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Sobre O Código Da Vinci e o Suposto Casamento de Jesus

Em nossos dias têm sido moda afirmar que Jesus foi casado e teve filhos, o que ataca aquilo que fica claro nos Evangelhos e mina o ponto consolidado da tradição cristã de que Cristo jamais se casou ou deixou descendência. Uma das fantasias que mais inspirou esse tipo de conspiração nos últimos anos foi o afamado O Código DaVinci, de Dan Brown, mas alguns outros achados e delírios também serviram para alimentar o conto. Verifiquemos as evidências:

1 - Teorias insanas:
Uma grande porção de livros têm levado muitos leigos a pensamentos errôneos sobre o verdadeiro Cristo. Além de O Código DaVinci, temos obras como "The Jesus Papers", de Michael Baigent, as obras de Barbara Thiering e Dolores Cannon. Esses escritores, segundo Craig Evans, estão somando esforços para levar "jesuses" estranhos ao Novo Testamento, dos séculos II e III para o I, desejando desafiar o Jesus neotestamentário. As teorias levantadas são fruto de uma grande imaginação, especulação e, até mesmo, de ideias místicas. Alguns desses autores chegaram a "descobrir" códigos secretos e, descodificando textos antigos, a desvendar "verdades ocultas" sobre o Messias. A verdade é que intuição mística, conhecimento mediúnico e esquemas bizarros concebidos para decifrar supostos códigos não são coisas que podem ser avaliadas objetivamente. Analisemos algumas das obras:

Ao longo de sua obra acerca de "Jesus", Barbara Thiering, ao decodificar materiais antigos, chegou às seguintes conclusões sobre o Messias, postas em secreto pelos autores originais:

- Ele nasceu em 7 a.C., no domingo de 1 de março, em Mird, Mar Morto.
- Foi separado da mãe aos 12 anos.
- Passou a adolescência em Alexandria, onde foi influenciado pelo budismo.
- Foi batizado em Jerusalém no ano 15 d.C.
- Seu pai morreu em 20 d.C.
- Em 1 de março de 29 d.C. começou a se preparar para o ministério.
- Em 6 de junho de 30 d.C. ficou noivo de Maria Madalena, com quem teve um casamento experimental em 23 de setembro e um oficial em 18 de março de 33 d.C.
- Em 33 d.C. foi crucificado ao lado de Simão, o Mago, e Judas Iscariotes, mas, drogado, mesmo aparentando estar morto, Jesus não estava. Sobreviveu om remédios que foram escondidos no seu sepulcro. Voltou ao ministério em 36 d.C.
- Em 40 d.C., Jesus se encontra com Paulo.
- Em 50 d.C., Jesus se casa com Lídia.
- em 58 d.C. ele se encontra com Paulo para festejar os 25 anos da crucificação e da Última Ceia.

Além disso, uma outra "descoberta" de Thiering "prova" que Jesus teve filhos com Maria e Lídia. Como ela "desvendou" essas "verdades"? Através de uma minuciosa análise dos Manuscritos do Mar Morto e do Novo Testamento, pressupondo a existência de um código a ser decifrado. Esse código "encontrado" por Thiering concluiu outras coisas estranhas: através dele o "Mestre da Justiça" acaba sendo João Batista, e o "Sacerdote Ímpio", o próprio Cristo; não é Lázaro que ressuscita, mas Simão, o Mago; e por meio dele até mesmo se encontrou algo sobre os papas e os cardeais. Segundo Craig Evans, nenhum acadêmico competente valoriza esses "achados" - até porque é perfeitamente possível ler todo o material que ela "decifrou" e não encontrar nada disso, já que essas coisas não existem nos textos.

Em sua obra, Dolores Cannon, médium e praticamente de hipnose para recordação de vidas passadas, afirma ter retrocedido até a vida de uma testemunha ocular de Cristo, com quem descobriu a verdade sobre Jesus. A mesma autora alega ter feito isso para desvendar questões sobre Nostradamus, OVNIS e bruxaria. É lógico que seu trabalho não pode servir como fonte para estudos sérios.

Recentemente tem sido reascendida a questão sobre o Santo Graal, cuja existência foi desprezada pelos cristãos por mais de mil anos, até o Século XII. Segundo a lenda, esse seria o cálice no qual Cristo bebeu na Última Ceia - não há uma única evidência histórica para ele. É claro que a carência de historicidade não é importante para alguns estudiosos, que se apegam a mitos como se fossem fatos. Foi isso o que fizeram Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln no livro "The Holy Blood and The Holy Grail", onde afirmam que Jesus e Maria Madalena tiveram filhos e que tais filhos chegaram na França, onde, unidos aos nobres, formaram os merovingianos. Esses "fatos" eram do conhecimento de sociedades secretas - os Templários e a Confraria de Sion -, que fizeram todo o possível para guardar o segredo e proteger os descendentes de Cristo. Como base de autoridade, os autores afirmaram o achado de documentos secretos na Biblioteca Nacional da França, além de detalhes em obras de arte e lendas ligadas a Rennes le Château. Nada disso é crível para um bom historiador.

A verdade é que o próprio Baigent reconheceu a fraude antes de seu livro ser publicado. O embuste começou em 1956, quando circularam rumores sobre o achado de um tesouro e dalguns documentos importantes em Rennes le Château, que serviram de incentivo para que uma trama enganosa fosse forjada por Pierre Plantard e amigos, com alguns dos documentos inverídicos acabando depositados na Biblioteca Nacional da França. Todos os envolvidos no crime reconheceram. Pierre Plantard acabou preso por algum tempo. O jornalista Jean-Luc Chamueil, auxiliado pelos arqueólogos Bill Putnam e John Edwin Woods, publicou um livro resolvendo o caso - "The Treasure os Rennes-lê-Château: A Mistery Solved", 2003.

Por essa época, Michael Baigent e Richard Leigh publicaram outra obra, "The Dead Sea Scrolls Deception" (1991), que, segundo Craig Evans, está cheio de "problemas, erros, sugestões e rumores enganosos". Os autores conspiram sobre a demora para a publicação dos últimos manuscritos do Mar Morto, achando que se tratava de a Igreja tentando ocultar verdades inconvenientes - uma demora que nada teve com o ocultar de "verdades embaraçosas". Diversas suposições sobre a vida de Cristo foram formuladas, mas nenhuma se sustentou quando os manuscritos foram divulgados.

Posteriormente, inspirada em "The Holy Blood and The Holy Grail", Margaret Starbird encorpou a lenda de que Maria Madalena visitou a França em 42 d.C., acompanhada de uma jovem de nome Sara, que significa "princesa", e, portanto, filha dela com Jesus. Estranha conexão. Em suas obras sobre o tema, Starbird mistura mitos de sereias, o símbolo cristão ("ichthys"), lendas merovingianas, gematria, o sentido radical de "Maria Madalena" e alguns versículos bíblicos, produzindo, assim, a crença inadmissível de que Maria Madalena tenha tido uma filha com Cristo e fugido com ela pra a França. Nenhum historiador de verdade consegue sustentar essa teoria com evidências.

É aqui que entra Dan Brown, que foi fortemente influenciado por Baigent e Leigh e, em menor grau, por Starbird. O Código DaVinci apresenta, basicamente, todas as principais conclusões de "The Holy Blood and The Holy Grail" e "The Dead Sea Scroll Deception", motivo pelo qual Brown foi processado por Baigent e Leigh. Para a formulação de sua teoria, Brown também tomou algo de outras fontes questionáveis e de si mesmo:

Ele trata os embustes do Priorado de Sião e Rennes lê Chateau como se fossem o próprio Evangelho e, considerando a aparência feminina de João ao lado de Jesus na "Última Ceia", de DaVinci (1497), afirma ter encontrado Maria Madalena intimamente próxima ao Messias. Quanto a isso, há oposição dos historiadores da arte, que apontam que quase todo o homem jovem do período de Leonardo era retratado com esse aspecto - sem barba e com cabelos compridos. Foi assim que Leonardo pintou "João Batista", Rafael pintou "São Sebastião" e Pierre della Francesca pintou "São Juliano". Isso era característico da Renascença. 

O personagem de Dan Brown, Sir Leigh Teabing (de Richard Leigh e Michael "Baigent"), principal instrutor nO Código DaVinci, comete uma série de erros graves em suas colocações: dá crédito a Constantino, séc. IV, pelo conteúdo da Bíblia; afirma que Constantino pressionou os líderes cristãos a verem Jesus como divino; afirma que existiram 80 evangelhos no Primeiro Século, muitos deles queimados por Constantino; afirma que o Evangelho de Filipe foi escrito originalmente em aramaico; refere-se aos códices coptas como "rolos"; faz parecer que os Manuscritos do mar Morto foram achados numa só caverna  nos anos 50 - foram 11 cavernas em 1947; e também erra quando afirma que esses manuscritos falam da história do Santo Graal e mostram Jesus como sendo apenas humano, uma vez que não há nenhuma referência cristã nos Manuscritos do Mar Morto, segundo Evans.

2 - Jesus foi casado?
Mas se o Priorado de Sião é um embuste e quem está com Cristo na "Última Ceia" é João, de onde se tira a ideia de que Jesus foi casado com Maria Madalena? Segundo Evans, há apenas dois textos antigos que podem ser sugestivamente interpretados para essa direção: o Evangelho de Filipe e o de Maria Madalena.

O Evangelho de Filipe, em copta, foi composto provavelmente em grego ou siríaco por volta de 150 d.C., e diz, na página 63, das linhas 32-36:

"A companheira do [...] Maria Madalena [...] ela mais do que [...] os discípulos [...] beijá-la [...] em seu [...]."

A reconstrução mais segura do trecho é a seguinte:

"A companheira do [Salvador] é Maria Madalena. [Mas Cristo a amou] mais do que [todos] os discípulos e costumava beijá-la [com frequência] em seu [...]."

Alguns estudiosos preenchem a última lacuna com "lábios" ou "boca", mas "cabeça", "mão" ou "rosto" se encaixam melhor. Segundo Evans, certamente não há amor romântico em vista nesse texto, considerando que o beijo, na época, demostrava respeito - Judas, ao trair Jesus, beijou-o como um discípulo ao meste. No Evangelho de Filipe, a questão é demonstrar que Cristo respeitava mais a Maria Madalena do que aos demais discípulos, o que pode significar que Ele lhe ensinava coisas mais profundas do que aos outros, sendo Maria uma fonte para verdades secretas, como acontece comumente nos escritos gnósticos do Século II d.C. Não há, portanto, intenção de sugerir uma relação sexual entre eles.

O Evangelho de Maria, datado da mesma época - tardio demais para o Novo Testamento -, oferece semelhante entendimento gnóstico. Ele sobrevive em copta num fragmento e no grego em dois, Nele, Maria é convidada por Jesus para aprender coisas que os demais discípulos não tiveram acesso:

"Pedro diz a Maria: 'Irmã, sabemos que eras muito amada pelo Salvador, como nenhuma outra mulher. Portanto, diga-nos as palavras que sabes do Salvador, aquilo que não ouvimos."

O relato que segue, da parte de Maria, assemelha-se profundamente à muitos escritos gnósticos. André expressa descrença e Pedro acusa mentira:

"'Vós pensais que eu falei mentiras sobre o Salvador?' Levi diz a Pedro: 'Pedro, a ira está sempre dentro de ti, que assim questionas como quem se opõe à mulher. Se o Senhor a considerou digna, quem és tu para desprezá-la? Pois aquele, tendo-a conhecido, a amou sempre e seguramente."

As qualificações de Maria aqui são de discípula, não amante. A frase "tendo-a conhecido" não remete a nenhuma conotação sexual - e as versões gregas e copta possuem leituras muito diferentes -, devendo ser entendida no sentido gnóstico de possuir pleno conhecimento. O conflito se dá no direito de Maria de ensinar teologia na comunidade. Não há, dessa forma, evidência alguma de um romance entre Jesus e Maria Madalena.
Fonte: O Jesus Fabricado, Craig Evans, Cultura Cristã, 2009, pgs 183-191.

