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O Culto ao Imperador, o Sol Invicto e as Religiões de Mistério

Comumente se afirma que o cristianismo é fruto da influência pagã, tomando a espera messiânica presente em Roma, as religiões de mistério e os cultos ao imperador e ao Sol Invicto como argumento. No EOMEAB já trabalhamos algo dessas questões nos seguintes artigos, que são recomendáveis para o enriquecimento sobre o tema: O Novo Testamento Tem Origem Pagã?Jesus Afirmou Ser o Messias? Declarou Ser Deus?Os Evangelhos São Obra dos Romanos?. A questão central aqui é: o Sol Invicto, o culto ao imperador e as religiões de mistério realmente foram inspiração para o cristianismo?

1 - Culto ao Imperador:
A sociedade romana sofreu diversas e profundas mudanças a partir do Século II, influenciando todo o aspecto religioso imperial. A religião tradicional passava, então, por uma grave crise, especialmente entre os nobres, uma vez que já não respondia mais às inquietações da época - nos tempos de Cristo ela já estava em declínio. As grosseiras imoralidades e as rixas entre os deuses, percebidos apenas como homens e mulheres ampliados, eram expostas por escritores satíricos e filósofos. Basicamente o que sobrara dos cultos tradicionais era preservado por interesses políticos, sendo um poderoso instrumento de domínio para as classes dirigentes. Fica evidente o interesse administrativo da religião tradicional com o alastrar do culto ao imperador - prestar culto ao imperador era mais do que um mero ato religioso, evidenciando lealdade e submissão, reconhecendo que o Estado estava alicerçado sobre premissas divinas.

Desde o Século I a.C., com as constantes lutas internas que eventualmente desembocavam em violentas guerras civis, gerando uma severa instabilidade política no Império, os homens cultos estavam buscando consolo na filosofia mais do que na religião - o pensamento filosófico não dava espaço para a veneração dos deuses tradicionais. Percepções de vida como o estoicismo e o epicurismo se espalharam pelo Império, com ou sem o aval do Estado. A doutrina de Epicuro, em especial, foi repelida, pois suspeitava-se que ela livrava o homem do medo do castigo divino.

A partir do Século I a.C., com base nas perturbadoras guerras civis já aludidas, os cultos tradicionais e os ritos antigos foram descuidados, possibilitando o propagar da ideia de que aquilo que estava acontecendo em Roma era resultado da ira dos deuses. Esses cultos, por serem decentralizados, com cada cidade escolhendo uma divindade central, não tinham força para combater a crise - e conforme Roma espalhava seu poder, os moradores de cidades conquistadas passavam a questionar a proteção de suas divindades. A profunda sensação de insegurança também criou um ambiente de espera messiânica, com a esperança de que um período de paz e harmonia substituísse o presente momento de trevas e sangue. Dentro desse contexto, surge o Imperador Augusto (63 a.C.-14 d.C.), que empreendeu uma grande reforma religiosa, almejando a recuperação das tradições - essa reforma, porém, afetou o poder político dos colégios de sacerdotes, que foram complementados com pessoas da confiança do governante. Sem a influência política que já detiveram, os colégios sacerdotais passaram a se ocupar basicamente na promoção de celebrações sagradas em honra a Augusto e sua família. Dentre as ênfases desses cultos, estava Vênus, tida como mãe de Enéias e, portanto, geradora da família de Augusto. Essas foram as bases para o início do culto ao imperador, associado ao culto a Roma,

A consciência cosmopolita do Império foi um fator determinante para a consolidação do culto ao Estado. Já entre os reinos helenísticos dos selêucidas e ptolomeus, os monarcas tinham sido elevados ao nível de divindade através dos títulos de "Senhor" (Kyrios), "Salvador" (Sôtêr) e "Divindade Manifesta" (Epiphanês). A concentração das funções executivas num único homem munira o imperador romano de poderes nunca antes conhecidos pela humanidade - e como ele poderia fazer uso desses poderes pelo bem do povo, produziu-se, aos poucos, uma sensação de que nele algo de divino habitava. A verdade é que o culto do imperador não foi imposto arbitrariamente, produzindo-se conforme se atribuía honras sobre-humanas ao governante e alimentava-se o desejo de centralizar nele a obediência do povo.

