Navigation Menu

É a primeira vez que
você acessa este blog
neste computador!


Deseja ver antes
nossa apresentação?


SIM NÃO

O Cristianismo Foi Fundado nos Concílios do Século IV?

Ainda há muita gente que sustenta que foi Constantino, através do Concílio Niceno, revisado no Concílio Constantinopolitano (325 e 381 d.C.), o responsável pela fundação do cristianismo, sendo somente ali que os pilares centrais da fé cristã, como a divindade de Cristo e a teologia da Trindade, foram devidamente formulados e estabelecidos como regra. Será que isso é verdade?

Resumo do que segue: 1 - Os cristãos já adoravam Cristo como Deus há séculos; a - A evidência documental neotestamentária; b - A datação dos escritos do Novo Testamento; c - Os testemunhos neotestamentários mais antigos da divindade de Cristo; d - Os Pais da Igreja e a divindade de Cristo; e - O testemunho de não-cristãos sobre a divindade de Cristo; f - O testemunho do próprio Cristo; g - Jesus não era apenas mais uma divindade romana; 2 - O debate sobre a Trindade precede o Concílio Niceno-Constantinopolitano; 3 - Constantino inventou o cristianismo?; Conclusão

1 - Os cristãos já adoravam Cristo como Deus há séculos:
A divindade de Cristo não foi estabelecida nos Concílios Niceno e Constantinopolitano. É impossível, tomando consciência das evidências disponíveis, considerar tais concílios como o ponto de partida para a ideia de Jesus ser Deus. Vejamos algumas delas:

a - A evidência documental neotestamentária:
Existem muitos manuscritos antigos do Novo Testamento que precedem os concílios em questão. Seria insanidade sugerir que tais documentos tenham sido forjados e envelhecidos pelos romanos do século IV simplesmente para embasar as aspirações de Constantino. A quantidade de manuscritos anteriores aos Concílios Niceno e Constantinopolitano que dispomos é evidência clara de que o movimento cristão como religião já era bastante antigo, bem estruturado e detinha grande número de fiéis - no ano 100 d.C. já havia forte presença cristã na região de Roma, da Ásia Menor, da Palestina, da Grécia e do Norte da África; e no ano 200, os cristãos estavam numerosamente presentes na Península Ibérica e no coração da França. A fé crescia num ritmo de 40% por década - 1 mil na década de 40; 1,4 mil na década de 50; 7.530 no ano 100; 40.496 no ano 150; 217.795 no ano 200; 1,1 milhão no ano 250; e 6,3 milhões no ano 300, antes dos Concílios Niceno e Constantinopolitano (valores aproximados segundo Rodney Stark). Uma fé sem estrutura não atrairia tantos fiéis.
Fontes: Os Cristãos, Tim Dowley, Martins Fontes, 2009, pg 16; Uma História Politicamente Incorreta da Bíblia, Robert J. Hutchinson, Agir, 2012, pg 192.

 - Os manuscritos neotestamentários mais antigos:
O Evangelho de João, que é o que melhor sustenta a divindade de Cristo, também é o que aparece num dos mais antigos manuscritos de que temos conhecimento, o Papiro de Rylands, datado do ano de 125 d.C. Considerando que João escreveu em Éfeso e que o manuscrito em questão foi encontrado no Egito, é natural esperarmos cerca de duas décadas entre a redação original e a sua circulação até um ponto tão distante. Rylands pode, portanto, ser uma cópia feita diretamente do autógrafo. O que temos certeza é que desde antes do ano 125 já havia uma crença muitíssimo forte acerca da divindade de Jesus, que está mais do que clara nos escritos de João.

Outro documento de grande antiguidade é um fragmento do Evangelho de Marcos datado da década de 50 d.C., cerca de 20 anos depois da morte e ressurreição de Jesus. Esse fragmento foi encontrado nas cavernas de Qumran, que foram seladas e abandonadas no ano 70 d.C. - o estilo de escrita desse pequeno fragmento foi utilizado somente até o ano 50 d.C. Tendo em vista o Papiro Rylands e o fragmento 7Q5, do Mar Morto, torna-se inquestionável o fato de que os relatos neotestamentários acerca do Messias não são fruto de deturpações míticas que precisam de três ou mais gerações para serem produzidas.

Outros manuscritos muito antigos, abrangendo os Evangelhos, Atos, as epístolas gerais e/ou as epístolas de Paulo, são: os papiros I, II e III, de Chester Beatty, datados entre os séculos II e III; e os papiros II, VII, VIII, XIV e XV, de Bodmer, datados entre os séculos II e IV. Há considerável fartura de folhas nalguns desses manuscritos, chegando a ter 102. Foram catalogados, até o momento, 96 papiros.

Possuímos entre 10 e 15 manuscritos dos cem primeiros anos após a conclusão do Novo Testamento.

b - A datação dos escritos do Novo Testamento:
Papias, bispo de Hierápolis, falecido em 130 d.C., preservado por Eusébio de Cesaréia (263-340 d.C.), declarou a autoria apostólica e de pessoas ligadas aos apóstolos de documentos como Mateus, Marcos, Lucas e João. Isso significa que, segundo aquele que morreu antes da metade do século II, os Evangelhos foram todos escritos por pessoas muito próximas ao Messias, ou ligadas ao testemunho dessas.

Cartas escritas por três Pais da Igreja, Clemente, Inácio e Policarpo, isso entre 95-110 d.C., citam 25 dos 27 livros neotestamentários. Considerando que Clemente estava em Roma e Policarpo em Esmirna, centenas de quilômetros distantes, é certo que o Novo Testamento tenha sido escrito muitos anos antes das cartas deles, pois da redação original para uma circulação tão grande, abrangendo regiões tão distintas, foram necessárias algumas décadas. Isso significa que provavelmente todos os livros do Novo Testamento não foram escritos senão antes do ano 100.

A ausência de menções a alguns dos eventos mais marcantes da história da Igreja Primitiva, como o martírio de Paulo e Pedro e a destruição do Templo em Jerusalém, indica que quase todos os livros do Novo Testamento não podem ter sido redigidos depois de 70 ou, até 62 d.C. Paulo foi martirizado em 68 d.C. - e a obra de Lucas termina com Paulo e Tiago ainda vivos, sendo que Tiago morreu como mártir em 62 d.C. É evidente, com base nisso, que Lucas escreveu Atos antes de 62 d.C. - e, tendo em mente que o Evangelho de Lucas e o livro dos Atos constituem uma continuidade, podemos ter certeza que Lucas foi escrito algum tempo antes de Atos, por volta do ano 60.

Há, ainda, fortes evidências para a redação de muitos dos documentos neotestamentários entre as décadas de 40 e 50, com uso de fontes da década de 30. Análises cuidadosas da epístola de Tiago apontam, com categoria, para uma redação feita, no máximo, no ano 46 d.C.; e algumas das mais sérias análises da epístola de Paulo aos Gálatas sugere sua redação por volta do ano 48 d.C. Mas há evidências ainda mais espetaculares:

c - Os testemunhos neotestamentários mais antigos da divindade de Cristo:
Paulo escreveu 1 Coríntios por volta de 55 e 56 d.C., mas nalgum momento ele transferiu para a carta um credo cristão da década de 30 d.C. - de alguns anos após a ressurreição de Cristo. 1 Co 15:3-8 é declarada como a transmissão de um conhecimento que Paulo recebeu sobre a ressurreição de Jesus, que teria sido formulado entre 18 meses e 8 anos após o evento. Um testemunho tão antigo da ressurreição do Messias é, também, um testemunho sobre a Sua divindade. Mas há ainda outros:

Tanto Filipenses 2:5-11, quanto Colossenses 1:15-20 se parecem com antigos hinos da Igreja Primitiva, que teriam sido aprendidos por Paulo quando ele esteve em Jerusalém, na década de 30 d.C. O prólogo de João 1:1-5 também soa como um antiquíssimo hino sobre a divindade do Messias. Há algo entorno de 41 sessões do Novo Testamento que se parecem com credos formulados desde os primeiros anos da Era Cristã.


