, como sabemos, recentemente elaborou um globo que, em seu movimento de rotação, mostra o movimento do Sol, das estrelas e dos planetas, dia e noite, exatamente como eles aparecem no céu. Ora, se alguém tomasse esse globo e o mostrasse aos habitantes da Bretanha ou da Cítia, algum desses bárbaros deixaria de perceber que ele era o produto de uma inteligência consciente?"

"Nos céus nada há de acidental, nada arbitrário, nada fora de ordem, nada errático. Tudo é ordem, verdade, razão, constância... Não posso compreender essa regularidade das estrelas, essa harmonia do tempo e do movimento em suas imensas órbitas durante toda a eternidade, a não ser como a expressão da razão, mente e propósito... O seu movimento constante e eterno, maravilhoso e misterioso em sua regularidade, declara o poder inerente de uma inteligência divina. Se algum homem não pode sentir o poder de Deus ao olhar para as estrelas, então duvido que seja capaz de qualquer outro sentimento também."

"Não é, realmente surpreendente alguém pôr-se a acreditar que um número imenso de partículas sólidas e separadas, pudesse, mediante colisões aleatórias, e movidas tão somente pela força de seu próprio peso, trazer à existência um mundo tão belo e maravilhoso? Se alguém pensa que isso é possível, não vejo porque também não pensar que, se um número infinito de letras, dentre as vinte-e-uma do alfabeto, feitas de ouro ou de que quer que seja, fosse misturado e lançado no chão, pudessem elas cair de tal maneira que formassem, por exemplo, o texto completo dos 'Anais' de Ênio. De fato, duvido que o acaso permitisse que as letras formassem seque um único verso dos 'Anais'!"

Podemos citar ainda outro indivíduo da Antiguidade, Lucílius que, sem a ajuda de nenhum cristão ou judeu, atribuiu o universo ao trabalho e manutenção de um Criador que "é, conforme afirma Ennius, o pai tanto dos deuses como dos homens, um Criador presente e poderoso. Se alguém duvidar disso, tanto quanto posso discernir, poderia também duvidar igualmente da existência do Sol. Pois ambos são igualmente evidentes. E se isso não fosse claramente percebido e manifesto à nossa inteligência, a fé dos homens não teria permanecido tão constante, não se teria aprofundado com o correr do tempo, e jamais teria se enraizado tão firmemente através dos séculos em todas as gerações humanas."
Fontes: Uma Outra História das Religiões, Odon Vallet, Globo, 2002, pg 20; Depois do Dilúvio, Bill Cooper B. A. Hons, SCB, 2008, pgs 13-27.

b - O Deus Desconhecido:
No livro "As Vidas de Filósofos Eminentes", de Diógenes Laércio, autor grego do terceiro século d.C., há um estranho relato sobre o famoso profeta Epimênides: num passado realmente distante, Atenas estava sendo julgada por uma terrível praga. Temendo que tal peste fosse resultado de um pecado que tivesse sido cometido contra algum deus, o povo sacrificou para todos os deuses, mas o mal não deixava a cidade. Então, por recomendação do Oráculo, Epimênides, um estrangeiro de Creta, foi chamado - um deus que não estava presente em todo o panteão grego precisava ser apaziguado pelo profeta. Tomando um rebanho de ovelhas pretas e brancas e soltando-o do topo da Colina de Marte, o estrangeiro desejou dar uma oportunidade para que o "Deus Desconhecido" se revelasse - a ideia era que cada lugar onde uma ovelha deitasse fosse marcado e, entendendo que as que se deitassem eram do agrado desse Deus, sacrificaria cada uma delas. Como era normal que as ovelhas se deitassem fora do horário habitual em que pastavam, o experimento se deu de manhã bem cedo, quando elas estavam todas famintas. As que deitaram foram sacrificadas diante de altares sem nome, erigidos especialmente para a ocasião. A praga abandonou a cidade. Mas quem era esse "Deus Desconhecido"? Seis séculos depois, o Apóstolo Paulo, encontrando um altar remanescente desse evento enquanto visitava Atenas, pregou o Deus de Israel - como vimos anteriormente, os gregos já estavam familiarizados com a ideia de um Deus Eterno e Criador, interpretado pelo Apóstolo como sendo o próprio "Deus Desconhecido".