O culto ao imperador foi associado ao culto a Roma para que adquirisse aprovação política sem fomentar a hostilidade da aristocracia opositora. Em diversas cidades do Império surgiram associações - "augustais" - dedicadas a disseminar esse novo culto, que era chamado de "evangelho". O fato é que os imperadores que governaram até durante o Século I d.C. só foram elevados ao nível de "divus" após a morte, apesar de algumas populações, especialmente no Oriente, costumarem tê-los como divinos ou semi-divinos ainda em vida. Tal prática originou-se dos cultos rendidos a César, considerado como "Divus Julius", a quem Augusto dedicou um templo no Fórum romano. Até o imperador Domiciano, no Primeiro Século, nenhum governante obrigou, em vida, a adoração de sua figura. Esse culto, na atual condição do Império, tinha seu valor reconhecido, uma vez que unificava o patriotismo e o culto, sustentando o Estado num dever religioso - e é por isso que os cristãos, ao negar prestação de adoração a qualquer ser humano, padeceram de terríveis perseguições. O cidadão romano pagão, que era politeísta e não via problema em acrescentar mais uma divindade ao seu panteão, não era capaz de compreender a recusa cristã e a tinha como irresponsabilidade social, falta de patriotismo e inimizade para com o governante.

A palavra "Evangelho", que descreve a Mensagem de Cristo, a "boa-nova", pertenceu, originalmente, à linguagem do imperador romano, que se entendia como senhor do mundo e seu redentor, salvador. As mensagens que vinham do imperador chamavam-se "Evangelho" e não eram consideradas apenas uma "boa notícia", mas uma mudança do mundo para o bem.

Quando os evangelistas neotestamentários fazem uso do termo "Evangelho", eles estão confrontando o Evangelho do Imperador Romano com o Evangelho de Cristo. O Evangelho Romano era ilegítimo, pois o imperador apenas se fazia passar por Deus, não o sendo. Os imperadores não podem salvar o mundo, apenas o Criador! "Evangelho" não é um simples discurso, mas uma realidade; não é algo puramente informativo, mas performativo; não é mera comunicação, mas ação, uma força que penetra no mundo para transformá-lo.

De fato, os evangelistas chamam Jesus de "Kyrios", que foi utilizado para alguns governantes gregos. Mas isso não significa que os evangelistas foram influenciados por eles no sentido de "criar um Kyrios" - na sua interpretação de Jesus como Deus, a palavra "Kyrius" fez sentido, e o verdadeiro "Kyrius" confrontava o "kyrius" romano com o Evangelho de Deus, que confrontava o Evangelho Romano. A questão, porém, é ainda mais original e profunda: o termo "Senhor" (significado de "Kyrius") tornou-se, ao longo do Antigo Testamento e do desenvolvimento do judaísmo, paráfrase do nome de Deus - o uso dessa atribuição, que é a tradução grega para YWHW (desde a Septuaginta), identifica Jesus como sendo a própria divindade.

Outra identificação para Cristo ("cristo" é o grego para "messias", "ungido") é Filho de Deus, que também se encontra como uma atribuição ao imperador romano, levando muitos a pensar numa cópia, sendo Jesus inspirado no governante de Roma. Essa posição, porém, não se sustenta quando observamos o seu uso entre os judeus essênios de Qumran já no Século Primeiro como referência ao Messias de Israel, sem nenhuma ligação com Roma, que tiveram o Salvador como "Filho de Deus" e "Filho do Altíssimo" no manuscrito 4Q246. Marcos 1:1, Salmos 2:2 e 7 corroboram essa posição. No caso de Sl 2:2, houve discussão sobre se a expressão "Messias do Senhor" era entendida como messiânica nos dias de Cristo, o que se resolveu positivamente com o 1QSa, também de Qumran. Quando Cristo foi chamado de "Filho de Deus", assim como Kyrius, ligou-se ao Criador, sendo a própria divindade. No Concílio de Nicéia, o conceito de "Filho de Deus" foi traduzido na única expressão filosófica do Credo Niceno: "homoousios", que significa "da mesma essência". Assim, quando é dito que Jesus é "o Filho", não devemos encontrar ali sentido mitológico ou político, é algo a ser entendido literalmente: no próprio Deus há Pai, Filho e Espírito Santo.

A expectativa messiânica depositada em Cristo é totalmente diferente daquela que existiu em Roma como resultado de sua crise. Não existe cópia. O termo "messias" (ungido), que aparece em grego como "Cristo", tem três aplicações fundamentais no Antigo Testamento: ao sacerdote ungido, ao rei ungido e ao profeta ungido. Normalmente, porém, o termo "ungido" é usado como referência ao "rei ungido" descendente de Davi, entendimento esse predominante nos dias de Jesus. Como veremos no manuscrito 4Q521 de Qumran, o próprio contexto judaico da Palestina pôde oferecer todo o fundamento para a compreensão de Jesus como Messias, sem haver empréstimo algum de Roma:

"[Porque os céus] e a terra ouvirão seu Messias [e tudo que] neles está (Sl 146:6) não se desviará dos mandamentos dos santos. Fortalecei-vos, vós que buscais o Senhor em seu serviço. Não encontrareis, nisso, o Senhor, todos os que o esperam no coração? Pois o Senhor atende aos piedosos e chama os justos pelo nome. Sobre os humildes pousa o seu espírito (Is 11:2) e ele renova os fiéis em sua força. Pois ele honrará os piedosos sobre o trono de seu reino eterno, libertando os prisioneiros (Sl 146:7), abrindo os olhos dos cegos e levantando os decaídos (Sl 146:8). E para sempre eu me aterei aos que nele esperam e em sua fidelidade terão [...] o fruto do bem não tardará para ninguém, e o Senhor fará coisas gloriosas que não foram feitas, tal como ele mesmo disse. Pois curará os profundamente feridos, trará os mortos à vida (Is 26:19); ele enviará boas novas aos aflitos (Is 61:1), satisfará os pobres (Sl 132:15), dirigirá aos que se encontram desgarrados, e fará ricos os famintos (Sl 107:9)." 4Q521 frag. 2, col. 2, linhas 1-13.

2 - O culto ao Sol Invicto:
Os cultos ao imperador e ao Estado não se mostraram totalmente eficazes, pois ambos trabalhavam com sacrifícios rituais, desenvolviam-se mais coletivamente do que individualmente, procuravam mais a proteção da divindade do que a comunhão com ela e nenhum apresentava qualquer resposta e consolação para os tempos de crise. Havia um crescente interesse por divindade mais pessoais e por sistemas de culto que levassem a um contato imediato com o divino. As religiões de mistério, a maioria de origem oriental, ganharam força justamente nessa época - o culto a Cibele veio da Ásia; o a Ísis e Osíris veio do Egito; o mitraísmo veio da Pérsia. Embora divergissem em certos aspectos, todos esses cultos centralizavam-se numa divindade que morria e ressuscitava e cada um trabalhava com formulas de rituais e purificações, símbolos e dramatizações secretas da experiência do deus - o iniciado era levado a essa experiência, candidatando-se à imortalidade. Geralmente, os cultos secretos aceitavam a todos, independentemente da origem social e étnica.

Essas religiões passaram a satisfazer os desejos de imortalidade e igualdade social. Com apelos emocionais promovidos pelo aspecto misterioso do culto, propiciava uma experiência religiosa profundamente pessoal. No caso do culto a Mitra, o fiel também era levado a um comportamento fortemente moral. Esse era um culto destinado apenas aos homens, disseminado pelo Mundo Romano pelos legionários que haviam prestado serviço no Oriente Médio - Mitra ganhou ainda mais força no Império Romano por ter sido identificado a Apolo, Hélio e Hermes. Em Roma, o culto a Mitra passou a assumir um caráter de luta do Bem contra o Mal, revestindo-se de um aspecto místico, que exige dos adeptos a superação de diferentes níveis e o compromisso de não divulgar os ocorridos nas reuniões.