d - Os Pais da Igreja e a divindade de Cristo:
Dos séculos I ao III temos importantíssimos testemunhos de cristãos acerca dos documentos neotestamentários e, portanto, acerca da divindade Cristo, explícita em diversos textos, especialmente do Evangelho de João e das Cartas de Paulo. Segue uma lista de alguns deles:

Clemente de Roma, 96 d.C.; Hermas, 150 d.C.; Irineu, 140-203 d.C.; o Cânon Muratoriano, 172 d.C.; a Antiga Versão Latina, anterior a 170 d.C.; Tertuliano, 150-222 d.C.; Inácio, 116 d.C.; Policarpo, 69-155 d.C.; Papias, 80-155 d.C.; O Didaqué, 120 d.C.; Melito, 170 d.C.; Teófilo de Antioquia, 115-188 d.C.; Justino Mártir, 100-165 d.C.; Clemente de Alexandria, 155-215 d.C.; Orígenes de Alexandria, 185-253 d.C.; e Dionísio de Alexandria, 200-265 a.C. O Novo Testamento é considerado em sua totalidade através dos testemunhos desses cristãos e dos documentos aqui apontados. Isso significa que todas as bases para as formulações teológicas acerca da divindade de Cristo e da Trindade já estavam estabelecidas antes dos Concílios Niceno e Constantinopolitano, que muito dessa produção já estava fervilhando e que profundos debates já se realizavam.

e - O testemunho de não-cristãos sobre a divindade de Cristo:
É claro que os não-cristãos do início da Era Cristã nunca declararam crer na divindade de Cristo, residindo sua importância nas afirmações sobre como os cristãos adoravam Jesus como Deus e criam na ressurreição.

- Luciano de Samósata (125-185 d.C.): com declarações agressivas contra os cristãos, Luciano se queixa de que os seguidores de Cristo abandonaram os deuses gregos em troca de "um sofista crucificado que introduziu esses novos mistérios e conseguiu convencer seus adeptos a adorar só a ele." Nos século II já se sabia que os cristãos adoravam ao Messias como Deus.

- Flávio Josefo (37-100 d.C.): o Testemunho Flaviano é o mais espetacular de todos os relatos não-cristãos sobre Jesus do Primeiro Século:

"Naquele tempo apareceu Jesus, que era um homem sábio, se todavia devemos considerá-lo simplesmente como homem, tanto as suas obras eram admiráveis. Ele ensinava os que tinham prazer em ser instruídos na verdade e foi seguido não somente por muitos judeus, mas mesmo por muitos gentios. Era o CRISTO. Os mais ilustres da nossa nação acusaram-no perante Pilatos e ele fê-lo crucificar. Os que o haviam amado durante a vida não o abandonaram depois da morte. Ele lhes apareceu ressuscitado e vivo no terceiro dia, como os santos profetas haviam predito e que ele faria muitos outros milagres. É dele que os cristãos, que vemos ainda hoje, tiram o seu nome."

- Tácito (56-117 d.C.): "Assim, para calar os rumores, Nero jogou a culpa e puniu com requintes de crueldade uma classe de homens odiados por causa de seus vícios, a quem as multidões chamam de cristãos. Cristo, de quem eles receberam o nome, foi executado por ordem de Pôncio Pilatos na época em que Tibério era imperador, e assim essa superstição perniciosa foi contida por breve tempo, apenas para retornar revigorada, não apenas na Judeia, berço da praga, mas até alcançar Roma, lugar onde todas as coisas horríveis e vergonhosas que há no mundo encontram abrigo."

- Suetônio (70-130 d.C.): "A punição foi imposta aos cristãos, uma classe de homens que aderiu a uma superstição recente e nociva". 

- Plínio, o Moço (61 ou 62 - 114 d.C.): "Eles afirmaram [...] que sua única culpa, seu único erro, era terem o costume de se reunirem antes do amanhecer num certo dia determinado, quando então cantavam responsivamente um hino a Cristo, tratando-o como Deus, e prometiam solenemente uns aos outros não cometerem maldade alguma, não deflaudarem, não roubarem, não adulterarem, nunca mentirem, e não negar a fé quando fossem instados a fazê-lo."

Segundo os relatos daqueles que observaram o movimento cristão nos séculos I e II, fica evidente que os cristãos eram considerados membros de uma religião centralizada em Cristo, que era adorado como Deus. A crença na divindade de Cristo, portanto, estava muitíssimo viva desde as primeiras décadas da Era Cristã.
Fontes: Cristãos da Terceira Geração, Eduardo Hoornaert, Vozes, 1997, pg 117Uma Análise das Evidências Extra-Bíblicas sobre Jesus.

f - O testemunho do próprio Cristo:
O próprio Jesus foi o primeiro a considerar a Sua divindade. Aqui não cabe o debate sobre a pessoa de Cristo, mas, apenas, a percepção antiquíssima de Jesus como Deus. Para William Lane Craig, já havia uma cristologia bastante completa nas primeiras duas décadas após a ressurreição do Messias. Segundo o historiador da igreja, Jaroslav Pelikan*, o sermão cristão mais antigo, o mais antigo relato sobre um mártir cristão, a mais antiga narrativa pagã sobre a Igreja e a oração litúrgica mais antiga (1 Co 16:22) são todas passagens que se referem a Jesus como Senhor e Deus. Ele declara: "Sem dúvida, era essa a mensagem em que a igreja acreditava e que ensinava: que 'Deus' era um nome adequado para Jesus Cristo." Se Jesus nada tivesse falado sobre ser Ele o próprio Deus, a única explicação para essa forte fé estaria no enlouquecimento coletivo dos discípulos apenas alguns anos após a crucificação. A verdade é que Jesus declarou sua divindade em diversos momentos (segue o material retirado de meu artigo de nome "Jesus Afirmou Ser o Messias? Declarou Ser Deus?"):

Quando Caifás questionou Jesus sobre se Ele era "o Cristo, o Filho do Deus Bendito", o Mestre respondeu: "Sou." E mais: "E vereis o Filho do Homem assentado à direita do Poderoso vindo com as nuvens do céu." Somente Deus pode ser adorado, mas aqui Cristo está afirmando ser aquele que julgaria o mundo e que receberia adoração, explicitando ser o próprio Criador. No Evangelho de João há 7 passagens nas quais Jesus se considera o próprio "Eu Sou", a forma como Deus se apresentou ao profeta Moisés em Êxodo 3:13-14 (6:35; 8:12; 10:7 e 9; 10:11 e 14; 11:25; 14:6; 15:1 e 5) - ora, nessas passagens Cristo está afirmando que é eterno e auto-existente! Tal declaração é tão forte que, no caso de Jo 8:56-59, os judeus imediatamente recolherem pedras para atirar nele. Talvez a única passagem que supere essas seja a de Jo 10:30, na qual Jesus declara: "Eu e o Pai somos um".

Declarações indiretas da divindade de Cristo:
- Em Jo 17:5, Jesus diz que Ele estava com o Pai antes que o mundo existisse, partilhando da glória de Deus. O AT, porém, afirma que existe apenas um Único Deus e que Deus não dá a Sua glória para ninguém (Dt 6:4; Is 45:5 e 42:8).
- Jesus disse, em Ap 1:17, "Eu Sou o Primeiro e o Último". O mesmo que Deus fala sobre si mesmo em Is 44:6.
- Em Jo 10:11, Jesus diz que Ele é "o Bom Pastor", conforme o que Deus diz em Sl 23:1 e Ez 34:12.
- Joel 3:12 afirma que Deus é quem julgará as nações. Jesus diz que Ele julgará todas as pessoas (Mt 25:31; Jo 5:27).
- O salmista diz que "o Senhor é a minha luz" (Sl 27:1) e Jesus diz que Ele é "a luz do mundo" (Jo 8:12).
- Jesus se declara o "doador da vida" (Jo 5:21), enquanto o AT afirma que Deus é o único que pode "doas a vida" (Dt 32:39; 1 Sm 2:6; Is 26:19; Dn 12:2; Jó 19:25).
- Jesus afirmou que Ele é o único caminho para o Pai (Jo 14:6).
- Cristo declara-se como o "noivo" (Mc 2:19; Mt 9:15; 25:1-13; Lc 5:34), mas Deus é identificado como o "noivo" no AT (Is 62:5; Os 2:16).