É interessante que, quando Paulo cita uma poesia de Epimênides em Tito 1:12-13, chama-o de "profeta"!

Diógenes Laércio menciona que "em diferentes partes da Ática podem ser vistos altares sem qualquer nome gravado, servindo de memoriais para esta expiação". Dois outros escritores da Antiguidades - Pausânias e Filostrato - referem-se a "altares a um deus desconhecido", sugerindo que havia tal inscrição neles.

- Theos:
A pregação de Paulo em Atenas, registrada em Atos 17, é singular não somente pela raiz histórica no profeta Epimênides, mas também pela palavra usada para referir-se ao Criador: "Theos". Os gregos conheciam esse termo, mas não o empregavam para uma entidade específica, embora os filósofos possam ter sabido que Xenófanes, Platão e Aristóteles tenham usado "Theos" como um nome pessoal para um Deus Supremo. Tal termo foi tomado pelos tradutores da Septuaginta para referir-se à Elohim, pois era a única palavra grega direcionada à divindade que ainda guardava a pureza monoteísta: "Zeus" foi rejeitado, pois ele era filho de dois outros seres. O espanto dos gregos com a pregação de Paulo, afirmando que ele pregava "deuses desconhecidos", deve ter se dado ao emprego do nome "Jesus", não "Theos".

Aqui há algo surpreendente: Paulo afirma que o nome do "Deus Desconhecido" é Theos, o mesmo termo que os grandes filósofos gregos já tinham utilizado!

- Zeus:
Agora faça um exercício de comparação: Deus -> Theos -> Zeus. Fica evidente que as três palavras possuem a mesma raiz. Os três nomes começam com consoantes (Z, D e Θ -Th) que exigem que a ponta da língua esteja entre os dentes ou imediatamente por trás deles; eles três destacam o que os linguistas chamam de "vogal e média, aberta", no segundo espaço; os três nomes possuem no terceiro espaço as vogais "o" ou "u", "posteriores fechadas"; eles três possuem no quarto espaço o "s"; e todos eles partilham de um sentido semelhante.

O fato é que antes de o latim e o grego se separarem em línguas distintas, provavelmente "Deos" era o nome da Pessoa Divina. Com o passar do tempo, as seitas começaram a criar deuses menores, dando-lhes nomes pessoais, cada uma afirmando que a sua divindade era, na verdade, "Deos". Aos poucos, as mudanças de pronúncia levaram um grupo a utilizar "Deus", outro a falar "Θeos" e um terceiro a pronunciar "Zeus" - esses termos passaram a significar "deus" e não mais "Deus". Quando Platão, Xenofonte e Aritóteles procuraram inverter a tendência para a generalização, retornaram o uso de "Theos". "Zeus", uma terceira variação do "Deos" original, também sobreviveu à generalização, sendo utilizado como um nome pessoal específico - Epimênides utilizou "Zeus" como referência ao Deus Todo-Poderoso numa outra parte do mesmo poema que Paulo citou em Tito.

O problema com o uso de "Zeus" começou depois de Epimênides. Ao longo dos séculos os teólogos gregos manipularam o nome pessoal do todo-poderoso ("Zeus"), introduzindo significados inconsistentes com o conceito original. Esses teólogos passaram a sugerir que Zeus tivesse sido gerado por Kronos e Rhea e, fazendo isso, desqualificaram a palavra como indicadora da divindade eterna, auto-existente e onipotente. Como "Zeus" se tornou inutilizável, o termo "Theos" foi favorecido tanto pelos filósofos gregos já citados, quanto pelos judeus e cristãos.

- Logos:
O Apóstolo João chama Cristo de "Logos", o termo favorito dos estoicos. Heráclito usou pela primeira vez esse termo em 600 a.C., a fim de designar a razão ou plano divino que coordena um universo em mudança.

Fazendo uso das palavras "Theos" e "Logos" para referir-se a Elohim e Jesus, o cristianismo evidenciou-se como uma resposta aos anseios milenares dos gregos, não como algo proposto para arruinar a sua filosofia.

- El Elyon:
Quando Abraão, chamado por Deus, se aproximou de Salém, que posteriormente se tornou Jerusalém, foi recebido por Melquisedeque, seu rei. Era o "rei da justiça" que governava o "fundamento da paz", conforme os significados de "Melquisedeque" e "Jerusalém". O local foi identificado por Josefo como "vale de Salé", que é "vale do Rei", provavelmente uma homenagem ao próprio Melquisedeque. A questão é que o rei de Salém foi descrito como "sacerdote do El Elyon" - Deus Altíssimo. Quem poderia ser esse "Deus Altíssimo"? "El" e "Elyon" eram nomes cananeus para o próprio Javé - "El" foi bastante usado pelos hebreus descendentes de Abraão (Betel, El Shaddai e Elohim). Elohim, por sua vez, é uma forma plural de "El", cujo significado é misterioso. O termo "Elyon" aparece também em textos fenícios como um nome para Deus - o fenício é uma ramificação posterior da língua cananeia. A expressão chega a aparecer até numa antiquíssima inscrição aramaica encontrada na Síria.

Abraão provavelmente conhecia Deus como "Yahweh", não "El Elyon", mas o fato é que ele não protestou com Melquisedeque por este ser sacerdote de "El Elyon" - na verdade ele até deu o dízimo para Melquisedeque, posteriormente chamado de "grande profeta" na Carta aos Hebreus. A Bíblia, por sinal, considera Melquisedeque um autêntico profeta de Deus, da ordem sacerdotal da qual o próprio Cristo pertenceria - Sl 110:4.

Assim como Paulo aceitou "Theos" e João utilizou "Logos", Abraão reconheceu "El Elyon". A passagem em questão mostra claramente que havia um rei na Palestina que era sacerdote do Deus Altíssimo - isso é estranho, pois a tradição nos diz que todo o culto ao Verdadeiro Deus se iniciou com Abraão! Há mais de 4 mil anos, portanto, havia gente cultuando o Deus judaico-cristão. Aquilo que aconteceu com Melquisedeque também se repete com Jetro, sogro de Moisés, o que nos leva a pensar que houve uma classe de sacerdotes que, mesmo sem ter tido contato com a mensagem revelada ao patriarca Abraão, exaltava o Único Deus, como se fossem remanescentes de uma tradição religiosa mais antiga.

- Alá:
"Alá" é o equivalente árabe para "El" e "Elohim". Significa "O Deus". "El" -> "Elohim" -> "Alá". Tudo leva a crer que o termo que Maomé utilizou para denominar o seu único Deus encontra a sua raiz nos citados nomes para o Criador utilizados no Antigo Testamento.

- Viracocha:
Pachacuti, rei inca entre 1438 e 1437 d.C., foi o responsável por levar o Império Inca ao apogeu. Esse rei era um homem bastante culto e religioso - adorava o maior dos deuses, Inti, o sol. Porém, como descoberto em 1575 na cidade de Cuzco por Cristobel de Molina, colecionador de diversos hinos incas, ao analisar o trabalho de um cronista índio chamado de Yamqui Salcamayagua Pachacuti, o culto ao Deus-Sol teve os seus questionadores, sendo um deles o próprio rei já citado que, na sinceridade de louvar ao maior dos deuses, percebeu que Inti não preenchia os requisitos. Segue o comentário de Philip Ainswrth Means sobre o caso:

"Ele ressaltou que esses corpos luminoso segue sempre um caminho determinado, realiza tarefas definidas e mantém horas certas como as de um trabalhador (...) a radiação solar pode ser diminuída por qualquer nuvem que passe". Ora, se Inti é o "grande Deus", então como ele é obrigado a seguir um sistema e qualquer nuvem pode bloquear sua luz? O rei percebeu que sempre adorara um objeto e não o Criador. Foi então que, procurando entre as antigas tradições de sua própria cultura, Pachacuti encontrou uma divindade quase extinta da memória popular: Viracocha - o Senhor, o Criador onipotente. Somente havia restado um santuário inca para Viracocha. O culto ao Deus Criador Viracocha era, sem sombra de dúvidas, antiquíssimo - a adoração de Inti e outros deuses não passava de desvios recentes de um sistema de crença original mais puro. Don Richardson afirma que "Viracocha teve representantes proeminentes nas culturas indígenas 'desde o Alasca à Terra do Fogo'".

O dr. B. C. Brundage, Universidade de Oklahoma, EUA, resume aquilo que Pachacuti descobriu sobre Viracocha e deixou registrado: "Ele é antigo, remoto, supremo e não criado. Também não necessita da satisfação vulgar de uma consorte. Ele se manifesta como uma trindade quando assim deseja,... caso contrário, apenas guerreiros e arcanjos celestiais rodeiam sua solidão. Ele criou todos os povos pela sua 'palavra', assim como todos os huacas (espíritos). Ele é o Destino do homem, ordenando seus dias e sustentando-o. É, na verdade, o princípio da vida, pois aquece os seres humanos através de seu filho criado, Punchao (o disco do sol, diferente de Inti). É ele quem traz a paz e a ordem. É abençoado em seu próprio ser e tem piedade da miséria humana. Só ele julga e absolve os homens, capacitando-os a combater suas tendências perversas." Diante de tais esclarecimentos, o imperador determinou que as orações só deveriam ser dirigidas a Viracocha.

Pachacuti estava realizando uma verdadeira reforma religiosa no Império Inca, planejando conquistar as massas aos poucos, quando os espanhóis chegaram e anularam o serviço. O fato é que havia uma vaga profecia inca que afirmava que futuramente "Viracocha lhes traria bênção do Ocidente" - esperava-se missionários e não conquistadores. Aparentemente, assim como o Antigo Testamento preparou os judeus para Cristo, a tradição acerca de Viracocha serviria para preparar os Incas para o Evangelho.

- Thakur Jiu:
Quando o missionário norueguês Lars Skrefsrud, e seu colega, Hans Borreson, se puseram, tendo aprendido o idioma local, a evangelizar o povo santal, ao norte de Calcutá, Índia, em 1867, um dos sábios nativos comentou: "O que este estrangeiro está dizendo deve significar que Thakur Jiu não se esqueceu de nós depois de tanto tempo!" "Thakur" significa "verdadeiro" e "jiu", "Deus". Thakur Jiu é o mesmo que "Deus Verdadeiro", cujas características logo fizeram com que o povo santal  o associasse ao Deus pregado pelos missionários.

Segundo os estudos realizados por Lars e Hans, o conhecimento de Thakur Jiu era antiquíssimo e havia sido passado de geração em geração. Segundo as histórias do povo santal, Thakur Jiu, há muito tempo, criou o primeiro homem e a primeira mulher e colocou-os na terra de Hihiri Pipiri, onde foram tentados por um ser chamado Lita - depois de terem caído na tentação, eles descobriram que estavam nus e se envergonharam. As gerações posteriores se corromperam e negaram o chamado de retorno de Thakur Jiu, assim o Deus Verdadeiro escondeu um casal santo numa caverna no alto do monte Harata (note a semelhança com "Ararate") e eliminou o restante da humanidade. Os descendentes desse casal se multiplicaram e Thakur Jiu os dividiu e espalhou - um dos povos ali formados migrou pelas florestas e planícies, até ficarem presos diante de uma barreira de montanhas. Desanimados, aos poucos perderam a fé em Thakur Jiu, vendendo-se aos espíritos das montanhas, o que posteriormente os levou à prática da feitiçaria e até da adoração ao sol, mas não chegou a apagar completamente o nome de Thakur Jiu. Segundo as informações, os santal haviam migrado do monoteísmo para o politeísmo.

Quando Lars começou a utilizar o nome "Thakur Jiu" como uma referência a "Theos", entendendo que o termo era compatível com o Deus bíblico, a sua missão entre os santal prosperou imensamente.

- Magano:
Na região centro-sul da Etiópia milhões de pessoas compartilham da crença num ser benévolo chamado Magano, o Criador onipotente de tudo o que existe. Uma das tribos da região se chama Darassa e é parte do povo gedeo. Percebendo que aquela população, mesmo crendo num Deus soberano, se preocupava mais em livrar-se de Sheit'an, um ser maligno, Albert Brant questionou: "Vocês consideram Magano com tanta reverência, mas rendem sacrifícios a Sheit'an, por que isso?" A resposta que recebeu foi simples: eles não tinham comunhão suficiente com Magano para render-lhe culto.

Algum tempo antes, Warrasa Wange, um nativo, decidiu deixar de viver em função da luta contra Sheit'an e a se ocupar com Magano, a quem orou para que se revelasse ao seu povo. A resposta de Magano veio rapidamente: ele enviaria dois homens brancos para falar-lhes (me desculpe, caso você tenha caucasofobia). Algum tempo depois, em 1948, para encurtar a história, os missionários Albert Brant e Glen Cain chegaram à região. Os frutos das missões que disso principiaram são evidentes até hoje.

-  Koro:
"Koro" é o nome que recebe o Criador na língua banto da África. Foquemos nossa atenção na tribo banto dos mbaka, na República Centro-Africana: o missionário Eugene Rosenau, Ph.D., estranhou a prontidão com que os mbaka aceitaram o Evangelho e, questionando-os, se surpreendeu. O que, afinal, os tocou tanto? Eis a resposta que ouviu:

"Koro, o Criador, enviou uma mensagem a nossos antepassados há muito tempo, dizendo que Ele já mandara seu Filho realizar uma coisa maravilhosa em favor de toda a humanidade. Mais tarde, porém, nossos ancestrais afastaram-se da verdade sobre o Filho de Koro. Com o tempo, eles até esqueceram o que Ele havia feito pela humanidade. Desde a época do 'esquecimento', gerações sucessivas de nosso povo desejaram descobrir a verdade sobre o Filho de Koro. Mas tudo o que pudermos saber foi que mensageiros finalmente viriam para repetir esse conhecimento esquecido. De alguma forma, sabíamos também que os mensageiros provavelmente seriam brancos..." - Quem tem caucasofobia pode ficar tranquilo: dessa vez a vinda de brancos era apenas uma probabilidade.

Quando Eugene descobriu que o povo de uma aldeia chamada Yablangda era o "guardador das tradições de Koro", seguiu para lá. 75 a 90 por cento de todos os pastores africanos treinados por Eugene e sua equipe vieram dessa grande aldeia.

- Shang Ti e Hananim:
Para os chineses, Shang Ti é o Senhor do Céu - perceba a semelhança com "Shaddai". Na Coreia esse Deus é conhecido como Hananim, "O Grande". Shang Ti/Hananim é anterior ao confucionismo, taoísmo e budismo - segundo a Enciclopédia de Religião e Ética, a primeira referência a qualquer tipo de crença religiosa chinesa refere-se a Shang Ti e o aponta como o único Deus, isso por volta de 2600 a.C., dois mil anos antes do confucionismo!

Também é interessante perceber que havia, desde o início, uma compreensão entre os chineses e coreanos sobre a proibição de representar Shang Ti e Hananim por ídolos. O culto ao Criador, Shang Ti, parece ter sido realizado livremente na China até o começo da dinastia (1066-770 a.C.), quando seus traços de amor e misericórdia começaram a ser esquecidos, chegando ao ponto de somente o Imperador ser tido como digno de adorá-lo - e isso só uma vez por ano. Shang Ti, então, ficou virtualmente sem adeptos entre os chineses, dando espaço para a materialização de três religiões inteiramente novas e que vieram do nada, desejosas por preencher o vazio religioso - falo do confucionismo, do taoísmo e do budismo.

Muito mais tarde, Kublai Khan, fascinado com o que aprendera sobre o Evangelho com Marco Polo, pediu ao Papa para que enviasse missionários para o seu império, objetivando espalhar as boas novas de Jesus a todos os habitantes - o Papa demorou para responder e, quando respondeu, muitos dos missionários enviados acabaram morrendo ou desistindo da jornada. Convencido de que o monoteísmo era superior à idolatria, Khan, então, recorreu ao islamismo e é por isso que muitos mongóis se tornaram muçulmanos.

Sobre o uso de Hananim para o evangelismo, temos uma interessante observação feita em 1890:
"O nome Hananim é tão destacado e tão universalmente usado que não precisamos temer, em futuras traduções e pregações, os conflitos inconvenientes, ocorridos há muito tempo, entre missionários chineses a respeito do assunto, embora os romanistas tenham introduzido o nome que empregam na China." Hananim foi usado - hoje 10 novas igrejas são abertas diariamente na Coreia do Sul!
Fontes: O Fator Melquisedeque, Don Richardson, Vida Nova, 2013, pgs 13-75; Uma Outra História das Religiões, Odon Vallet, Globo, 2002, pg 92.

Recomendo que você veja o que o arqueólogo e teólogo Rodrigo Silva tem a dizer sobre as origens do monoteísmo - Programa Evidência, TV Novo Tempo, publicado no dia 1º/06/2014 no youtube.com, sob o título "EVIDÊNCIAS - As Origens do Monoteísmo":
3 - O desastre da Antiguidade:
Se com base em um relativamente pequeno número de documentos e testemunhos conseguimos interceptar uma possível religião fundamental para a humanidade, refletindo a revelação pessoal de Deus nos primórdios, imagine quanto mais poderíamos saber se as grandes bibliotecas da Antiguidade tivessem sobrevivido ao desastre! Um exemplo claro está na destruição da famosa Biblioteca de Alexandria, no Egito, que tinha centenas de milhares de documentos recolhidos em todo o mundo conhecido. Outro triste evento se deu com a ordem do imperador chinês Chin Shih Huang Ti para que todos os livros escritos antes dele fossem destruídos - isso aconteceu em 212 a.C. O conhecimento escrito dos maias também foi quase completamente aniquilado quando os espanhóis puseram os pés em Yucatán.
Fonte: A Incrível Tecnologia dos Antigos, David Hatcher Childress, Aleph, 2013, pgs 18-21.

4 - A mitologia indica um passado comum:
Para finalizar, consideremos as mitologias dos povos antigos: há diversas temáticas e contos comuns em povos do mundo inteiro e de toda a história, como se uma memória coletiva dos primeiros eventos tivesse sido preservada e sido levemente alterada com o tempo. Sobre isso, leia o artigo "As Mitologias Indicam Um Passado Comum?"

Conclusão:
Com base em toda a vasta pesquisa aqui publicada, podemos concluir que a religião só pode ter brotado de uma experiência concreta com o sobrenatural e que provavelmente a religião mais antiga experimentada pela humanidade foi o monoteísmo, persistindo em monolatrias, em tradições comuns espalhadas pelo mundo e nos monoteísmos que conhecemos hoje. Tal antiquíssima, pura e profunda visão religiosa só pode ter sido experimentada pelo ser humano através da revelação do próprio Deus Verdadeiro - eis uma prova poderosa de que Deus existe!

Natanael Pedro Castoldi

Leia também:
- Origens: A Moralidade Humana
- A Origem do Judaísmo e a Conquista de Canaã
- Primórdios: Autoria da Torá, Idade do Universo e Dilúvio

Grandes Textos Para Grandes Temas - Introdução e Índice

Embora a proposta do EOMEAB seja transmitir o conhecimento apologético de modo breve e fácil, achei que seria desperdício não aproveitar esse veículo para publicar alguns de meus textos mais antigos sobre temas relevantes da teologia, muitos deles escritos nos tempos do seminário, como fruto das reflexões imediatas e das conversas e debates. Esses textos vieram como resultado de questões que vinha pensando com mais cuidado desde 2010 e serviram como base para os trabalhos aqui publicados sob o título de "A Simplicidade do Cristianismo". Todos os trabalhos dessa série, escritos entre 2011 e 2012, receberão a marca "Grandes Textos" antes do título específico, para que o leitor saiba mais rapidamente que se trata de uma obra mais longa. Uma outra observação interessante: os textos publicados são resultado direto de eventos e necessidades de minha vida, de modo que suas introduções poderão causar estranheza, já que apontam para eventos e circunstâncias de difícil entendimento - eu tinha o meu primeiro blog quase como um diário de teologia, filosofia, ciência, psicologia e outras questões, já que depositava nele, sem pensar muito, tudo o que de melhor me vinha. Espero que o leitor goste.

Os "grandes textos" abordarão temas variados, como a existência de Deus, a origem do Mal, o juízo de Deus, atributos divinos e sobre a natureza do cristianismo.

- A Origem do Mal
- As Fontes de Deus
- A Existência de Deus
- Deus Existe
- O Perfeito Precisa Existir, 1
- O Perfeito Precisa Existir, 2
- O Deus Misterioso
- Sinto, Logo Deus Existe
- O Isolamento de Deus e a Descrença
- A Veracidade do Novo Testamento
- O Deus Evidente
- O Amor Cristão

Natanael Pedro Castoldi

A Trindade na Bíblia

Muito se tem discutido sobre a natureza de Deus nos últimos... milênios! A discordância prossegue com a mesma energia de sempre. Como resolver essa questão? O que a Bíblia realmente deixa evidente?! O objetivo dessa breve postagem está em esclarecer o máximo possível esse tema, ajudando no debate com aqueles que usam da Trindade como pretexto para desprezar o cristianismo ("triteísmo") e com aqueles que insistem apenas na divindade do Pai. Analisemos, portanto, as passagens bíblicas sobre o assunto, juntamente com algumas reflexões:

-A unidade de Deus no Antigo Testamento: Deuteronômio 6:4; Isaías 44:6, 8 e 45:5.
-A pluralidade de Deus no Antigo Testamento: Elohim (2.570 x usado), significa "os poderosos". Adonai: "meus senhores". Vide mais: Gênesis 1:26 e 27; Isaías 9:6-7, 44:6, 48:16, 55:11, 63:7-14; Provérbios 8:22-31; Salmos 2, 33:6, 119:89, 147:15-10. - Essa evidência plural indica que o AT é da mesma natureza que o NT.
-A unidade de Deus no Novo Testamento: Marcos 12:29; 1 Coríntios 8:4; 1 Timóteo 2:5.

-A Trindade no Novo Testamento:
a) Jesus como Deus: Mateus 1:23 -Emanuel significa "Deus conosco". João 5:18 -Filho de Deus. João 8:58 -Eu Sou. João 5:27 -Filho do Homem- Daniel 7:13-14. Mateus 2:11, 14:32-33, 28:9 - Jesus é adorado, só Deus pode ser adorado. Mateus 3:3 -Jesus é tido como Iavé- Isaías 40:3; Romanos 10:9-13 - Isaías 2:32. Outras: Lucas 1:76 - Malaquias 3:1; Romanos 14:9-12 - Isaías 45:23; 1 Coríntios 2:13 - Isaías 40:13; Hebreus 1:10 - Salmos 102:25-27. - Repare na relação de "cumprimento - profecia".
Referências explícitas: João 1:1, 18, 20:28; Tiago 2:13; Romanos 9:5; 1 João 5:20; Atos 20:28; Filipenses 2:6; Colossenses 2:9; 2 Tessalonicenses 1:12; 1 Timóteo 3:15-16; Hebreus 1:8; 2 Pedro 1:1.
Jesus mesmo disse: João 8:51-59, 10:22-39.
b) A divindade do Espírito Santo: Gênesis 1:2; Êxodo 31:3, 35:31; Números 24:2; 1 Samuel 10:10, 11:6, 19:20, 23; 2 Crônicas 15:1, 24:20; Jó 33:4; Ezequiel 11:24; Mateus 3:16, 12:28; Romanos 8:9, 14; 1 Coríntios 2:11, 14, 3:16, 7:40; Efésios 4:30; Filipenses 3:3; 1 João 4:2; João 14:16; 2 Coríntios 3:17-18; Atos 5:3-4; 2 Samuel 23:2; Isaías 40:13-18; Isaías 9:6; Atos 28:25; Salmos 95:7; Hebreus 3:7; Jeremias 31:31; Hebreus 10:15.
O Espírito Santo não é uma "força", é uma "pessoa": 1 Coríntios 2:10-13; Atos 8:29, 9:31, 13:2, 15:28, 16:6; 1 Coríntios 12:11; Efésios 4:30; Mateus 12:31; Filipenses 2:5-8; João 15:26, 16:13-14.
-A pluralidade de Deus no Novo Testamento: 1 Coríntios 12:4-6; 2 Coríntios 13:14; Mateus 3:16-17, 26:39, 27:46, 28:19; Efésios 2:18; João 11:41-41; Marcos 1:9-11. Fonte: dO Mirante, "Inescapável". Leia uma reflexão sobre a Trindade nO Mirante, "O Perfeito".

A razão da Trindade, dO Mirante, "Inescapável": 

Não sendo triúno, mas apenas o Pai solitário, o atributo de independência poderia ser questionado, pois ficaria parecendo que Deus criou o homem não por desejo, mas por carência - e de onde viria o desejo de se relacionar sem uma idéia eterna de relacionamento?-. Deus é triúno e completo em si e por si mesmo, logo a Criação é fruto de seu amor generoso e plural. - Certo, tudo muito bonito, mas o conceito de Trindade não é lacunoso? Ele não pode ser totalmente compreendido, mas pode haver tentativa:

Sendo Deus UM só, mas 3 ao mesmo tempo, com o Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, sendo 3 mas UM, fica, realmente difícil de compreender. A Trindade é a melhor forma de explicar, racionalmente, o papel criador do Único Deus e jamais se equivale a um politeísmo, já que no politeísmo há inúmeras divergências entre deuses físicos. O conceito de Trindade bíblico é o único que se encaixa na lógica: as 3 Pessoas da Trindade possuem a mesma natureza, perfeita e imaculada, desde a eternidade ou tempos imemoráveis. Ele são 3, mas padecem dos mesmos anseios, das mesmas motivações, dos mesmos atributos, por serem da mesma e simples composição. Eles são três perfeitos e, perfeitos, estão tão unidos em uma mesma mente e natureza, que compõem, em atitude e composição, um só. Eles não são um único ser feito de 3, eles são 3 individuais que trabalham em perfeitíssima harmonia, totalmente condizente com os seus atributos partilhados.

DO Mirante, "O Perfeito":

Muitos não entendem como Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo -Mateus 28:19- podem ser três pessoas e, ao mesmo tempo, um só Deus. Ora, com base no que já foi pensado, é muito simples entender esse conceito: Pai, Filho e Espírito Santo são iguais na essência, pois O Pai, eterno, é perfeito porque assim o é; O Espírito Santo é, pelo que se sabe, coeterno com O Pai, sendo o próprio Espírito de Deus -Gênesis 1:2-, logo, é igual ao Deus Pai; e O Filho, que parece ter sido gerado dO Pai, é 100% igual à Ele em natureza, pois herdou dEle tudo o que Ele é -João 14:6-11. As Três Pessoas da Trindade são perfeitas em toda a plenitude das coisas, dos atributos, nenhuma possui menor medida do que a outra, apenas há uma subordinação hierárquica, jamais de valor ou poder, entre elas, sendo O Pai o supremo Deus, O Filho gerado para a glória de Deus -João 14:13- e O Espírito Santo a mover-se para a glória dO Pai e o anúncio dO Filho -João 14:16-18. Sendo as três pessoas perfeitas em toda a plenitude, infinitamente boas, então o pensamento de qualquer uma delas é exatamente o mesmo pensamento das outras duas, a vontade de uma delas é igual à vontade das outras, pois concordam em tudo, já que a perfeição não é multiforme, mas somente pode se apresentar de um modo, o "Modo Perfeito". Trata-se, basicamente, de um reino comandado por três reis, tais trabalhando sempre em parceria e concordância e dando a resposta não individualmente, mas na pessoa que os três, unidos, constituem - no caso em questão, os três reis são perfeitos e, por isso, nunca divergem de opinião ou vontade, representado na pessoa dos três um só Deus.

Guarde isso: a doutrina cristã sobre Deus diferencia o monoteísmo cristão dos demais monoteísmos, uma vez que prega um único Deus constituído de três pessoas distintas. Isso não indica "triteísmo"? Não, as Três Pessoas da Trindade irredutivelmente representam, numa coesão perfeita (por serem perfeitas), uma única divindade, um único pensamento, um único agir - não são três naturezas, não são três constituições e não são três realidades diferentes, tudo é apenas UM: uma única natureza para as Três Pessoas, uma única constituição, uma única realidade, sem discordância, sem deficiência.

Natanael Pedro Castoldi

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