O culto sírio ao Sol Invicto, também oriental, símbolo da luz que combate as trevas e, por isso, identificado com Mitra, ganhou notoriedade no Império Romano no reinado de Vário Avito Bassiano (218-222 d.C.), que iniciou o culto do Gabal, deus do Sol venerado em Émesa, Síria, do qual era sacerdote e pretendia ser a própria encarnação, chegando a ser chamado de Heliogábalo. A pedra cônica negra, venerado símbolo do deus, foi levada para Roma e inserida num templo erigido perto da residência imperial, onde, por vontade do imperador, Gabal recebe uma companheira, a divindade cartaginesa Tanit. Embora a sociedade romana fosse aberta aos cultos estrangeiros, ela resistiu de modo especial a esse novo culto, mas isso por vários motivos: por ser o imperador o próprio sacerdote da religião oriental, com seus ritos orgiásticos; por intrigas sobre sacrifícios humanos e perversão sexual; e pela tentativa de impor uma religião local como culto oficial do Império. Em 222, a guarda pretoriana acabou matando Heliogábalo, enviando a pedra negra de volta para Émesa.

Passados cerca de 50 anos, o imperador Aureliano (270-275 d.C.) retomou o culto ao Sol, convencido que este tenha propiciado a sua vitória contra Zenóbia, de Palmira. Durante a batalha, com as tropas de Aurelianos já exauridas, diz-se que uma aparição divina, juntamente com uma intervenção desse deus, redobrou o ânimo dos soldados, forçando a retirada de Zenóbia. Logo depois do ocorrido, Aureliano entrou em Émesa vitorioso e se dirigiu ao templo de Gabal, oferecendo-lhe culto, o que veio a tornar o Sol Invicto a divindade tutelar do Império e companheiro do imperador, que erigiu, em 274, um magnífico templo em Roma, honrando-o, quando também criou um colégio de pontífices do Sol.

O fato é que essa nova religião também tem como motivação a política imperial, uma vez que vinha a unificar todos os pagãos do Império, em aberta contraposição ao cristianismo, que vai se impondo cada vez mais e é considerado uma força desintegradora - opinião que mudou com Constantino. A difusão do culto ao Sol Invicto foi bastante ampla e, para suplantar o cristianismo, acabou adotando ritos e festividades, dentre as quais o dia do nascimento do Sol, que ficou no 25 de dezembro, convenientemente no solstício de inverno (Saturnalia).

Como percebemos, o culto ao Sol Invicto chegou ao Império muito depois de originado o cristianismo e em quase nada se assemelha à fé cristã. A questão do dia 25 de dezembro, que muitos apontam como evidência de plágio cristão, é, na verdade, uma reação ao próprio cristianismo! Posteriormente, no Século IV, quando o cristianismo se torna a religião oficial do Império Romano, atribui-se o dia 25 de dezembro como o dia do nascimento de Cristo como uma forma de substituir o culto ao Sol, simbolizando a modificação de divindade oficial. Nas Escrituras neotestamentárias não está definido um dia claro para o nascimento do Messias, mas as características do relato apontam para o começo de Abril do ano 5 a.C. (O Nascimento de Cristo: Incoerências Históricas e Geográficas?).

3 - As Religiões de Mistério:
Eu falei das religiões de mistério como introdução ao culto ao Sol Invicto, mas isso pode ter suscitado o questionamento sobre se o cristianismo não seria apenas mais uma "religião de mistério", ou algo inspirado nelas. Será que isso procede? Vejamos: 