Jesus tomava atitudes exclusivas de Deus:
- Só Deus pode perdoar pecados. Cristo perdoou! Mc 2:5-11.
- Só Deus pode estabelecer mandamentos. Cristo estabeleceu um novo mandamento! Mt 28:18-19.
- Assim como Deus entregou os 10 Mandamentos para Moisés, Jesus entregou um Novo Mandamento aos discípulos. Jo 13:34.
- Só Deus pode receber orações. Cristo pediu aos discípulos que orassem em Seu nome! Jo 14:13 e 14 e 15:7.
- Só Deus pode ser adorado (Êx 20:1-4; Dt 5:6-9; At 14:15; Ap 22:8-9). Jesus aceitou adoração! Mt 8:2, 9:18, 14:33, 15:25, 20:20, 28:17; Mc 5:6; Jo 9:38, 20:28. Jesus não repreendeu os atos de adoração, mas elogiou-os - Jo 20:29 e Mt 16:17.

Declarações da divindade de Cristo da parte dos evangelistas e apóstolos:
João diz que Jesus é Deus (Jo 1:1 e 14); Paulo diz que Cristo "é Deus acima de todos" (Rm 9:5) e que "em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade" (Cl 2:9); Pedro diz que os crentes "de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo a fé" (2 Pe 1:1); Mateus afirma a divindade de Cristo quando cita Isaías 7:14, na qual o filho da virgem deveria ser chamado de Emanuel, que significa "Deus conosco" (Mt 1:23); o autor de Hebreus fiz que "O Filho é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser, sustentando todas as coisas por sua palavra poderosa" (Hb 1:3), além de citar Salmos 45:3, afirmando que Deus diz o seguinte sobre o Filho: "O teu trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre" (Hb 1:8). Até os demônios aparecem reconhecendo a divindade de Cristo (Mt 8:29; Lc 4:34 e 42)!

* O mais antigo sermão cristão sobrevivente depois do Novo Testamento começa assim: "Irmãos, temos de pensar em Jesus Cristo como Deus, como juiz dos vivos e dos mortos. E não devemos subestimar nossa salvação; pois quando o subestimamos, também esperamos receber menos." O mais antigo relato de um sobrevivente da morte de um mártir diz: "É impossível abandonarmos Cristo [...] ou adorar qualquer outro. Pois ele, sendo o Filho de Deus, o adoramos, mas valorizamos [...] os mártires." A mais antiga oração litúrgica sobrevivente da Igreja afirma: "Vem, Senhor!" E o relato pagão mais antigo sobre a Igreja declara que os cristãos se reuniam antes da aurora "entoando um hino a Cristo como se para [um] Deus."
Fonte: A Tradição Cristã 1, O Surgimento da Tradição Católica, 100-600, Jaroslav Pelikan, Sheed Publicações, 2014, pg 186.

g - Jesus não era apenas mais uma divindade romana:
Muitos consideram que Jesus fosse apenas uma entre muitas outras divindades romanas do período, adotada pelos cristãos e por Constantino. A verdade é que todas as evidências arqueológicas e documentais mais antigas (Evidências de Jesus no Primeiro Século?) apontam para Cristo como uma figura histórica palestina e para o cristianismo como uma religião monoteísta inicialmente vinculada ao judaísmo, que nada tinha com o paganismo romano (os romanos até abriam uma exceção de culto aos judeus), principiada em Jerusalém. Jesus não tinha relação nenhuma com o panteão romano. Aliás, o cristianismo não era visto com bons olhos por muitos pagãos do período, gerando conflitos e perseguições, coisa que seria diferente caso fosse uma invenção romana para manipular as massas. Até é possível que o imperador romano desejasse apagar o cristianismo inserindo Jesus no panteão romano, como era costume em Roma, mas os cristãos nunca aceitaram a comparação de Cristo com os deuses pagãos, gerando um grande desconforto. Podemos verificar duas coisas interessantes em três relatos pagãos: primeiro, que o cristianismo era visto como um causador de problemas - e não um mecanismo de controle do povo - e, segundo, que o culto cristão era tão desprezado pelos pagãos quanto os cristãos desprezavam o paganismo, evidenciando a impossibilidade de Jesus ter sido pensado pela aristocracia romana:

O discurso de Celso, escrito por volta de 175 d.C.:
"Apareceu uma raça nova nascida ontem, sem pátria, nem tradições, voltada contra todas as instituições religiosas e civis, perseguida pela justiça, universalmente qualificada de infames mas que se gloria da execração geral: são os cristãos." Eles constituem "um punhado de gente simples, grosseira, perdida moralmente, que constitui a clientela ordinária dos embusteiros... ignorantes, fechados, incultos e simples de espírito, almas vis e ignavos, escravos, mulheres pobres e crianças... tecelões de lã, sapateiros e calceteiros, gente de extrema ignorância e destituída de qualquer educação, que dizem maravilhas a mulheres que não têm mais juízo que eles mesmos." Eles vivem "na tenda do sapateiro ou na loja do pisoeiro", pois são herdeiros dos judeus, "escravos foragidos do Egito e que nunca fizeram nada de extraordinário, nunca primaram nem pelo número nem pela consideração". São "sapateiros, pedreiros, serralheiros", "gente grosseira e impura".

"A sabedoria lhes é um mal e a loucura um bem." São "inimigos dos ricos", "sectários que querem fazer grupinhos à parte e se separam da sociedade comum", "adversários da cultura, que não querem fazer o que todo mundo faz". "A aversão dos cristãos contra templos, altares e estátuas é como a marca e o sinal da união, secreta e misteriosa, entre eles, e sua recusa em participar das cerimônias religiosas repousa sobre um conceito errôneo de Deus."

Jesus: um "desassistido que percorria o país com dez ou onze seguidores tirados da lama do povo, entre marinheiros e publicanos, sem futuro, ganhando vergonhosamente uma precária subsistência", filho de "camponeses" ou de um "carpinteiro", "sedutor do povo e embusteiro", "de baixa estatura, feio e sem nobreza", "personagem que terminou por uma morte infame uma vida infame." Ele segue favorecendo a fidelidade do Imperador.
Fonte: Cristãos da Terceira Geração, Eduardo Hoornaert, Vozes, 1997, pgs 136-137.

O testemunho de Tácito, escrito por volta de 110 d.C., foi trabalhado anteriormente. É importante conferir.

Suetônio, escrevendo por volta de 120 d.C.:
"Como os judeus, instigados por Cresto, provocavam distúrbios frequentes, ele os expulsou de Roma."

Sobre essas severas acusações contra o cristianismo, é interessante que o leitor verifique a postagem "As Ofensas aos Cristãos Primitivos".

Contra o que tais pagãos declararam, há uma belíssima carta cristã do ano 120 d.C., que estabelece os motivos que levavam os cristãos a um comportamento tão diferente do dos pagãos, deixando evidente a natureza singular e de origem nada romana do cristianismo. Falo da Carta a Diogneto, que se encontra o livro "Padres Apologistas", Paulos, 2014, pgs 11-30, e na postagem de nome "Sobre os Primeiros Cristãos".

2 - O debate sobre a Trindade precede o Concílio Niceno-Constantinopolitano:
O livro "A Tradição Cristã 1, O Surgimento da Tradição Católica, 100-600, Jaroslav Pelikan, Sheed Publicações, 2014", pgs 185-234, trabalha de modo exaustivo sobre o desenvolvimento do debate acerca da natureza de Cristo e da Trindade, deixando evidente que ambos começaram muito antes dos concílios em questão - até porque algumas das heresias mais antigas surgiram de desentendimentos sobre o assunto, crendo apenas na divindade de Cristo ou descrendo nela, ou crendo na impossibilidade de Deus ser "Um e Três". Tais impasses levantaram muitos heresiarcas e patriarcas da Igreja, e o debate se desenvolveu sem a necessidade de conclamar nenhum concílio formal - desse modo, os Concílios Niceno e Constantinopolitano apenas trataram de refletir sobre e oficializar aquilo que já estava em circulação. Até porque, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento deixam claras a natureza humana e divina de Cristo e a doutrina da Trindade (A Trindade na Bíblia).

