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A Bíblia e as Crianças

Muitos críticos das Escrituras sugerem que a Bíblia só traz malefícios aos pequenos, nada cooperando com a sua preservação e formação. Será que, de fato, a Palavra é inimiga das crianças? Analisemos o que a Bíblia tem a falar sobre elas e o quanto seus ensinamentos revolucionaram a forma de lidar com a infância.

O tratamento das crianças do Mundo Antigo:
Muitas sociedades pagãs da Antiguidade acreditavam que os pais possuíam direitos irrestritos sobre seus filhos, tendo o poder, inclusive, de matá-los - com ou sem razão alguma. A Lei das Doze Tábuas, que entrou em voga em 450 a.C. em Roma, exigia que o pai acabasse com a vida do filho, caso ele nascesse deformado. Também era bastante comum que os pais matassem bebês meninas, o que gerava um enorme descompasso entre o número de homens e de mulheres - resultado do aborto e do infanticídio. Analisemos uma carta do ano de 51 a.C., escrita por um egípcio pagão a sua esposa:

"Saiba que estou em Alexandria. [...] Peço e imploro que tome conta de nosso filho, ainda bebê. Assim que receber o meu pagamento, eu o enviarei para você. Se o parto já tiver ocorrido [antes de eu chegar em casa] e for menino, guarde-o. Se for uma menina, descarte-a."

Além do infanticídio e do aborto por motivos de conveniência, a prática de sacrifícios infantis como ritual também era comum. Verifiquemos o que diz Plutarco sobre os cartagineses:

"... ofertavam seus próprios filhos, e aqueles que não tinham filhos compravam criancinhas de pessoas pobres e cortavam suas gargantas como se elas fossem cordeiros ou filhotes de passarinhos; enquanto isso, as mulheres encaravam tudo sem derramar uma lágrima, nem lamentar."

Esse é o ritual que a Bíblia chama de "passar pelo fogo", denunciado pelos profetas bíblicos, como ocorre em Ezequiel 16:21 e em Jeremias 32:35.

Os judeus repudiavam a matança de crianças, tanto que chegaram a ser criticados pelo historiador romano Tácito, alegando que sua resistência ao infanticídio estava baseada na "paixão por propagar a própria raça". O interessante é que, quando Israel cedeu ao costume pagão e começou a sacrificar seus filhos, foi julgado por Deus com a desolação promovida pelos assírios, segundo o próprio entendimento bíblico - o infanticídio é tido como um dos maiores motivos para a queda do Norte em 750 a.C., que culminou no exílio. Vide 2 Reis 17:17-18.

O tratamento das crianças judias:
Quando Jesus chama as crianças para si (Marcos 10:14-15), está, na verdade, apenas intensificando as ideias da Bíblia hebraica, como a valorização da criança que aparece em Salmos 127:3-5. A procriação e a fertilidade humana são temas bastante centrais na Bíblia, coisa que se evidencia pelo fato de a própria promessa da aliança divina com Israel estar disposta dentro de uma corrente genealógica, a começar com a promessa de multiplicação dada por Deus ao patriarca Abraão, em Gênesis 17:4-6.

O Antigo Testamento defende com tanta ênfase o ato de ter filhos, que a esterilidade chegou a ser entendida pelos judeus como uma maldição divina. Há muitos relatos de mulheres estéreis no texto veterotestamentário que exaltaram Deus com louvores quando seus "ventres se abriram" - Isaías 54:1 é um bom exemplo da alegria produzia pela bênção de poder ter filhos.

A valorização do sexo para procriação é tão forte no Antigo Testamento que Deus julgou severamente Onã por este interromper o coito com Tamar para impedir que ela gerasse descendentes (Gênesis 38:9). Num primeiro momento, tal ênfase na geração de descendentes parece exagerada, mas há exemplos péssimos de culturas antigas que não valorizaram suficientemente a geração de filhos, como lamentou o historiador Políbio, observando a Grécia do ano 140 a.C.:

"Em nosso tempo, toda a Grécia foi afligida por uma escassez de crianças, e houve uma queda demográfica geral. Esse mal cresceu entre nós rapidamente, e sem atrair a atenção. Nossos homens se tornaram pervertidos, adquirindo uma paixão por espetáculos, dinheiro e os prazeres da vida ociosa."

A visão judaica do sexo:
Por mais de dois mil anos, as comunidades judaico-cristãs acreditaram que o sexo reprodutivo e heterossexual é uma coisa boa, principalmente visando os filhos gerados desse ato. Para os sábios judeus, o sexo é um direito da mulher, não do homem - o homem tem o dever "de fornecer sexo à sua mulher regularmente, garantindo que o sexo seja prazeroso para ela". O Talmude afirma que o papel de procriação do homem está cumprido quando este já gerou um filho e uma filha - porém a lei judaica mudou isso quando o controle de natalidade foi permitido.

A comunidade cristã eclesiástica geralmente considerou a tentativa deliberada de evitar a gravidez como um pecado. Para Lutero, por exemplo, "verdadeiramente, em toda a natureza não há nenhuma atividade mais excelente e admirável que a procriação" e que a concepção de um novo filho era um ato "milagroso [...] completamente para além da nossa compreensão", um "ligeiro lembrete da vida antes da Queda do homem." Lutero ainda denunciou o controle de natalidade e o aborto:

"E quão enorme, portanto, é a perversão da natureza humana [depois da Queda]! Quantas são as meninas que previnem a concepção e matam e expulsam pequenos fetos, a despeito de a procriação ser uma obra de Deus! É verdade: alguns casais que se casam e vivem juntos [...] têm vários objetivos em mente, mas raramente pensam em ter filhos."
Fonte: Uma História Politicamente Incorreta da Bíblia, Robert J. Hutchinson, 2012, pgs 83-90.

Conclusão:
É bastante evidente que a disseminação da moralidade judaico-cristã através do crescimento da Igreja no Império Romano, foi a maior responsável pela superação dos costumes pagãos relacionados ao aborto e ao infanticídio. A ideia cristã de que todos os seres humanos possuem um valor inerente, que não depende de idade, gênero, raça e classe social, também foi essencial para que as crianças passassem a ser consideradas mais do que propriedades e objetos. É bastante óbvio que a forma como o Ocidente trabalha com as crianças, tendo-as como seres dignos e frágeis, que devem ser respeitados e cuidados, é uma herança cristã - a ideia de "infância" é ocidental. Quase nenhuma outra cultura do mundo observa os pequenos dessa forma - e muitas delas só tratam as crianças adequadamente, pois foram influenciadas pela Igreja e pela cultura cristãs. Outra coisa a ser percebida, é que o aborto tem crescido no Ocidente justamente no período em que a Igreja está perdendo sua força e influência.

Se você desejar ler um pouco sobre o cuidado das crianças na Idade Média, verifique a postagem "Idade das Trevas?"

Natanael Pedro Castoldi

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