a - O taurobólio:
Estava associado ao culto de Cibele e Átis, sendo sugerido como inspiração aos textos de Apocalipse 7:14 e 1 Pedro 1:2. Também foi usado como explicação para o batismo cristão descrito em Romanos 6. O ritual se desenvolvia da seguinte forma: o sacerdote a ser consagrado se prostrava dentro de uma cova bem profunda, cuja abertura era coberta por uma grelha de madeira bem trançada, esperando o jorrar do sangue de um touro que era apunhalado no peito quando estava sobre ela. Por diversos motivos o taurobólio não foi inspiração para a fé cristã:
- Usava-se para a consagração sacerdotal e não de um iniciado.
- Não há nenhuma indicação de que os primeiros cristãos usassem sangue em seus rituais. O sangue foi apenas um símbolo da doação da vida de Cristo.
- Os cristãos sentiam repulsa por tal prática. Prudêncio, um cristão que descreveu o ritual, o considerava brutal e blasfemo.
- O taurobólio é posterior ao término da redação do Novo Testamento, sendo atestado pela primeira vez em 160 d.C. e se tornado uma consagração pessoal apenas no Século III d.C. A ideia de que o taurobólio promove um renascimento surge ainda mais tarde, no final do Século IV d.C., não estando originalmente associado com o banho de sangue.

Parece, portanto, ser mais fácil o taurobólio ter sido copiado dos cristãos do que o contrário.

b - O batismo:
Banhos cerimoniais como meio de purificação existem desde antes do cristianismo, sugerindo que os cristãos apenas roubaram a prática doutras religiões, o que é uma simplificação grosseira. O batismo cristão é uma demonstração de identificação do cristão com a morte, sepultamento e ressurreição de Jesus, divergindo muito dos cultos de mistério. Em nenhuma religião de mistério há simbolismo de morte presente em um batismo ritual. Os banhos cerimoniais de antes do NT possuem significados largamente divergentes do batismo cristão e os banhos pagãos de depois de 100 d.C. chegaram tarde demais para influenciar o NT, podendo ter sido inspirados por ele.

c - A ressurreição:
A ressurreição aparece nos mitos de Ísis e Osíris, quando Osíris é assassinado por Seth, que afunda o seu corpo no Nilo. Esse corpo é resgatado por Ísis, esposa de Osíris, mas recuperado por Seth, que o despedaça e espalha por uma grande região. Ísis reage e recolhe esses pedaços, fazendo-o voltar à vida. Mas isso não é suficiente para propôr que ele "ressuscitou". Sobre isso, Ronald Nash declara:

"É neste momento que a linguagem usada para descrever o que se segue é crucial. Às vezes, aqueles que contam a história se satisfazem dizendo que Osíris voltou à vida. (...) Mas alguns escritores vão muio além e referem-se 'à ressurreição de Osíris'" E mais:

"Quais os deuses de mistério que efetivamente experimentaram uma ressurreição dos mortos? Com certeza, nenhum texto antigo reporta a qualquer ressurreição de Átis. Tentativas de ligar a adoração de Adônis à ressurreição são igualmente frágeis. Nem é mais forte o caso da ressurreição de Osíris. Depois de Ísis reunir as partes do corpo desmembrado de Osíris, ele se tronou 'o Senhor do Mundo Inferior'. Como comenta Metzger: 'É questionável se isso pode ser chamado com justiça de ressurreição, especialmente quando, de acordo com Plutarco, era o piedoso desejo dos devotos ser enterrado no mesmo chão onde, conforme a tradição local, jazia ainda o corpo de Osíris'. Portanto-, pode-se fala der uma 'ressurreição' nas histórias de Osíris, Átis e Adônis apenas no mais amplo sentido. E naturalmente nenhuma alegação pode ser feita de que Mitra foi um deus que morreu e ressuscitou. O estudioso francês Andre Boulanger concluiu: 'A concepção de um deus que morre e ressuscita para conduzir o crente à vida eterna não está presente em nenhuma religião de mistério helenística."

O caso de Jesus é totalmente diferente. Ele fata de uma pessoa histórica que morreu e voltou dos mortos para não morrer novamente, tendo aparecido em carne e osso em diversas ocasiões antes de subir aos Céus. Sobre isso, James D. G. Dunn comenta:

"O paralelo com as visões de Ísis e Esculápio [...] dificilmente se sustenta. Essas foram figuras místicas de um passado obscuro. Nos relatos a respeito de Jesus, nós estamos falando de um homem que havia morrido há poucos dias ou semanas antes."

Sobre o retorno da morte, é dito que Átis retornou após quatro dias e que Osíris e Adônis o fizeram depois de três dias. Nenhum desses relatos, porém, aparece nalgum registro anterior ao Segundo Século d.C. Concluímos, com isso, que, havendo empréstimo de ideias entre as religiões, foram as de mistério que copiaram o cristianismo.

d - O renascimento:
As religiões de mistério eram fés redentoras, que promoviam o que se chamava de "segundo nascimento", que tornava o iniciado uma "nova criatura", possibilitando maior intimidade dele com a divindade. Alguns, observando tais elementos, sugerem que os conceitos de "novo nascimento" e "nova criatura" encontrados na fé cristã, foram tomados das religiões de mistério. A evidência para isso, porém, é frágil: os banhos cerimoniais do culto eleusiano nunca foram ligados à ideia de renascimento e há somente uma única referência que associa o "renascimento" ao culto de Cibele e Átis, que é datada do Século IV d.C. e encontra-se sob a configuração de uma interpretação de Salústio, possivelmente influenciada pelo cristianismo, e não o contrário. Apenas duas referências discutíveis, ambas do Século II d.C., usam a imagem do "renascimento".

Todas as fontes que sugerem a noção de "renascimento" no mitraísmo são pós-cristãs, sendo a mais antiga datada do final do Século II d.C. A mais discutível das referências parece conectar o taurobólio ao "novo nascimento", mas a inscrição contém a data de 376 d.C. Essa frase só aparece quando o cristianismo está se estabelecendo como religião majoritária do Império Romano, sugerindo que o conceito foi copiado da fé cristã.

e - A morte sacrifical da divindade:
Dentro das mitologias gregas primitivas e adentrando a história romana, era considerado normal ter pessoas notáveis como divinas, alguns não passado de figuras fictícias e outras históricas, como filósofos e imperadores romanos. Dentro do politeísmo isso era natural, mas era impossível no judaísmo.

Os judeus eram firmes defensores da ideia de que existia apenas um único Deus, sendo assustadora a ideia de começarem a considerar divino alguém que caminhava em seu meio - essa ideia já seria de difícil aceitação nos contextos romanos, mas começar a disseminá-la em Jerusalém era loucura! Isso evidencia que a histórica aparição de Cristo afirmando ser Deus entre os judeus palestinos não era resultado de uma inserção pagã, mas algo produzido no próprio seio do judaísmo. Não tem como a mensagem de Jesus ter sido formulada pelos judeus com base nas religiões de mistério - as divindades das religiões de mistério são consideradas quando retornam da morte, mas não há nenhum paralelo entre a ressurreição de Cristo e essas religiões, exceto quando elas o copiam. Há diversas diferenças entre os deuses-salvadores pagãos e Jesus:

- Esses deuses-salvadores jamais morreram por outra pessoa.
- Somente Jesus morreu pelos pecados humanos. As mortes dessas divindades nunca foram vistas sob a ótica de ajudar os homens.
- Jesus morreu apenas uma vez e ressuscitou para jamais retornar à sepultura, mas os deuses de mistério vivem existências cíclicas de morte e ressurreição, seguindo a natureza.
- A morte de Jesus é um evento histórico. A morte dos deuses pagãos era apenas um drama desprovido de historicidade.
- Jesus morreu voluntariamente, ao contrário dos deuses de mistério.
- A morte de Jesus não foi uma derrota, mas um triunfo.

Existem, de fato, semelhanças marcantes entre o cristianismo e as religiões de mistério?
Os porta-vozes cristãos se negaram firmemente a aceitar qualquer coisa que fosse contrária ao Evangelho de Cristo. Se, nalgum momento, os cristãos desejassem se apropriar das religiões de mistério para atrair mais fiéis, eles poderiam ter formado um cristianismo politeísta imediatamente, mas não o fizeram. Vamos para algumas falácias:

a - Combinalismo e universalismo:
É falacioso tentar combinar todas as características das diversas religiões de mistério que vão dos Séculos XV a.C. ao V d.C., para, então, comparar essas caricatura com o cristianismo. Albert Schweitzer desvendou esse erro:

"Quase todos os textos de maior popularidade caem nesse tipo de inexatidão. Eles fabricam a partir de vários fragmentos de informação um tipo de religião de mistério universal que nunca existiu de fato, menos ainda nos dias de Paulo."

Qualquer princípio de uma religião misteriosa do Século XV a.C. que deixou de existir no ano 1000 a.C. não poderia servir de influência para o cristianismo. Além disso, qualquer princípio de uma religião de outra cultura ou região do mundo seria terminantemente recusada pela cultura judaica da Palestina. Combinar as religiões de mistério pode produzir algo parecido com o cristianismo, mas essa combinação nunca existiu historicamente.

b - Tingindo a evidência:
Trata-se da linguagem descuidada. É comum que os estudiosos do caso façam uso de terminologia cristã para descrever práticas e crenças pagãs produzindo, assim, paralelos irreais. 

c - Supersimplificação:
Trata-se da tendência de exagerar e simplificar as comparações entre o cristianismo e as religiões de mistério. Há declarações exageradas sobre supostas semelhanças entre o batismo e a Ceia do Senhor, e similares "sacramentos" em determinados cultos de mistério. Há grandes quantias de supersimplificação e desatenção a detalhes na tentativa de achar analogias entre a ressurreição de Cristo e as "ressurreições" das divindades de mistério.

d - Quem influenciou quem?
É a falácia metodológica mais séria: sempre que se encontra algum suposto paralelo entre o cristianismo e as religiões de mistério, a tendência é pensar que o cristianismo é que copiou o pensamento pagão. Tal posicionamento acaba em erro quando se supõe que o cristianismo adotou certa prática encontrada dalguma religião de mistério quando, na verdade, os registros apontam para a inexistência de tal prática nessa religião antes do nascimento da fé cristã.

Segundo Nash. por exemplo, apenas o mitraísmo, dentre todas as religiões de mistério, apresenta algo parecido com a Ceia do Senhor, porém, uma análise sóbria das origens históricas desse costume cristão encontra muito mais força nos fundamentos judaicos do cristianismo do que nas práticas pagãs. Assim como no caso do batismo cristão, a Ceia relembra uma pessoa histórica e preserva algo que essa pessoa fez dentro da história: a Última Ceia. Essa Ceia, por sua vez, foi estabelecida durante a festa judaica da Páscoa. Considerando que nenhum monumento mitral pode ser datado de antes do final do Primeiro Século d.C., que nenhuma imagem do deus tenha sido encontrada em Pompeia, soterrada em 79 d.C. e que não há nenhuma evidência desse culto no Ocidente até o fim do Primeiro Século d.C., é mais provável que o cristianismo estava em posição de influenciar, não o contrário.

4 - A singularidade do relato de Jesus:
Há uma clara distinção entre os relatos dos evangelistas e os criadores dos mitos das religiões de mistério. Walter Kunneth, sobre a originalidade do Evangelho, declara:

"A mensagem da ressurreição não surgiu no mundo contemporâneo para ser mais uma das lendas de cultos habituais, em que Jesus Cristo seria um herói de um novo culto, pondo-se harmoniosamente lado a lado com outros heróis culturais. Mas a sua mensagem foi em termos de uma estrita exclusividade: um único é o Kyrios ('Senhor'). Aqui, toda a analogia falha. Esse testemunho, em contraste com a condescendência do mundo mítico inteiro, chega com uma intolerante reivindicação de totalidade, que põe em questão a validade e a verdade de toda a mitologia."

Mesmo quando os cristãos usam conceitos e termos habituais para comunicar o cristianismo, eles o fazem com uma significação exclusiva, rejeitando César, Esculápio, Hércules, Dionísio ou Ptolomeu. A leitura dos mitos gregos e o vislumbrar dos evangelhos deixa evidente a diferença entre eles, conforme declara Edward Blaiklock:

"Eu habitualmente o leio em seu grego simples, sem a tradução, e sempre tenho uma irresistível impressão de sua retidão, de sua intimidade com o tema e com o leitor. Apenas leia a história das bodas de Caná (...) e sinta a atmosfera doméstica, o embaraço de Maria, o gracejo sobre o melhor homem (capitulo 2 [João]). Siga para a história do rabino (capítulo 3) que veio à noite e ficou aborrecido a princípio porque a resposta para a sua pergunta, pela qual recebeu uma repreensão, foi dada através de alusões aos livros de Ezequiel e Números (...). Em seguida leia a história da conversa no poço de Sicar, onde uma samaritana trava uma perdida batalha de palavras com o judeu mais estranho que já havia encontrado (capítulo 4). Prossiga lendo o relato pungente da Paixão com seu clímax nas vívidas histórias da ressurreição, só comparáveis na simplicidade do realismo com a narrativa de Lucas. Simplesmente leia. Esses homens não estavam escrevendo uma ficção. Suas narrações não soam como mito. Trata-se de história e assim permanece, porque assim foi registrada."

J. B. Phillips concorda com Blaiklock:

"Eu havia lido, em grego e latim, inúmeros mitos, mas não achei o mais leve sabor de mito aqui [no Novo Testamento]. Não há nenhuma histeria, nenhuma manipulação para impressionar e nenhuma tentativa de fraude. [...] Sente-se além disso esta moderação com a qual aprendemos a pensar, que é mais 'latina' do que oriental. Há uma sinceridade e simplicidade quase pueris, e o efeito total é tremendo."

Segundo J. P. Moreland, o paganismo tem uma pequena ou nenhuma influência na formação da imagem de Jesus no Novo Testamento. O contexto geral dos Evangelhos fornece evidências substanciais de que a Igreja Primitiva se enraizava no judaísmo - Jesus, a Igreja Primitiva e os seus escritos nasceram em solo judeu sob ínfima influência gentílica.

Para encerrar, observemos o que afirma Adolf von Harnack:

"Devemos rejeitar a mitologia comparativa que acha conexões casuais entre tudo e todos, as quais derrubam sólidas barreiras, saltam sobre abismos como se fosse um jogo infantil, e engendram combinações a partir de semelhanças superficiais. [...] Através de tais métodos, pode-se transformar Cristo em um deus do sol num piscar de olhos, ou criar-se as lendas acerca do nascimento de todo deus concebível, ou reunir-se todos os tipos de pombas mitológicas para fazerem companhia à pomba batismal, e encontrar-se todo o número de jumentos célebres para acompanhar o jumentinho no qual Jesus montou em Jerusalém; e assim, com a varinha mágica das 'religiões comparadas', triunfalmente eliminar toda a característica original em qualquer das religiões."

Fontes: História das Religiões, Origem e Desenvolvimento das Religiões, Folio, 2008, pgs 88-91 e 108-110; Jesus de Nazaré, Joesph Ratzinger (Bento XVI), Planeta, 2007, pgs 57-58 e 271-272; Mosaico Teológico, Rodrigo Bibo de Aquino, Alexander Stahlhoefer, Maurício Machado e Alexandre Milhoranza, BTBooks, 2013, pg 21; O Novo Testamento, Sua Origem e Análise, Merril C. Tenney, 2011, pgs 77-80; Evidências da Fé Cristã, Josh McDowell, org. por Bill Wilson, Hagnos, 2014, pgs 181-193; O Jesus Fabricado, Craig Evans, Cultura Cristã, 2009, pgs 41-44.

Conclusão:
Os esforços dos críticos e céticos para destituir o cristianismo de sua originalidade são incríveis e desesperados. Qualquer possibilidade mínima é argumento e suposta evidência, chegando a desprezar o bom uso da lógica, a inverter a ordem histórica e a destituir os reais significados dos costumes e tradições. Uma análise cuidadosa dos fatos, porém, mostra com força inigualável que a fé cristã brotou da Palestina sob influência quase que exclusiva do judaísmo e penetrou no Império Romano com poder suficiente para alterar as práticas das religiões de mistério e do culto ao Sol Invicto, além de desafiar com ousadia o deus imperador e o seu evangelho com o verdadeiro Deus Jesus Cristo, o único que possui direito legítimo de estabelecer um Evangelho de redenção para o mundo e a humanidade.

Natanael Pedro Castoldi

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