Navigation Menu

É a primeira vez que
você acessa este blog
neste computador!


Deseja ver antes
nossa apresentação?


SIM NÃO

Mostrando postagens com marcador Fonte. Mostrar todas as postagens

O Culto ao Imperador, o Sol Invicto e as Religiões de Mistério

Comumente se afirma que o cristianismo é fruto da influência pagã, tomando a espera messiânica presente em Roma, as religiões de mistério e os cultos ao imperador e ao Sol Invicto como argumento. No EOMEAB já trabalhamos algo dessas questões nos seguintes artigos, que são recomendáveis para o enriquecimento sobre o tema: O Novo Testamento Tem Origem Pagã?; Jesus Afirmou Ser o Messias? Declarou Ser Deus?; Os Evangelhos São Obra dos Romanos?. A questão central aqui é: o Sol Invicto, o culto ao imperador e as religiões de mistério realmente foram inspiração para o cristianismo?

1 - Culto ao Imperador:
A sociedade romana sofreu diversas e profundas mudanças a partir do Século II, influenciando todo o aspecto religioso imperial. A religião tradicional passava, então, por uma grave crise, especialmente entre os nobres, uma vez que já não respondia mais às inquietações da época - nos tempos de Cristo ela já estava em declínio. As grosseiras imoralidades e as rixas entre os deuses, percebidos apenas como homens e mulheres ampliados, eram expostas por escritores satíricos e filósofos. Basicamente o que sobrara dos cultos tradicionais era preservado por interesses políticos, sendo um poderoso instrumento de domínio para as classes dirigentes. Fica evidente o interesse administrativo da religião tradicional com o alastrar do culto ao imperador - prestar culto ao imperador era mais do que um mero ato religioso, evidenciando lealdade e submissão, reconhecendo que o Estado estava alicerçado sobre premissas divinas.

Desde o Século I a.C., com as constantes lutas internas que eventualmente desembocavam em violentas guerras civis, gerando uma severa instabilidade política no Império, os homens cultos estavam buscando consolo na filosofia mais do que na religião - o pensamento filosófico não dava espaço para a veneração dos deuses tradicionais. Percepções de vida como o estoicismo e o epicurismo se espalharam pelo Império, com ou sem o aval do Estado. A doutrina de Epicuro, em especial, foi repelida, pois suspeitava-se que ela livrava o homem do medo do castigo divino.

A partir do Século I a.C., com base nas perturbadoras guerras civis já aludidas, os cultos tradicionais e os ritos antigos foram descuidados, possibilitando o propagar da ideia de que aquilo que estava acontecendo em Roma era resultado da ira dos deuses. Esses cultos, por serem decentralizados, com cada cidade escolhendo uma divindade central, não tinham força para combater a crise - e conforme Roma espalhava seu poder, os moradores de cidades conquistadas passavam a questionar a proteção de suas divindades. A profunda sensação de insegurança também criou um ambiente de espera messiânica, com a esperança de que um período de paz e harmonia substituísse o presente momento de trevas e sangue. Dentro desse contexto, surge o Imperador Augusto (63 a.C.-14 d.C.), que empreendeu uma grande reforma religiosa, almejando a recuperação das tradições - essa reforma, porém, afetou o poder político dos colégios de sacerdotes, que foram complementados com pessoas da confiança do governante. Sem a influência política que já detiveram, os colégios sacerdotais passaram a se ocupar basicamente na promoção de celebrações sagradas em honra a Augusto e sua família. Dentre as ênfases desses cultos, estava Vênus, tida como mãe de Enéias e, portanto, geradora da família de Augusto. Essas foram as bases para o início do culto ao imperador, associado ao culto a Roma,

A consciência cosmopolita do Império foi um fator determinante para a consolidação do culto ao Estado. Já entre os reinos helenísticos dos selêucidas e ptolomeus, os monarcas tinham sido elevados ao nível de divindade através dos títulos de "Senhor" (Kyrios), "Salvador" (Sôtêr) e "Divindade Manifesta" (Epiphanês). A concentração das funções executivas num único homem munira o imperador romano de poderes nunca antes conhecidos pela humanidade - e como ele poderia fazer uso desses poderes pelo bem do povo, produziu-se, aos poucos, uma sensação de que nele algo de divino habitava. A verdade é que o culto do imperador não foi imposto arbitrariamente, produzindo-se conforme se atribuía honras sobre-humanas ao governante e alimentava-se o desejo de centralizar nele a obediência do povo.

O culto ao imperador foi associado ao culto a Roma para que adquirisse aprovação política sem fomentar a hostilidade da aristocracia opositora. Em diversas cidades do Império surgiram associações - "augustais" - dedicadas a disseminar esse novo culto, que era chamado de "evangelho". O fato é que os imperadores que governaram até durante o Século I d.C. só foram elevados ao nível de "divus" após a morte, apesar de algumas populações, especialmente no Oriente, costumarem tê-los como divinos ou semi-divinos ainda em vida. Tal prática originou-se dos cultos rendidos a César, considerado como "Divus Julius", a quem Augusto dedicou um templo no Fórum romano. Até o imperador Domiciano, no Primeiro Século, nenhum governante obrigou, em vida, a adoração de sua figura. Esse culto, na atual condição do Império, tinha seu valor reconhecido, uma vez que unificava o patriotismo e o culto, sustentando o Estado num dever religioso - e é por isso que os cristãos, ao negar prestação de adoração a qualquer ser humano, padeceram de terríveis perseguições. O cidadão romano pagão, que era politeísta e não via problema em acrescentar mais uma divindade ao seu panteão, não era capaz de compreender a recusa cristã e a tinha como irresponsabilidade social, falta de patriotismo e inimizade para com o governante.

A palavra "Evangelho", que descreve a Mensagem de Cristo, a "boa-nova", pertenceu, originalmente, à linguagem do imperador romano, que se entendia como senhor do mundo e seu redentor, salvador. As mensagens que vinham do imperador chamavam-se "Evangelho" e não eram consideradas apenas uma "boa notícia", mas uma mudança do mundo para o bem.

Quando os evangelistas neotestamentários fazem uso do termo "Evangelho", eles estão confrontando o Evangelho do Imperador Romano com o Evangelho de Cristo. O Evangelho Romano era ilegítimo, pois o imperador apenas se fazia passar por Deus, não o sendo. Os imperadores não podem salvar o mundo, apenas o Criador! "Evangelho" não é um simples discurso, mas uma realidade; não é algo puramente informativo, mas performativo; não é mera comunicação, mas ação, uma força que penetra no mundo para transformá-lo.

De fato, os evangelistas chamam Jesus de "Kyrios", que foi utilizado para alguns governantes gregos. Mas isso não significa que os evangelistas foram influenciados por eles no sentido de "criar um Kyrios" - na sua interpretação de Jesus como Deus, a palavra "Kyrius" fez sentido, e o verdadeiro "Kyrius" confrontava o "kyrius" romano com o Evangelho de Deus, que confrontava o Evangelho Romano. A questão, porém, é ainda mais original e profunda: o termo "Senhor" (significado de "Kyrius") tornou-se, ao longo do Antigo Testamento e do desenvolvimento do judaísmo, paráfrase do nome de Deus - o uso dessa atribuição, que é a tradução grega para YWHW (desde a Septuaginta), identifica Jesus como sendo a própria divindade.

Outra identificação para Cristo ("cristo" é o grego para "messias", "ungido") é Filho de Deus, que também se encontra como uma atribuição ao imperador romano, levando muitos a pensar numa cópia, sendo Jesus inspirado no governante de Roma. Essa posição, porém, não se sustenta quando observamos o seu uso entre os judeus essênios de Qumran já no Século Primeiro como referência ao Messias de Israel, sem nenhuma ligação com Roma, que tiveram o Salvador como "Filho de Deus" e "Filho do Altíssimo" no manuscrito 4Q246. Marcos 1:1, Salmos 2:2 e 7 corroboram essa posição. No caso de Sl 2:2, houve discussão sobre se a expressão "Messias do Senhor" era entendida como messiânica nos dias de Cristo, o que se resolveu positivamente com o 1QSa, também de Qumran. Quando Cristo foi chamado de "Filho de Deus", assim como Kyrius, ligou-se ao Criador, sendo a própria divindade. No Concílio de Nicéia, o conceito de "Filho de Deus" foi traduzido na única expressão filosófica do Credo Niceno: "homoousios", que significa "da mesma essência". Assim, quando é dito que Jesus é "o Filho", não devemos encontrar ali sentido mitológico ou político, é algo a ser entendido literalmente: no próprio Deus há Pai, Filho e Espírito Santo.

A expectativa messiânica depositada em Cristo é totalmente diferente daquela que existiu em Roma como resultado de sua crise. Não existe cópia. O termo "messias" (ungido), que aparece em grego como "Cristo", tem três aplicações fundamentais no Antigo Testamento: ao sacerdote ungido, ao rei ungido e ao profeta ungido. Normalmente, porém, o termo "ungido" é usado como referência ao "rei ungido" descendente de Davi, entendimento esse predominante nos dias de Jesus. Como veremos no manuscrito 4Q521 de Qumran, o próprio contexto judaico da Palestina pôde oferecer todo o fundamento para a compreensão de Jesus como Messias, sem haver empréstimo algum de Roma:

"[Porque os céus] e a terra ouvirão seu Messias [e tudo que] neles está (Sl 146:6) não se desviará dos mandamentos dos santos. Fortalecei-vos, vós que buscais o Senhor em seu serviço. Não encontrareis, nisso, o Senhor, todos os que o esperam no coração? Pois o Senhor atende aos piedosos e chama os justos pelo nome. Sobre os humildes pousa o seu espírito (Is 11:2) e ele renova os fiéis em sua força. Pois ele honrará os piedosos sobre o trono de seu reino eterno, libertando os prisioneiros (Sl 146:7), abrindo os olhos dos cegos e levantando os decaídos (Sl 146:8). E para sempre eu me aterei aos que nele esperam e em sua fidelidade terão [...] o fruto do bem não tardará para ninguém, e o Senhor fará coisas gloriosas que não foram feitas, tal como ele mesmo disse. Pois curará os profundamente feridos, trará os mortos à vida (Is 26:19); ele enviará boas novas aos aflitos (Is 61:1), satisfará os pobres (Sl 132:15), dirigirá aos que se encontram desgarrados, e fará ricos os famintos (Sl 107:9)." 4Q521 frag. 2, col. 2, linhas 1-13.

2 - O culto ao Sol Invicto:
Os cultos ao imperador e ao Estado não se mostraram totalmente eficazes, pois ambos trabalhavam com sacrifícios rituais, desenvolviam-se mais coletivamente do que individualmente, procuravam mais a proteção da divindade do que a comunhão com ela e nenhum apresentava qualquer resposta e consolação para os tempos de crise. Havia um crescente interesse por divindade mais pessoais e por sistemas de culto que levassem a um contato imediato com o divino. As religiões de mistério, a maioria de origem oriental, ganharam força justamente nessa época - o culto a Cibele veio da Ásia; o a Ísis e Osíris veio do Egito; o mitraísmo veio da Pérsia. Embora divergissem em certos aspectos, todos esses cultos centralizavam-se numa divindade que morria e ressuscitava e cada um trabalhava com formulas de rituais e purificações, símbolos e dramatizações secretas da experiência do deus - o iniciado era levado a essa experiência, candidatando-se à imortalidade. Geralmente, os cultos secretos aceitavam a todos, independentemente da origem social e étnica.

Essas religiões passaram a satisfazer os desejos de imortalidade e igualdade social. Com apelos emocionais promovidos pelo aspecto misterioso do culto, propiciava uma experiência religiosa profundamente pessoal. No caso do culto a Mitra, o fiel também era levado a um comportamento fortemente moral. Esse era um culto destinado apenas aos homens, disseminado pelo Mundo Romano pelos legionários que haviam prestado serviço no Oriente Médio - Mitra ganhou ainda mais força no Império Romano por ter sido identificado a Apolo, Hélio e Hermes. Em Roma, o culto a Mitra passou a assumir um caráter de luta do Bem contra o Mal, revestindo-se de um aspecto místico, que exige dos adeptos a superação de diferentes níveis e o compromisso de não divulgar os ocorridos nas reuniões.

O culto sírio ao Sol Invicto, também oriental, símbolo da luz que combate as trevas e, por isso, identificado com Mitra, ganhou notoriedade no Império Romano no reinado de Vário Avito Bassiano (218-222 d.C.), que iniciou o culto do Gabal, deus do Sol venerado em Émesa, Síria, do qual era sacerdote e pretendia ser a própria encarnação, chegando a ser chamado de Heliogábalo. A pedra cônica negra, venerado símbolo do deus, foi levada para Roma e inserida num templo erigido perto da residência imperial, onde, por vontade do imperador, Gabal recebe uma companheira, a divindade cartaginesa Tanit. Embora a sociedade romana fosse aberta aos cultos estrangeiros, ela resistiu de modo especial a esse novo culto, mas isso por vários motivos: por ser o imperador o próprio sacerdote da religião oriental, com seus ritos orgiásticos; por intrigas sobre sacrifícios humanos e perversão sexual; e pela tentativa de impor uma religião local como culto oficial do Império. Em 222, a guarda pretoriana acabou matando Heliogábalo, enviando a pedra negra de volta para Émesa.

Passados cerca de 50 anos, o imperador Aureliano (270-275 d.C.) retomou o culto ao Sol, convencido que este tenha propiciado a sua vitória contra Zenóbia, de Palmira. Durante a batalha, com as tropas de Aurelianos já exauridas, diz-se que uma aparição divina, juntamente com uma intervenção desse deus, redobrou o ânimo dos soldados, forçando a retirada de Zenóbia. Logo depois do ocorrido, Aureliano entrou em Émesa vitorioso e se dirigiu ao templo de Gabal, oferecendo-lhe culto, o que veio a tornar o Sol Invicto a divindade tutelar do Império e companheiro do imperador, que erigiu, em 274, um magnífico templo em Roma, honrando-o, quando também criou um colégio de pontífices do Sol.

O fato é que essa nova religião também tem como motivação a política imperial, uma vez que vinha a unificar todos os pagãos do Império, em aberta contraposição ao cristianismo, que vai se impondo cada vez mais e é considerado uma força desintegradora - opinião que mudou com Constantino. A difusão do culto ao Sol Invicto foi bastante ampla e, para suplantar o cristianismo, acabou adotando ritos e festividades, dentre as quais o dia do nascimento do Sol, que ficou no 25 de dezembro, convenientemente no solstício de inverno (Saturnalia).

Como percebemos, o culto ao Sol Invicto chegou ao Império muito depois de originado o cristianismo e em quase nada se assemelha à fé cristã. A questão do dia 25 de dezembro, que muitos apontam como evidência de plágio cristão, é, na verdade, uma reação ao próprio cristianismo! Posteriormente, no Século IV, quando o cristianismo se torna a religião oficial do Império Romano, atribui-se o dia 25 de dezembro como o dia do nascimento de Cristo como uma forma de substituir o culto ao Sol, simbolizando a modificação de divindade oficial. Nas Escrituras neotestamentárias não está definido um dia claro para o nascimento do Messias, mas as características do relato apontam para o começo de Abril do ano 5 a.C. (O Nascimento de Cristo: Incoerências Históricas e Geográficas?).

3 - As Religiões de Mistério:
Eu falei das religiões de mistério como introdução ao culto ao Sol Invicto, mas isso pode ter suscitado o questionamento sobre se o cristianismo não seria apenas mais uma "religião de mistério", ou algo inspirado nelas. Será que isso procede? Vejamos: 

a - O taurobólio:
Estava associado ao culto de Cibele e Átis, sendo sugerido como inspiração aos textos de Apocalipse 7:14 e 1 Pedro 1:2. Também foi usado como explicação para o batismo cristão descrito em Romanos 6. O ritual se desenvolvia da seguinte forma: o sacerdote a ser consagrado se prostrava dentro de uma cova bem profunda, cuja abertura era coberta por uma grelha de madeira bem trançada, esperando o jorrar do sangue de um touro que era apunhalado no peito quando estava sobre ela. Por diversos motivos o taurobólio não foi inspiração para a fé cristã:
- Usava-se para a consagração sacerdotal e não de um iniciado.
- Não há nenhuma indicação de que os primeiros cristãos usassem sangue em seus rituais. O sangue foi apenas um símbolo da doação da vida de Cristo.
- Os cristãos sentiam repulsa por tal prática. Prudêncio, um cristão que descreveu o ritual, o considerava brutal e blasfemo.
- O taurobólio é posterior ao término da redação do Novo Testamento, sendo atestado pela primeira vez em 160 d.C. e se tornado uma consagração pessoal apenas no Século III d.C. A ideia de que o taurobólio promove um renascimento surge ainda mais tarde, no final do Século IV d.C., não estando originalmente associado com o banho de sangue.

Parece, portanto, ser mais fácil o taurobólio ter sido copiado dos cristãos do que o contrário.

b - O batismo:
Banhos cerimoniais como meio de purificação existem desde antes do cristianismo, sugerindo que os cristãos apenas roubaram a prática doutras religiões, o que é uma simplificação grosseira. O batismo cristão é uma demonstração de identificação do cristão com a morte, sepultamento e ressurreição de Jesus, divergindo muito dos cultos de mistério. Em nenhuma religião de mistério há simbolismo de morte presente em um batismo ritual. Os banhos cerimoniais de antes do NT possuem significados largamente divergentes do batismo cristão e os banhos pagãos de depois de 100 d.C. chegaram tarde demais para influenciar o NT, podendo ter sido inspirados por ele.

c - A ressurreição:
A ressurreição aparece nos mitos de Ísis e Osíris, quando Osíris é assassinado por Seth, que afunda o seu corpo no Nilo. Esse corpo é resgatado por Ísis, esposa de Osíris, mas recuperado por Seth, que o despedaça e espalha por uma grande região. Ísis reage e recolhe esses pedaços, fazendo-o voltar à vida. Mas isso não é suficiente para propôr que ele "ressuscitou". Sobre isso, Ronald Nash declara:

"É neste momento que a linguagem usada para descrever o que se segue é crucial. Às vezes, aqueles que contam a história se satisfazem dizendo que Osíris voltou à vida. (...) Mas alguns escritores vão muio além e referem-se 'à ressurreição de Osíris'" E mais:

"Quais os deuses de mistério que efetivamente experimentaram uma ressurreição dos mortos? Com certeza, nenhum texto antigo reporta a qualquer ressurreição de Átis. Tentativas de ligar a adoração de Adônis à ressurreição são igualmente frágeis. Nem é mais forte o caso da ressurreição de Osíris. Depois de Ísis reunir as partes do corpo desmembrado de Osíris, ele se tronou 'o Senhor do Mundo Inferior'. Como comenta Metzger: 'É questionável se isso pode ser chamado com justiça de ressurreição, especialmente quando, de acordo com Plutarco, era o piedoso desejo dos devotos ser enterrado no mesmo chão onde, conforme a tradição local, jazia ainda o corpo de Osíris'. Portanto-, pode-se fala der uma 'ressurreição' nas histórias de Osíris, Átis e Adônis apenas no mais amplo sentido. E naturalmente nenhuma alegação pode ser feita de que Mitra foi um deus que morreu e ressuscitou. O estudioso francês Andre Boulanger concluiu: 'A concepção de um deus que morre e ressuscita para conduzir o crente à vida eterna não está presente em nenhuma religião de mistério helenística."

O caso de Jesus é totalmente diferente. Ele fata de uma pessoa histórica que morreu e voltou dos mortos para não morrer novamente, tendo aparecido em carne e osso em diversas ocasiões antes de subir aos Céus. Sobre isso, James D. G. Dunn comenta:

"O paralelo com as visões de Ísis e Esculápio [...] dificilmente se sustenta. Essas foram figuras místicas de um passado obscuro. Nos relatos a respeito de Jesus, nós estamos falando de um homem que havia morrido há poucos dias ou semanas antes."

Sobre o retorno da morte, é dito que Átis retornou após quatro dias e que Osíris e Adônis o fizeram depois de três dias. Nenhum desses relatos, porém, aparece nalgum registro anterior ao Segundo Século d.C. Concluímos, com isso, que, havendo empréstimo de ideias entre as religiões, foram as de mistério que copiaram o cristianismo.

d - O renascimento:
As religiões de mistério eram fés redentoras, que promoviam o que se chamava de "segundo nascimento", que tornava o iniciado uma "nova criatura", possibilitando maior intimidade dele com a divindade. Alguns, observando tais elementos, sugerem que os conceitos de "novo nascimento" e "nova criatura" encontrados na fé cristã, foram tomados das religiões de mistério. A evidência para isso, porém, é frágil: os banhos cerimoniais do culto eleusiano nunca foram ligados à ideia de renascimento e há somente uma única referência que associa o "renascimento" ao culto de Cibele e Átis, que é datada do Século IV d.C. e encontra-se sob a configuração de uma interpretação de Salústio, possivelmente influenciada pelo cristianismo, e não o contrário. Apenas duas referências discutíveis, ambas do Século II d.C., usam a imagem do "renascimento".

Todas as fontes que sugerem a noção de "renascimento" no mitraísmo são pós-cristãs, sendo a mais antiga datada do final do Século II d.C. A mais discutível das referências parece conectar o taurobólio ao "novo nascimento", mas a inscrição contém a data de 376 d.C. Essa frase só aparece quando o cristianismo está se estabelecendo como religião majoritária do Império Romano, sugerindo que o conceito foi copiado da fé cristã.

e - A morte sacrifical da divindade:
Dentro das mitologias gregas primitivas e adentrando a história romana, era considerado normal ter pessoas notáveis como divinas, alguns não passado de figuras fictícias e outras históricas, como filósofos e imperadores romanos. Dentro do politeísmo isso era natural, mas era impossível no judaísmo.

Os judeus eram firmes defensores da ideia de que existia apenas um único Deus, sendo assustadora a ideia de começarem a considerar divino alguém que caminhava em seu meio - essa ideia já seria de difícil aceitação nos contextos romanos, mas começar a disseminá-la em Jerusalém era loucura! Isso evidencia que a histórica aparição de Cristo afirmando ser Deus entre os judeus palestinos não era resultado de uma inserção pagã, mas algo produzido no próprio seio do judaísmo. Não tem como a mensagem de Jesus ter sido formulada pelos judeus com base nas religiões de mistério - as divindades das religiões de mistério são consideradas quando retornam da morte, mas não há nenhum paralelo entre a ressurreição de Cristo e essas religiões, exceto quando elas o copiam. Há diversas diferenças entre os deuses-salvadores pagãos e Jesus:

- Esses deuses-salvadores jamais morreram por outra pessoa.
- Somente Jesus morreu pelos pecados humanos. As mortes dessas divindades nunca foram vistas sob a ótica de ajudar os homens.
- Jesus morreu apenas uma vez e ressuscitou para jamais retornar à sepultura, mas os deuses de mistério vivem existências cíclicas de morte e ressurreição, seguindo a natureza.
- A morte de Jesus é um evento histórico. A morte dos deuses pagãos era apenas um drama desprovido de historicidade.
- Jesus morreu voluntariamente, ao contrário dos deuses de mistério.
- A morte de Jesus não foi uma derrota, mas um triunfo.

Existem, de fato, semelhanças marcantes entre o cristianismo e as religiões de mistério?
Os porta-vozes cristãos se negaram firmemente a aceitar qualquer coisa que fosse contrária ao Evangelho de Cristo. Se, nalgum momento, os cristãos desejassem se apropriar das religiões de mistério para atrair mais fiéis, eles poderiam ter formado um cristianismo politeísta imediatamente, mas não o fizeram. Vamos para algumas falácias:

a - Combinalismo e universalismo:
É falacioso tentar combinar todas as características das diversas religiões de mistério que vão dos Séculos XV a.C. ao V d.C., para, então, comparar essas caricatura com o cristianismo. Albert Schweitzer desvendou esse erro:

"Quase todos os textos de maior popularidade caem nesse tipo de inexatidão. Eles fabricam a partir de vários fragmentos de informação um tipo de religião de mistério universal que nunca existiu de fato, menos ainda nos dias de Paulo."

Qualquer princípio de uma religião misteriosa do Século XV a.C. que deixou de existir no ano 1000 a.C. não poderia servir de influência para o cristianismo. Além disso, qualquer princípio de uma religião de outra cultura ou região do mundo seria terminantemente recusada pela cultura judaica da Palestina. Combinar as religiões de mistério pode produzir algo parecido com o cristianismo, mas essa combinação nunca existiu historicamente.

b - Tingindo a evidência:
Trata-se da linguagem descuidada. É comum que os estudiosos do caso façam uso de terminologia cristã para descrever práticas e crenças pagãs produzindo, assim, paralelos irreais. 

c - Supersimplificação:
Trata-se da tendência de exagerar e simplificar as comparações entre o cristianismo e as religiões de mistério. Há declarações exageradas sobre supostas semelhanças entre o batismo e a Ceia do Senhor, e similares "sacramentos" em determinados cultos de mistério. Há grandes quantias de supersimplificação e desatenção a detalhes na tentativa de achar analogias entre a ressurreição de Cristo e as "ressurreições" das divindades de mistério.

d - Quem influenciou quem?
É a falácia metodológica mais séria: sempre que se encontra algum suposto paralelo entre o cristianismo e as religiões de mistério, a tendência é pensar que o cristianismo é que copiou o pensamento pagão. Tal posicionamento acaba em erro quando se supõe que o cristianismo adotou certa prática encontrada dalguma religião de mistério quando, na verdade, os registros apontam para a inexistência de tal prática nessa religião antes do nascimento da fé cristã.

Segundo Nash. por exemplo, apenas o mitraísmo, dentre todas as religiões de mistério, apresenta algo parecido com a Ceia do Senhor, porém, uma análise sóbria das origens históricas desse costume cristão encontra muito mais força nos fundamentos judaicos do cristianismo do que nas práticas pagãs. Assim como no caso do batismo cristão, a Ceia relembra uma pessoa histórica e preserva algo que essa pessoa fez dentro da história: a Última Ceia. Essa Ceia, por sua vez, foi estabelecida durante a festa judaica da Páscoa. Considerando que nenhum monumento mitral pode ser datado de antes do final do Primeiro Século d.C., que nenhuma imagem do deus tenha sido encontrada em Pompeia, soterrada em 79 d.C. e que não há nenhuma evidência desse culto no Ocidente até o fim do Primeiro Século d.C., é mais provável que o cristianismo estava em posição de influenciar, não o contrário.

4 - A singularidade do relato de Jesus:
Há uma clara distinção entre os relatos dos evangelistas e os criadores dos mitos das religiões de mistério. Walter Kunneth, sobre a originalidade do Evangelho, declara:

"A mensagem da ressurreição não surgiu no mundo contemporâneo para ser mais uma das lendas de cultos habituais, em que Jesus Cristo seria um herói de um novo culto, pondo-se harmoniosamente lado a lado com outros heróis culturais. Mas a sua mensagem foi em termos de uma estrita exclusividade: um único é o Kyrios ('Senhor'). Aqui, toda a analogia falha. Esse testemunho, em contraste com a condescendência do mundo mítico inteiro, chega com uma intolerante reivindicação de totalidade, que põe em questão a validade e a verdade de toda a mitologia."

Mesmo quando os cristãos usam conceitos e termos habituais para comunicar o cristianismo, eles o fazem com uma significação exclusiva, rejeitando César, Esculápio, Hércules, Dionísio ou Ptolomeu. A leitura dos mitos gregos e o vislumbrar dos evangelhos deixa evidente a diferença entre eles, conforme declara Edward Blaiklock:

"Eu habitualmente o leio em seu grego simples, sem a tradução, e sempre tenho uma irresistível impressão de sua retidão, de sua intimidade com o tema e com o leitor. Apenas leia a história das bodas de Caná (...) e sinta a atmosfera doméstica, o embaraço de Maria, o gracejo sobre o melhor homem (capitulo 2 [João]). Siga para a história do rabino (capítulo 3) que veio à noite e ficou aborrecido a princípio porque a resposta para a sua pergunta, pela qual recebeu uma repreensão, foi dada através de alusões aos livros de Ezequiel e Números (...). Em seguida leia a história da conversa no poço de Sicar, onde uma samaritana trava uma perdida batalha de palavras com o judeu mais estranho que já havia encontrado (capítulo 4). Prossiga lendo o relato pungente da Paixão com seu clímax nas vívidas histórias da ressurreição, só comparáveis na simplicidade do realismo com a narrativa de Lucas. Simplesmente leia. Esses homens não estavam escrevendo uma ficção. Suas narrações não soam como mito. Trata-se de história e assim permanece, porque assim foi registrada."

J. B. Phillips concorda com Blaiklock:

"Eu havia lido, em grego e latim, inúmeros mitos, mas não achei o mais leve sabor de mito aqui [no Novo Testamento]. Não há nenhuma histeria, nenhuma manipulação para impressionar e nenhuma tentativa de fraude. [...] Sente-se além disso esta moderação com a qual aprendemos a pensar, que é mais 'latina' do que oriental. Há uma sinceridade e simplicidade quase pueris, e o efeito total é tremendo."

Segundo J. P. Moreland, o paganismo tem uma pequena ou nenhuma influência na formação da imagem de Jesus no Novo Testamento. O contexto geral dos Evangelhos fornece evidências substanciais de que a Igreja Primitiva se enraizava no judaísmo - Jesus, a Igreja Primitiva e os seus escritos nasceram em solo judeu sob ínfima influência gentílica.

Para encerrar, observemos o que afirma Adolf von Harnack:

"Devemos rejeitar a mitologia comparativa que acha conexões casuais entre tudo e todos, as quais derrubam sólidas barreiras, saltam sobre abismos como se fosse um jogo infantil, e engendram combinações a partir de semelhanças superficiais. [...] Através de tais métodos, pode-se transformar Cristo em um deus do sol num piscar de olhos, ou criar-se as lendas acerca do nascimento de todo deus concebível, ou reunir-se todos os tipos de pombas mitológicas para fazerem companhia à pomba batismal, e encontrar-se todo o número de jumentos célebres para acompanhar o jumentinho no qual Jesus montou em Jerusalém; e assim, com a varinha mágica das 'religiões comparadas', triunfalmente eliminar toda a característica original em qualquer das religiões."

Fontes: História das Religiões, Origem e Desenvolvimento das Religiões, Folio, 2008, pgs 88-91 e 108-110; Jesus de Nazaré, Joesph Ratzinger (Bento XVI), Planeta, 2007, pgs 57-58 e 271-272; Mosaico Teológico, Rodrigo Bibo de Aquino, Alexander Stahlhoefer, Maurício Machado e Alexandre Milhoranza, BTBooks, 2013, pg 21; O Novo Testamento, Sua Origem e Análise, Merril C. Tenney, 2011, pgs 77-80; Evidências da Fé Cristã, Josh McDowell, org. por Bill Wilson, Hagnos, 2014, pgs 181-193; O Jesus Fabricado, Craig Evans, Cultura Cristã, 2009, pgs 41-44.

Conclusão:
Os esforços dos críticos e céticos para destituir o cristianismo de sua originalidade são incríveis e desesperados. Qualquer possibilidade mínima é argumento e suposta evidência, chegando a desprezar o bom uso da lógica, a inverter a ordem histórica e a destituir os reais significados dos costumes e tradições. Uma análise cuidadosa dos fatos, porém, mostra com força inigualável que a fé cristã brotou da Palestina sob influência quase que exclusiva do judaísmo e penetrou no Império Romano com poder suficiente para alterar as práticas das religiões de mistério e do culto ao Sol Invicto, além de desafiar com ousadia o deus imperador e o seu evangelho com o verdadeiro Deus Jesus Cristo, o único que possui direito legítimo de estabelecer um Evangelho de redenção para o mundo e a humanidade.

Natanael Pedro Castoldi

Leia também:

O Cristianismo Foi Fundado nos Concílios do Século IV?

Ainda há muita gente que sustenta que foi Constantino, através do Concílio Niceno, revisado no Concílio Constantinopolitano (325 e 381 d.C.), o responsável pela fundação do cristianismo, sendo somente ali que os pilares centrais da fé cristã, como a divindade de Cristo e a teologia da Trindade, foram devidamente formulados e estabelecidos como regra. Será que isso é verdade?

Resumo do que segue: 1 - Os cristãos já adoravam Cristo como Deus há séculos; a - A evidência documental neotestamentária; b - A datação dos escritos do Novo Testamento; c - Os testemunhos neotestamentários mais antigos da divindade de Cristo; d - Os Pais da Igreja e a divindade de Cristo; e - O testemunho de não-cristãos sobre a divindade de Cristo; f - O testemunho do próprio Cristo; g - Jesus não era apenas mais uma divindade romana; 2 - O debate sobre a Trindade precede o Concílio Niceno-Constantinopolitano; 3 - Constantino inventou o cristianismo?; Conclusão

1 - Os cristãos já adoravam Cristo como Deus há séculos:
A divindade de Cristo não foi estabelecida nos Concílios Niceno e Constantinopolitano. É impossível, tomando consciência das evidências disponíveis, considerar tais concílios como o ponto de partida para a ideia de Jesus ser Deus. Vejamos algumas delas:

a - A evidência documental neotestamentária:
Existem muitos manuscritos antigos do Novo Testamento que precedem os concílios em questão. Seria insanidade sugerir que tais documentos tenham sido forjados e envelhecidos pelos romanos do século IV simplesmente para embasar as aspirações de Constantino. A quantidade de manuscritos anteriores aos Concílios Niceno e Constantinopolitano que dispomos é evidência clara de que o movimento cristão como religião já era bastante antigo, bem estruturado e detinha grande número de fiéis - no ano 100 d.C. já havia forte presença cristã na região de Roma, da Ásia Menor, da Palestina, da Grécia e do Norte da África; e no ano 200, os cristãos estavam numerosamente presentes na Península Ibérica e no coração da França. A fé crescia num ritmo de 40% por década - 1 mil na década de 40; 1,4 mil na década de 50; 7.530 no ano 100; 40.496 no ano 150; 217.795 no ano 200; 1,1 milhão no ano 250; e 6,3 milhões no ano 300, antes dos Concílios Niceno e Constantinopolitano (valores aproximados segundo Rodney Stark). Uma fé sem estrutura não atrairia tantos fiéis.
Fontes: Os Cristãos, Tim Dowley, Martins Fontes, 2009, pg 16; Uma História Politicamente Incorreta da Bíblia, Robert J. Hutchinson, Agir, 2012, pg 192.

 - Os manuscritos neotestamentários mais antigos:
O Evangelho de João, que é o que melhor sustenta a divindade de Cristo, também é o que aparece num dos mais antigos manuscritos de que temos conhecimento, o Papiro de Rylands, datado do ano de 125 d.C. Considerando que João escreveu em Éfeso e que o manuscrito em questão foi encontrado no Egito, é natural esperarmos cerca de duas décadas entre a redação original e a sua circulação até um ponto tão distante. Rylands pode, portanto, ser uma cópia feita diretamente do autógrafo. O que temos certeza é que desde antes do ano 125 já havia uma crença muitíssimo forte acerca da divindade de Jesus, que está mais do que clara nos escritos de João.

Outro documento de grande antiguidade é um fragmento do Evangelho de Marcos datado da década de 50 d.C., cerca de 20 anos depois da morte e ressurreição de Jesus. Esse fragmento foi encontrado nas cavernas de Qumran, que foram seladas e abandonadas no ano 70 d.C. - o estilo de escrita desse pequeno fragmento foi utilizado somente até o ano 50 d.C. Tendo em vista o Papiro Rylands e o fragmento 7Q5, do Mar Morto, torna-se inquestionável o fato de que os relatos neotestamentários acerca do Messias não são fruto de deturpações míticas que precisam de três ou mais gerações para serem produzidas.

Outros manuscritos muito antigos, abrangendo os Evangelhos, Atos, as epístolas gerais e/ou as epístolas de Paulo, são: os papiros I, II e III, de Chester Beatty, datados entre os séculos II e III; e os papiros II, VII, VIII, XIV e XV, de Bodmer, datados entre os séculos II e IV. Há considerável fartura de folhas nalguns desses manuscritos, chegando a ter 102. Foram catalogados, até o momento, 96 papiros.

Possuímos entre 10 e 15 manuscritos dos cem primeiros anos após a conclusão do Novo Testamento.

b - A datação dos escritos do Novo Testamento:
Papias, bispo de Hierápolis, falecido em 130 d.C., preservado por Eusébio de Cesaréia (263-340 d.C.), declarou a autoria apostólica e de pessoas ligadas aos apóstolos de documentos como Mateus, Marcos, Lucas e João. Isso significa que, segundo aquele que morreu antes da metade do século II, os Evangelhos foram todos escritos por pessoas muito próximas ao Messias, ou ligadas ao testemunho dessas.

Cartas escritas por três Pais da Igreja, Clemente, Inácio e Policarpo, isso entre 95-110 d.C., citam 25 dos 27 livros neotestamentários. Considerando que Clemente estava em Roma e Policarpo em Esmirna, centenas de quilômetros distantes, é certo que o Novo Testamento tenha sido escrito muitos anos antes das cartas deles, pois da redação original para uma circulação tão grande, abrangendo regiões tão distintas, foram necessárias algumas décadas. Isso significa que provavelmente todos os livros do Novo Testamento não foram escritos senão antes do ano 100.

A ausência de menções a alguns dos eventos mais marcantes da história da Igreja Primitiva, como o martírio de Paulo e Pedro e a destruição do Templo em Jerusalém, indica que quase todos os livros do Novo Testamento não podem ter sido redigidos depois de 70 ou, até 62 d.C. Paulo foi martirizado em 68 d.C. - e a obra de Lucas termina com Paulo e Tiago ainda vivos, sendo que Tiago morreu como mártir em 62 d.C. É evidente, com base nisso, que Lucas escreveu Atos antes de 62 d.C. - e, tendo em mente que o Evangelho de Lucas e o livro dos Atos constituem uma continuidade, podemos ter certeza que Lucas foi escrito algum tempo antes de Atos, por volta do ano 60.

Há, ainda, fortes evidências para a redação de muitos dos documentos neotestamentários entre as décadas de 40 e 50, com uso de fontes da década de 30. Análises cuidadosas da epístola de Tiago apontam, com categoria, para uma redação feita, no máximo, no ano 46 d.C.; e algumas das mais sérias análises da epístola de Paulo aos Gálatas sugere sua redação por volta do ano 48 d.C. Mas há evidências ainda mais espetaculares:

c - Os testemunhos neotestamentários mais antigos da divindade de Cristo:
Paulo escreveu 1 Coríntios por volta de 55 e 56 d.C., mas nalgum momento ele transferiu para a carta um credo cristão da década de 30 d.C. - de alguns anos após a ressurreição de Cristo. 1 Co 15:3-8 é declarada como a transmissão de um conhecimento que Paulo recebeu sobre a ressurreição de Jesus, que teria sido formulado entre 18 meses e 8 anos após o evento. Um testemunho tão antigo da ressurreição do Messias é, também, um testemunho sobre a Sua divindade. Mas há ainda outros:

Tanto Filipenses 2:5-11, quanto Colossenses 1:15-20 se parecem com antigos hinos da Igreja Primitiva, que teriam sido aprendidos por Paulo quando ele esteve em Jerusalém, na década de 30 d.C. O prólogo de João 1:1-5 também soa como um antiquíssimo hino sobre a divindade do Messias. Há algo entorno de 41 sessões do Novo Testamento que se parecem com credos formulados desde os primeiros anos da Era Cristã.


d - Os Pais da Igreja e a divindade de Cristo:
Dos séculos I ao III temos importantíssimos testemunhos de cristãos acerca dos documentos neotestamentários e, portanto, acerca da divindade Cristo, explícita em diversos textos, especialmente do Evangelho de João e das Cartas de Paulo. Segue uma lista de alguns deles:

Clemente de Roma, 96 d.C.; Hermas, 150 d.C.; Irineu, 140-203 d.C.; o Cânon Muratoriano, 172 d.C.; a Antiga Versão Latina, anterior a 170 d.C.; Tertuliano, 150-222 d.C.; Inácio, 116 d.C.; Policarpo, 69-155 d.C.; Papias, 80-155 d.C.; O Didaqué, 120 d.C.; Melito, 170 d.C.; Teófilo de Antioquia, 115-188 d.C.; Justino Mártir, 100-165 d.C.; Clemente de Alexandria, 155-215 d.C.; Orígenes de Alexandria, 185-253 d.C.; e Dionísio de Alexandria, 200-265 a.C. O Novo Testamento é considerado em sua totalidade através dos testemunhos desses cristãos e dos documentos aqui apontados. Isso significa que todas as bases para as formulações teológicas acerca da divindade de Cristo e da Trindade já estavam estabelecidas antes dos Concílios Niceno e Constantinopolitano, que muito dessa produção já estava fervilhando e que profundos debates já se realizavam.

e - O testemunho de não-cristãos sobre a divindade de Cristo:
É claro que os não-cristãos do início da Era Cristã nunca declararam crer na divindade de Cristo, residindo sua importância nas afirmações sobre como os cristãos adoravam Jesus como Deus e criam na ressurreição.

- Luciano de Samósata (125-185 d.C.): com declarações agressivas contra os cristãos, Luciano se queixa de que os seguidores de Cristo abandonaram os deuses gregos em troca de "um sofista crucificado que introduziu esses novos mistérios e conseguiu convencer seus adeptos a adorar só a ele." Nos século II já se sabia que os cristãos adoravam ao Messias como Deus.

- Flávio Josefo (37-100 d.C.): o Testemunho Flaviano é o mais espetacular de todos os relatos não-cristãos sobre Jesus do Primeiro Século:

"Naquele tempo apareceu Jesus, que era um homem sábio, se todavia devemos considerá-lo simplesmente como homem, tanto as suas obras eram admiráveis. Ele ensinava os que tinham prazer em ser instruídos na verdade e foi seguido não somente por muitos judeus, mas mesmo por muitos gentios. Era o CRISTO. Os mais ilustres da nossa nação acusaram-no perante Pilatos e ele fê-lo crucificar. Os que o haviam amado durante a vida não o abandonaram depois da morte. Ele lhes apareceu ressuscitado e vivo no terceiro dia, como os santos profetas haviam predito e que ele faria muitos outros milagres. É dele que os cristãos, que vemos ainda hoje, tiram o seu nome."

- Tácito (56-117 d.C.): "Assim, para calar os rumores, Nero jogou a culpa e puniu com requintes de crueldade uma classe de homens odiados por causa de seus vícios, a quem as multidões chamam de cristãos. Cristo, de quem eles receberam o nome, foi executado por ordem de Pôncio Pilatos na época em que Tibério era imperador, e assim essa superstição perniciosa foi contida por breve tempo, apenas para retornar revigorada, não apenas na Judeia, berço da praga, mas até alcançar Roma, lugar onde todas as coisas horríveis e vergonhosas que há no mundo encontram abrigo."

- Suetônio (70-130 d.C.): "A punição foi imposta aos cristãos, uma classe de homens que aderiu a uma superstição recente e nociva". 

- Plínio, o Moço (61 ou 62 - 114 d.C.): "Eles afirmaram [...] que sua única culpa, seu único erro, era terem o costume de se reunirem antes do amanhecer num certo dia determinado, quando então cantavam responsivamente um hino a Cristo, tratando-o como Deus, e prometiam solenemente uns aos outros não cometerem maldade alguma, não deflaudarem, não roubarem, não adulterarem, nunca mentirem, e não negar a fé quando fossem instados a fazê-lo."

Segundo os relatos daqueles que observaram o movimento cristão nos séculos I e II, fica evidente que os cristãos eram considerados membros de uma religião centralizada em Cristo, que era adorado como Deus. A crença na divindade de Cristo, portanto, estava muitíssimo viva desde as primeiras décadas da Era Cristã.
Fontes: Cristãos da Terceira Geração, Eduardo Hoornaert, Vozes, 1997, pg 117; Uma Análise das Evidências Extra-Bíblicas sobre Jesus.

f - O testemunho do próprio Cristo:
O próprio Jesus foi o primeiro a considerar a Sua divindade. Aqui não cabe o debate sobre a pessoa de Cristo, mas, apenas, a percepção antiquíssima de Jesus como Deus. Para William Lane Craig, já havia uma cristologia bastante completa nas primeiras duas décadas após a ressurreição do Messias. Segundo o historiador da igreja, Jaroslav Pelikan*, o sermão cristão mais antigo, o mais antigo relato sobre um mártir cristão, a mais antiga narrativa pagã sobre a Igreja e a oração litúrgica mais antiga (1 Co 16:22) são todas passagens que se referem a Jesus como Senhor e Deus. Ele declara: "Sem dúvida, era essa a mensagem em que a igreja acreditava e que ensinava: que 'Deus' era um nome adequado para Jesus Cristo." Se Jesus nada tivesse falado sobre ser Ele o próprio Deus, a única explicação para essa forte fé estaria no enlouquecimento coletivo dos discípulos apenas alguns anos após a crucificação. A verdade é que Jesus declarou sua divindade em diversos momentos (segue o material retirado de meu artigo de nome "Jesus Afirmou Ser o Messias? Declarou Ser Deus?"):

Quando Caifás questionou Jesus sobre se Ele era "o Cristo, o Filho do Deus Bendito", o Mestre respondeu: "Sou." E mais: "E vereis o Filho do Homem assentado à direita do Poderoso vindo com as nuvens do céu." Somente Deus pode ser adorado, mas aqui Cristo está afirmando ser aquele que julgaria o mundo e que receberia adoração, explicitando ser o próprio Criador. No Evangelho de João há 7 passagens nas quais Jesus se considera o próprio "Eu Sou", a forma como Deus se apresentou ao profeta Moisés em Êxodo 3:13-14 (6:35; 8:12; 10:7 e 9; 10:11 e 14; 11:25; 14:6; 15:1 e 5) - ora, nessas passagens Cristo está afirmando que é eterno e auto-existente! Tal declaração é tão forte que, no caso de Jo 8:56-59, os judeus imediatamente recolherem pedras para atirar nele. Talvez a única passagem que supere essas seja a de Jo 10:30, na qual Jesus declara: "Eu e o Pai somos um".

Declarações indiretas da divindade de Cristo:
- Em Jo 17:5, Jesus diz que Ele estava com o Pai antes que o mundo existisse, partilhando da glória de Deus. O AT, porém, afirma que existe apenas um Único Deus e que Deus não dá a Sua glória para ninguém (Dt 6:4; Is 45:5 e 42:8).
- Jesus disse, em Ap 1:17, "Eu Sou o Primeiro e o Último". O mesmo que Deus fala sobre si mesmo em Is 44:6.
- Em Jo 10:11, Jesus diz que Ele é "o Bom Pastor", conforme o que Deus diz em Sl 23:1 e Ez 34:12.
- Joel 3:12 afirma que Deus é quem julgará as nações. Jesus diz que Ele julgará todas as pessoas (Mt 25:31; Jo 5:27).
- O salmista diz que "o Senhor é a minha luz" (Sl 27:1) e Jesus diz que Ele é "a luz do mundo" (Jo 8:12).
- Jesus se declara o "doador da vida" (Jo 5:21), enquanto o AT afirma que Deus é o único que pode "doas a vida" (Dt 32:39; 1 Sm 2:6; Is 26:19; Dn 12:2; Jó 19:25).
- Jesus afirmou que Ele é o único caminho para o Pai (Jo 14:6).
- Cristo declara-se como o "noivo" (Mc 2:19; Mt 9:15; 25:1-13; Lc 5:34), mas Deus é identificado como o "noivo" no AT (Is 62:5; Os 2:16).

Jesus tomava atitudes exclusivas de Deus:
- Só Deus pode perdoar pecados. Cristo perdoou! Mc 2:5-11.
- Só Deus pode estabelecer mandamentos. Cristo estabeleceu um novo mandamento! Mt 28:18-19.
- Assim como Deus entregou os 10 Mandamentos para Moisés, Jesus entregou um Novo Mandamento aos discípulos. Jo 13:34.
- Só Deus pode receber orações. Cristo pediu aos discípulos que orassem em Seu nome! Jo 14:13 e 14 e 15:7.
- Só Deus pode ser adorado (Êx 20:1-4; Dt 5:6-9; At 14:15; Ap 22:8-9). Jesus aceitou adoração! Mt 8:2, 9:18, 14:33, 15:25, 20:20, 28:17; Mc 5:6; Jo 9:38, 20:28. Jesus não repreendeu os atos de adoração, mas elogiou-os - Jo 20:29 e Mt 16:17.

Declarações da divindade de Cristo da parte dos evangelistas e apóstolos:
João diz que Jesus é Deus (Jo 1:1 e 14); Paulo diz que Cristo "é Deus acima de todos" (Rm 9:5) e que "em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade" (Cl 2:9); Pedro diz que os crentes "de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo a fé" (2 Pe 1:1); Mateus afirma a divindade de Cristo quando cita Isaías 7:14, na qual o filho da virgem deveria ser chamado de Emanuel, que significa "Deus conosco" (Mt 1:23); o autor de Hebreus fiz que "O Filho é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser, sustentando todas as coisas por sua palavra poderosa" (Hb 1:3), além de citar Salmos 45:3, afirmando que Deus diz o seguinte sobre o Filho: "O teu trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre" (Hb 1:8). Até os demônios aparecem reconhecendo a divindade de Cristo (Mt 8:29; Lc 4:34 e 42)!

* O mais antigo sermão cristão sobrevivente depois do Novo Testamento começa assim: "Irmãos, temos de pensar em Jesus Cristo como Deus, como juiz dos vivos e dos mortos. E não devemos subestimar nossa salvação; pois quando o subestimamos, também esperamos receber menos." O mais antigo relato de um sobrevivente da morte de um mártir diz: "É impossível abandonarmos Cristo [...] ou adorar qualquer outro. Pois ele, sendo o Filho de Deus, o adoramos, mas valorizamos [...] os mártires." A mais antiga oração litúrgica sobrevivente da Igreja afirma: "Vem, Senhor!" E o relato pagão mais antigo sobre a Igreja declara que os cristãos se reuniam antes da aurora "entoando um hino a Cristo como se para [um] Deus."
Fonte: A Tradição Cristã 1, O Surgimento da Tradição Católica, 100-600, Jaroslav Pelikan, Sheed Publicações, 2014, pg 186.

g - Jesus não era apenas mais uma divindade romana:
Muitos consideram que Jesus fosse apenas uma entre muitas outras divindades romanas do período, adotada pelos cristãos e por Constantino. A verdade é que todas as evidências arqueológicas e documentais mais antigas (Evidências de Jesus no Primeiro Século?) apontam para Cristo como uma figura histórica palestina e para o cristianismo como uma religião monoteísta inicialmente vinculada ao judaísmo, que nada tinha com o paganismo romano (os romanos até abriam uma exceção de culto aos judeus), principiada em Jerusalém. Jesus não tinha relação nenhuma com o panteão romano. Aliás, o cristianismo não era visto com bons olhos por muitos pagãos do período, gerando conflitos e perseguições, coisa que seria diferente caso fosse uma invenção romana para manipular as massas. Até é possível que o imperador romano desejasse apagar o cristianismo inserindo Jesus no panteão romano, como era costume em Roma, mas os cristãos nunca aceitaram a comparação de Cristo com os deuses pagãos, gerando um grande desconforto. Podemos verificar duas coisas interessantes em três relatos pagãos: primeiro, que o cristianismo era visto como um causador de problemas - e não um mecanismo de controle do povo - e, segundo, que o culto cristão era tão desprezado pelos pagãos quanto os cristãos desprezavam o paganismo, evidenciando a impossibilidade de Jesus ter sido pensado pela aristocracia romana:

O discurso de Celso, escrito por volta de 175 d.C.:
"Apareceu uma raça nova nascida ontem, sem pátria, nem tradições, voltada contra todas as instituições religiosas e civis, perseguida pela justiça, universalmente qualificada de infames mas que se gloria da execração geral: são os cristãos." Eles constituem "um punhado de gente simples, grosseira, perdida moralmente, que constitui a clientela ordinária dos embusteiros... ignorantes, fechados, incultos e simples de espírito, almas vis e ignavos, escravos, mulheres pobres e crianças... tecelões de lã, sapateiros e calceteiros, gente de extrema ignorância e destituída de qualquer educação, que dizem maravilhas a mulheres que não têm mais juízo que eles mesmos." Eles vivem "na tenda do sapateiro ou na loja do pisoeiro", pois são herdeiros dos judeus, "escravos foragidos do Egito e que nunca fizeram nada de extraordinário, nunca primaram nem pelo número nem pela consideração". São "sapateiros, pedreiros, serralheiros", "gente grosseira e impura".

"A sabedoria lhes é um mal e a loucura um bem." São "inimigos dos ricos", "sectários que querem fazer grupinhos à parte e se separam da sociedade comum", "adversários da cultura, que não querem fazer o que todo mundo faz". "A aversão dos cristãos contra templos, altares e estátuas é como a marca e o sinal da união, secreta e misteriosa, entre eles, e sua recusa em participar das cerimônias religiosas repousa sobre um conceito errôneo de Deus."

Jesus: um "desassistido que percorria o país com dez ou onze seguidores tirados da lama do povo, entre marinheiros e publicanos, sem futuro, ganhando vergonhosamente uma precária subsistência", filho de "camponeses" ou de um "carpinteiro", "sedutor do povo e embusteiro", "de baixa estatura, feio e sem nobreza", "personagem que terminou por uma morte infame uma vida infame." Ele segue favorecendo a fidelidade do Imperador.
Fonte: Cristãos da Terceira Geração, Eduardo Hoornaert, Vozes, 1997, pgs 136-137.

O testemunho de Tácito, escrito por volta de 110 d.C., foi trabalhado anteriormente. É importante conferir.

Suetônio, escrevendo por volta de 120 d.C.:
"Como os judeus, instigados por Cresto, provocavam distúrbios frequentes, ele os expulsou de Roma."

Sobre essas severas acusações contra o cristianismo, é interessante que o leitor verifique a postagem "As Ofensas aos Cristãos Primitivos".

Contra o que tais pagãos declararam, há uma belíssima carta cristã do ano 120 d.C., que estabelece os motivos que levavam os cristãos a um comportamento tão diferente do dos pagãos, deixando evidente a natureza singular e de origem nada romana do cristianismo. Falo da Carta a Diogneto, que se encontra o livro "Padres Apologistas", Paulos, 2014, pgs 11-30, e na postagem de nome "Sobre os Primeiros Cristãos".

2 - O debate sobre a Trindade precede o Concílio Niceno-Constantinopolitano:
O livro "A Tradição Cristã 1, O Surgimento da Tradição Católica, 100-600, Jaroslav Pelikan, Sheed Publicações, 2014", pgs 185-234, trabalha de modo exaustivo sobre o desenvolvimento do debate acerca da natureza de Cristo e da Trindade, deixando evidente que ambos começaram muito antes dos concílios em questão - até porque algumas das heresias mais antigas surgiram de desentendimentos sobre o assunto, crendo apenas na divindade de Cristo ou descrendo nela, ou crendo na impossibilidade de Deus ser "Um e Três". Tais impasses levantaram muitos heresiarcas e patriarcas da Igreja, e o debate se desenvolveu sem a necessidade de conclamar nenhum concílio formal - desse modo, os Concílios Niceno e Constantinopolitano apenas trataram de refletir sobre e oficializar aquilo que já estava em circulação. Até porque, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento deixam claras a natureza humana e divina de Cristo e a doutrina da Trindade (A Trindade na Bíblia).

Algumas colocações interessantes de Pelikan sobre o assunto:

"A doutrina crida, ensinada e confessada pela igreja católica dos séculos II e III levou à Trindade, pois o cristianismo, nesse dogma, traçou a linha que a separava do sobrenaturalismo pagão e reafirmava seu caráter como religião da salvação."

"Clemente de Alexandria mostra que as tendências docetizantes, mesmo entre os crentes ortodoxos, deve ser considerada como uma forma de 'pensar em Jesus Cristo como de Deus.' (...) a própria existência do docetismo também é um testemunho da tenacidade da convicção de que Cristo tinha de ser Deus, mesmo à custa de sua verdadeira humanidade."

"Atanásio: 'Como é possível alguém não se enganar em relação à presença encarnada [do Filho] se o indivíduo ignora totalmente a geração genuína e verdadeira do Filho pelo Pai?'"

Tertuliano "acha impossível acreditar em um Deus a menos que se diga que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um e o mesmo." Eram comuns as expressões "Deus nasceu", "Deus sofredor" e "Deus morto".

"Tertuliano: 'Ainda que o um [Deus] não fosse também dessa forma [Pai, Filho e Espírito Santo], que eles são todos do um, a saber, pela unidade da substância, apesar do mistério dessa economia, não obstante, estar protegido - o que dispõe a unidade na Trindade, apresentando Pai, Filho e Espírito como três, e, no entanto, não três em qualidade, mas em sequência; não em substância, mas em aspecto; não em poder, mas em [sua] manifestação.'"

"Essa doutrina da relação entre Cristo e Deus, entendida como está, ou seja, como Hipólito e Tertuliano a registraram, revela ter sido uma sistematização da crença cristã popular."

Sibélio: "Da mesma maneira que há 'diferentes tipos de dons, mas o Espírito é o mesmo', também o Pai é o mesmo, mas é expandido no Filho e no Espírito." Sibélio é considerado o responsável pela ideia herege de que a Trindade é como o Sol - o mesmo que se revela de três formas diferentes.

"Noeto (...) raciocinava assim: 'Preciso, uma vez que um [Deus] é reconhecido, tornar esse um o sujeito do sofrimento. Pois Cristo era Deus e sofreu por nossa causa, sendo ele mesmo o Pai, para que pudesse nos salvar."

Do livro "Teologia Sistemática, História e Filosófica", Alister E. McGrath, Sheed Publicações, 2005, pgs 56-61:

Segundo McGrath, até 325 d.C., ano do Concílio Niceno, a Igreja Primitiva havia chegado à conclusão de que Jesus era "um em substância" com Deus. Esse encorpar da cristologia é o primeiro passo para o desenvolvimento das ideias sobre a Trindade. O debate cristológico patrístico pode ser resumido da seguinte forma:

- As Escolas: a Escola de Alexandria tendia a enfatizar a divindade de Cristo, enquanto a Escola de Antioquia enfatizou a humanidade do Messias.
- Os debates: Ário (250-336 d.C.) foi o responsável pela "controvérsia ariana", no século IV. Ele alegava que Cristo deveria ser considerado apenas uma criatura, mesmo que superior às demais. Na oposição, temos Atanásio, que sustentava a divindade de Cristo, sendo ela essencial para o entendimento acerca da salvação. Após algum tempo de debate, o arianismo foi tido como herege. Em seguida desenvolveu-se o "debate apoliranista", entorno das ideias de Apolinário de Laudicéia (310-390 d.C.), que considerava que Cristo não poderia ser considerado totalmente humano. Apolinário recebeu oposição de autores como Gregório de Nazianzo, que afirmou que Jesus não poderia redimir a humanidade se não fosse, também, homem. 
- Os concílios: o Concílio de Nicéia (325 d.C.) foi convocado por Constantino especialmente para solucionar os desentendimentos cristológicos que desestabilizavam seu império. Nesse concílio a controvérsia ariana teve seu fim, confirmando o que já estava sendo afirmado sobre a divindade de Cristo. O Concílio de Calcedônia (451 d.C.) reafirmou o Concílio Niceno e respondeu a novas polêmicas acerca da humanidade de Cristo, surgidas depois de Nicéia (325).

McGrath também comenta brevemente sobre o desenvolvimento da doutrina da Trindade:

Já havia algum debate sobre a Trindade desde antes de considerada a natureza divina de Cristo, mas foi natural a sua definição quando oficializada a ideia de que Jesus, mesmo diferente do Pai, era Deus. A cristologia, como base para a definição mais clara da doutrina da Trindade, não foi resultado dos Concílios Niceno e Constantinopolitano, mas de um período bastante longo de controvérsias e debates, não sendo, portanto, tais concílios os responsáveis pela formulação de suas doutrinas principais.

A ideia de Deus ser "Um e Três" foi estabelecida por debates cristológicos que culminaram com o Concílio de Nicéia, sendo consolidada a doutrina da divindade do Espírito Santo como resultado disso. Atanásio e Basílio de Cesaréia foram os maiores responsáveis por seu desenvolvimento. Vale lembrar que a oficialização de doutrinas não indica o princípio das mesmas - toda  oficialização de uma doutrina cristã é resultado de um debate anterior.

A posição da Igreja Oriental sobre o assunto foi desenvolvida especialmente por Basílio de Cesaréia (330-379 d.C.), Gregório de Nazianzo (329-389 d.C.) e Gregório de Nissa (330-396 d.C.), os Pais Capadócios, que iniciaram suas reflexões sobre a Trindade por meio da observação das distintas formas através das quais se experimenta a presença do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A posição da Igreja Ocidental, associada especialmente a Agostinho de Hipona, partiu da unidade de Deus, seguindo para as implicações do amor de Deus, afim de compreendermos a Sua natureza.

A formulação da doutrina da Trindade, portanto, começou antes dos Concílios Niceno e Constantinopolitano e não foi concluída com eles, seguindo em debate por algum tempo depois.

3 - Constantino inventou o cristianismo?
Tal pergunta não precisaria nem ser feita depois de todo esse estudo. A verdade é que ele mesmo se converteu antes do Concílio Niceno, no ano de 312 d.C., e que a sua própria mãe já era cristã antes disso. Não iremos entrar nos méritos do caráter de Constantino, mas sabe-se que não havia lucro algum, em termos políticos, em adotar o cristianismo, uma religião numericamente minoritária e que havia sido perseguida com ferocidade. É possível que Constantino tenha observado no comportamento dos cristãos, que a todos serviam, uma forma de produzir maior unidade no Império, mas ceder diante daqueles que representavam um décimo da população, muito hostilizados por todos, e, assim, desafiar as instituições tradicionais, não faz sentido se não considerarmos um real interesse pela pessoa de Cristo.

O fato é que o Concílio Niceno não tive o aval de Constantino para formular uma nova religião, mas apenas para solucionar os problemas e as controvérsias existentes dentro daquela que agora era a religião oficial do Império Romano. Qualquer desordem dentro da Igreja prejudicava os negócios romanos. Para o imperador, era urgente que os cristãos entrassem num consenso e o consenso obtido não foi produto de uma invenção ocorrida durante o concílio, mas apenas de um esclarecimento maior sobre aquela que já era a ortodoxia cristã há séculos.
Fonte: Uma Breve História do Cristianismo, Geoffrey Blainey, Fundamento, 2012, pgs 54-58.

Conclusão:
A teologia cristã encontra seu esqueleto fundamental na Bíblia e, portanto, desde que o Novo Testamento foi concluído, todas as bases para o entendimento sobre a Trindade e a natureza de Cristo já estavam estabelecidas. Foi o Novo Testamento que possibilitou o debate sobre tais doutrinas, não os Concílios Niceno e Constantinopolitano. Tendo diante de nós evidências numerosas de que o cristianismo e o Novo Testamento existem desde o Século Primeiro, não há motivos para continuar compactuando com a ideia de que a fé cristã foi inaugurada no século IV ou que foi somente ali que foram cogitados os principais pilares do entendimento cristãos. O cristianismo, pela boca dos próprios romanos e também pelo testemunho dos cristãos, não pode ter sido uma invenção do imperador!

Natanael Pedro Castoldi

Leia também:

Os Mais Antigos Testemunhos do Novo Testamento

Comumente os céticos alegam que o Novo Testamento foi inteiramente escrito várias décadas depois da morte de Cristo, sendo fruto de crenças já desenvolvidas e encorpadas, de distorções da realidade e de exageros míticos. Além desses, há os que sustentam que os Evangelhos foram redigidos não pelos tradicionais evangelistas, mas por discípulos seus, escolas ou comunidades. Dentre os céticos respeitáveis, há, ainda, uma minoria que chega ao absurdo de afirmar que Jesus nem sequer existiu. Ao meu ver, a solução mais poderosa para esse problema reside na antiguidade dos relatos de Cristo - quanto mais antigo o documento, mais próximo da vida de Jesus ele está e, portanto, mais longe do tempo necessário para que um mito seja formulado e crido em massa. Sobre esse assunto eu já publiquei diversos artigos aqui no blog, mas, como encontrei explicações interessantes noutros materiais, achei pertinente publicar um novo trabalho. Tire as suas próprias conclusões.

Primeira fonte: Ciência e Fé em Harmonia, Prof. Felipe Aquino, Cléofas, 2012, pgs 154-162:

O que temos hoje de documentos antigos do Novo Testamento são os papiros (distribuídos nos dez primeiros séculos da Era Cristã), os "códices unciais" (letras maiúsculas sobre o papiro), os "códices minúsculos" (letras minúsculas) e os "lecionários" (textos de uso litúrgico). São 5236 cópias antigas do texto original do Novo Testamento grego, sendo 81 papiros (1), 266 códices maiúsculos (2), 2754 códices minúsculos e 2135 lecionários.

1 - Os papiros são os testemunhos mais antigos do Novo Testamento, sendo alguns encontrados nas seguintes localidades:

Em Filadélfia, EUA, há um documento dos Evangelhos do séc. III; em Florença, na Itália, há um documento dos Evangelhos datado do séc. VI; outro documento dos Evangelhos encontra-se em Viena, Áustria, e data de algo entre os séculos VI e VII; em Paris há um documento dos Evangelhos do séc. III, mesmo século doutro que está em Londres, Inglaterra; em Estrasburgo, França, há um do séc. IV, e em Berlim, Alemanha, há um documento de Atos datado do séc. IV. Há, ainda, documentos em Leningrado, Cairo, Oxford, Cambridge, Heildelberg, Nova York, Gênova... Segundo o Prof. Felipe Aquino, "existem 76 papiros do texto original do Novo Testamento".

Alguns desses papiros são de algo entorno do ano 200, como é o caso do Papiro 67, que está em Barcelona.

2 - Alguns dos grandes livros que caracterizam os "unciais", encontram-se nas seguintes cidades:

Há documentos do Novo Testamento em Londres (séc. IV, Sinaítico, e séc. V, Alexandrino), Roma (não inclui Apocalipse e data do séc. IV, Vaticano), Paris (séc. V, Efrém rescrito) e Cambridge (Evangelhos e Atos, séc. VI, Beza). Das cartas de Paulo há o uncial "Claromantono", que está em Paris e data do séc. VI. Os mais de duzentos unicais estão espalhados ainda em outras localidades, como: Moscou, Utrecht, Leningrado, Washington, Monte Athos, São Galo...

Tais referências geográficas servem para sustentar a verdade de que o estudo dos manuscritos do Novo Testamento não depende do aval do Vaticano, uma vez que a maior parte deles está guardada em instituições de vários lugares do mundo, muitas de caráter secular - só há um códice no Vaticano, que é o Códice Vaticano, do séc. IV.

O manuscrito mais antigo:

Dos mais de cinco mil manuscritos antigos do Novo Testamento grego, alguns são dos séculos II e III, sendo o mais antigo o Papiro de Rylands, que está em Manchester, Inglaterra, e data de algo entorno de 125 d.C., compreendendo alguns versículos do Evangelho de João (18:31-33, 37 e 38). Se considerarmos a data de escrita do Evangelho de João no limiar do ano 100, é razoável pensar que o Papiro de Rylands trata-se de uma cópia do documento original. Analisemos melhor a questão:

O Papiro de Rylands foi encontrado no Egito. Tendo em mente as conclusões mais críveis sobre a localidade e autoria do original de João, redigido em Éfeso no final do Primeiro Século, podemos facilmente considerar que o tempo levado desde a sua redação, o período de cópia e sua chegada ao Egito não deve ter sido muito menor do que 25 anos. Temos, portanto, um documento pouquíssimas décadas mais novo do que o original do apóstolo.

O testemunho mais antigo:

Trata-se da descoberta de um fragmento do Evangelho de Marcos datado do ano de 50 d.C., encontrado na década de 1960 na gruta nº 7 de Qumran, fazendo parte do conjunto dos Manuscritos do Mar Morto. Vejamos alguns deles (Papiros neotestamentarios en la cueva 7 de Qumran?, em "Bíblica" 53 [1972] pp 91-100):

7Q4 - 1 Timóteo 3:16; 4:1-3
7Q5 - Marcos 6:52-53
7Q6 - Marcos 4:28
7Q6 - Atos dos Apóstolos 27:38
7Q7 - Marcos 12:17
7Q8 - Tiago 1:23-24
7Q9 - Romanos 5:11-12
7Q10 - 2 Pedro 1:15
1Q15 - Marcos 6:48
(Pergunte e Responderemos, nº 288, 1986, pg 194).

Considerando que essa e as demais grutas de Qumran foram fechadas em 68 d.C., evidentemente os fragmentos datam de anos anteriores. Apesar de o conteúdo de muitos desses fragmentos ser bastante questionável, há uma certa unanimidade sobre o fato de 7Q5 corresponder ao texto de Marcos 6:52-53, tendo em mente o original grego e a maneira como os antigos escreviam.

Esse fragmento foi redigido em escrita contínua, chamada de "zierstil", que estava em uso no período de 50 a.C. e 50 d.C. Ora, uma vez que tal estilo deixou de ser usado em 50 d.C., o fragmento deve ser do ano 50 ou antes - com base na sua antiguidade, alguns estudiosos concluíram que o manuscrito foi importado do Ocidente para Qumran. Tomando as evidências como parâmetro, Carsten Peter Thiede afirma:

"Quem quer considerar 7Q5 = Mc 6:52-53 como o mais antigo fragmento até hoje conservado do texto do Novo Testamento, pode fazê-lo com a consciência tranquila." (Ein Markus-Fragment ca. 50 n. Ch. Geschrieben. Sensationeller Befund mit weitreichenden Folgen, em: Theologisches nº 188, dezember 1985, Cols. 6769-6774).

Ora, documentos assim mostram que o Novo Testamento é muito mais confiável do que os demais livros de escritores clássicos, pouquíssimo questionados pelos estudiosos de nossos dias: há uma distância de 350 anos entre a redação original e a primeira cópia que conhecemos do trabalho de Virgílio (19 a.C.), 500 anos para Tito Lívio (17 d.C.), 900 anos para Horácio (8 a.C.), 900 anos para Júlio César (44 d.C.), 1200 anos para Cornélio Nepos (32 a.C.), 1300 anos para Platão (347 a.C.), 1300 anos para Tucídides (395 a.C.) e 1600 anos para Eurípedes (407 a.C.). Entre a vida de Cristo e o 7Q5 há uma diferença de, no máximo, 20 anos!

O testemunho de cristãos antigos:

1 - Sobre o Evangelho de Mateus:

Citado por Eusébio de Cesaréia, que escreveu por volta de 300 d.C., Papias, Bispo de Hierápolis, na Frígia, falecido em 130 d.C., falou:

"Mateus, por sua parte, pôs em ordem os dizeres na língua hebraica, e cada um depois os traduziu como pôde." (Eusébio, História da Igreja III, 39, 16).

Papias possivelmente foi contemporâneo de alguns apóstolos, especialmente do Apóstolo João.
Irineu, que viveu até o ano 202, também comenta sobre Mateus na sua obra "Contra os Hereges":
"Mateus compôs o Evangelho para os hebreus na sua língua, enquanto Pedro e Paulo em Roma pregavam o Evangelho e fundavam a Igreja." (Adv. Haereses II, 1,1).

2 - Sobre o Evangelho de Marcos:

Papias, novamente citado por Eusébio, testemunha o seguinte:

"Marcos, intérprete de Pedro, escreveu com exatidão, mas sem ordem, tudo aquilo que recordava das palavras e ações do Senhor; não tinha nem ouvido nem seguido o Senhor (....). Ora, como Pedro ensinava, adaptando-se às várias necessidades dos ouvintes, sem se preocupar em oferecer composição ordenada das sentenças do Senhor, Marcos não nos enganou escrevendo conforme recordava; tinha somente esta preocupação, nada negligencias do que tinha ouvido, e nada dizer de falso." (Eusébio, História da Igreja, III, 39, 15).

3 - Sobre o Evangelho de Lucas:

Segue o prólogo do Evangelho de Lucas, utilizado comumente no séc. II:

"Lucas foi sírio de Antioquia, de profissão médica, discípulo dos apóstolos, mais tarde seguiu Paulo até a confissão (martírio) deste, servindo irrepreensivelmente o Senhor. Nunca teve esposa nem filhos; com oitenta e quatro anos morreu na Bitínia, cheio do Espírito Santo. Já tendo sido escritos os evangelhos de Mateus, na Bitínia, e de Marcos, na Itália, impelido pelo Espírito Santo, redigiu este Evangelho nas regiões da Acaia, dando a saber logo no início que os outros Evangelhos já haviam sido escritos."

4 - Sobre o Evangelho de João:

Irineu, falecido em 202, citando Papias:
"Enfim, João, o discípulo do Senhor, o mesmo que reclinou sobre o seu peito, publicou também o Evangelho quando de sua estadia em Éfeso."

Segunda fonte: Manual Bíblico Unger, Merril Frederick Unger, Vida Nova, 2006, pgs 711-713:

Segue uma lista dos autenticadores mais antigos do Novo Testamento:
- O testemunho de Clemente de Roma, 96 d.C.: escrevendo para a Igreja de Corinto, o bispo de Roma revela conhecimento de Mateus, Romanos, 1 Coríntios e Hebreus.
- O testemunho de Marcião, 140 d.C.: esse herético indivíduo aceitou o evangelho de Lucas e dez das epístolas de Paulo.
- O testemunho de Hermas, 150 d.C.: o autor de "Pastor de Hermas", autentica o evangelho de Mateus, Efésios, aparentemente Hebreus e Tiago, e notavelmente Apocalipse.
- O testemunho de Irineu, 140-203 d.C.: Irineu, em sua juventude, teve contato com Policarpo, que tinha sido discípulo do Apóstolo João. O bispo testemunha os quatro evangelhos, Atos, 1 Pedro, 1 João, toda a obra de Paulo, menos Filemom, e sustenta o Apocalipse.
- O testemunho do Cânon Muratoriano, 172 d.C.: atesta todos os livros do NT, exceto 1 Pedro, 2 Pedro, Tiago e Hebreus.
- O testemunho da Antiga Versão Latina, anterior a 170 d.C.: atesta todos os livros do NT, menos Tiago e 2 Pedro. Nos tempos de Tertuliano, Hebreus foi acrescentado ao documento.
- O testemunho de Tertuliano, 150-222 d.C.: ele atesta os quatro evangelhos, treze epístolas paulinas, Atos, 1 Pedro, 1 João, Judas e Aposalipce.
- Inácio (116 d.C.), Policarpo (69-155 d.C.) e Papias (80-155 d.C.), atestaram Mateus, João, as epístolas paulinas, 1 Pedro, 1 João e provavelmente Atos.
- O Didaqué, 120 d.C.: destaca Mateus, demonstra conhecimento de Lucas e da maioria dos outros livros do NT.
- Melito, 170 d.C.: citou trechos de todos os livros do NT, menos Tiago, Judas e 2 e 3 João.
- Teófilo de Antioquia, 115-188 d.C.: adotou a maior parte dos livros do NT.
- Justino Mártir, 100-165 d.C.: deu importante testemunho de Apocalipse, conhecia Hebreus e, provavelmente, fez referência ao Evangelho de Marcos.
- Clemente de Alexandria, 155-215 d.C.: aceitou todos os livros do NT.
- Orígenes de Alexandria, 185-253 d.C.: aparentemente aceitou os livros que ainda eram contestados, como Hebreus, 2 Pedro, 2 e 3 João, Tiago, Judas e Apocalipse.
- Os Papiros de Chester Beatty, séc. III: autenticam os quatro evangelhos, Atos, as epístolas paulinas, Hebreus e Apocalipse.
- Dionísio de Alexandria, 200-265 a.C.: autenticou Hebreus, reconheceu Tiago, 2 e 3 João e o Apocalipse como Escrituras sagradas.

Terceira fonte: Não Tenho Fé Suficiente Para Ser Ateu, Norman Geisler e Frank Turek, Vida, 2012, pgs 241-249:

- Todos os livros do NT foram escritos antes do ano 100 d.C.:

Em cartas escritas entre 95-110 d.C., três Pais da Igreja, Clemente, Inácio e Policarpo, citam passagens de 25 dos 27 livros do Novo Testamento - apenas os pequenos livros de Judas e 2 João não foram citados. Ora, Judas, que era meio-irmão de Jesus, provavelmente já estava morto nessa época e 2 João já deveria ter sido escrita, pois ela precede 3 João, citada por Inácio.

Considerando que Clemente estava em Roma e Inácio e Policarpo em Esmirna, centenas de quilômetros distantes, é certo que o Novo Testamento tenha sido escrito muitos anos antes das cartas deles, pois da redação original para uma circulação tão grande, abrangendo regiões tão distintas, foram necessárias algumas décadas. Como Clemente de Roma escreveu em 95 d.C., citando Mateus, Marcos, Lucas, Romanos, 1 Coríntios, Efésios, 1 Timóteo, Tito, Hebreus, Tiago e 1 Pedro, é certo que todos esses livros já estavam prontos antes de 95 d.C.

- A maioria dos livros do NT, senão todos, foi escrita antes do ano 70 d.C.:

Uma terrível tragédia se abateu sobre Jerusalém em 70 d.C., com a invasão romana, centenas de milhares de mortes em Israel e a destruição do Templo. O estranho é que, embora vários discursos de Jesus façam referência ao Templo, com direito a algumas predições sobre a sua destruição, "não existe absolutamente nenhuma menção do cumprimento dessa tragédia predita em lugar algum nos documentos do NT." Ora, algo tão significativo não teria sido desconsiderado pelos cristãos! Seria inconcebível que nenhum escrito cristão do NT citasse a terrível e profética catástrofe na principal cidade do ministério de Cristo - e isso significa que, muito provavelmente, nenhum material neotestamentário tenha sido escrito depois de 70 d.C. Além disso, todas as descrições e alusões ao Templo dão a entender que ele estava de pé no momento da redação e todas as descrições de Jerusalém demonstram que a configuração da cidade no momento da formulação do trabalho ainda era a de antes da invasão romana, que a modificou dramaticamente.

- Muitos livros do NT foram compostos antes do ano 62 d.C.:

Lucas, autos do Evangelho de Lucas e do livro de Atos, acompanhou Paulo durante o seu ministério, eventualmente utilizando a palavra "nós", incluindo-se, assim, nos relatos. Todos os eventos significativos para a Igreja que Lucas presenciou, ele registrou, como os martírios de Estêvão e Tiago, irmão de João, mas não há nenhuma menção à morte de Paulo, executado por Nero em 68 d.C. A obra de Lucas, na verdade, termina com Paulo e Tiago, irmão de Jesus, ainda vivos. Considerando o martírio de Paulo, Atos não pode ter sido escrito depois de 68 d.C., e considerando o martírio de Tiago, datado por Josefo em 62 d.C., Atos não pode ter sido redigido depois de 62 d.C. Perceba que o Evangelho de Lucas necessariamente foi escrito antes de Atos - como o ano 62 d.C. é a data mais tardia possível para o término da redação de Atos, o Evangelho de Lucas provavelmente foi concluído, no máximo, no 60 d.C.

Paulo cita o Evangelho de Lucas, 10:7, considerando-o como Escritura (1 Tm 5:18), o que sustenta o argumento de que o trabalho de Lucas foi efetuado antes de 68 d.C. Além disso, Lucas menciona o uso de testemunhas oculares como fonte, coisa que Marcos definitivamente foi - considerando que o Evangelho de Marcos foi bastante usado por Lucas em seu trabalho, já que 380 versículos de Lucas foram retirados de Marcos, ele evidentemente é anterior. (Merece Confiança o Antigo Testamento?, F. F. Bruce, Vida Nova, 2010, pg 41).

- Alguns livros do NT foram escritos nas décadas de 40 e 50 d.C., com base em fontes da década de 30 d.C.:

Ora, Paulo escreveu a sua primeira carta à Igreja de Corinto entre 55 e 56 d.C. Além da datação geral da carta, ela possui um credo cristão da maior antiguidade, encontrado em 1 Coríntios 15:3-8 - ali Paulo afirma que "irá transmitir o que recebeu", seguindo para a redação do credo. Gary Habermas destaca que a maioria dos estudiosos, inclusive os liberais, acredita que tal credo remonta à própria ressurreição de Cristo - de 18 meses a 8 anos depois. Essa tradição não pode ser uma lenda, pois foi escrita no momento e no lugar dos acontecimentos que descreve - é lógico que se a história da ressurreição fosse mentirosa, romanos e judeus encontrariam evidências rapidamente para apontar a fraude.

Paulo também cita 14 testemunhas oculares cujos nomes são conhecidos, além de aludir a uma aparição de Cristo para 500 pessoas de uma só vez. Dentro do grupo de testemunhas, há, pelo menos, dois indivíduos bastante céticos: Tiago, que "precisou tocar para crer", e Paulo, antigo perseguidor dos cristãos. O apóstolo estaria louco se citasse tantos nomes e pessoas mentirosamente - logo seria desmentido.

Além de 1 Coríntios, há outros documentos que foram escritos na década de 50 d.C., ou antes: Gálatas, 48 d.C.; 1 Tessalonicenses, 50-54 d.C., e Romanos, 57 e 58 d.C. A evidência é tão forte que até o ateu John A. T. Robinson, que escreveu "A Morte de Deus", postula que a maioria dos livros do NT, incluindo os evangelhos, foram escritos entre 40 e 65 d.C. Sobre isso, William F. Albright escreveu:

"Já podemos dizer enfaticamente que não há mais nenhuma base sólida para considerar que algum livro do NT tenha sido escrito depois do ano 80 d.C."

"Na minha opinião, todos os livros do NT foram escritos por um judeu batizado entre os anos 40 e 80 do século I (muito provavelmente em algum momento entre os anos 50 e 75 d.C.)".

Natanael Pedro Castoldi

Leia também: