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Nós Somos Deus? Tudo é Deus?

-> Apresentação e Índice
Tenho percebido o crescimento de movimentos religiosos panteístas e panenteístas em nossa sociedade ocidental, resultantes do contato com antiquíssimas filosofias orientais e do reavivar de perspectivas religiosas xamânicas dos antigos ameríndios. O fato é que as pessoas têm uma busca, isso é inegável: elas querem encontrar algum sentido para a vida, considerando a agonia que é habitar um universo hostil, escuro e gelado, e tendo em vista a pequenez do homem - pouquíssimas pessoas se conformam com a brevidade da vida, relutando em ceder diante da torturante ideia de que somos apenas matéria em movimento, sempre caminhando para a morte irreversível. É por isso que, a exemplo da Europa e dos Estados Unidos, esses movimentos ganharam força depois de crescido o ateísmo - o desespero aflora quando percebido o vazio de significado que há numa visão de mundo desprovida de Deus e de eternidade. 

Tanto o ateísmo quanto esses novos movimentos religiosos, sincréticos por natureza, ganham adeptos mediante o enfraquecimento da igreja, quando a mensagem vívida da fé cristã deixa de ser disseminada com fervor e, portanto, de ser discernida pelas pessoas. Ela, então, é totalmente ofuscada pelos escândalos e pelas mazelas das congregações e dos movimentos religiosos tradicionais, que já não falam mais ao povo do seu século, deixando de fazer sentido, de responder às necessidades presentes - a voz do profeta milenar não passa de um longínquo, abafado e indecifrável eco. A questionável associação do cristianismo com os problemas de nossa sociedade, a atraente experiência aromática, musical e visual das novas religiões - o que movimenta nosso espírito e nossas emoções -, e a facilidade que é se enveredar numa busca espiritual pessoal e customizada, na onda individualista de nossos tempos, são algumas das causas do alastrar dessas filosofias. As pessoas querem respostas e as estão buscando nas vozes que falam mais alto. Cabe-nos, como cristãos, portanto, lidar com a validade dessas perspectivas e apresentar o que de fato é o cristianismo, removendo a crosta de tradições estranhas, pecados humanos, filosofias vis e outras incoerências que vieram a se alojar por sobre a verdadeira fé - façamos isso através de palavras, mas, principalmente, por meio da vida íntegra segundo o padrão de Cristo, uma vez que, possivelmente, seremos nós, na prática, a "Bíblia" que aqueles que não são cristãos irão ler, e o único "Cristo" que muitos deles irão ver. Que a paz que lhes falta, já que tentam esvaziar a mente ou entorpecê-la com substâncias diversas para fugir de seus próprios dilemas, seja encontrada no brilho de nossos olhos, no contato com um testemunho que brota de nosso coração.

Nosso diálogo com esses movimentos religiosos é da maior importância, seja pelo testemunho de uma fé viva e baseada no amor de Cristo, seja pela demonstração lógica da teologia cristã e das incoerências desses movimentos, por isso é importante identificar o que lhes é central: a pregação mais comum transmitida pelos seus seguidores é a de que todos os homens e todas as coisas são "Deus" - a divindade está no universo, ele é divino, ela é o próprio universo. Nesse sentido, cabe ao homem adorar a si mesmo, procurando o sentido da vida em seu interior e no contato com o mundo natural. A isso chamamos de panteísmo ou panenteísmo - no primeiro caso, Deus é todo o universo e somente ele e, no segundo, Deus é todo o universo, sendo o universo um membro de Deus, mas está também além dele. Ambas as perspectivas culminam no mesmo ponto: nós e a natureza externa somos divinos, constituímos Deus - no panteísmo, somos "Deus" porque Deus é apenas o universo e nada mais, Gaia; no panenteísmo, somos "Deus", pois todo o universo é uma extensão do "corpo" divino. Há algumas falhas lógicas e científicas que nos impossibilitam concordar com a divindade nesses termos:

- Se "tudo é Deus", então Deus não é nada: se tudo e todos são "Deus", então "Deus" passa a ser apenas uma outra palavra para "coisa" e "pessoa". Para Dave Hunt, Em Defesa da Fé Cristã, Dave Hunt, CPAD, 2012, pgs 42-43, o panteísmo é exatamente a mesma coisa que ateísmo: se tudo é Deus, então nada é Deus, pois o termo perde todo o significado. Chamar as coisas de "Deus" acaba sendo apenas uma maneira diferente de chamar uma coisa de "coisa" - esse "Deus que é tudo" continua respeitando às leis da química e da física, o universo continua se expandindo e esfriando e os seres vivos continuam nascendo, crescendo, se reproduzindo e definhando. No final, todos os que morrem voltam ao pó e servem de adubo para novas vidas - dizer que isso "faz parte do ciclo eterno da existência de Gaia" é apenas definir de modo um pouco mais poético a realidade nua e crua da ausência de significado.

- Tanto o panteísmo quanto o panenteísmo são impossíveis: a ideia de que o Cosmos é Deus em si mesmo ou, ao menos, uma parte indivisível de Deus, exige que o elemento material seja eterno, incriado, auto-existente e autossuficiente. Se esse elemento material foi criado, então ele não pode ser Deus em si, pois é menor do que aquele que o criou. Se o universo é parte indivisível de Deus, ele também precisa ser eterno, sendo ele a própria expressão da divindade, parte de sua natureza - e a eternidade da divindade impede que a sua natureza se modifique. Não pode existir um "Deus incompleto", pois isso não é Deus, de modo que, ou o universo sempre foi uma eterna parte de Deus, ou Deus não existe ou, ainda, Deus não se encaixa nessas definições.

Como sabemos que o universo não é eterno? Toda a observação astronômica, química e física tem demonstrado que o universo está se expandindo de um ponto inicial e que a energia da matéria está em constante declínio, de modo que deve existir um começo. Há uma evolução dos elementos químicos, como se observa no resultado das explosões das estrelas. A própria evolução dos seres vivos indica que o universo não pode ser eterno - ele está sempre em constante processo de mudança e decaimento. Considerando os princípios da Causa e Efeito e da Termodinâmica (a Causa sempre é maior que o Efeito, "nada se cria, tudo se transforma" e "a energia sempre decai"), percebemos que há, sim, a necessidade de eternidade para a existência do universo, mas que ele mesmo não pode ser eterno - até porque uma sequência eterna de eventos dentro do tempo não pode existir, uma vez que o tempo presente nunca poderia chegar.
Fonte: 20 Evidências de Que Deus Existe, Kenneth D. Boa e Robert M. Bowman Jr., CPAD, 2012, pgs 41-46; Ciência e Fé em Harmonia, Prof. Felipe Aquino, Cléofas, 2012, pgs 116-121.

O entendimento de que o universo não pode ser eterno, tendo ele uma origem, nos leva a concluir que ele, em si mesmo, não pode ser Deus - e conforme a Lei da Causa e Efeito, seu originador precisa ser maior do que ele. Se há divindade, ela existe não no Efeito-Universo, mas no Criador-Causa.

Afirmar que a causa do universo é o Vazio Absoluto não resolve a questão: a inexistência não pode gerar a existência, o não-ser não pode gerar o ser. Ou o universo é eterno em si mesmo, ou ele possui um Originador que é maior do que ele - não havendo possibilidades de que ele seja eterno, então Deus existe e está além da matéria. Os atributos superiores de Deus o colocam como a Causa maior que o universo, seu efeito - isso no caso do Deus pregado pelo teísmo. Assim, tanto o panteísmo quando o panenteísmo caem por terra - o segundo, especialmente porque as qualidades superiores do Originador-Causa, necessárias para o efeito inferior, o impedem de ser parte matéria. Seria uma divindade mista e repleta das contradições de nosso mundo - não pode haver contradição no Eterno.

Outro motivo que torna a ideia de que o Vazio Absoluto pode ser a causa do "Deus-universo" é bastante óbvio: se tudo é "Deus", então "Deus" passa a ser apenas uma outra palavra para "coisa". E pode a divindade vir a existir? A origem anula muitos dos atributos inerentes ao que se denomina "Deus". Definir como "Deus" aquilo que está sujeito ao tempo e ao decaimento, é apenas chamar qualquer coisa de outro nome.

- A alternativa também não convence: no anseio por fugir dessas conclusões, muitos dos adeptos desses movimentos religiosos estão aderindo à Teoria da Evolução como uma explicação para a necessidade de buscarem pelo desenvolvimento interior. Inclusive fazem uso disso para questionar a validade da sugestão de que Deus seja o Criador, pois "uma criação de Deus não precisaria evoluir" - um argumento falho, primeiro porque a própria ideia incutida no termo "evolução", que é "começo", exige o Criador, o Iniciador, e, em segundo lugar, porque a evolução pode ser uma forma através da qual o Criador trabalha, gradativamente, naquilo que cria.

Há duas possibilidades para essa ideia de que os seres humanos carregam em si a divindade, que é discernida através da "evolução do eu": havendo um começo para o universo, ou a herdamos de lugar nenhum, ou a recebemos do Criador. O primeiro caso se invalida pelo mesmo motivo que nos leva a considerar impossível que o qualquer coisa que é venha a existir partindo daquilo que não existe, que não é. O segundo caso também não convence: se há um Deus para ter colocado algo de divino em nós, então nós não podemos ser deuses, ou Deus, uma vez que há uma divindade suprema, maior, para refletir-Se em nossa insignificância - se há alguém a ser adorado nessa história, portanto, esse alguém é Deus, que não somos nós, mas Aquele que colocou em nosso espírito a Sua marca. Ser reflexo de algo não é ser ele. Não podemos ser "Deus" com esse Deus, pois nós e todo o universo material somos elemento limitado, temporal, finito - o oposto d'Aquele que nos originou. Ele é antes de tudo para que tudo possa vir a ser, logo, só Ele é Deus. Ou pode o ser humano considerar-se Deus se recebeu seu senso de divindade de alguém? Se o ser humano fosse Deus, esse que lhe dotou de certo grau de divindade seria "mais Deus que Deus" - mas é possível haver "mais" e "menos" Deus, sendo Ele um só? E pode haver mais de um Deus, sendo um criatura d'Aquele que é maior?

Há os que afirmam que Deus incutiu em nós o reflexo da Sua divindade e se afastou. Isso é deísmo. Mesmo que assim fosse, não há como fundamentar a ideia de que o homem é Deus, pois ele continua sendo menor do que Aquele que lhe criou. De qualquer forma, apelar para o deísmo é inconcebível, considerando a natureza d'Aquele que necessariamente nos criou: se buscamos viver em amor como resposta ao anseio amoroso que o Criador colocou em nós, então o próprio Criador é amor, e, se Ele é amor, Ele também é relacional, de modo que não pode, simplesmente, ter-nos abandonado. O amor e a moralidade humana não encontram bases de causa no universo indiferente e impessoal, mas podem muito bem ter resultado do toque do Deus de justiça e amor - amor relacional, preservado na eternidade através do relacionamento entre as Três Pessoas que constituem a Trindade. Ora, se temos em mente coisas que são certas e erradas e se desejamos amar para além daquilo que é racional, então precisamos de um Deus de amor e moral - da natureza, que é impessoal, indiferente e amoral, é que não podemos retirar nenhuma perspectiva ou padrão que venha a fundamentar tais saberes e desejos humanos.

A Bíblia, de fato, afirma que Deus colocou algo de Sua divindade em nós, não para nos tornar divinos - pois Deus não cria Deus, e nós somos criados, não gerados, como é o caso do Filho -, mas para que desejássemos ardentemente pela Sua presença. Nós somos, sim, a "imagem e semelhança de Deus", mas sermos "semelhantes" não nos torna iguais - tal semelhança se refere ao que nós e Deus temos de diferente do restante da Criação: somos racionais, amorosos, morais, criativos e possuímos espírito. Isso me leva a uma conclusão bastante lógica: se há alguém que precisa ser procurado e adorado, esse alguém não sou eu, mas o Criador que me fez.

Conclusão:
É verdade que há uma sabedoria interessante por detrás de tudo o que o ser humano constrói - e isso se aplica também a alguns dos ensinamentos transmitidos por esses movimentos religiosos -, mas nem por isso todas as suas propostas são válidas. Dizer que o universo é Deus em si mesmo ou parte de Deus não significa nada e invalida-se pela observação científica; afirmar que o Deus-Universo veio a existir do Vazio Absoluto também é inviável; afirmar que o Deus-Universo veio a existir de Deus é de uma incoerência sem tamanho; afirmar que nós somos Deus de Deus também é ilógico. Diante disso tudo, fica difícil não concluir que a base mais sólida para a nossa fé reside no teísmo: Deus é antes de tudo e tudo o que Ele criou não pode ser Deus, embora possa ser muito bom; e nós não somos Deus, mas carregamos a Sua imagem e semelhança. O mais incrível, porém, é perceber que esse Deus de amor, que, por ser Deus, é perfeito e nos ama com perfeito amor, chegou ao ponto de fazer-Se homem, para vir ao nosso encontro pessoalmente, como o Deus relacional que é, experimentando nossos dilemas e nossas dores para, no final, como Deus moral e justo, morrer em nosso lugar em pagamento pela transgressão, transgressão essa iniciada pelo primeiro pecado, que é o afastamento do Deus Vivo através da negação de um relacionamento com Ele - coisa que, inevitavelmente, resultou em pena de morte.

Natanael Pedro Castoldi

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