Para trabalhar esse tema tão debatido em nossos dias, não poderia ater-me apenas aos eruditos mais conservadores, como é o caso de Craig Evans. Barth Ehrman e Dominic Crossan, que tanto criticam o Jesus do Evangelho, conseguem acompanhar Craig Evans quando o assunto é o suposto casamento de Cristo. Crossan é categórico e engraçado em sua posição:

"Há um princípio antigo e venerado na exegese (interpretação) bíblica: o que se parece com um pato, anda como um pato e grasna como um pato, deve ser um camelo disfarçado. Vamos aplicar esse princípio ao suposto casamento de Jesus. Não existe nenhum indício de que Jesus tenha se casado (parece um pato), várias indicações de que não tenha se casado (anda como um pato) e nenhum texto antigo que sugira mulher e filhos (grasna como um pato)... então ele só pode ter tido um casamento secreto (um camelo disfarçado)."
Fonte: John Dominic-Crossan, “Why Jesus Didn’t Marry”, Beliefnet.com.

Barth Ehrman, por sua vez, no livro "A Verdade e a Ficção em o Código Da Vinci", Record, 2005, declara que a palavra usada para "esposa" -koinõnos-, no grego significa, apenas, "companheira", comumente utilizada para referir-se a amigas e companheiras. Ehrman também aponta que, para tratar desse tema, é necessário ir além da mera citação de versículos e passagens de outros manuscritos antigos: "precisamos levar em conta a natureza de nossas fontes, aplicando-lhe critérios rigorosos para separar os fatos da ficção". Isso significa que, mesmo que alguma fonte afirme que Jesus e Madalena foram casados, tal documento deve ser analisado com cuidado para verificar a procedência da informação. A questão é que "nem uma única das fontes antigas que chegaram até nós afirma que Jesus foi casado, e muito menos que Maria Madalena" - segundo Ehrman, "tais afirmações [de que Cristo foi casado] derivam de reconstruções fictícias modernas da vida de Jesus, não tendo qualquer relação com os relatos históricos que até nós chegaram". Com base nisso, é fácil compreender o que leva a imensa maioria dos especialistas do Novo Testamento e dos primórdios do cristianismo chegarem à conclusão de que o Messias jamais se casou.

Para Ehrman, umas das motivações que levou certo número de cristãos dos Séculos II e III a ampliarem, alterarem e inventarem tradições a respeito de Jesus e Maria Madalena reside na carência de informações antigas fidedignas sobre ela. Como que para preencher uma lacuna, eles começaram a desferir declarações sem caráter histórico sobre aquela que foi a única mulher nominalmente identificada no ministério público de Cristo. Não é surpreendente que essas invenções a respeito dela tenham angariado crentes nos nossos dias, caracterizados por um grande interesse pelo maior número possível de informações acerca de Madalena - e com um público tão ávido, não deve nos assustar o aparecimento de diversas ficções sobre o tema, como "The Holy Blood and The Holy Grail".
Fonte: A Verdade e a Ficção em O Código Da Vinci, Record, 2005, pgs 184-185, 194 e 204.

Vale ressaltar ainda algumas das conclusões de Darrel L. Bock:
"Uma das poucas coisas em que concorda a grande maioria dos estudiosos, liberais e conservadores, sobre Jesus é que ele foi solteiro.(...) É muito incomum nos estudos sobre Jesus que estudiosos de todas as linhas concordem em um ponto. Quando isso acontece, deve ser notado. Um ponto de unanimidade é quase sempre correto."

"Qual a probabilidade de Jesus ter sido casado? A resposta é simples: Nenhuma."
Fonte: Quebrando O Código Da Vinci, Darrel L. Bock, Novo Século, 2004, pgs 47 e 59.

Mais recentemente, o debate foi alimentado pela publicação de um manuscrito desprestigiado que supostamente afirma que Jesus tinha Maria Madalena como esposa. A questão ganhou notoriedade pela divulgação de um artigo da professora de Harvard, Karen L. King, que analisou o fragmento, que é datado do Século IV e apresenta, em copta, um diálogo entre Jesus e os discípulos no qual o Mestre fala de Madalena como "esposa". Para verificar a informação, melhor é lermos o que diz o pequeno manuscrito:

Anverso:
1. “não [para] mim. Minha mãe me deu a vi[da...”
2. os discípulos disseram a Jesus: “[
3. negar. Maria é digna de... [alguns sugerem que o correto seria: “Maria não é digna de...]”
4. ...” Jesus disse a eles: “Minha esposa... [
5. ...ela  será capaz de se tornar um discípulo... [
6. Deixe os iníquos incharem... [
7. Quanto a mim, eu moro com ela de modo que... [
8. uma imagem [

Verso:
1. minha mã[e
2. três [
3. ... [
4. Diante do qual ...
5. traços de tinta ilegíveis
6. traços de tinta ilegíveis

Como o papiro faz parte da coleção particular de um anônimo, muito difícil avaliar se é ou não autêntico e qual a sua procedência. Evidências internas, porém, sugerem que a maior parte do texto é verdadeira, tendo sido produzida na Síria ou no Egito por volta do Século IV d.C. Como não temos nenhuma informação sobre quem escreveu o fragmento, ele foi nomeado como “Evangelho da Esposa de Jesus”, mesmo assim, nada no texto prova que Jesus tenha sido casado, como a própria Karen L. King reconheceu, afirmando, inclusive, que o autor não pode ter conhecido o Messias pessoalmente - o papiro foi escrito muito tardiamente e, ainda que seja uma cópia de uma redação anterior, o trabalho continua sendo recente demais para afirmar algo seguro sobre o verdadeiro fundador do cristianismo. Considere que não há nenhuma evidência para sustentar que ele seja uma cópia de um documento mais antigo.

Para o professor de egiptologia Leo Depuydt, da Universidade Brown, “O fragmento do papiro parece perfeito para um esquete do Monty Python [famoso grupo de comediantes britânicos]”, tratando-se de uma grande fraude. Para sustentar sua posição, ele apontou para erros gramaticais e para o estranho fato de o "minha esposa" parecer ter sido enfatizado em negrito, o que não é usado nos textos antigos em copta.

O jornal vaticano, “L’Osservatore Romano”, já desmentira o manuscrito em 2012. O professor italiano Alberto Camplani, especialista em língua copta e professor de História do Cristianismo na Universidade La Sapienza de Roma, desqualificou o papiro questionado a forma como ele foi encontrado: “ao contrário de outros papiros, não foi descoberto em uma escavação, mas provém de um mercado de antiguidades”. Camplani recomenda cuidado na sua análise. Segundo ele, há razões consistentes para pensar que o fragmento é apenas uma “trôpega falsificação, como tantas que chegam do Oriente Médio”.

Os resultados anunciados pela profa. King em 2012 deveriam se publicados em janeiro de 2013 na revista científica “Harvard Theological Review”, publicação adiada por reivindicação do periódico, que exigiu análises laboratoriais independentes e mais detalhadas que venham a comprovar a sua autenticidade. Segundo Hershel Shanks, da Sociedade de Arqueologia Bíblica, a retirada do achado da lista de publicações é vergonhosa e, segundo ele, a revista evitou a divulgação do material porque a base utilizada pela profa. King é fragmentária demais para sustentar a sua posição, que está mais para uma "suposição". Para Shanks, o papiro não fornece nada de novo, vindo a repetir a velha temática presente na já conhecida literatura apócrifa.

Para o prof. Francis Watson, da Universidade de Durham, o papiro “pode ser uma fraude moderna”, uma vez que o texto se parece muito com um evangelho apócrifo conhecido como “Evangelho de Tomé”. Outros especialistas não aceitam o achado como autêntico.
Fontes: "Falso papiro retoma ofensiva contra Jesus Cristo", aascj.org.br, 26/04/2014, baseado no "Ciência Confirma Igreja"; "Jesus tinha esposa ou a mídia é casamenteira?", Criacionismo.com.br, Rodrigo Silva, arqueólogo e teólogo, 20/10/2012.

Mais sobre Jesus ser casado pode ser visto no episódio sobre o tema do Programa Evidências, da TV Novo Tempo, apresentado por Rodrigo Silva, publicado no canal do Youtube no dia 15 de fevereiro de 2015, sob o título, "EVIDÊNCIAS - Jesus era casado?, 2013 - TVNovoTempo":
Conclusão:
Rejeitando as dezenas de milhares de manuscritos neotestamentários de antiguidade comprovada, certos escritores se enveredam em verdadeiros contos de fada e, afirmando-se céticos, acabam acreditando em grandes fantasias. Não se deixe levar pelos modismos sazonais que se levantam para questionar o Cristo, pois isso sempre aconteceu nos últimos séculos, mas o firme alicerce do Evangelho segue inabalável, comprovado pelos estudos mais sérios profundos.

Natanael Pedro Castoldi
Com a colaboração de Djonatan Küster

Leia mais:

Testemunho Ocular? O Papiro de Jesus e o Fragmento de Marcos

Recentemente li sobre o incrível achado arqueológico do Evangelho de Marcos em uma máscara de múmia. O documento foi datado como procedente dos anos 80 ou 90 do Primeiro Século. Essa magnífica descoberta, que chegou a me dar aquele frio na barriga - publicada no EOMEAB sob o título "A Evidência Definitiva do Evangelho no Primeiro Século" -, fez-me lembrar de um documentário que assisti há alguns anos sobre supostos fragmentos de manuscrito neotestamentários de antes de 68 d.C.: Testemunho Ocular de Jesus, Discovery Channel, apresentado por Matthew d'Ancona, 1998, 2005. O artigo toma como fonte esse documentário - recomendo cautela na leitura das informações.

Segue o documentário "Testemunho Ocular de Cristo". Depois, leia o restante do artigo.
Três manuscritos de Mateus guardados em Oxford fornecem provas de que os evangelhos foram escritos e lidos por pessoas que vieram Jesus, uma vez que provavelmente são da década de 60 d.C. Eles apresentam trechos do capítulo 26 de Mateus, com 6 frases em grego. Num dos pedaços, está descrita a unção de Cristo com unguento, por Maria Madalena, no outro, o encontro de Judas Iscariotes com o sumo sacerdote, e por fim, parte do relato da Última Ceia, quando Jesus firma que um dos presentes iria traí-Lo. O consenso é que o período do testemunho ocular de Cristo termina por volta do ano 70 d.C., ano da destruição do Templo de Jerusalém e da dispersão dos cristãos.

Carsten Thiede, papirologista e arqueólogo alemão, analisou esses fragmentos, conhecidos como Papiro de Jesus, com a mais sofisticada tecnologia de análise e datação, mas o carbono radioativo, com uma margem de erro de 50 anos, se apresentou impróprio. O melhor método de datação foi o uso de recursos antigos, não modernos: a comparação desse documento com outros materiais antiquíssimos, que possuem caligrafia semelhante e data conhecida – quanto mais textos forem comparados, mais confiável é o resultado da datação. Os principais manuscritos que Thied utilizou foram encontrados na Palestina, em Nahal Hever, Qumran, Massada e outras localidades.

1 – Nahal Hever, Caverna dos Horrores: em 1955 foram encontrados nesse local manuscritos que ajudaram Thiede a datar o Papiro de Jesus. Sua história começa em 135 d.C., quando os judeus se rebelaram contra a ocupação romana, tentando expulsar os romanos da Terra Santa, mas acabaram sendo repelidos com um saldo negativo de mais de meio milhão de mortos. Os rebeldes que sobreviveram se refugiaram na Caverna dos Horrores, em Nahal Hever, onde ficaram por vários meses, culminando em uma derrota definitiva. Mortos de fome e sede, os rebeldes deixaram na caverna, além de ossos, seus pertences, incluindo manuscritos – nenhum podendo ter sido escrito depois de 135 d.C., ano de suas mortes. A caverna permaneceu intocada por milênios.

Um dos manuscritos por eles deixados na caverna pertencente ao rolo dos Profetas Menores. Esse documento, de caligrafia anterior ao ano 135 d.C., apresentou notáveis semelhanças de escrita com o Papiro de Jesus – letras retilíneas e verticais e sem pontuação ou espaço entre palavras, além de caracteres específicos que demonstraram singulares similaridades: a letra “roh” se estende abaixo da linha natural em ambos os documentos e a barra horizontal do “eta” está abaixo da altura média entre as duas linhas, evidenciando um trabalho de escrita simultâneo. Isso coloca o Papiro de Jesus, no máximo, no ano 135 d.C.

2º - Massada: a grande fortaleza de Massada foi construída por Herodes em 40 a.C. como defesa contra Cleópatra, do Egito. Em 66 d.C., os zelotes judeus tomaram Massada das mãos dos romanos, acabando cercados pelo exército do Império. Antes do último ataque romano durante o sítio a Massada, no ano 73 d.C., os zelotes que se abrigavam no local cometeram suicídio coletivo. É possível que alguns dos rebeldes mais velhos de Massada, mortos até 73 d.C., tenham sido testemunhas oculares do ministério de Cristo, concluído quarenta anos antes.

O fato é que a fortaleza ficou intocada de 73 d.C. até 1966, quando foi descoberta por arqueólogos. Qualquer coisa que for achada em Massada precisa ser de 73 d.C. ou antes. Foi descoberta nesse contexto a mais antiga sinagoga do mundo, onde um pedaço de cerâmica contendo a palavra “Lia”, em grego, foi preservado. A caligrafia utilizada nessa pequena palavra é quase idêntica àquela utilizada no Papiro de Jesus: ambas escritas possuem as mesmas letras verticais separadas, pertencendo ao estilo conhecido como “Uncial”. Certos caracteres que aparecem nos dois manuscritos têm forma quase idêntica, como os “alfas”, cuja linha mediana é diagonal nos dois casos – elevando-se da esquerda para a direita -, e os “iotas”, que apresentam o que se conhece por “serif”, que é um alargamento da letra. Tais singularidades em comum sugerem que ambos os materiais quase que certamente foram redigidos ao mesmo tempo. Isso coloca o Papiro de Jesus para antes de 73 d.C., praticamente dentro do período das testemunhas oculares.

3º - Qumran: todos os Manuscritos do Mar Morto, encontrados em Qumran, possuem a idade aproximada de 2 mil anos. A coleção desse material soma cerca de 800 volumes, apresentando de modo bastante completo o contexto judaico no tempo em que Jesus realizou Seu ministério. Ali também foram encontrados fragmentos que aparentam ser do Novo Testamento.

Em Qumran habitaram os essênios, que deixaram Jerusalém em 152 a.C. para fundar a sua comunidade ascética, onde viveram por mais de 200 anos. Assim como aconteceu na Caverna dos Horrores e em Massada, os essênios acabaram exterminados pelos romanos, isso em 68 d.C. Antes do desfecho da tragédia, os habitantes de Qumran esconderam seus manuscritos em cavernas e as bloquearam. Por dois mil anos o local ficou intocável, absorvido pela areia, até que, em 1947, um pastor descobriu os pergaminhos ocultos. Tudo isso indica que qualquer coisa encontrada em Qumran só pode ser de 68 d.C. ou antes. Só na Caverna 4, 15 mil fragmentos de manuscritos foram encontrados, formando 530 pergaminhos.

Entre os 15 mil fragmentos, recebeu ênfase de Thiede um pequeno trecho de Levítico, uma vez que possui uma caligrafia quase idêntica à do Papiro de Jesus: a aparência geral é a mesma, sendo as letras desenhadas de forma uniforme em ambos, com traços horizontais e verticais de igual espessura e, mais uma vez, com letras muito semelhantes. O “Y” atinge a linha inferior em ambos os fragmentos e os “alfas” possuem o mesmo traço diagonal em sua altura mediana. Dessa forma, o Papiro de Jesus pode ser situado em 68 d.C. ou antes, para dentro do período das testemunhas oculares.

Outras evidências para a antiguidade dos Evangelhos:

- Banias: A localidade de nome “Banias”, norte de Israel, na região da nascente do Jordão, possui um nome diferente nos Evangelhos: Cesaréia de Filipe, designação que deixou de ser usada depois de 62 d.C., quando o nome foi alterado para Banias. O fato de Mateus utilizar “Cesaréia de Filipe” indica que ele escreveu antes de 62 d.C., sugerindo a redação dos Evangelhos durante o período do testemunho ocular.

5º - A controvérsia da Caverna 7 de Qumran: na Caverna 7 de Qumran foi encontrado um pequeno fragmento de escrita grega que parece indicar, segundo as pesquisas de Thied, um trecho do capítulo 6 do Evangelho de Marcos. Há muitas discussões sobre ser este ou não um fragmento do Evangelho, mas o erudito alemão apresenta evidências interessantes para a sua proposta: na quarta linha do manuscrito aparecem algumas letras que formam a palavra “Genesaré”, o antigo nome do Mar da Galiléia – na Bíblia essa palavra aparece apenas em Marcos. Outro detalhe interessante, considerando a redação de Marcos em Roma, é o fato de que um vaso com a palavra “Roma” foi encontrado junto ao suposto fragmento do Evangelho – jarros assim serviam como depósitos de rolos. Segundo Thiede, esse vaso da Caverna 7 deve ter sido o recipiente onde estava o manuscrito do Evangelho – um vaso provavelmente vindo de Roma foi achado próximo de um manuscrito que também quase que certamente foi redigido na capital do Império Romano. Com essas colocações, teríamos outro fragmento neotestamentário de, no máximo, 68 d.C., estando dentro do período das testemunhas oculares.

6º - O uso do pergaminho: o Papiro de Jesus é proveniente de um livro, enquanto o fragmento da Caverna 7 foi escrito em pergaminho. Segundo Thied, os primeiros textos neotestamentários foram todos redigidos em pergaminho, havendo, por exemplo, um pergaminho de Mateus a anteceder o papiro. Antes do achado da Caverna 7, acreditava-se que os cristãos só escreviam em livros, agora verifica-se que eles, primeiro, escreveram em rolos para, então, transferir o texto para livros, originando materiais como o Papiro de Jesus. Isso significa que o Papiro de Jesus foi uma cópia de um rolo de pergaminho de Mateus ainda mais antigo – assim como todos os demais Evangelhos, que devem ter ganhado forma ainda no período do testemunho ocular em pergaminho.

O achado da Caverna 7, implicando na redação em rolo antes de papiro, apontando para a redação em rolo de pergaminho antes do papiro, sugere que o Papiro de Jesus é uma cópia de um pergaminho escrito, provavelmente, na década de 50 d.C., período no qual centenas, ou milhares, de testemunhas oculares de Cristo ainda viviam. Essa evidência coloca os Evangelhos, especialmente Marcos e Mateus, como produto do testemunho ocular de gente que escreveu por volta de 20 anos após o ministério de Cristo.

Conclusão:
É claro que as percepções de Thiede não são consenso, sendo desprezadas por muitos eruditos. A impressão que eu tenho é que Carsten realizou um trabalho superficial e, talvez, tendencioso, mas, ainda assim, é bastante válido que analisemos os seus argumentos. De fato, há uma possibilidade real de termos hoje fragmentos de manuscritos neotestamentários da década de 60 d.C., um deles resultante de uma redação anterior, feita por volta dos anos 50 d.C., situando a obra uns vinte anos depois de encerrados os eventos registrados. Se isso for verdade, chegaram até nós fragmentos de textos produzidos por pessoas da região e dos dias de Cristo, sendo testemunhas oculares dos eventos. Essa possibilidade enche de credibilidade os relatos neotestamentários sobre Cristo, Seus milagres, Sua sabedoria e a Sua morte e ressurreição, apontando para a historicidade dos pilares da fé cristã, que se assentam em eventos históricos.

Natanael Pedro Castoldi

Leia também:

A Evidência Definitiva do Evangelho no Primeiro Século

-> Apresentação e Índice
No anseio por tirar a credibilidade do Novo Testamento, muitos críticos afirmam que os Evangelhos foram redigidos apenas muitas gerações depois dos eventos que registram, apresentando, assim, relatos deturpados, com acréscimos míticos resultantes do tempo. Muitas evidências arqueológicas e literárias já evidenciaram a redação de todo o Novo Testamento ainda no Século Primeiro, mas nenhuma delas pode ser considerada mais poderosa do que o recente achado: um fragmento do Evangelho de Marcos, escrito entre 80 e 90 d.C., foi encontrado numa máscara de múmia, no Egito. Essa espetacular notícia se espalhou rapidamente, alvoroçando a todos, uns ouriçados e outros exultantes. Estamos cada vez mais perto de encontrar a pena dos apóstolos - mesmo que isso possa ser impossível, nunca antes se chegou tão perto da redação original de algum documento neotestamentário.

As famílias egípcias que não tinham condições de produzir uma máscara de qualidade para os seus mortos, costumavam confeccioná-las através da reutilização de papiro e linho, acabando por preservar pequenas porções de textos antiquíssimos. É sobre textos assim que atualmente uma equipe de mais de 30 cientistas tem se debruçado, sendo Craig Evans o mais conhecido dos envolvidos. Evans é professor de Novo Testamento e diretor do programa de graduação no Acadia Divinity College, em Wolfville, Nova Scotia. Ele também foi consultor do The Gospel of Judas, da National Geografic Society, e depõe como perito em documentários da BBC, do Discovery Channel e do History Channel.

Dentre os textos extraídos das máscaras de múmia, o mais impressionante foi um fragmento do Evangelho de Marcos, sendo considerado o manuscrito mais antigo do Novo Testamento, com uma data de redação que paira entre os anos 80 e 90 do Primeiro Século - superando em décadas a cópia que até então era tida como a mais antiga, o Papiro Rylands, do Evangelho de João, datado do ano 125 d.C. Esse documento também antecede a outrora mais antiga cópia que tínhamos do Evangelho de Marcos em cerca de 150 anos. A consideração da idade do fragmento de Marcos resulta de uma combinação de datação por Carbono 14, estudo da caligrafia e do estilo da máscara e da análise dos demais escritos encontrados junto com o Evangelho.

Segundo afirmam muitos estudiosos, o Evangelho de Marcos foi escrito no final da década de 60 d.C. em Roma, onde João Marcos decidiu registrar aquilo que ouvira do Apóstolo Pedro - aproximadamente 30 anos depois dos fatos acerca de Jesus. Isso coloca o manuscrito recentemente encontrado perto cerca de 20 ou 30 anos do autógrafo. Considerando a velocidade do correio no Império Romano, é perfeitamente aceitável que material escrito em Roma na década de 60 d.C., já estivesse sendo usado há algum tempo no Egito dos anos 80 ou 90 d.C. De qualquer forma, temos uma evidência indiscutível de que o Evangelho de Marcos foi escrito antes dos anos 80 ou 90 d.C., uma vez que o manuscrito é uma cópia - e a cópia de um documento romano e repleto de influências judaicas, não podendo, portanto, ter o Egito como origem.

Segundo Evans, há boas razões para crer que os manuscritos originais e as suas cópias tenham circulado por mais de cem anos - nalguns casos, por cerca de 200 anos. Isso sugere que o fragmento que foi encontrado na máscara poderia ter sido uma cópia tirada diretamente do original - e que um escriba do segundo ou terceiro século pode ter utilizado o autógrafo para realizar seu trabalho de cópia.

As implicações desse achado são enormes: em primeiro lugar, prova definitivamente que o Evangelho, pelo menos em parte, foi redigido ainda no Primeiro Século; em segundo lugar, evidencia que os relatos que conhecemos sobre Jesus não são deturpações míticas, pois temos cópias vinte ou trinta anos mais novas que o original de Marcos, escrito, por sua vez, no máximo durante os anos 60 d.C., não havendo tempo suficiente para a severa corrupção dos eventos reais; em terceiro lugar, a análise do texto pode nos dar evidências sobre a qualidade das cópias posteriores, verificando que aquilo que temos hoje de Marcos em nossas bíblias concorda com os trechos desse antiquíssimo manuscrito. Esse material também defende como nenhum outro a historicidade de Cristo.

Ainda nesse ano os resultados das pesquisas - que estão sendo realizadas já há alguns anos - serão publicados - a primeira notícia sobre o documento saiu em 2012. Assim que mais informações forem divulgadas, esse artigo será atualizado.

Fontes: "Cientistas encontram cópia mais antiga do Evangelho em uma múmia egípcia", Revistagalileu.globo.com, Ciência, 21/01/2015; "Pesquisadores encontram o evangelho mais antigo em máscara mortuária", Portaln10.com.br, 19/01/2015; "Cópia mais antiga do Evangelho é encontrada em múmia", Criacionismo.com.br, Michelson Borges, 21/01/2015; "Antigo texto bíblico descoberto em uma máscara de múmia egípcia", Logosapologetica.com, Emerson Oliveira, 21/01/2015; "Mummy Mask May Reveal Oldest Known Gospel", Livescience.com, Owen Jarus, 18/01/2015.

Natanael Pedro Castoldi

Leia também:
Os Mais Antigos Testemunhos do Novo Testamento
Evidências de Jesus no Primeiro Século?
As Fontes Documentais do Novo Testamento

O Cânon do Novo Testamento foi Escolhido no Concílio Niceno?

-> Apresentação e Índice
Noutro dia, tomando para ler novamente uma antiga edição da Superinteressante, "Os Maiores Mistérios dos Livros Sagrados", Julho, 2008, Editora Abril, deparei-me, na página 37, com as seguintes declarações: "As igrejas maiores e mais influentes tentavam impor seus textos, o que as menores não aceitavam. (...) A peleja continuou até o século 4, quando tudo indicava que o cristianismo apostólico iria prevalecer sobre os outros cristianismos. (...) Foi quando o imperador de Roma, Constantino, entrou em cena e interveio no impasse. (...) Os cristãos deixaram de ser perseguidos em 313 e apenas 12 anos depois seus bispos foram convocados para o Concílio de Nicéia, primeiro passo dado para a criação do Novo Testamento. (...) os evangelhos de Marcos, Lucas, Mateus e João foram escolhidos (...) por uma razão muito simples: expressavam a visão dominante na Igreja. E todos os demais foram considerados apócrifos, falsos e perigosos para o estabelecimento do novo livro."

Não precisamos nos esforçar muito para perceber alguns dos vários erros históricos contidos nessas alegações da Super, mas, ainda assim, há muita gente que acredita nessa história e que tem tal revista como uma fonte de autoridade no assunto, por isso é importante trabalhamos a questão com alguma profundidade. Comecemos com algumas perguntas, que nortearão o estudo que segue:

- Existiam mesmo vários cristianismos no início da Era Cristã?
- Foi no Concílio de Nicéia que se iniciou a criação do Novo Testamento e a seleção do seu cânon?
- O motivo que determinou a escolha dos livros que hoje compõem o Novo Testamento estava em sua afinidade com a visão teológica dos bispos comandados por Constantino?
- O principal motivo para a rejeição de diversos livros foi o seu potencial de atrapalhar os negócios do imperador?

1 - Existiam mesmo vários cristianismos no início da Era Cristã?
Vamos às evidências arqueológicas: o que temos de mais antigo em termos de cristianismo é o cristianismo apostólico. A confecção dos apócrifos, que vieram a sustentar doutrinas heréticas, é posterior à conclusão do Novo Testamento e há uma porção considerável de livros neotestamentários mais antigos do que qualquer manuscrito ou artefato que indique a existência de "outros cristianismos" - na verdade, as mais antigas referências ao principiar de movimentos heréticos estão no próprio Novo Testamento, como o proto-gnosticismo que aparece na Primeira Epístola de João e o cristianismo judaizante que aparece em Atos e nalgumas epístolas paulinas. Mas nenhum deles precede o cristianismo apostólico. Como já é dito há um bom tempo: a Bíblia é a raiz de todas as heresias, e não o contrário.

Vamos aos fatos: 
- Há quatro fragmentos do evangelho de Marcos que datam, no máximo, da década de 50 d.C., contendo os trechos: 4:28, 6:48, 6:52-53 e 12:17. Há também um fragmento de Atos (27:38) datado da década de 60 d.C.; um de Romanos (5:11-12) da década de 70 d.C.; um de 1 Timóteo (3:16; 4:1-3), da década de 70 d.C.; um de 2 Pedro (1:15) da década de 70 d.C.; e um de Tiago (1:23-24), também da década de 70 d.C. Todos esses fragmentos de manuscrito foram encontrados nas cavernas de Qumran, nas proximidades do Mar Morto, obstruídas e abandonadas na década de 70 d.C.
Fonte: Por Que Confiar na Bíblia?, Amy Orr-Ewing, Ultimato, 2008, pg 49.
- Há um manuscrito do Evangelho de João (18:31-33 e 37 e 38), o Papiro John Rylands, datado do ano 125 d.C. Considerando que o Evangelho de João foi escrito em Éfeso e que tal manuscrito foi desvendado no Egito, devemos esperar, pelo menos, uns vinte anos entre a confecção do original e o espalhar de cópias até terras tão distantes, indicando que esse documento pode ter sido redigido partindo do próprio autógrafo de João. Há ainda outros papiros de grande antiguidade: o Papiro Chester Beatty I, contendo 30 folhas (originalmente 220) e abrangendo partes de Mateus, Marcos, Lucas, João e Atos, é datado do início do século III; o Papiro Chester Beatty II, contendo 86 folhas (originalmente 104), abrangendo partes de Romanos, Hebreus, 1 e 2 Coríntios, Efésios, Gálatas, Filipenses, Colossenses e 1 e 2 Tessalonicenses, é datado do final do século II ou início do século III; o Papiro Bodmer II abrange todo o Evangelho de João, especialmente os capítulos 1 a 14, que ocupam 104 folhas, com fragmentos dos capítulos 15 a 21 em outras 46, e é datado do final do século II ou do início do século III.
Fonte: Crítica Textual do Novo Testamento, Wilson Paroschi, Vida Nova, 2008, pgs 44-46.
- Segundo Amy Orr-Ewing, com os manuscritos datados de 180-225 d.C., como o Papiro Chester Beatty e o Papiro Bodmer II, XIV e XV, é possível reconstruir de forma completa os Evangelhos de Lucas e João, os livros de Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 e 2 Tessalonicenses, Hebreus, parte dos Evangelhos de Mateus e Marcos e parte dos livros de Atos e Apocalipse.
Fonte: Por Que Confiar na Bíblia?, Amy Orr-Ewing, Ultimato, 2008, pg 44.
- Temos algo entre 10 e 15 manuscritos neotestamentários que foram escritos nos primeiros cem anos após a conclusão do Novo Testamento, abrangendo grandes trechos dos Evangelhos e das cartas de Paulo. Em dois séculos, o número aumenta para cerca de quarenta ou mais manuscritos. Até antes do ano 400 d.C., temos em mãos 99 manuscritos neotestamentários, incluindo o Novo Testamento completo encontrado no Códice Sinaítico. Há algo entre 20 e 25 mil manuscritos antigos do Novo Testamento e cerca de um milhão de citações do Novo Testamento da parte dos Pais da Igreja - só com elas é possível reconstruir todo o texto neotestamentário.
Fonte: Origem, Confiabilidade e Significado da Bíblia, organizado por Wayne Grudem, C. John Collins e Thomas R. Schreiner, Vida Nova, 2013, Capítulo 12 por Daniel B. Wallace, pg 113.
- O manuscrito antigo mais importante do Novo Testamento é datado de 300 anos após o texto original, mas há dois papiros importantes que estão 100 anos perto do autógrafo. Segundo John Blanchard, o Papiro John Rylands pode ser datado entre 117 e 138 d.C. Além disso, há três fragmentos de papiro guardados em Oxford que foram datados como sendo do terceiro quarto do primeiro século.
Fonte: Por que Acreditar na Bíblia?, John Blanchard, Fiel, 2006, pg 9.
- A epístola de Clemente aos coríntios (95 d.C.) cita os Evangelhos, Atos, Romanos, 1 Coríntios, Efésios, Tito, Hebreus e 1 Pedro; as cartas de Inácio (115 d.C.) citam Mateus, João, Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, 1 e 2 Timóteo e Tito.
Fonte: Por Que Confiar na Bíblia?, Amy Orr-Ewing, Ultimato, 2008, pg 45.
- As epístolas de Clemente, Inácio e Policarpo, datadas de 95 a 110 (ou 115) d.C., citam 25 dos 27 livros do Novo Testamento. Somente Judas e 2 João não foram citados, mas já haviam sido escritas, pois Judas era familiar de Jesus e 3 João foi escrita depois de 2 João.
Fonte: Não Tenho Fé Suficiente Para Ser Ateus, Norman Geisler e Frank Turek, Vida, 2012, pg 241.
- Existem cerca de 75 fragmentos de papiro datados desde 135 d.C. até o século VIII, contendo partes de 25 dos 27 livros do novo Testamento, totalizando 40% do texto.
Fonte: A Bíblia de Estudo Anotada Expandida, Mundo Cristão, 2007, pg 1302.

Somente com as epístolas paulinas, escritas até pouco depois da segunda metade da década de 60 d.C., é possível fundamentar toda a teologia cristã ortodoxa, incluindo a divindade de Cristo e a existência da Trindade. As interpretações heréticas vieram desses textos originais. Leia mais sobre o assunto: A Magnífica História da Vida e da Obra de PauloOs Mais Antigos Testemunhos do Novo TestamentoAs Fontes Documentais do Novo Testamento.

A datação dos apócrifos:
- O Evangelho de Maria Madalena: século II d.C..
- O Evangelho de Pedro: século II d.C.
- O Evangelho dos egípcios: segunda metade do século II d.C.
- O Evangelho de Filipe: a partir de 120 d.C.
- O Evangelho de Bartolomeu: entre os séculos II e III d.C.
- O Evangelho de Tomé, o Dídimo: século III d.C.
Fonte: Bíblia Apologética com Apócrifos, ICP, 2014, pgs 860-862.

Com base nas evidências até aqui levantadas, podemos constatar que os documentos canônicos do Novo Testamento, em sua grande maioria, encontram respaldo arqueológico para sua proeminência por sobre os apócrifos, indicando constituírem a primeira percepção completa do cristianismo. É claro que interpretações errôneas de alguns aspectos da fé cristã podem ter surgido ainda no período apostólico, mas não podemos dizer que já existiam "diferentes cristianismos" nesse período, cosmovisões cristãs singulares e coesas para além da principal. Além disso, tais interpretações se limitavam a indivíduos e pequenos grupos, geralmente se isolando em comunidades específicas, o que destoa totalmente da visão genuína da fé cristã, extraída diretamente das obras apostólicas, que era crida pela grande maioria dos cristãos de todas as regiões onde havia presença cristã. E isso não foi imposição dos apóstolos, de forma alguma: a Igreja, no início da Era Cristã, não tinha força política, econômica e numérica para impor qualquer coisa, tanto que, num primeiro momento, não conseguiu impedir que grupos minoritários disseminassem heresias. Se havia a proeminência de uma visão cristã, a mais antiga, é porque a maioria dos cristãos concordava livre e sinceramente com a autoridade e o testemunho dos apóstolos e porque muitos dos primeiros missionários cristãos foram testemunhas oculares do ministério de Cristo, sabendo com clareza aquilo que Jesus realmente disse e quem Ele foi.

Repare que os fragmentos mais antigos que temos, de Marcos, João, Atos, Romanos e doutras epístolas de Paulo, de Pedro e de Tiago, além de outros autores neotestamentários, sustentam basicamente todo o Novo Testamento: em Marcos é possível encontrar o essencial sobre Cristo, incluindo alusões à Sua divindade, assim como nas obras de Paulo, que concentram o fundamental da teologia cristã. Mas é no texto de João que encontramos aquilo que de mais profundo há em termos de cristologia, com indicações diretas da eternidade e da divindade de Cristo. Também é interessante notar que há uma comunicação entre os autores de alguns desses documentos, como ocorre quando Pedro considera os escritos paulinos como "escritura", ou seja, como "divinamente inspirados" (2 Pedro 3:16). Além disso, há evidências claríssimas de que Mateus e Lucas utilizaram Marcos como base para a confecção de seus evangelhos, o que evidencia uma concordância de testemunho entre os evangelistas mais antigos, destoando daquilo que aparece nos apócrifos, posteriores e mais míticos. Há uma inquestionável unanimidade de pensamento entre - e exclusivamente - os documentos neotestamentários tidos como canônicos.

Ao ler o artigo "Uma Análise das Evidências Extra-Bíblicas sobre Jesus", perceba como os testemunhos pagãos e judaicos acerca de Cristo geralmente apontam para aspectos da visão ortodoxa acerca de Cristo, como, por exemplo, a Sua vinda em carne e a Sua morte na Cruz, a Sua ressurreição dos mortos, a Sua sabedoria, o fato de realizar sinais e milagres e o fato de Seus discípulos o considerarem salvador e Deus. Esses antiquíssimos testemunhos nos ajudam a interceptar a visão mais antiga e disseminada de cristianismo no início da Era Cristã, de modo a ser a mais bem, ou talvez a única, conhecida pelos não cristãos. Esses relatos não concordam com as perspectivas heréticas que ganharam força do século II em diante.

2 - Foi no Concílio de Nicéia que se iniciou a criação do Novo Testamento e a seleção do seu cânon?
Depois de trabalhado o assunto do tópico anterior, a resposta para essa pergunta é óbvia. É claro que o Novo Testamento já estava devidamente estabelecido e consolidado antes do Concílio Niceno, havendo evidente e especial interesse da parte dos cristãos para com os livros considerados canônicos. É interessante perceber que NÃO FOI no Concílio Niceno que a configuração atual do cânon neotestamentário começou a ser cogitada, segundo os interesses de Constantino - esse era um debate de séculos, dos tempos nos quais a Igreja não tinha poder político e numérico para impor qualquer coisa tanto a hereges quanto a pagãos.

A verdade é que não foi nem no Concílio Niceno que os 27 livros do cânon Novo Testamento foram oficializados, mas no Concílio de Cartago, em 397 d.C., sem a tutela de Constantino. Só que isso não significa que já não havia uma discussão anterior sobre o assunto. A diferença é que nos primeiros concílios a Igreja não estava mais sendo perseguida, podendo reunir-se com tempo e em grupos numerosos de discussão, além disso, nesses concílios o que se fez foi apenas oficializar o conjunto dos livros neotestamentários, não significando que esses livros não tenham sido reconhecidos como canônicos separadamente antes desses grandes encontros (2 Pe 3:16; 1 Tm 5:18). O fato é que a maioria dos livros do Novo Testamento foi aceita como canônica no século posterior ao dos apóstolos - houve alguma controvérsia quanto aos livros Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João e Judas. A seleção do cânon foi um processo que continuou por séculos até que cada livro provasse seu valor, concordando com os critérios de autenticidade, que são:

- Se o livro foi escrito ou influenciado por algum apóstolo.
- Se o livro desse uma prova intrínseca de seu caráter peculiar, inspirado e aprovado por Deus. O material deveria apresentar algo diferente de qualquer outro livro ao transmitir a revelação de Deus.
- O consenso entre as igrejas. O livro deveria ser reconhecido e utilizado pela grande maioria das igrejas cristãs - e, de fato, houve grande consenso entre as primeiras igrejas sobre quais livros mereciam um lugar no cânon. Nenhum livro cuja autenticidade foi questionada por um número expressivo de igrejas entrou no cânon.
Fonte: A Bíblia de Estudo Anotada Expandida, Mundo Cristão, 2007, pg 1301.

Um resumo do debate sobre o cânon neotestamentário:
Não há uma forma simples de explicar a formação do cânon neotestamentário. Mesmo que as heresias tenham levado os cristãos a selecionar os livros canônicos, elas não foram a única força motivadora. Mediante a perseguição, os cristãos tinham a necessidade de saber por quais livros estariam morrendo, quais deveriam ser postos à disposição das autoridades imperiais e, além disso, era da maior importância definir com clareza quais documentos poderiam ser usados nas igrejas e para a edificação pessoal - esse desejo se intensificou quando os apóstolos começaram a morrer.
Fonte: Merece Confiança o Novo Testamento?, F. F. Bruce, Vida Nova, 2010, pg 36.

É fato que foram os líderes cristãos que oficializaram o cânon, mas não foram eles os maiores responsáveis pela resolução da questão. O que eles fizeram foi apenas oficializar uma decisão que a Igreja já havia tomado de forma gradual. Esse processo de escolha começou com a leitura de litúrgica de textos de pessoas próximas a Jesus - os apóstolos e os discípulos dos apóstolos -, ao lado da proclamação das Escrituras judaicas. Os escritos mais respeitados, que se alinhavam aos ensinamentos mais tradicionais da Igreja e que eram mais úteis para a igreja local, acabaram sendo os mais lidos - ou seja, as tradições herdadas ajudaram a selecionar os textos, não tendo sido os textos os responsáveis pelas primeiras tradições.

No início do terceiro século, Orígenes fez uma pesquisa entre as igrejas cristãs para saber quais livros elas estavam usando. Como resultado de seu trabalho, Orígenes formulou uma lista com três grupos de livros: os livros aceitos, os questionados e os não confiáveis. Os amplamente aceitos eram: os quatro Evangelhos, as 13 Cartas de Paulo, Atos, 1 Pedro, 1 João e Apocalipse; os questionados eram outros seis livros que completam o NT: Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João e Judas; aqueles que a maioria das igrejas tinha como não confiáveis eram: o Evangelho de Tomé, o Evangelho dos Egípcios e o Evangelho de Matias.
Fonte: A Bíblia e Sua História, Stephen M. Miller e Robert V. Huber, SBB, 2006, pg 94.

Segundo F. F. Bruce, "os livros do Novo Testamento não se tornaram escritos revestidos de autoridade para a Igreja porque foram formalmente incluídos em uma lista canônica; pelo contrário, a Igreja incluiu-os no cânon porque já os considerava divinamente inspirados, reconhecendo neles o valor inato e, em geral, a autoridade apostólica, direta ou indireta." Sobre os primeiros concílios canônicos, que se realizaram no Norte da África, em Hipona Régia (393 d.C.) e em Cartago (397 d.C.), Bruce afirma que eles "não objetivavam impor algo novo às comunidades cristãs, pelo contrário, o intuito era sistematizar o que já era uma prática comum."
Fonte: Merece Confiança o Novo Testamento?, F. F. Bruce, Vida Nova, 2010, pg 36.

- Clemente de Roma, 96 d.C.: demonstra conhecer Mateus, Romanos, 1 Coríntios e Hebreus.
- Inácio, de Antioquia (116 d.C.), Policarpo, de Esmirna (69-155 d.C.), e Papias, de Hierápolis (80-155 d.C.), atestaram Mateus, João, as epístolas paulinas, 1 Pedro, 1 João e Atos.
- O Didaquê, 120 d.C.: destaca Mateus e conhece a maioria dos livros do NT.
- Justino Mártir, 100-165 d.C.: atestou Apocalipse, Hebreus e Marcos.
- Marcião, 140 d.C.: o heresiarca em questão reconheceu Lucas e dez epístolas de Paulo.
- Hermas, 150 d.C.: autentica Mateus, Efésios, Apocalipse e, aparentemente, Hebreus e Tiago.
- Teófilo de Antioquia, 115-188 d.C.: adotou a maior parte dos livros do NT.
- Clemente de Alexandria, 155-215 d.C.: aceitou todos os livros do NT.
- Melito, de Sardes, 170 d.C.: citou trechos de todos os livros do NT, exceto Tiago, Judas e 2 e 3 João.
- Vulgata Latina, antes de 170 d.C.: atesta todos os livros do NT, menos Tiago e 2 Pedro. Hebreus foi acrescentada antes dos tempos de Tertuliano.
- O Fragmento Muratoriano, 172 d.C.: autentica os quatro Evangelhos, Atos, nove epístolas de Paulo às igrejas e quatro pessoais, as cartas de Judas, 1 e 2 Pedro e 1 e 2 João e Apocalipse. Acrescenta o Pastor de Hermas, mas observa que, embora seja um livro digno de ser lido nas igrejas, não possui a mesma autoridade que os canônicos.
- Irineu, 140-203 d.C.: o discípulo de Policarpo, que fora discípulo de João, reconheceu os quatro Evangelhos, Atos, Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 e 2 Tessalonicenses, 1 e 2 Timóteo, Tito, 1 Pedro, 1 João e Apocalipse.
- Tertuliano, 150-222 d.C.: atesta os quatro Evangelhos, treze epístolas paulinas, Atos, 1 Pedro, 1 João, Judas e Apocalipse. Rejeitou Hebreus por acreditar que o autor era Barnabé.
- Orígenes de Alexandria, 185-253 d.C.: aceitou, inclusive, os livros que eram mais contestados, como Hebreus, 2 Pedro, 2 e 3 João, Tiago, Judas e Apocalipse.
- Cipriano, 200-258 d.C.: não atestou Hebreus e não citou Filemom, Tiago, 2 e 3 João e Judas.
- Dionísio de Alexandria, 200-265 d.C.: autenticou Hebreus e reconheceu Apocalipse, Tiago e 2 e 3 João.
- Papiros de Chester Beatty, século III: autenticam os quatro evangelhos, Atos, as epístolas paulinas, Hebreus e Apocalipse.
- Atanásio de Alexandria, 298-373 d.C.: considerou canônicos os 27 livros que hoje compõem o NT.
- Basílio da Capadócia, 329-378 d.C., e Gregório de Nazianzo, 330-390 d.C., reconhecerem todos os livros do NT, menos Apocalipse, mesmo tendo-o citado como obra de João.
- Jerônimo, 340-420 d.C.: atestou todos os livros do NT.
- João Crisóstomo, 347-407 d.C.: aceitou todos os livros do NT, menos 2 Pedro, 2 e 3 João e Apocalipse.
- Teodoro de Mopsuéstia, 350-428 d.C.: rejeitou as epístolas universais e Apocalipse, seguindo o Cânon de Constantinopla.
- Agostinho, 354-430 d.C.: aceitou todos os livros, inclusive os 7 que eram questionados.
- A Peshita, 411-435 d.C.: também seguiu o Cânon de Constantinopla.
- Os Concílios: a delimitação do cânon do NT não foi obra dos concílios, mas do valor intrínseco de cada livro. O Terceiro Concílio de Cartago, 397 d.C.: a primeira decisão oficial sobre o cânon, determinando que só os livros canônicos poderiam ser lidos nas igrejas - atestou os 27 do NT atual. O Concílio de Hipona (420 d.C.), confirmou o de Cartago. A seleção do cânon foi, portanto, um processo espontâneo que se desenrolou na Igreja ao longo dos séculos, até que cada livro fosse autenticado.

"O cânon do NT formou-se espontaneamente, e não pela ação dos concílios da igreja. A inspiração e a autoridade intrínseca foram os fatores determinantes em seu reconhecimento e efetiva canonização. Em 200 d.C., o NT já continha essencialmente os mesmos livros que temos hoje. (...) Antes do final do século III, praticamente todos os livros extracanônicos já haviam sido expurgados das listas autorizadas. (...) Durante o século IV, praticamente cessou no Ocidente o debate sobre as questões do status canônico de determinados livros, isso graças à influência de Jerônimo e de Agostinho."
Fonte: Manual Bíblico Unger, Merril Frederick Unger, Vida Nova, 2006, pgs 709-714.

3 - O motivo que determinou a escolha dos livros que hoje compõem o Novo Testamento estava em sua afinidade com a visão teológica dos bispos comandados por Constantino?
Como vimos, as motivações que levantaram o debate sobre os livros que deveriam ser incluídos no cânon foram a necessidade de saber quais documentos poderiam ser usados nas igrejas, qual material deveria ser apresentado às autoridades romanas, por quais livros os cristãos estavam morrendo e para combater as heresias, que vieram depois do cristianismo ortodoxo. A escolha desses livros precedeu o tempo de Constantino e foi concluída depois de sua morte. Os critérios de escolha não eram essencialmente as afinidades teológicas do material com o interesse dos bispos, pois muitos livros teologicamente viáveis, como o Pastor de Hermas, 1 e 2 Clemente, o Didaquê e a Epístola de Barnabé, e alguns politicamente interessantes, como Atos de Pilatos, que poderia angariar mais aceitação dos romanos, foram excluídos do cânon simplesmente por não concordarem com os critérios de autenticidade anteriormente trabalhados. A questão não era estritamente ideológica, mas centrava-se também em coerência histórica.

4 - O principal motivo para a rejeição de diversos livros foi o seu potencial de atrapalhar os negócios do imperador?
Conforme vimos, os livros que ficaram de fora do cânon passaram por um criterioso filtro e diversas obras com grande potencial de edificação, que concordavam com a teologia ortodoxa, também foram excluídas. Isso já é suficiente para evidenciar que os livros descartados do cânon não eram somente os "inconvenientes". A verdade é que, por ocasião do uso dos critérios de autenticação, até livros considerados inconvenientes por muitos séculos foram inclusos, como Hebreus e Tiago. A questão, portanto, não está em conveniência ou inconveniência, mas no resultado das observações, muitas delas imparciais, que cristãos de vários séculos fizeram acerca do material neotestamentário.

A verdade é que os livros excluídos por seu conteúdo eram tardios demais, não tinham autoria apostólica ou associação com algum apóstolo, não apresentavam coerência com os livros já considerados, não traziam aspectos teológicos significativos, nunca foram aceitos por uma parte significativa da Igreja e se mostravam como nada mais do que leituras piedosas e, muitas vezes, fictícias, cuja inautenticidade era facilmente reconhecida pela leitura do material e pela comparação com os livros mais prestigiados. Além disso, havia uma tradição muito mais forte, com muito mais evidências documentais, para os 27 livros que hoje compõem o NT.

O testemunho de Eusébio de Cesaréia, 263-340 d.C.:
"(...) entre os primeiros, deve ser colocada a santa tétrade dos Evangelhos; esses são seguidos pelo Livro de Atos dos Apóstolos; depois deste deve-se mencionar as epístolas de Paulo, as quais são seguidas pelas reconhecidas primeira Epístola de João, bem como a primeira de Pedro, a ser de igual modo aceita. Após esses, devem ser colocados (...) o Apocalipse de João (...). Esses, portanto, são reconhecidos como genuínos. Entre os livros questionados, (...) ainda que sejam aproveitados por muitos, são reputados aquele chamado Epístola de Tiago e de Judas. Também a Segunda Epístola de Pedro e os chamados a Segunda e a Terceira de João (...). Entre os espúrios devem ser alistados ambos os livros chamados Atos de Paulo e aquele chamado Pastor e o Apocalipse de Pedro. Além desses, os livros chamados a Epístola de Barnabé e as chamadas Instituições dos Apóstolos.
(...)
Assim, teremos condições de conhecer esses livros e os citados pelos hereges sob o nome dos apóstolos (...) o caráter e o estilo em si [dos apócrifos] é muito diferente do dos apóstolos, e os sentimentos, e o propósito dessas coisas que são neles apresentadas, desviando-se ao máximo da ortodoxia sadia, provam evidentemente seres ficções de homens heréticos".
Fonte: História Eclesiástica, Eusébio de Cesaréia, CPAD, 2000, pgs 103-104 (Livro 3, capítulo XXV).

Conclusão: tornou-se óbvio que o debate sobre o cânon do Novo Testamento existiu desde as primeiras décadas da Era Cristã e que não foi o Concílio de Nicéia que oficializou o cânon neotestamentário - foram outros, como o de Cartago. Na verdade, os próprios cristãos, natural e universalmente, é que reconheceram os 27 livros que constituem o NT atual, que os concílios apenas promulgaram. Vale notar que as maiores influências para a diminuição dos debates acerca dos documentos neotestamentários foram autoridades cristãs, como Jerônimo e Agostinho, e não imperadores como Constantino ou, mesmo, os concílios.

Não esqueça que livros que teriam sido muito úteis para a Igreja foram retirados do cânon, como o Pastor de Hermas, e que livros com potencial de gerar complicações foram incluídos, como Hebreus e Tiago.

A Superinteressante, definitivamente, foi infeliz em suas declarações.

Natanael Pedro Castoldi

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Ainda há muita gente que sustenta que foi Constantino, através do Concílio Niceno, revisado no Concílio Constantinopolitano (325 e 381 d.C.), o responsável pela fundação do cristianismo, sendo somente ali que os pilares centrais da fé cristã, como a divindade de Cristo e a teologia da Trindade, foram devidamente formulados e estabelecidos como regra. Será que isso é verdade?

Resumo do que segue: 1 - Os cristãos já adoravam Cristo como Deus há séculos; a - A evidência documental neotestamentária; b - A datação dos escritos do Novo Testamento; c - Os testemunhos neotestamentários mais antigos da divindade de Cristo; d - Os Pais da Igreja e a divindade de Cristo; e - O testemunho de não-cristãos sobre a divindade de Cristo; f - O testemunho do próprio Cristo; g - Jesus não era apenas mais uma divindade romana; 2 - O debate sobre a Trindade precede o Concílio Niceno-Constantinopolitano; 3 - Constantino inventou o cristianismo?; Conclusão

1 - Os cristãos já adoravam Cristo como Deus há séculos:
A divindade de Cristo não foi estabelecida nos Concílios Niceno e Constantinopolitano. É impossível, tomando consciência das evidências disponíveis, considerar tais concílios como o ponto de partida para a ideia de Jesus ser Deus. Vejamos algumas delas:

a - A evidência documental neotestamentária:
Existem muitos manuscritos antigos do Novo Testamento que precedem os concílios em questão. Seria insanidade sugerir que tais documentos tenham sido forjados e envelhecidos pelos romanos do século IV simplesmente para embasar as aspirações de Constantino. A quantidade de manuscritos anteriores aos Concílios Niceno e Constantinopolitano que dispomos é evidência clara de que o movimento cristão como religião já era bastante antigo, bem estruturado e detinha grande número de fiéis - no ano 100 d.C. já havia forte presença cristã na região de Roma, da Ásia Menor, da Palestina, da Grécia e do Norte da África; e no ano 200, os cristãos estavam numerosamente presentes na Península Ibérica e no coração da França. A fé crescia num ritmo de 40% por década - 1 mil na década de 40; 1,4 mil na década de 50; 7.530 no ano 100; 40.496 no ano 150; 217.795 no ano 200; 1,1 milhão no ano 250; e 6,3 milhões no ano 300, antes dos Concílios Niceno e Constantinopolitano (valores aproximados segundo Rodney Stark). Uma fé sem estrutura não atrairia tantos fiéis.
Fontes: Os Cristãos, Tim Dowley, Martins Fontes, 2009, pg 16; Uma História Politicamente Incorreta da Bíblia, Robert J. Hutchinson, Agir, 2012, pg 192.

 - Os manuscritos neotestamentários mais antigos:
O Evangelho de João, que é o que melhor sustenta a divindade de Cristo, também é o que aparece num dos mais antigos manuscritos de que temos conhecimento, o Papiro de Rylands, datado do ano de 125 d.C. Considerando que João escreveu em Éfeso e que o manuscrito em questão foi encontrado no Egito, é natural esperarmos cerca de duas décadas entre a redação original e a sua circulação até um ponto tão distante. Rylands pode, portanto, ser uma cópia feita diretamente do autógrafo. O que temos certeza é que desde antes do ano 125 já havia uma crença muitíssimo forte acerca da divindade de Jesus, que está mais do que clara nos escritos de João.

Outro documento de grande antiguidade é um fragmento do Evangelho de Marcos datado da década de 50 d.C., cerca de 20 anos depois da morte e ressurreição de Jesus. Esse fragmento foi encontrado nas cavernas de Qumran, que foram seladas e abandonadas no ano 70 d.C. - o estilo de escrita desse pequeno fragmento foi utilizado somente até o ano 50 d.C. Tendo em vista o Papiro Rylands e o fragmento 7Q5, do Mar Morto, torna-se inquestionável o fato de que os relatos neotestamentários acerca do Messias não são fruto de deturpações míticas que precisam de três ou mais gerações para serem produzidas.

Outros manuscritos muito antigos, abrangendo os Evangelhos, Atos, as epístolas gerais e/ou as epístolas de Paulo, são: os papiros I, II e III, de Chester Beatty, datados entre os séculos II e III; e os papiros II, VII, VIII, XIV e XV, de Bodmer, datados entre os séculos II e IV. Há considerável fartura de folhas nalguns desses manuscritos, chegando a ter 102. Foram catalogados, até o momento, 96 papiros.

Possuímos entre 10 e 15 manuscritos dos cem primeiros anos após a conclusão do Novo Testamento.

b - A datação dos escritos do Novo Testamento:
Papias, bispo de Hierápolis, falecido em 130 d.C., preservado por Eusébio de Cesaréia (263-340 d.C.), declarou a autoria apostólica e de pessoas ligadas aos apóstolos de documentos como Mateus, Marcos, Lucas e João. Isso significa que, segundo aquele que morreu antes da metade do século II, os Evangelhos foram todos escritos por pessoas muito próximas ao Messias, ou ligadas ao testemunho dessas.

Cartas escritas por três Pais da Igreja, Clemente, Inácio e Policarpo, isso entre 95-110 d.C., citam 25 dos 27 livros neotestamentários. Considerando que Clemente estava em Roma e Policarpo em Esmirna, centenas de quilômetros distantes, é certo que o Novo Testamento tenha sido escrito muitos anos antes das cartas deles, pois da redação original para uma circulação tão grande, abrangendo regiões tão distintas, foram necessárias algumas décadas. Isso significa que provavelmente todos os livros do Novo Testamento não foram escritos senão antes do ano 100.

A ausência de menções a alguns dos eventos mais marcantes da história da Igreja Primitiva, como o martírio de Paulo e Pedro e a destruição do Templo em Jerusalém, indica que quase todos os livros do Novo Testamento não podem ter sido redigidos depois de 70 ou, até 62 d.C. Paulo foi martirizado em 68 d.C. - e a obra de Lucas termina com Paulo e Tiago ainda vivos, sendo que Tiago morreu como mártir em 62 d.C. É evidente, com base nisso, que Lucas escreveu Atos antes de 62 d.C. - e, tendo em mente que o Evangelho de Lucas e o livro dos Atos constituem uma continuidade, podemos ter certeza que Lucas foi escrito algum tempo antes de Atos, por volta do ano 60.

Há, ainda, fortes evidências para a redação de muitos dos documentos neotestamentários entre as décadas de 40 e 50, com uso de fontes da década de 30. Análises cuidadosas da epístola de Tiago apontam, com categoria, para uma redação feita, no máximo, no ano 46 d.C.; e algumas das mais sérias análises da epístola de Paulo aos Gálatas sugere sua redação por volta do ano 48 d.C. Mas há evidências ainda mais espetaculares:

c - Os testemunhos neotestamentários mais antigos da divindade de Cristo:
Paulo escreveu 1 Coríntios por volta de 55 e 56 d.C., mas nalgum momento ele transferiu para a carta um credo cristão da década de 30 d.C. - de alguns anos após a ressurreição de Cristo. 1 Co 15:3-8 é declarada como a transmissão de um conhecimento que Paulo recebeu sobre a ressurreição de Jesus, que teria sido formulado entre 18 meses e 8 anos após o evento. Um testemunho tão antigo da ressurreição do Messias é, também, um testemunho sobre a Sua divindade. Mas há ainda outros:

Tanto Filipenses 2:5-11, quanto Colossenses 1:15-20 se parecem com antigos hinos da Igreja Primitiva, que teriam sido aprendidos por Paulo quando ele esteve em Jerusalém, na década de 30 d.C. O prólogo de João 1:1-5 também soa como um antiquíssimo hino sobre a divindade do Messias. Há algo entorno de 41 sessões do Novo Testamento que se parecem com credos formulados desde os primeiros anos da Era Cristã.


d - Os Pais da Igreja e a divindade de Cristo:
Dos séculos I ao III temos importantíssimos testemunhos de cristãos acerca dos documentos neotestamentários e, portanto, acerca da divindade Cristo, explícita em diversos textos, especialmente do Evangelho de João e das Cartas de Paulo. Segue uma lista de alguns deles:

Clemente de Roma, 96 d.C.; Hermas, 150 d.C.; Irineu, 140-203 d.C.; o Cânon Muratoriano, 172 d.C.; a Antiga Versão Latina, anterior a 170 d.C.; Tertuliano, 150-222 d.C.; Inácio, 116 d.C.; Policarpo, 69-155 d.C.; Papias, 80-155 d.C.; O Didaqué, 120 d.C.; Melito, 170 d.C.; Teófilo de Antioquia, 115-188 d.C.; Justino Mártir, 100-165 d.C.; Clemente de Alexandria, 155-215 d.C.; Orígenes de Alexandria, 185-253 d.C.; e Dionísio de Alexandria, 200-265 a.C. O Novo Testamento é considerado em sua totalidade através dos testemunhos desses cristãos e dos documentos aqui apontados. Isso significa que todas as bases para as formulações teológicas acerca da divindade de Cristo e da Trindade já estavam estabelecidas antes dos Concílios Niceno e Constantinopolitano, que muito dessa produção já estava fervilhando e que profundos debates já se realizavam.

e - O testemunho de não-cristãos sobre a divindade de Cristo:
É claro que os não-cristãos do início da Era Cristã nunca declararam crer na divindade de Cristo, residindo sua importância nas afirmações sobre como os cristãos adoravam Jesus como Deus e criam na ressurreição.

- Luciano de Samósata (125-185 d.C.): com declarações agressivas contra os cristãos, Luciano se queixa de que os seguidores de Cristo abandonaram os deuses gregos em troca de "um sofista crucificado que introduziu esses novos mistérios e conseguiu convencer seus adeptos a adorar só a ele." Nos século II já se sabia que os cristãos adoravam ao Messias como Deus.

- Flávio Josefo (37-100 d.C.): o Testemunho Flaviano é o mais espetacular de todos os relatos não-cristãos sobre Jesus do Primeiro Século:

"Naquele tempo apareceu Jesus, que era um homem sábio, se todavia devemos considerá-lo simplesmente como homem, tanto as suas obras eram admiráveis. Ele ensinava os que tinham prazer em ser instruídos na verdade e foi seguido não somente por muitos judeus, mas mesmo por muitos gentios. Era o CRISTO. Os mais ilustres da nossa nação acusaram-no perante Pilatos e ele fê-lo crucificar. Os que o haviam amado durante a vida não o abandonaram depois da morte. Ele lhes apareceu ressuscitado e vivo no terceiro dia, como os santos profetas haviam predito e que ele faria muitos outros milagres. É dele que os cristãos, que vemos ainda hoje, tiram o seu nome."

- Tácito (56-117 d.C.): "Assim, para calar os rumores, Nero jogou a culpa e puniu com requintes de crueldade uma classe de homens odiados por causa de seus vícios, a quem as multidões chamam de cristãos. Cristo, de quem eles receberam o nome, foi executado por ordem de Pôncio Pilatos na época em que Tibério era imperador, e assim essa superstição perniciosa foi contida por breve tempo, apenas para retornar revigorada, não apenas na Judeia, berço da praga, mas até alcançar Roma, lugar onde todas as coisas horríveis e vergonhosas que há no mundo encontram abrigo."

- Suetônio (70-130 d.C.): "A punição foi imposta aos cristãos, uma classe de homens que aderiu a uma superstição recente e nociva". 

- Plínio, o Moço (61 ou 62 - 114 d.C.): "Eles afirmaram [...] que sua única culpa, seu único erro, era terem o costume de se reunirem antes do amanhecer num certo dia determinado, quando então cantavam responsivamente um hino a Cristo, tratando-o como Deus, e prometiam solenemente uns aos outros não cometerem maldade alguma, não deflaudarem, não roubarem, não adulterarem, nunca mentirem, e não negar a fé quando fossem instados a fazê-lo."

Segundo os relatos daqueles que observaram o movimento cristão nos séculos I e II, fica evidente que os cristãos eram considerados membros de uma religião centralizada em Cristo, que era adorado como Deus. A crença na divindade de Cristo, portanto, estava muitíssimo viva desde as primeiras décadas da Era Cristã.
Fontes: Cristãos da Terceira Geração, Eduardo Hoornaert, Vozes, 1997, pg 117Uma Análise das Evidências Extra-Bíblicas sobre Jesus.

f - O testemunho do próprio Cristo:
O próprio Jesus foi o primeiro a considerar a Sua divindade. Aqui não cabe o debate sobre a pessoa de Cristo, mas, apenas, a percepção antiquíssima de Jesus como Deus. Para William Lane Craig, já havia uma cristologia bastante completa nas primeiras duas décadas após a ressurreição do Messias. Segundo o historiador da igreja, Jaroslav Pelikan*, o sermão cristão mais antigo, o mais antigo relato sobre um mártir cristão, a mais antiga narrativa pagã sobre a Igreja e a oração litúrgica mais antiga (1 Co 16:22) são todas passagens que se referem a Jesus como Senhor e Deus. Ele declara: "Sem dúvida, era essa a mensagem em que a igreja acreditava e que ensinava: que 'Deus' era um nome adequado para Jesus Cristo." Se Jesus nada tivesse falado sobre ser Ele o próprio Deus, a única explicação para essa forte fé estaria no enlouquecimento coletivo dos discípulos apenas alguns anos após a crucificação. A verdade é que Jesus declarou sua divindade em diversos momentos (segue o material retirado de meu artigo de nome "Jesus Afirmou Ser o Messias? Declarou Ser Deus?"):

Quando Caifás questionou Jesus sobre se Ele era "o Cristo, o Filho do Deus Bendito", o Mestre respondeu: "Sou." E mais: "E vereis o Filho do Homem assentado à direita do Poderoso vindo com as nuvens do céu." Somente Deus pode ser adorado, mas aqui Cristo está afirmando ser aquele que julgaria o mundo e que receberia adoração, explicitando ser o próprio Criador. No Evangelho de João há 7 passagens nas quais Jesus se considera o próprio "Eu Sou", a forma como Deus se apresentou ao profeta Moisés em Êxodo 3:13-14 (6:35; 8:12; 10:7 e 9; 10:11 e 14; 11:25; 14:6; 15:1 e 5) - ora, nessas passagens Cristo está afirmando que é eterno e auto-existente! Tal declaração é tão forte que, no caso de Jo 8:56-59, os judeus imediatamente recolherem pedras para atirar nele. Talvez a única passagem que supere essas seja a de Jo 10:30, na qual Jesus declara: "Eu e o Pai somos um".

Declarações indiretas da divindade de Cristo:
- Em Jo 17:5, Jesus diz que Ele estava com o Pai antes que o mundo existisse, partilhando da glória de Deus. O AT, porém, afirma que existe apenas um Único Deus e que Deus não dá a Sua glória para ninguém (Dt 6:4; Is 45:5 e 42:8).
- Jesus disse, em Ap 1:17, "Eu Sou o Primeiro e o Último". O mesmo que Deus fala sobre si mesmo em Is 44:6.
- Em Jo 10:11, Jesus diz que Ele é "o Bom Pastor", conforme o que Deus diz em Sl 23:1 e Ez 34:12.
- Joel 3:12 afirma que Deus é quem julgará as nações. Jesus diz que Ele julgará todas as pessoas (Mt 25:31; Jo 5:27).
- O salmista diz que "o Senhor é a minha luz" (Sl 27:1) e Jesus diz que Ele é "a luz do mundo" (Jo 8:12).
- Jesus se declara o "doador da vida" (Jo 5:21), enquanto o AT afirma que Deus é o único que pode "doas a vida" (Dt 32:39; 1 Sm 2:6; Is 26:19; Dn 12:2; Jó 19:25).
- Jesus afirmou que Ele é o único caminho para o Pai (Jo 14:6).
- Cristo declara-se como o "noivo" (Mc 2:19; Mt 9:15; 25:1-13; Lc 5:34), mas Deus é identificado como o "noivo" no AT (Is 62:5; Os 2:16).

Jesus tomava atitudes exclusivas de Deus:
- Só Deus pode perdoar pecados. Cristo perdoou! Mc 2:5-11.
- Só Deus pode estabelecer mandamentos. Cristo estabeleceu um novo mandamento! Mt 28:18-19.
- Assim como Deus entregou os 10 Mandamentos para Moisés, Jesus entregou um Novo Mandamento aos discípulos. Jo 13:34.
- Só Deus pode receber orações. Cristo pediu aos discípulos que orassem em Seu nome! Jo 14:13 e 14 e 15:7.
- Só Deus pode ser adorado (Êx 20:1-4; Dt 5:6-9; At 14:15; Ap 22:8-9). Jesus aceitou adoração! Mt 8:2, 9:18, 14:33, 15:25, 20:20, 28:17; Mc 5:6; Jo 9:38, 20:28. Jesus não repreendeu os atos de adoração, mas elogiou-os - Jo 20:29 e Mt 16:17.

Declarações da divindade de Cristo da parte dos evangelistas e apóstolos:
João diz que Jesus é Deus (Jo 1:1 e 14); Paulo diz que Cristo "é Deus acima de todos" (Rm 9:5) e que "em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade" (Cl 2:9); Pedro diz que os crentes "de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo a fé" (2 Pe 1:1); Mateus afirma a divindade de Cristo quando cita Isaías 7:14, na qual o filho da virgem deveria ser chamado de Emanuel, que significa "Deus conosco" (Mt 1:23); o autor de Hebreus fiz que "O Filho é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser, sustentando todas as coisas por sua palavra poderosa" (Hb 1:3), além de citar Salmos 45:3, afirmando que Deus diz o seguinte sobre o Filho: "O teu trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre" (Hb 1:8). Até os demônios aparecem reconhecendo a divindade de Cristo (Mt 8:29; Lc 4:34 e 42)!

* O mais antigo sermão cristão sobrevivente depois do Novo Testamento começa assim: "Irmãos, temos de pensar em Jesus Cristo como Deus, como juiz dos vivos e dos mortos. E não devemos subestimar nossa salvação; pois quando o subestimamos, também esperamos receber menos." O mais antigo relato de um sobrevivente da morte de um mártir diz: "É impossível abandonarmos Cristo [...] ou adorar qualquer outro. Pois ele, sendo o Filho de Deus, o adoramos, mas valorizamos [...] os mártires." A mais antiga oração litúrgica sobrevivente da Igreja afirma: "Vem, Senhor!" E o relato pagão mais antigo sobre a Igreja declara que os cristãos se reuniam antes da aurora "entoando um hino a Cristo como se para [um] Deus."
Fonte: A Tradição Cristã 1, O Surgimento da Tradição Católica, 100-600, Jaroslav Pelikan, Sheed Publicações, 2014, pg 186.

g - Jesus não era apenas mais uma divindade romana:
Muitos consideram que Jesus fosse apenas uma entre muitas outras divindades romanas do período, adotada pelos cristãos e por Constantino. A verdade é que todas as evidências arqueológicas e documentais mais antigas (Evidências de Jesus no Primeiro Século?) apontam para Cristo como uma figura histórica palestina e para o cristianismo como uma religião monoteísta inicialmente vinculada ao judaísmo, que nada tinha com o paganismo romano (os romanos até abriam uma exceção de culto aos judeus), principiada em Jerusalém. Jesus não tinha relação nenhuma com o panteão romano. Aliás, o cristianismo não era visto com bons olhos por muitos pagãos do período, gerando conflitos e perseguições, coisa que seria diferente caso fosse uma invenção romana para manipular as massas. Até é possível que o imperador romano desejasse apagar o cristianismo inserindo Jesus no panteão romano, como era costume em Roma, mas os cristãos nunca aceitaram a comparação de Cristo com os deuses pagãos, gerando um grande desconforto. Podemos verificar duas coisas interessantes em três relatos pagãos: primeiro, que o cristianismo era visto como um causador de problemas - e não um mecanismo de controle do povo - e, segundo, que o culto cristão era tão desprezado pelos pagãos quanto os cristãos desprezavam o paganismo, evidenciando a impossibilidade de Jesus ter sido pensado pela aristocracia romana:

O discurso de Celso, escrito por volta de 175 d.C.:
"Apareceu uma raça nova nascida ontem, sem pátria, nem tradições, voltada contra todas as instituições religiosas e civis, perseguida pela justiça, universalmente qualificada de infames mas que se gloria da execração geral: são os cristãos." Eles constituem "um punhado de gente simples, grosseira, perdida moralmente, que constitui a clientela ordinária dos embusteiros... ignorantes, fechados, incultos e simples de espírito, almas vis e ignavos, escravos, mulheres pobres e crianças... tecelões de lã, sapateiros e calceteiros, gente de extrema ignorância e destituída de qualquer educação, que dizem maravilhas a mulheres que não têm mais juízo que eles mesmos." Eles vivem "na tenda do sapateiro ou na loja do pisoeiro", pois são herdeiros dos judeus, "escravos foragidos do Egito e que nunca fizeram nada de extraordinário, nunca primaram nem pelo número nem pela consideração". São "sapateiros, pedreiros, serralheiros", "gente grosseira e impura".

"A sabedoria lhes é um mal e a loucura um bem." São "inimigos dos ricos", "sectários que querem fazer grupinhos à parte e se separam da sociedade comum", "adversários da cultura, que não querem fazer o que todo mundo faz". "A aversão dos cristãos contra templos, altares e estátuas é como a marca e o sinal da união, secreta e misteriosa, entre eles, e sua recusa em participar das cerimônias religiosas repousa sobre um conceito errôneo de Deus."

Jesus: um "desassistido que percorria o país com dez ou onze seguidores tirados da lama do povo, entre marinheiros e publicanos, sem futuro, ganhando vergonhosamente uma precária subsistência", filho de "camponeses" ou de um "carpinteiro", "sedutor do povo e embusteiro", "de baixa estatura, feio e sem nobreza", "personagem que terminou por uma morte infame uma vida infame." Ele segue favorecendo a fidelidade do Imperador.
Fonte: Cristãos da Terceira Geração, Eduardo Hoornaert, Vozes, 1997, pgs 136-137.

O testemunho de Tácito, escrito por volta de 110 d.C., foi trabalhado anteriormente. É importante conferir.

Suetônio, escrevendo por volta de 120 d.C.:
"Como os judeus, instigados por Cresto, provocavam distúrbios frequentes, ele os expulsou de Roma."

Sobre essas severas acusações contra o cristianismo, é interessante que o leitor verifique a postagem "As Ofensas aos Cristãos Primitivos".

Contra o que tais pagãos declararam, há uma belíssima carta cristã do ano 120 d.C., que estabelece os motivos que levavam os cristãos a um comportamento tão diferente do dos pagãos, deixando evidente a natureza singular e de origem nada romana do cristianismo. Falo da Carta a Diogneto, que se encontra o livro "Padres Apologistas", Paulos, 2014, pgs 11-30, e na postagem de nome "Sobre os Primeiros Cristãos".

2 - O debate sobre a Trindade precede o Concílio Niceno-Constantinopolitano:
O livro "A Tradição Cristã 1, O Surgimento da Tradição Católica, 100-600, Jaroslav Pelikan, Sheed Publicações, 2014", pgs 185-234, trabalha de modo exaustivo sobre o desenvolvimento do debate acerca da natureza de Cristo e da Trindade, deixando evidente que ambos começaram muito antes dos concílios em questão - até porque algumas das heresias mais antigas surgiram de desentendimentos sobre o assunto, crendo apenas na divindade de Cristo ou descrendo nela, ou crendo na impossibilidade de Deus ser "Um e Três". Tais impasses levantaram muitos heresiarcas e patriarcas da Igreja, e o debate se desenvolveu sem a necessidade de conclamar nenhum concílio formal - desse modo, os Concílios Niceno e Constantinopolitano apenas trataram de refletir sobre e oficializar aquilo que já estava em circulação. Até porque, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento deixam claras a natureza humana e divina de Cristo e a doutrina da Trindade (A Trindade na Bíblia).

Algumas colocações interessantes de Pelikan sobre o assunto:

"A doutrina crida, ensinada e confessada pela igreja católica dos séculos II e III levou à Trindade, pois o cristianismo, nesse dogma, traçou a linha que a separava do sobrenaturalismo pagão e reafirmava seu caráter como religião da salvação."

"Clemente de Alexandria mostra que as tendências docetizantes, mesmo entre os crentes ortodoxos, deve ser considerada como uma forma de 'pensar em Jesus Cristo como de Deus.' (...) a própria existência do docetismo também é um testemunho da tenacidade da convicção de que Cristo tinha de ser Deus, mesmo à custa de sua verdadeira humanidade."

"Atanásio: 'Como é possível alguém não se enganar em relação à presença encarnada [do Filho] se o indivíduo ignora totalmente a geração genuína e verdadeira do Filho pelo Pai?'"

Tertuliano "acha impossível acreditar em um Deus a menos que se diga que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um e o mesmo." Eram comuns as expressões "Deus nasceu", "Deus sofredor" e "Deus morto".

"Tertuliano: 'Ainda que o um [Deus] não fosse também dessa forma [Pai, Filho e Espírito Santo], que eles são todos do um, a saber, pela unidade da substância, apesar do mistério dessa economia, não obstante, estar protegido - o que dispõe a unidade na Trindade, apresentando Pai, Filho e Espírito como três, e, no entanto, não três em qualidade, mas em sequência; não em substância, mas em aspecto; não em poder, mas em [sua] manifestação.'"

"Essa doutrina da relação entre Cristo e Deus, entendida como está, ou seja, como Hipólito e Tertuliano a registraram, revela ter sido uma sistematização da crença cristã popular."

Sibélio: "Da mesma maneira que há 'diferentes tipos de dons, mas o Espírito é o mesmo', também o Pai é o mesmo, mas é expandido no Filho e no Espírito." Sibélio é considerado o responsável pela ideia herege de que a Trindade é como o Sol - o mesmo que se revela de três formas diferentes.

"Noeto (...) raciocinava assim: 'Preciso, uma vez que um [Deus] é reconhecido, tornar esse um o sujeito do sofrimento. Pois Cristo era Deus e sofreu por nossa causa, sendo ele mesmo o Pai, para que pudesse nos salvar."

Do livro "Teologia Sistemática, História e Filosófica", Alister E. McGrath, Sheed Publicações, 2005, pgs 56-61:

Segundo McGrath, até 325 d.C., ano do Concílio Niceno, a Igreja Primitiva havia chegado à conclusão de que Jesus era "um em substância" com Deus. Esse encorpar da cristologia é o primeiro passo para o desenvolvimento das ideias sobre a Trindade. O debate cristológico patrístico pode ser resumido da seguinte forma:

- As Escolas: a Escola de Alexandria tendia a enfatizar a divindade de Cristo, enquanto a Escola de Antioquia enfatizou a humanidade do Messias.
- Os debates: Ário (250-336 d.C.) foi o responsável pela "controvérsia ariana", no século IV. Ele alegava que Cristo deveria ser considerado apenas uma criatura, mesmo que superior às demais. Na oposição, temos Atanásio, que sustentava a divindade de Cristo, sendo ela essencial para o entendimento acerca da salvação. Após algum tempo de debate, o arianismo foi tido como herege. Em seguida desenvolveu-se o "debate apoliranista", entorno das ideias de Apolinário de Laudicéia (310-390 d.C.), que considerava que Cristo não poderia ser considerado totalmente humano. Apolinário recebeu oposição de autores como Gregório de Nazianzo, que afirmou que Jesus não poderia redimir a humanidade se não fosse, também, homem. 
- Os concílios: o Concílio de Nicéia (325 d.C.) foi convocado por Constantino especialmente para solucionar os desentendimentos cristológicos que desestabilizavam seu império. Nesse concílio a controvérsia ariana teve seu fim, confirmando o que já estava sendo afirmado sobre a divindade de Cristo. O Concílio de Calcedônia (451 d.C.) reafirmou o Concílio Niceno e respondeu a novas polêmicas acerca da humanidade de Cristo, surgidas depois de Nicéia (325).

McGrath também comenta brevemente sobre o desenvolvimento da doutrina da Trindade:

Já havia algum debate sobre a Trindade desde antes de considerada a natureza divina de Cristo, mas foi natural a sua definição quando oficializada a ideia de que Jesus, mesmo diferente do Pai, era Deus. A cristologia, como base para a definição mais clara da doutrina da Trindade, não foi resultado dos Concílios Niceno e Constantinopolitano, mas de um período bastante longo de controvérsias e debates, não sendo, portanto, tais concílios os responsáveis pela formulação de suas doutrinas principais.

A ideia de Deus ser "Um e Três" foi estabelecida por debates cristológicos que culminaram com o Concílio de Nicéia, sendo consolidada a doutrina da divindade do Espírito Santo como resultado disso. Atanásio e Basílio de Cesaréia foram os maiores responsáveis por seu desenvolvimento. Vale lembrar que a oficialização de doutrinas não indica o princípio das mesmas - toda  oficialização de uma doutrina cristã é resultado de um debate anterior.

A posição da Igreja Oriental sobre o assunto foi desenvolvida especialmente por Basílio de Cesaréia (330-379 d.C.), Gregório de Nazianzo (329-389 d.C.) e Gregório de Nissa (330-396 d.C.), os Pais Capadócios, que iniciaram suas reflexões sobre a Trindade por meio da observação das distintas formas através das quais se experimenta a presença do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A posição da Igreja Ocidental, associada especialmente a Agostinho de Hipona, partiu da unidade de Deus, seguindo para as implicações do amor de Deus, afim de compreendermos a Sua natureza.

A formulação da doutrina da Trindade, portanto, começou antes dos Concílios Niceno e Constantinopolitano e não foi concluída com eles, seguindo em debate por algum tempo depois.

3 - Constantino inventou o cristianismo?
Tal pergunta não precisaria nem ser feita depois de todo esse estudo. A verdade é que ele mesmo se converteu antes do Concílio Niceno, no ano de 312 d.C., e que a sua própria mãe já era cristã antes disso. Não iremos entrar nos méritos do caráter de Constantino, mas sabe-se que não havia lucro algum, em termos políticos, em adotar o cristianismo, uma religião numericamente minoritária e que havia sido perseguida com ferocidade. É possível que Constantino tenha observado no comportamento dos cristãos, que a todos serviam, uma forma de produzir maior unidade no Império, mas ceder diante daqueles que representavam um décimo da população, muito hostilizados por todos, e, assim, desafiar as instituições tradicionais, não faz sentido se não considerarmos um real interesse pela pessoa de Cristo.

O fato é que o Concílio Niceno não tive o aval de Constantino para formular uma nova religião, mas apenas para solucionar os problemas e as controvérsias existentes dentro daquela que agora era a religião oficial do Império Romano. Qualquer desordem dentro da Igreja prejudicava os negócios romanos. Para o imperador, era urgente que os cristãos entrassem num consenso e o consenso obtido não foi produto de uma invenção ocorrida durante o concílio, mas apenas de um esclarecimento maior sobre aquela que já era a ortodoxia cristã há séculos.
Fonte: Uma Breve História do Cristianismo, Geoffrey Blainey, Fundamento, 2012, pgs 54-58.

Conclusão:
A teologia cristã encontra seu esqueleto fundamental na Bíblia e, portanto, desde que o Novo Testamento foi concluído, todas as bases para o entendimento sobre a Trindade e a natureza de Cristo já estavam estabelecidas. Foi o Novo Testamento que possibilitou o debate sobre tais doutrinas, não os Concílios Niceno e Constantinopolitano. Tendo diante de nós evidências numerosas de que o cristianismo e o Novo Testamento existem desde o Século Primeiro, não há motivos para continuar compactuando com a ideia de que a fé cristã foi inaugurada no século IV ou que foi somente ali que foram cogitados os principais pilares do entendimento cristãos. O cristianismo, pela boca dos próprios romanos e também pelo testemunho dos cristãos, não pode ter sido uma invenção do imperador!

Natanael Pedro Castoldi

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