Algumas colocações interessantes de Pelikan sobre o assunto:

"A doutrina crida, ensinada e confessada pela igreja católica dos séculos II e III levou à Trindade, pois o cristianismo, nesse dogma, traçou a linha que a separava do sobrenaturalismo pagão e reafirmava seu caráter como religião da salvação."

"Clemente de Alexandria mostra que as tendências docetizantes, mesmo entre os crentes ortodoxos, deve ser considerada como uma forma de 'pensar em Jesus Cristo como de Deus.' (...) a própria existência do docetismo também é um testemunho da tenacidade da convicção de que Cristo tinha de ser Deus, mesmo à custa de sua verdadeira humanidade."

"Atanásio: 'Como é possível alguém não se enganar em relação à presença encarnada [do Filho] se o indivíduo ignora totalmente a geração genuína e verdadeira do Filho pelo Pai?'"

Tertuliano "acha impossível acreditar em um Deus a menos que se diga que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um e o mesmo." Eram comuns as expressões "Deus nasceu", "Deus sofredor" e "Deus morto".

"Tertuliano: 'Ainda que o um [Deus] não fosse também dessa forma [Pai, Filho e Espírito Santo], que eles são todos do um, a saber, pela unidade da substância, apesar do mistério dessa economia, não obstante, estar protegido - o que dispõe a unidade na Trindade, apresentando Pai, Filho e Espírito como três, e, no entanto, não três em qualidade, mas em sequência; não em substância, mas em aspecto; não em poder, mas em [sua] manifestação.'"

"Essa doutrina da relação entre Cristo e Deus, entendida como está, ou seja, como Hipólito e Tertuliano a registraram, revela ter sido uma sistematização da crença cristã popular."

Sibélio: "Da mesma maneira que há 'diferentes tipos de dons, mas o Espírito é o mesmo', também o Pai é o mesmo, mas é expandido no Filho e no Espírito." Sibélio é considerado o responsável pela ideia herege de que a Trindade é como o Sol - o mesmo que se revela de três formas diferentes.

"Noeto (...) raciocinava assim: 'Preciso, uma vez que um [Deus] é reconhecido, tornar esse um o sujeito do sofrimento. Pois Cristo era Deus e sofreu por nossa causa, sendo ele mesmo o Pai, para que pudesse nos salvar."

Do livro "Teologia Sistemática, História e Filosófica", Alister E. McGrath, Sheed Publicações, 2005, pgs 56-61:

Segundo McGrath, até 325 d.C., ano do Concílio Niceno, a Igreja Primitiva havia chegado à conclusão de que Jesus era "um em substância" com Deus. Esse encorpar da cristologia é o primeiro passo para o desenvolvimento das ideias sobre a Trindade. O debate cristológico patrístico pode ser resumido da seguinte forma:

- As Escolas: a Escola de Alexandria tendia a enfatizar a divindade de Cristo, enquanto a Escola de Antioquia enfatizou a humanidade do Messias.
- Os debates: Ário (250-336 d.C.) foi o responsável pela "controvérsia ariana", no século IV. Ele alegava que Cristo deveria ser considerado apenas uma criatura, mesmo que superior às demais. Na oposição, temos Atanásio, que sustentava a divindade de Cristo, sendo ela essencial para o entendimento acerca da salvação. Após algum tempo de debate, o arianismo foi tido como herege. Em seguida desenvolveu-se o "debate apoliranista", entorno das ideias de Apolinário de Laudicéia (310-390 d.C.), que considerava que Cristo não poderia ser considerado totalmente humano. Apolinário recebeu oposição de autores como Gregório de Nazianzo, que afirmou que Jesus não poderia redimir a humanidade se não fosse, também, homem. 
- Os concílios: o Concílio de Nicéia (325 d.C.) foi convocado por Constantino especialmente para solucionar os desentendimentos cristológicos que desestabilizavam seu império. Nesse concílio a controvérsia ariana teve seu fim, confirmando o que já estava sendo afirmado sobre a divindade de Cristo. O Concílio de Calcedônia (451 d.C.) reafirmou o Concílio Niceno e respondeu a novas polêmicas acerca da humanidade de Cristo, surgidas depois de Nicéia (325).

McGrath também comenta brevemente sobre o desenvolvimento da doutrina da Trindade:

Já havia algum debate sobre a Trindade desde antes de considerada a natureza divina de Cristo, mas foi natural a sua definição quando oficializada a ideia de que Jesus, mesmo diferente do Pai, era Deus. A cristologia, como base para a definição mais clara da doutrina da Trindade, não foi resultado dos Concílios Niceno e Constantinopolitano, mas de um período bastante longo de controvérsias e debates, não sendo, portanto, tais concílios os responsáveis pela formulação de suas doutrinas principais.

A ideia de Deus ser "Um e Três" foi estabelecida por debates cristológicos que culminaram com o Concílio de Nicéia, sendo consolidada a doutrina da divindade do Espírito Santo como resultado disso. Atanásio e Basílio de Cesaréia foram os maiores responsáveis por seu desenvolvimento. Vale lembrar que a oficialização de doutrinas não indica o princípio das mesmas - toda  oficialização de uma doutrina cristã é resultado de um debate anterior.

A posição da Igreja Oriental sobre o assunto foi desenvolvida especialmente por Basílio de Cesaréia (330-379 d.C.), Gregório de Nazianzo (329-389 d.C.) e Gregório de Nissa (330-396 d.C.), os Pais Capadócios, que iniciaram suas reflexões sobre a Trindade por meio da observação das distintas formas através das quais se experimenta a presença do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A posição da Igreja Ocidental, associada especialmente a Agostinho de Hipona, partiu da unidade de Deus, seguindo para as implicações do amor de Deus, afim de compreendermos a Sua natureza.

A formulação da doutrina da Trindade, portanto, começou antes dos Concílios Niceno e Constantinopolitano e não foi concluída com eles, seguindo em debate por algum tempo depois.

3 - Constantino inventou o cristianismo?
Tal pergunta não precisaria nem ser feita depois de todo esse estudo. A verdade é que ele mesmo se converteu antes do Concílio Niceno, no ano de 312 d.C., e que a sua própria mãe já era cristã antes disso. Não iremos entrar nos méritos do caráter de Constantino, mas sabe-se que não havia lucro algum, em termos políticos, em adotar o cristianismo, uma religião numericamente minoritária e que havia sido perseguida com ferocidade. É possível que Constantino tenha observado no comportamento dos cristãos, que a todos serviam, uma forma de produzir maior unidade no Império, mas ceder diante daqueles que representavam um décimo da população, muito hostilizados por todos, e, assim, desafiar as instituições tradicionais, não faz sentido se não considerarmos um real interesse pela pessoa de Cristo.

O fato é que o Concílio Niceno não tive o aval de Constantino para formular uma nova religião, mas apenas para solucionar os problemas e as controvérsias existentes dentro daquela que agora era a religião oficial do Império Romano. Qualquer desordem dentro da Igreja prejudicava os negócios romanos. Para o imperador, era urgente que os cristãos entrassem num consenso e o consenso obtido não foi produto de uma invenção ocorrida durante o concílio, mas apenas de um esclarecimento maior sobre aquela que já era a ortodoxia cristã há séculos.
Fonte: Uma Breve História do Cristianismo, Geoffrey Blainey, Fundamento, 2012, pgs 54-58.

Conclusão:
A teologia cristã encontra seu esqueleto fundamental na Bíblia e, portanto, desde que o Novo Testamento foi concluído, todas as bases para o entendimento sobre a Trindade e a natureza de Cristo já estavam estabelecidas. Foi o Novo Testamento que possibilitou o debate sobre tais doutrinas, não os Concílios Niceno e Constantinopolitano. Tendo diante de nós evidências numerosas de que o cristianismo e o Novo Testamento existem desde o Século Primeiro, não há motivos para continuar compactuando com a ideia de que a fé cristã foi inaugurada no século IV ou que foi somente ali que foram cogitados os principais pilares do entendimento cristãos. O cristianismo, pela boca dos próprios romanos e também pelo testemunho dos cristãos, não pode ter sido uma invenção do imperador!

Natanael Pedro Castoldi

Leia também:

1 comentários: