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Origens: A Religião

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De onde vem a religião? Da natureza ou de um mundo espiritual? Qual foi o primeiro tipo de religião? Existe uma religião primeira, que era a única a ser conhecida no primeiro núcleo da humanidade, e que ainda pode ser conhecida e encontrada dentro das religiões mais recentes? A resposta para tais questões é de grande relevância para quem deseja compreender melhor o ser humano e vislumbrar uma razão para existir. O que o entendimento sobre as bases mais primitivas da religião pode nos ensinar sobre Deus? Me acompanhe nessa jornada.

Índice: 1 - A religião não pode ter vindo da natureza; 2 - O monoteísmo foi a primeira experiência religiosa?; a - O conhecimento de Deus no paganismo da Antiguidade; b - O Deus Desconhecido; - Theos; - Zeus; - Logos; - El Elyon; - Alá; - Viracocha; - Thakur Jiu; - Magano; -  Koro; - Shang Ti e Hananim; 3 - O desastre da Antiguidade; 4 - A mitologia indica um passado comum; Conclusão.

1 - A religião não pode ter vindo da natureza:
Segundo C. S. Lewis, a religião chegou até nós por meio da descoberta - não se trata de algo que foi criado e que tenha evoluído ao longo da história humana. Para começar, a vida do ser humano nunca foi fácil - vivemos em um universo vasto, no qual reside a morte e o sofrimento e nós, humanos, parecemos especialmente orientados para sofrer, já que temos consciência e razão para prever e intensificar a dor. Uma análise fria do universo em sua atual configuração, partindo do testemunho de Lewis sobre como pensava enquanto ateu, não parece apontar para o amor e a bondade - mas os seres humanos, as criaturas com mais potencial para sofrer, vivendo em uma natureza agressiva e padecendo dos mais terríveis abusos, ainda assim insistem em sustentar a existência de uma divindade plenamente amorosa, tendo-a como criadora daquilo que existe, e reconhecem que deve-se praticar aquilo que é moralmente correto. Para além do "quero", o ser humano afirma que "deve". Pense nos judeus, um dos povos mais sofridos: são ex-escravos, foram atacados continuamente por imensos impérios, acabaram exilados, chegaram a perder suas terras, padeceram das maiores atrocidades já cometidas em guerras e, ainda assim, sustentam que o universo é produto de um Criador Perfeito. É lógico que, nesse caso, a religião não pode ter vindo da experiência humana e da observação do mundo! Mas de onde, então, ela veio?

Muitas pessoas defendem que a religião encontra sua fonte no medo da natureza, mas Lewis discorda: para ele, equiparar o medo do perigo físico ao medo do desconhecido é brincar com a palavra "medo". Existem diferentes categorias de medos: o medo natural, como o temor diante de um tigre, não é quantitativamente, mas qualitativamente distinto do medo que temos de fantasmas - o primeiro não poderia ter se transformado no segundo. Há os que afirmam que o medo de "tigres" evoluiu para o medo de fantasmas por meio da influência e do respeito por chefes tribais, mas isso não resolve a questão principal: de onde veio tal reverência? Imagine que há um tigre no cômodo ao lado e verifique que tipo de medo você sentirá. Agora imagine que há um fantasma... e agora imagine um fantasma ainda mais poderoso - o medo pela entidade pode ser chamado de "horror". Tal terror não está baseado em algo lógico, no conhecimento do potencial mortal do objeto de repulsa - o fantasma é temido por ser um "estranho", não um "perigoso". Podemos chamar isso de "Numioso", em referência ao aspecto irracional da religião. Um fato inquestionável é que o homem, por algum motivo, sempre acreditou que o universo fosse habitado por fantasmas - um lugar verdadeiramente assombrado.

O Numioso aparece em diversos relatos da nossa história, como quando o apóstolo João, no Apocalipse, caiu "como que morto" diante dos pés do Cristo ressurreto; no relato pagão de Ovídio, que retrata o bosque de Aventino como um "local assombrado", afirmando que "há uma presença ali"; na descrição de Virgílio do palácio de Latino, tido como "horrendo com os bosques e a santidade dos tempos antigos"; num fragmento de manuscrito atribuído a Ésquilo que descreve a terra, o mar e a montanha estremecendo sob o "terrível olho de seu Mestre." Por fim, um dos exemplos mais claros pode ser encontrado no testemunho de Jacó que, após uma visão celestial acorda em desespero, bradando: "Temível é este lugar!" O Numioso fascina o ser humano - é diferente parar para assistir um documentário de vida selvagem e um filme de terror. A fera selvagem está longe, mas a presença demoníaca perece estar para além da televisão. As pessoas sentem uma verdadeira e inexplicável atração pelo Numioso, pelo Estranho - sentem um arrepio na espinha, um frio na barriga e um nó na garganta, o ar fica pesado e a visão distorcida. É uma experiência verdadeiramente irreal e jamais poderia ter brotado do mesmo medo que temos da natureza, por mais grandiosa e desconhecida que ela possa ser - tal ocasião não é resultado de uma ideia, de uma má compreensão, mas uma experiência muitíssimo real e experimentada individual e coletivamente em diversos eventos ao longo da jornada humana por esse mundo. Como o homem imaginou seres sobrenaturais e como esses seres foram capazes de produzir tais sentimentos?

É provável que o assombro Numioso seja tão antigo quanto a própria humanidade - e mesmo que seja impossível determinar a sua origem, a questão é que esse sentimento veio a existir, acha-se difundido e não abandonou a mente humana mediante os avanços científicos. O que se sabe é que esse assombro não pode ser resultado de uma inferência do Universo visível - é impossível, partindo do simples perigo, desenvolver um argumento até chegar ao estranho, menos ainda ao Numioso pleno. 

O raciocínio de Lewis prossegue afirmando que a verdadeira origem da religião está plenamente situada no temor divino do sobrenatural - coisa que só os seres humanos possuem. Os seres humanos são as únicas criaturas do mundo que temem os próprios mortos - quando, como e por qual motivo esse medo veio a existir? De que forma os mortos atraíram esse sentimento peculiar? C. S. Lewis insiste na ideia de que o horror e o assombro pertencem a uma categoria distinta da do medo - "nenhuma descrição factual de qualquer ambiente humano seria capaz de incluir o estranho e o Numioso, nem sequer sugeri-los." Há apenas dois pontos de vista que podemos assumir acerca do espanto: ou ele é apenas uma peculiaridade da mente humana, que não corresponde a nada objetivo e que não serve para nenhuma função biológica (e estranhamente persiste em não desaparecer); ou verdadeiramente se trata de uma experiência direta com o sobrenatural. 

Devemos considerar que o Numioso não é moralmente bom - é mais provável que o ser humano, espantado, tenha o Numioso como algo "além do bem e do mal". É aqui que entra um outro aspecto fundador da religião: todos os seres humanos de todos os tempos reconhecem a existência de algum tipo de moralidade - a ideia de que "eu devo fazer algo" é semelhante ao Numioso pelo motivo de não existir nenhuma base natural para a sua existência. A moralidade, assim como o assombro, é um salto - aqui o ser humano vai além de qualquer coisa que possa ser mostrada pela experiência natural. Até podem haver distinções morais entre as diferentes culturas humanas, mas todas nutrem algo em comum: elas prescrevem um comportamento que as pessoas que o adotam não conseguem colocar em prática e, assim, todos os seres humanos reconhecem que estão condenados. Apesar disso, a experiência moral e a experiência Numiosa podem coexistir por muito tempo sem terem contato uma com a outra. Diversas culturas desenvolveram profundas filosofias e, ao mesmo tempo, mantiveram religiões tribais focadas em rituais propostos para suprimir o medo e apetecer a entidade.

O terceiro aspecto que se encontra na base das religiões está no fundir da experiência moral e da experiência numiosa: o Poder Numioso perante o qual sentem um assombro acaba se tornando o guardião da moralidade, gerando um grande senso de obrigação moral. Tal passo também não é óbvio, pois o verdadeiro comportamento de nosso universo, assombrado pelo Numioso, não guarda semelhança alguma com o comportamento que a moralidade exige de nós - o primeiro é implacável, devastador e injusto, enquanto o segundo impõe qualidades opostas. O Numioso já é aterrorizante, mas tê-lo como juiz, o impassível incentivador de um sistema moral impossível de cumprir plenamente, está para além de qualquer coisa que o ser humano pudesse sugerir ou desejar. Talvez essa seja a descoberta mais assustadora de toda a nossa história - como se o universo por si só já não fosse terrível o suficiente.

De todas as religiões, C. S. Lewis termina citando a única que dá o quarto passo que é, inclusive, um acontecimento histórico, tornando tudo mais aceitável: houve um homem nascido entre os judeus que afirmou ser o Algo que é ao mesmo tempo aquele que assombra de modo temível a natureza e quem fornece a lei moral. Sobre a figura de Cristo cabe falar noutra postagem.

A questão é que, para passar das religiões primitivas baseadas no medo para as religiões monoteístas mais sofisticadas (judaísmo, cristianismo e islamismo), deve ocorrer um salto qualitativo para o qual não há qualquer comando evolutivo. O verdadeiro monoteísmo só virá à tona quando Deus instilar em nós um temor espiritual que esteja unido ao Deus que tudo criou e que dirige a moralidade.

O que, por fim, deve ficar claro nesse primeiro tópico do estudo é que a origem primeira da religião precisa ser espiritual - a descoberta da religião, que despertou um interesse antinatural, precisou vir de fora da natureza. A posterior variedade de religiões pode ter vindo de experiências espirituais diversas e das menores variações nos conceitos morais - é claro que, uma vez sentido o Numioso e principiada a religião, muitos movimentos religiosos podem ter surgido como interpretações diferentes de experiências e ensinamentos anteriores. O fato é que o requisito básico para a existência de uma crença religiosa é a existência do sobrenatural que, por sua vez, só pode ser cogitado por ter se revelado primeiro - muitas religiões primitivas tomam base apenas nisso, realizando todo o tipo de ritual. A coexistência da moral e do numioso e o fundir da moralidade com o espanto podem ser passos posteriores, mas nunca se pode imaginar um pensamento religioso dissociado da experiência com o desconhecido.
Fontes: O Problema do Sofrimento, C. S. Lewis, Vida, 2013, pgs 17-31; Apologética Cristã Para o Século XXI, Louis Markos Ph.D., Central Gospel, 2013, pgs 34-35.

2 - O monoteísmo foi a primeira experiência religiosa?
É claro que existe uma lógica do Numioso, para o Numioso e moral separados e para os dois aglutinados, mas isso não necessariamente significa que a primeira experiência religiosa tenha se centrado apenas no Numioso - assim como a experiência com o Numioso pode, ainda hoje, produzir religiões destituídas de moral, orientadas apenas pelo medo. Uma vez que a religião precisou da revelação do sobrenatural, nada mais óbvio do que pensar que o próprio Deus tenha sido o primeiro a fazê-lo, acompanhando a aparição com uma revelação moral - bom, o próprio Gênesis pós-queda demonstra uma certa gradação na formação do judaísmo, tendo homens como Abraão e Jacó vivendo com a moral e o espanto parcialmente separados até que, preparado o povo, o próprio Deus pudesse dar o sofisticado passo que viera a fundir os dois, isso lá no Monte Sinai, por advento da entrega das Tábuas da Lei. A questão que fica é: "existe alguma evidência de que o próprio Deus tenha se revelado na mais longínqua antiguidade?" É possível argumentar nesse sentido, embora não se possa ter certeza. Apresentarei algumas evidências - tire as suas próprias conclusões.

a - O conhecimento de Deus no paganismo da Antiguidade:
Ao contrário daquilo que comumente se pensa, é possível interceptar um profundo conhecimento sobre Deus na Antiguidade Clássica. A ideia de um Criador Todo-Poderoso, Perfeito e Pai da humanidade aparece nos escritos de vários historiadores do mundo antigo e nos ensinamentos dos mais antigos filósofos. A concepção de Deus chegou a ser tão profunda em certos círculos pagãos, em particular no mundo greco-romano, que chegou a ter início uma controvérsia entre os que pregavam a lógica criacionista e os que procuravam evidências para uma espécie de materialismo - é surpreendente verificar a semelhança que há entre esses debates e os atuais, dados por criacionistas e evolucionistas. Verifique o seguinte dizer de Lao-tzé, proveniente da China do sexto século a.C.:

"Antes do tempo, e durante o tempo, tem existido um Ser com existência própria, eterno, infinito, completo e onipresente... Para além deste Ser, antes do início, não havia nada."
Fonte: Lao-Tzé. Teo-te-ching, tr. Léon Weiger. Versão inglesa por Derek Bryce. 1991. Llanerch Publishers. Lampeter. p. 13.

É óbvio que Lao-tzé refletiu sobre o tema sem ter tido influência do livro do Gênesis. Na verdade, considerando os dizeres de diversos outros filósofos pagãos da antiguidade, não é preciso sugerir que o livro do Gênesis tenha sido necessário para a produção de tais convicções - elas simplesmente existiam, de alguma forma, preservadas em diversas culturas do mundo, como se toda a humanidade encontrasse bases numa religião primordial. Mas, assim como ocorre hoje, tal perspectiva tinha os seus inimigos, como Kuo-Hsiang, oponente das ideias de Lao-tzé:

"Aventuro-me a perguntar se o Criador existe ou não. Se não existe, como poderia criar as coisas? ... A criação das coisas não obedece a qualquer Senhor; tudo se cria por si mesmo."
Fonte: Clarke, John. 1993. Nature in Question. Earthscan. p. 24.

A verdade é que exceções assim acabam confirmando a regra: para que a existência do Criador seja negada por um filósofo, ela primeiramente deveria ter sido exposta por outro. No caso de ter sido exposta antes de questionada, de onde teria vindo esse conhecimento? Não das Escrituras e nem de missionários - mesmo sendo imperfeito, o conhecimento de Deus estava bastante vivo entre os povos pagãos da Antiguidade, segundo Bill Cooper B. A. Hons, "somente poderia ter-se fundamentado sobre um corpo de conhecimentos que houvesse sido preservado entre as raças antigas a partir de um determinado ponto na história". Segue um antigo texto de Hierápolis, no Egito:

"Eu sou o criador de tudo o que existe... que surgiu a partir de minha boca. Os céus e a terra não existiam, nem tinha sido criada a erva do campo nem as coisas que rastejam. Eu as fiz surgir do abismo primordial, a partir de um estado de não existência..."
Fonte: Paráfrase de Bill Cooper B. A. Hons da tradução literal de Wallace Budge em The Gods of the Egyptians. Vol. 1. Dover. New York. 1969. pp. 308-313.

A verdade é que não existe nenhum registro de que, em algum momento, o ponto de vista acima retratado tenha sido questionado no Egito antigo. Não parece ter havido um debate. Fica evidente uma consciência razoavelmente comum de que o Egito já havia experimento o monoteísmo e que traços do mesmo ainda residiam no seu famoso politeísmo - na tentativa de remover o entulho de mitologias e superstições que havia sido depositado por sobre a ideia de um Criador, o faraó Aknhathon procurou persuadir todo o Egito de que havia somente uma única divindade e não as muitas que os egípcios adoravam, coisa que, porém, não era um conceito ateísta ou materialista que pudesse negar a posição e a realidade de um Criador. A mesma ausência de ateísmo e materialismo se dá tanto na Mesopotâmia quanto no Israel antigo (exceto pelo Salmo 14:1), o que evidencia o quanto a visão de mundo criacionista era forte no Crescente Fértil. A verdade é que a grande maioria das culturas do mundo antigo (das quais temos algum registro escrito) nutria um abrangente consenso de que o universo havia sido criado por uma única divindade, usualmente suprema - isso se dá até mesmo em culturas politeístas. Além disso, cada cultura nutria a visão de um Criador destituído de perversidade - coisa que também ocorre nas culturas que floresceram em ambiente pagão agressivo e pervertido. Verifiquemos o dizer de Hesíodo na sua "Teogonia", oitavo século a.C.:

"Antes de tudo veio à existência o Vazio... em seguida, a Terra. ... Do Vazio veio a escuridão... e da Noite veio a Luz e o Dia..."
Fonte: Hesíodo. Thogony. tr. Norman Brown. 1953. Bobbs-Merril Co. New York. p. 15.

O relato de Hesíodo se assemelha ao Gênesis, embora evidentemente não encontre bases nele, visto que ele tem uma visão envilecida do Criador. Tal percepção também era compartilhada por Xenófanes, cerca de dois séculos depois de Hesíodo:

"Homero e Hesíodo deram aos deuses todos os atributos que entre os homens são vergonhosos e censuráveis - roubo, adultério e mentira. ... [Porém] existe um Deus, maior entre os deuses e homens, não semelhante aos mortais quer em forma quer em pensamento... que vê como um todo, pensa como um todo, ouve como um todo. ... Ele permanece sempre no mesmo estado, sem qualquer mudança... E longe de se fadigar, governa tudo com sua mente."
Fonte: Barnes, Jonathan. 1987. Early Greek Philosophy. Penguin Classics. Harmondsworth. p. 42.

O interessante é que Xenófanes, conhecedor do nome de todos os deuses gregos, evitou nomear ou identificar o Deus de quem então falava. Não se tratava de Hermes ou Ares. A mesma ideia de um Criador inefável permeou o pensamento de Platão, conforme se percebe no dizer que segue:

"Ressaltemos, portanto, a razão pela qual o grande modelador desde universo dinâmico realmente o modelou. Ele era bom, e o que é bom não possui em si qualquer partícula de cobiça; sendo, portanto, isento de cobiça, ele desejada que todas as coisas fossem tão semelhantes a ele quanto possível. É este um princípio válido para a origem de um mundo dinâmico tanto quanto podemos descobrir a partir da sabedoria humana..."
Fonte: Platão. Timaeus and Criteas. tr. Desmond Lee. 1965. Penguin Classics. Harmondsworth. p. 42.

É interessante perceber aqui outra semelhança com Gênesis: "E viu Deus que era bom". Também é observável que Platão tinha descoberto este conceito no discernimento de filósofos anteriores a ele - sem dúvida ele tomava bases em conceitos filosóficos bem anteriores aos de Hesíodo, além de serem mais profundos. Partindo de Platão, a visão criacionista de mundo ganharia ares mais lógicos e "científicos", sempre atestando para um único Criador. Tales de Mileto (625-545 a.C.) é o responsável por outra forte declaração:

"Das coisas existentes, Deus é a mais antiga - pois ele não é gerado. O mundo é a mais bela, pois é criação de Deus... A mente é a mais veloz, pois tudo perscruta."

Segue uma outra reflexão, pronunciada por Crísipo (280-207 a.C.):

"Se existe algo na natureza que a mente humana, a inteligência, a energia e a força humanas não podem criar, então o criador dessas coisas deve necessariamente ser um ente superior ao homem. Os corpos celestes em suas órbitas eternas certamente não poderiam ser criador pelo homem. Eles, portanto, devem ter sido criados por um ser superior ao homem. ... Somente um tolo arrogante imaginaria que nada houvesse no mundo todo maior que ele próprio. Logo, deve existir algo maior do que o ser humano. E esse algo deve ser Deus."

É estranho como o pensamento grego pôde chegar nesse patamar, indo das reflexões mais grotescas de Hesíodo para a simplicidade e profundidade de Crísipo - consideremos que o cristianismo ainda não tinha nascido e que a sua influência sobre o pensamento grego só seria perceptível séculos no futuro. Alguns sugerem que isso tenha se dado através da influência de judeus helenizados, mas Bill Cooper contesta: aparentemente o primeiro contato dos gregos com o judaísmo se deu em 587 a.C., quando mercenários gregos participaram do exército de Nabucodonozor durante o ataque a Jerusalém - é lógico que junto com os mercenários havia um contingente civil menor que, sem dúvida, deve ter ocupado o tempo livre com longas horas de conversa e reflexão, porém, ver nisso uma possibilidade de aceitação do judaísmo está fora dos limites do aceitável: os judeus eram vistos com muito desprezo pelos gregos, isso de tal forma que se viram obrigados a aceitar a cultura grega para sobreviver. Um marcante exemplo dessa hostilidade reside em Antíoco IV Epifânio (175-163 a.C.), que perseguiu os judeus e procurou erradicar o judaísmo da face da Terra. Outro fator que inviabiliza a influência judaica sobre o pensamento grego está na tardia tradução da Torá para o grego, dada em 250 a.C., dezessete anos antes de Crísipo se tornar o condutor da escola estóica  - desse modo, a notável tradução do Gênesis para o grego se deu 58 anos depois da fundação da escola estóica, 308 a.C., e, portanto, o estoicismo nenhuma relação teve com o livro de Gênesis. Sua percepção de Deus foi independente - resta saber de onde foram tiradas as suas ideias.

Seguindo a linha de raciocínio do estoicismo acerca do criacionismo, Cícero, um estóico posterior, é o autor dos surpreendentes parágrafos que seguem:

"Ao observarmos um gnomon (relógio de sol) ou uma clepsidra (relógio hidráulico), vemos que eles indicam o tempo de maneira propositada, e não por acaso. Como podemos imaginar, então, que o universo como um todo seja destituído de propósito e inteligência, ao abarcar tudo, incluindo esses próprios artefatos e seus artífices? Nosso amigo Possidônio, como sabemos, recentemente elaborou um globo que, em seu movimento de rotação, mostra o movimento do Sol, das estrelas e dos planetas, dia e noite, exatamente como eles aparecem no céu. Ora, se alguém tomasse esse globo e o mostrasse aos habitantes da Bretanha ou da Cítia, algum desses bárbaros deixaria de perceber que ele era o produto de uma inteligência consciente?"

"Nos céus nada há de acidental, nada arbitrário, nada fora de ordem, nada errático. Tudo é ordem, verdade, razão, constância... Não posso compreender essa regularidade das estrelas, essa harmonia do tempo e do movimento em suas imensas órbitas durante toda a eternidade, a não ser como a expressão da razão, mente e propósito... O seu movimento constante e eterno, maravilhoso e misterioso em sua regularidade, declara o poder inerente de uma inteligência divina. Se algum homem não pode sentir o poder de Deus ao olhar para as estrelas, então duvido que seja capaz de qualquer outro sentimento também."

"Não é, realmente surpreendente alguém pôr-se a acreditar que um número imenso de partículas sólidas e separadas, pudesse, mediante colisões aleatórias, e movidas tão somente pela força de seu próprio peso, trazer à existência um mundo tão belo e maravilhoso? Se alguém pensa que isso é possível, não vejo porque também não pensar que, se um número infinito de letras, dentre as vinte-e-uma do alfabeto, feitas de ouro ou de que quer que seja, fosse misturado e lançado no chão, pudessem elas cair de tal maneira que formassem, por exemplo, o texto completo dos 'Anais' de Ênio. De fato, duvido que o acaso permitisse que as letras formassem seque um único verso dos 'Anais'!"

Podemos citar ainda outro indivíduo da Antiguidade, Lucílius que, sem a ajuda de nenhum cristão ou judeu, atribuiu o universo ao trabalho e manutenção de um Criador que "é, conforme afirma Ennius, o pai tanto dos deuses como dos homens, um Criador presente e poderoso. Se alguém duvidar disso, tanto quanto posso discernir, poderia também duvidar igualmente da existência do Sol. Pois ambos são igualmente evidentes. E se isso não fosse claramente percebido e manifesto à nossa inteligência, a fé dos homens não teria permanecido tão constante, não se teria aprofundado com o correr do tempo, e jamais teria se enraizado tão firmemente através dos séculos em todas as gerações humanas."
Fontes: Uma Outra História das Religiões, Odon Vallet, Globo, 2002, pg 20; Depois do Dilúvio, Bill Cooper B. A. Hons, SCB, 2008, pgs 13-27.

b - O Deus Desconhecido:
No livro "As Vidas de Filósofos Eminentes", de Diógenes Laércio, autor grego do terceiro século d.C., há um estranho relato sobre o famoso profeta Epimênides: num passado realmente distante, Atenas estava sendo julgada por uma terrível praga. Temendo que tal peste fosse resultado de um pecado que tivesse sido cometido contra algum deus, o povo sacrificou para todos os deuses, mas o mal não deixava a cidade. Então, por recomendação do Oráculo, Epimênides, um estrangeiro de Creta, foi chamado - um deus que não estava presente em todo o panteão grego precisava ser apaziguado pelo profeta. Tomando um rebanho de ovelhas pretas e brancas e soltando-o do topo da Colina de Marte, o estrangeiro desejou dar uma oportunidade para que o "Deus Desconhecido" se revelasse - a ideia era que cada lugar onde uma ovelha deitasse fosse marcado e, entendendo que as que se deitassem eram do agrado desse Deus, sacrificaria cada uma delas. Como era normal que as ovelhas se deitassem fora do horário habitual em que pastavam, o experimento se deu de manhã bem cedo, quando elas estavam todas famintas. As que deitaram foram sacrificadas diante de altares sem nome, erigidos especialmente para a ocasião. A praga abandonou a cidade. Mas quem era esse "Deus Desconhecido"? Seis séculos depois, o Apóstolo Paulo, encontrando um altar remanescente desse evento enquanto visitava Atenas, pregou o Deus de Israel - como vimos anteriormente, os gregos já estavam familiarizados com a ideia de um Deus Eterno e Criador, interpretado pelo Apóstolo como sendo o próprio "Deus Desconhecido".

É interessante que, quando Paulo cita uma poesia de Epimênides em Tito 1:12-13, chama-o de "profeta"!

Diógenes Laércio menciona que "em diferentes partes da Ática podem ser vistos altares sem qualquer nome gravado, servindo de memoriais para esta expiação". Dois outros escritores da Antiguidades - Pausânias e Filostrato - referem-se a "altares a um deus desconhecido", sugerindo que havia tal inscrição neles.

- Theos:
A pregação de Paulo em Atenas, registrada em Atos 17, é singular não somente pela raiz histórica no profeta Epimênides, mas também pela palavra usada para referir-se ao Criador: "Theos". Os gregos conheciam esse termo, mas não o empregavam para uma entidade específica, embora os filósofos possam ter sabido que Xenófanes, Platão e Aristóteles tenham usado "Theos" como um nome pessoal para um Deus Supremo. Tal termo foi tomado pelos tradutores da Septuaginta para referir-se à Elohim, pois era a única palavra grega direcionada à divindade que ainda guardava a pureza monoteísta: "Zeus" foi rejeitado, pois ele era filho de dois outros seres. O espanto dos gregos com a pregação de Paulo, afirmando que ele pregava "deuses desconhecidos", deve ter se dado ao emprego do nome "Jesus", não "Theos".

Aqui há algo surpreendente: Paulo afirma que o nome do "Deus Desconhecido" é Theos, o mesmo termo que os grandes filósofos gregos já tinham utilizado!

- Zeus:
Agora faça um exercício de comparação: Deus -> Theos -> Zeus. Fica evidente que as três palavras possuem a mesma raiz. Os três nomes começam com consoantes (Z, D e Θ -Th) que exigem que a ponta da língua esteja entre os dentes ou imediatamente por trás deles; eles três destacam o que os linguistas chamam de "vogal e média, aberta", no segundo espaço; os três nomes possuem no terceiro espaço as vogais "o" ou "u", "posteriores fechadas"; eles três possuem no quarto espaço o "s"; e todos eles partilham de um sentido semelhante.

O fato é que antes de o latim e o grego se separarem em línguas distintas, provavelmente "Deos" era o nome da Pessoa Divina. Com o passar do tempo, as seitas começaram a criar deuses menores, dando-lhes nomes pessoais, cada uma afirmando que a sua divindade era, na verdade, "Deos". Aos poucos, as mudanças de pronúncia levaram um grupo a utilizar "Deus", outro a falar "Θeos" e um terceiro a pronunciar "Zeus" - esses termos passaram a significar "deus" e não mais "Deus". Quando Platão, Xenofonte e Aritóteles procuraram inverter a tendência para a generalização, retornaram o uso de "Theos". "Zeus", uma terceira variação do "Deos" original, também sobreviveu à generalização, sendo utilizado como um nome pessoal específico - Epimênides utilizou "Zeus" como referência ao Deus Todo-Poderoso numa outra parte do mesmo poema que Paulo citou em Tito.

O problema com o uso de "Zeus" começou depois de Epimênides. Ao longo dos séculos os teólogos gregos manipularam o nome pessoal do todo-poderoso ("Zeus"), introduzindo significados inconsistentes com o conceito original. Esses teólogos passaram a sugerir que Zeus tivesse sido gerado por Kronos e Rhea e, fazendo isso, desqualificaram a palavra como indicadora da divindade eterna, auto-existente e onipotente. Como "Zeus" se tornou inutilizável, o termo "Theos" foi favorecido tanto pelos filósofos gregos já citados, quanto pelos judeus e cristãos.

- Logos:
O Apóstolo João chama Cristo de "Logos", o termo favorito dos estoicos. Heráclito usou pela primeira vez esse termo em 600 a.C., a fim de designar a razão ou plano divino que coordena um universo em mudança.

Fazendo uso das palavras "Theos" e "Logos" para referir-se a Elohim e Jesus, o cristianismo evidenciou-se como uma resposta aos anseios milenares dos gregos, não como algo proposto para arruinar a sua filosofia.

- El Elyon:
Quando Abraão, chamado por Deus, se aproximou de Salém, que posteriormente se tornou Jerusalém, foi recebido por Melquisedeque, seu rei. Era o "rei da justiça" que governava o "fundamento da paz", conforme os significados de "Melquisedeque" e "Jerusalém". O local foi identificado por Josefo como "vale de Salé", que é "vale do Rei", provavelmente uma homenagem ao próprio Melquisedeque. A questão é que o rei de Salém foi descrito como "sacerdote do El Elyon" - Deus Altíssimo. Quem poderia ser esse "Deus Altíssimo"? "El" e "Elyon" eram nomes cananeus para o próprio Javé - "El" foi bastante usado pelos hebreus descendentes de Abraão (Betel, El Shaddai e Elohim). Elohim, por sua vez, é uma forma plural de "El", cujo significado é misterioso. O termo "Elyon" aparece também em textos fenícios como um nome para Deus - o fenício é uma ramificação posterior da língua cananeia. A expressão chega a aparecer até numa antiquíssima inscrição aramaica encontrada na Síria.

Abraão provavelmente conhecia Deus como "Yahweh", não "El Elyon", mas o fato é que ele não protestou com Melquisedeque por este ser sacerdote de "El Elyon" - na verdade ele até deu o dízimo para Melquisedeque, posteriormente chamado de "grande profeta" na Carta aos Hebreus. A Bíblia, por sinal, considera Melquisedeque um autêntico profeta de Deus, da ordem sacerdotal da qual o próprio Cristo pertenceria - Sl 110:4.

Assim como Paulo aceitou "Theos" e João utilizou "Logos", Abraão reconheceu "El Elyon". A passagem em questão mostra claramente que havia um rei na Palestina que era sacerdote do Deus Altíssimo - isso é estranho, pois a tradição nos diz que todo o culto ao Verdadeiro Deus se iniciou com Abraão! Há mais de 4 mil anos, portanto, havia gente cultuando o Deus judaico-cristão. Aquilo que aconteceu com Melquisedeque também se repete com Jetro, sogro de Moisés, o que nos leva a pensar que houve uma classe de sacerdotes que, mesmo sem ter tido contato com a mensagem revelada ao patriarca Abraão, exaltava o Único Deus, como se fossem remanescentes de uma tradição religiosa mais antiga.

- Alá:
"Alá" é o equivalente árabe para "El" e "Elohim". Significa "O Deus". "El" -> "Elohim" -> "Alá". Tudo leva a crer que o termo que Maomé utilizou para denominar o seu único Deus encontra a sua raiz nos citados nomes para o Criador utilizados no Antigo Testamento.

- Viracocha:
Pachacuti, rei inca entre 1438 e 1437 d.C., foi o responsável por levar o Império Inca ao apogeu. Esse rei era um homem bastante culto e religioso - adorava o maior dos deuses, Inti, o sol. Porém, como descoberto em 1575 na cidade de Cuzco por Cristobel de Molina, colecionador de diversos hinos incas, ao analisar o trabalho de um cronista índio chamado de Yamqui Salcamayagua Pachacuti, o culto ao Deus-Sol teve os seus questionadores, sendo um deles o próprio rei já citado que, na sinceridade de louvar ao maior dos deuses, percebeu que Inti não preenchia os requisitos. Segue o comentário de Philip Ainswrth Means sobre o caso:

"Ele ressaltou que esses corpos luminoso segue sempre um caminho determinado, realiza tarefas definidas e mantém horas certas como as de um trabalhador (...) a radiação solar pode ser diminuída por qualquer nuvem que passe". Ora, se Inti é o "grande Deus", então como ele é obrigado a seguir um sistema e qualquer nuvem pode bloquear sua luz? O rei percebeu que sempre adorara um objeto e não o Criador. Foi então que, procurando entre as antigas tradições de sua própria cultura, Pachacuti encontrou uma divindade quase extinta da memória popular: Viracocha - o Senhor, o Criador onipotente. Somente havia restado um santuário inca para Viracocha. O culto ao Deus Criador Viracocha era, sem sombra de dúvidas, antiquíssimo - a adoração de Inti e outros deuses não passava de desvios recentes de um sistema de crença original mais puro. Don Richardson afirma que "Viracocha teve representantes proeminentes nas culturas indígenas 'desde o Alasca à Terra do Fogo'".

O dr. B. C. Brundage, Universidade de Oklahoma, EUA, resume aquilo que Pachacuti descobriu sobre Viracocha e deixou registrado: "Ele é antigo, remoto, supremo e não criado. Também não necessita da satisfação vulgar de uma consorte. Ele se manifesta como uma trindade quando assim deseja,... caso contrário, apenas guerreiros e arcanjos celestiais rodeiam sua solidão. Ele criou todos os povos pela sua 'palavra', assim como todos os huacas (espíritos). Ele é o Destino do homem, ordenando seus dias e sustentando-o. É, na verdade, o princípio da vida, pois aquece os seres humanos através de seu filho criado, Punchao (o disco do sol, diferente de Inti). É ele quem traz a paz e a ordem. É abençoado em seu próprio ser e tem piedade da miséria humana. Só ele julga e absolve os homens, capacitando-os a combater suas tendências perversas." Diante de tais esclarecimentos, o imperador determinou que as orações só deveriam ser dirigidas a Viracocha.

Pachacuti estava realizando uma verdadeira reforma religiosa no Império Inca, planejando conquistar as massas aos poucos, quando os espanhóis chegaram e anularam o serviço. O fato é que havia uma vaga profecia inca que afirmava que futuramente "Viracocha lhes traria bênção do Ocidente" - esperava-se missionários e não conquistadores. Aparentemente, assim como o Antigo Testamento preparou os judeus para Cristo, a tradição acerca de Viracocha serviria para preparar os Incas para o Evangelho.

- Thakur Jiu:
Quando o missionário norueguês Lars Skrefsrud, e seu colega, Hans Borreson, se puseram, tendo aprendido o idioma local, a evangelizar o povo santal, ao norte de Calcutá, Índia, em 1867, um dos sábios nativos comentou: "O que este estrangeiro está dizendo deve significar que Thakur Jiu não se esqueceu de nós depois de tanto tempo!" "Thakur" significa "verdadeiro" e "jiu", "Deus". Thakur Jiu é o mesmo que "Deus Verdadeiro", cujas características logo fizeram com que o povo santal  o associasse ao Deus pregado pelos missionários.

Segundo os estudos realizados por Lars e Hans, o conhecimento de Thakur Jiu era antiquíssimo e havia sido passado de geração em geração. Segundo as histórias do povo santal, Thakur Jiu, há muito tempo, criou o primeiro homem e a primeira mulher e colocou-os na terra de Hihiri Pipiri, onde foram tentados por um ser chamado Lita - depois de terem caído na tentação, eles descobriram que estavam nus e se envergonharam. As gerações posteriores se corromperam e negaram o chamado de retorno de Thakur Jiu, assim o Deus Verdadeiro escondeu um casal santo numa caverna no alto do monte Harata (note a semelhança com "Ararate") e eliminou o restante da humanidade. Os descendentes desse casal se multiplicaram e Thakur Jiu os dividiu e espalhou - um dos povos ali formados migrou pelas florestas e planícies, até ficarem presos diante de uma barreira de montanhas. Desanimados, aos poucos perderam a fé em Thakur Jiu, vendendo-se aos espíritos das montanhas, o que posteriormente os levou à prática da feitiçaria e até da adoração ao sol, mas não chegou a apagar completamente o nome de Thakur Jiu. Segundo as informações, os santal haviam migrado do monoteísmo para o politeísmo.

Quando Lars começou a utilizar o nome "Thakur Jiu" como uma referência a "Theos", entendendo que o termo era compatível com o Deus bíblico, a sua missão entre os santal prosperou imensamente.

- Magano:
Na região centro-sul da Etiópia milhões de pessoas compartilham da crença num ser benévolo chamado Magano, o Criador onipotente de tudo o que existe. Uma das tribos da região se chama Darassa e é parte do povo gedeo. Percebendo que aquela população, mesmo crendo num Deus soberano, se preocupava mais em livrar-se de Sheit'an, um ser maligno, Albert Brant questionou: "Vocês consideram Magano com tanta reverência, mas rendem sacrifícios a Sheit'an, por que isso?" A resposta que recebeu foi simples: eles não tinham comunhão suficiente com Magano para render-lhe culto.

Algum tempo antes, Warrasa Wange, um nativo, decidiu deixar de viver em função da luta contra Sheit'an e a se ocupar com Magano, a quem orou para que se revelasse ao seu povo. A resposta de Magano veio rapidamente: ele enviaria dois homens brancos para falar-lhes (me desculpe, caso você tenha caucasofobia). Algum tempo depois, em 1948, para encurtar a história, os missionários Albert Brant e Glen Cain chegaram à região. Os frutos das missões que disso principiaram são evidentes até hoje.

-  Koro:
"Koro" é o nome que recebe o Criador na língua banto da África. Foquemos nossa atenção na tribo banto dos mbaka, na República Centro-Africana: o missionário Eugene Rosenau, Ph.D., estranhou a prontidão com que os mbaka aceitaram o Evangelho e, questionando-os, se surpreendeu. O que, afinal, os tocou tanto? Eis a resposta que ouviu:

"Koro, o Criador, enviou uma mensagem a nossos antepassados há muito tempo, dizendo que Ele já mandara seu Filho realizar uma coisa maravilhosa em favor de toda a humanidade. Mais tarde, porém, nossos ancestrais afastaram-se da verdade sobre o Filho de Koro. Com o tempo, eles até esqueceram o que Ele havia feito pela humanidade. Desde a época do 'esquecimento', gerações sucessivas de nosso povo desejaram descobrir a verdade sobre o Filho de Koro. Mas tudo o que pudermos saber foi que mensageiros finalmente viriam para repetir esse conhecimento esquecido. De alguma forma, sabíamos também que os mensageiros provavelmente seriam brancos..." - Quem tem caucasofobia pode ficar tranquilo: dessa vez a vinda de brancos era apenas uma probabilidade.

Quando Eugene descobriu que o povo de uma aldeia chamada Yablangda era o "guardador das tradições de Koro", seguiu para lá. 75 a 90 por cento de todos os pastores africanos treinados por Eugene e sua equipe vieram dessa grande aldeia.

- Shang Ti e Hananim:
Para os chineses, Shang Ti é o Senhor do Céu - perceba a semelhança com "Shaddai". Na Coreia esse Deus é conhecido como Hananim, "O Grande". Shang Ti/Hananim é anterior ao confucionismo, taoísmo e budismo - segundo a Enciclopédia de Religião e Ética, a primeira referência a qualquer tipo de crença religiosa chinesa refere-se a Shang Ti e o aponta como o único Deus, isso por volta de 2600 a.C., dois mil anos antes do confucionismo!

Também é interessante perceber que havia, desde o início, uma compreensão entre os chineses e coreanos sobre a proibição de representar Shang Ti e Hananim por ídolos. O culto ao Criador, Shang Ti, parece ter sido realizado livremente na China até o começo da dinastia (1066-770 a.C.), quando seus traços de amor e misericórdia começaram a ser esquecidos, chegando ao ponto de somente o Imperador ser tido como digno de adorá-lo - e isso só uma vez por ano. Shang Ti, então, ficou virtualmente sem adeptos entre os chineses, dando espaço para a materialização de três religiões inteiramente novas e que vieram do nada, desejosas por preencher o vazio religioso - falo do confucionismo, do taoísmo e do budismo.

Muito mais tarde, Kublai Khan, fascinado com o que aprendera sobre o Evangelho com Marco Polo, pediu ao Papa para que enviasse missionários para o seu império, objetivando espalhar as boas novas de Jesus a todos os habitantes - o Papa demorou para responder e, quando respondeu, muitos dos missionários enviados acabaram morrendo ou desistindo da jornada. Convencido de que o monoteísmo era superior à idolatria, Khan, então, recorreu ao islamismo e é por isso que muitos mongóis se tornaram muçulmanos.

Sobre o uso de Hananim para o evangelismo, temos uma interessante observação feita em 1890:
"O nome Hananim é tão destacado e tão universalmente usado que não precisamos temer, em futuras traduções e pregações, os conflitos inconvenientes, ocorridos há muito tempo, entre missionários chineses a respeito do assunto, embora os romanistas tenham introduzido o nome que empregam na China." Hananim foi usado - hoje 10 novas igrejas são abertas diariamente na Coreia do Sul!
Fontes: O Fator Melquisedeque, Don Richardson, Vida Nova, 2013, pgs 13-75; Uma Outra História das Religiões, Odon Vallet, Globo, 2002, pg 92.

Recomendo que você veja o que o arqueólogo e teólogo Rodrigo Silva tem a dizer sobre as origens do monoteísmo - Programa Evidência, TV Novo Tempo, publicado no dia 1º/06/2014 no youtube.com, sob o título "EVIDÊNCIAS - As Origens do Monoteísmo":
3 - O desastre da Antiguidade:
Se com base em um relativamente pequeno número de documentos e testemunhos conseguimos interceptar uma possível religião fundamental para a humanidade, refletindo a revelação pessoal de Deus nos primórdios, imagine quanto mais poderíamos saber se as grandes bibliotecas da Antiguidade tivessem sobrevivido ao desastre! Um exemplo claro está na destruição da famosa Biblioteca de Alexandria, no Egito, que tinha centenas de milhares de documentos recolhidos em todo o mundo conhecido. Outro triste evento se deu com a ordem do imperador chinês Chin Shih Huang Ti para que todos os livros escritos antes dele fossem destruídos - isso aconteceu em 212 a.C. O conhecimento escrito dos maias também foi quase completamente aniquilado quando os espanhóis puseram os pés em Yucatán.
Fonte: A Incrível Tecnologia dos Antigos, David Hatcher Childress, Aleph, 2013, pgs 18-21.

4 - A mitologia indica um passado comum:
Para finalizar, consideremos as mitologias dos povos antigos: há diversas temáticas e contos comuns em povos do mundo inteiro e de toda a história, como se uma memória coletiva dos primeiros eventos tivesse sido preservada e sido levemente alterada com o tempo. Sobre isso, leia o artigo "As Mitologias Indicam Um Passado Comum?"

Conclusão:
Com base em toda a vasta pesquisa aqui publicada, podemos concluir que a religião só pode ter brotado de uma experiência concreta com o sobrenatural e que provavelmente a religião mais antiga experimentada pela humanidade foi o monoteísmo, persistindo em monolatrias, em tradições comuns espalhadas pelo mundo e nos monoteísmos que conhecemos hoje. Tal antiquíssima, pura e profunda visão religiosa só pode ter sido experimentada pelo ser humano através da revelação do próprio Deus Verdadeiro - eis uma prova poderosa de que Deus existe!

Natanael Pedro Castoldi

Leia também:
- Origens: A Moralidade Humana
- A Origem do Judaísmo e a Conquista de Canaã
- Primórdios: Autoria da Torá, Idade do Universo e Dilúvio

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