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Nós Precisamos de Religião Para Sermos Bons?

Vagando pelo facebook.com me deparei com uma imagem dotada da seguinte frase: "Se alguém precisa de religião para ser bom, a pessoa não é boa, é um cão adestrado". Na imagem consta Chagdud Tulku Rinpoche como autor. É estranho que tanta gente entenda ser necessário provar publicamente que é boa através de mensagens assim, mas tudo bem. A questão é que tal impasse já se desenrola há séculos: religião e bondade necessariamente se relacionam? Ora, para responder ao questionamento eu não farei uso dos recursos infantis que mais circulam por aí, usando um mísero exemplo de "religioso mau" para mostrar a maldade da religião, ou o exemplo de um cristão bom, para provar o contrário, ou, ainda, o apontamento de dois ou três ateus genocidas do Século XX. Esse tipo de briguinha sobre quem matou menos, sobre quem apareceu numa foto saindo de um templo ou sobre a suposta crença ou descrença de um louco não interfere decisivamente no assunto, uma vez que temos que ter a cabeça muitíssimo pequena para definir qualidades e malefícios de uma ideologia apenas com base no comportamento de alguns indivíduos - sabemos como pessoas são frutos do contexto histórico, experiências de vida, traumas, privações e outras questões, de modo que não podemos invalidar nada tomando como base apenas um indivíduo proeminente. Estamos perdendo contato com as profundidades da filosofia e da ciência em lugar de uma discussão infantil, puramente ideológica e política. E é pelo fato de estarmos entrando nessas veredas desagradáveis que decido responder esse tipo de questionamento.

Resumo: religiões em geral; cristianismo; 1 - No cristianismo entendemos que todas as pessoas possuem um senso moral inato; 2 - No cristianismo entendemos que os não-cristãos podem fazer coisas boas; 3 - No cristianismo temos duas formas de ver o termo "bondade"; a - Bondade moral; b - Bondade espiritual; 4 - Bondade humana VS bondade pura; 5 - Ser e fazer; Conclusão.

Religiões em geral:
Como não sou fundamentalista ou fanático, posso afirmar com veemência: não, as pessoas não precisam de religião para exercer a bondade (no sentido comum da palavra "bondade"). O problema dos críticos é que fundamentam suas concepções sobre a religião e a bondade em suas próprias opiniões, quase sempre erradas, ou no que dizem os cristãos que pouco conhecem (só posso falar pelos cristãos), quando, na verdade, deveríamos analisar não o que as ignorâncias e opiniões diversas afirmam, mas o que a própria religião analisada, por si mesma, afirma. Num aspecto mais amplo, incluindo todo o tipo de fé, reforço o que já foi dito: as pessoas não precisam de religião para serem boas. Isso, porém, não inibe a influência que um sistema de crença tem por sobre o indivíduo, podendo-o, sim, tornar uma pessoa melhor: é lógico que ter como base de vida um sistema moral definido e receber o apoio para uma boa conduta da parte de uma congregação inteira incentiva um aperfeiçoamento de caráter (não digo que essa é uma consequência inevitável, digo que pode acarretar nisso - não relevemos exceções e a boa conduta que é desenvolvida em troca da recompensa). Atente, também, para o fato de que a pessoa pode ignorar os preceitos de sua fé. Consideremos, ainda, o quanto influencia negativamente um sistema de crença que apoia a ganância, a prostituição cultual, a mentira em nome da conquista ou a valorização de animais por sobre pessoas, ou quanto um vazio de crença e moral pode acarretar em genocídios - mas continuo afirmando que a bondade, embora influenciada, não é necessariamente determinada pela religião ou pela ausência dela.

Entendo que a criação, as experiências de vida e as influências do meio determinam muito mais do que a crenças na constituição do indivíduo, sendo que o sistema moral de uma religião pode tanto influenciá-lo positiva quanto negativamente quando incutido desde cedo, ou alterar determinados comportamentos depois de dado tempo de vida - consideremos os excelentes trabalhos de clínicas cristãs para dependentes químicos, das missões evangelísticas em presídios ou a forma como o aconselhamento cristão pode auxiliar casais que beiram o divórcio, revertendo a questão através de uma alteração de comportamentos malévolos. Mas, sejamos honestos, uma vez que, estatisticamente falando, existe uma concentração maior de felicidade e realização na crença espiritual, temos nas religiões uma maior probabilidade de boa conduta, já que o religioso tende a ser menos rancoroso e carente, tendo em vista que ele nutre uma consciência clara de valor e sentido, de identidade e razão de ser (é claro que muitas religiões são incapazes de suprir essas necessidades). Sejamos honestos.

Gostaria, daqui pra frente, de afunilar nossa análise estritamente para o cristianismo, uma vez respondida a questão no âmbito geral. O que a Bíblia afirma sobre bondade e cristianismo?

O indivíduo pode analisar a questão de bondade e cristianismo com base em três fontes: o que ele pensa, o que os cristãos afirmam e o que a Bíblia diz. A melhor chance de atingir um entendimento correto está, logicamente, na terceira alternativa, e é apenas sobre ela que eu falarei, por uma questão óbvia:

1 - No cristianismo entendemos que todas as pessoas possuem um senso moral inato:
"Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei; os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os." Romanos 2:14-15
Paulo, ecoando uma verdade neurocientífica e refletindo uma concepção tradicionalmente romana, afirma nessa famosa passagem da sua carta aos romanos que todos nascem com alguma noção fundamental de moralidade, sobre o que é certo e errado, de modo que, sendo cristão ou não, o indivíduo é capaz de agir conforme a sua consciência e praticar coisar boas.

2 - No cristianismo entendemos que os não cristãos podem fazer coisas boas:
"E qual dentre vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra? E, pedindo-lhe peixe, lhe dará uma serpente? Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?" Mateus 7:9-11
"Mas o texto diz que as pessoas não-cristãs são más?" Note que Jesus afirma que "pessoas más podem fazer coisas boas", de modo que a afirmação de Paulo dada no tópico acima não perde a força. Sobre a concepção de "bondade" dentro do cristianismo falaremos logo mais.

"Porque apenas alguém morrerá por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém ouse morrer." Romanos 5:7
No versículo em questão Paulo afirma que, no quesito "fazer coisas boas", podemos encontrar gente se sacrificando por alguém que considera merecedor desse sacrifício.

"Por isso quem resiste à potestade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos a condenação. Porque os magistrados não são terror para as boas obras, mas para as más. Queres tu, pois, não temer a potestade? Faze o bem, e terás louvor dela. Porque ela é ministro de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde a espada; porque é ministro de Deus, e vingador para castigar o que faz o mal. Portanto é necessário que lhe estejais sujeitos, não somente pelo castigo, mas também pela consciência." Romanos 13:2-5
Novamente a Carta de Paulo aos Romanos. Aqui Paulo, num tempo no qual nenhuma nação havia aderido ao cristianismo como religião principal, afirma que Deus reforça a autoridade dos estados em formular leis para organizar a sociedade e em aplicar punições perante o seu descumprimento. Não é Deus o autor direto dessas leis e tampouco o aplicador da sentença, mas tudo vem na onda de Romanos 2:14-15, já citado: o homem, mesmo longe de Deus, tem consciência moral e, através dela, é capaz de desenvolver sistemas de leis benéficos, bastante aceitáveis.

Sempre tenha em mente que a pregação de Cristo se desenvolveu numa época em que não tínhamos cristianismo para além do Messias e, mesmo assim, Jesus cita alguns bons comportamentos humanos. Paulo, de modo semelhante, aponta para alguns aspectos coerentes da sociedade humana. Teríamos outros exemplos ainda, mas sinto que, para o tópico em questão, já está suficiente.

3 - No cristianismo temos duas formas de ver o termo "bondade":
a - Bondade moral: 
É esse tipo de bondade que independe de religião. É o bom comportamento social, em concordância com a consciência moral individual e coletiva. Já falamos sobre ela anteriormente.

b - Bondade espiritual: 
"E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos." Mateus 19:17
Uma peculiaridade, e sobriedade, do cristianismo está na sua consideração sobre a bondade espiritual: nesse quesito nenhum ser humano pode ser considerado bom. Apenas Deus é bom, porque apenas Deus é Perfeito - o homem, uma vez que tornou-se física e espiritualmente imperfeito na Queda (Gênesis 3:6), somente poderá ser considerado inteiramente bom quando inserido no vindouro Paraíso, de renascimento físico e espiritual consumado como descendência direta de Cristo e do Espírito Santo, respectivamente. Todo o verdadeiro cristão já renasceu em espírito, sendo habitação do Espírito de Deus (João 3:3), mas somente após o Arrebatamento (1 Tessalonicenses 4:17) é que nosso corpo carnal, maculado pelo pecado, será restaurado na semelhança de Cristo.

"Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado; como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só." Romanos 3:9-12

"Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos." Tiago 2:10
Nenhum ser humano comum é capaz de viver sem nunca transgredir a perfeição moral que reside no Perfeito Deus. Nascemos em pecado, como descendência de homens pecadores, e prosseguimos pecando, de modo que é impossível que sejamos realmente bons diante do Criador. Todos nós, com base na moral perfeita de Deus, merecemos morrer e pagar um preço de juízo eterno, uma vez que ofendemos o eterno Senhor - e Deus também é plenamente justo.

"Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam." Isaías 64:6
"Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie; porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas." Efésios 2:8-10
"Porventura dá graças ao tal servo, porque fez o que lhe foi mandado? Creio que não.
Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer." Lucas 17:9-10
A Bíblia deixa claro que tudo o que o homem faz não interfere em nada diante de Deus. O homem não é considerado melhor ou pior, espiritualmente falando, por realizar boas obras, por ser humanamente bom. Diante de Deus, sem Cristo, nada do que o homem faz altera a sua condição; diante de Deus, com Cristo, tudo o que o homem faz só é aceito pelo Pai, não porque o cristão é bom, mas porque Cristo, que é agradável ao Pai, habita nesse cristão e o reveste. Nada que o cristão tem de bom diante do Criador é originado nele - a única coisa que realmente agrada a Deus no cristão é justamente aquilo que de Deus está nele: Cristo, representado pelo Espírito Santo, porque só Deus é bom, uma vez que só Deus é perfeito. O Pai, dessa forma, não está devendo nada a ninguém. Nunca.

Síntese: o homem, imperfeito, não é bom diante de Deus, Perfeito. A única coisa que, estando no homem pode torná-lo espiritualmente bom para o Pai, é a presença de Cristo, ou seja: a única coisa boa que habita o homem é o próprio Deus. Nesse caso o homem não deve fazer coisas boas com o objetivo se aproximar do Eterno (deve fazer coisas boas porque são boas), mas, estando em Deus, fazer coisas humanamente saudáveis porque ama o Pai, e a Sua Perfeita Moral, e o próximo, que em nada é melhor do que o benfeitor em questão.

4 - Bondade humana VS bondade pura:
Vimos que no cristianismo as pessoas não-cristãs podem fazer coisas humanamente boas sem Cristo e também que ninguém, nem o cristão, pode ser considerado espiritualmente bom diante de Deus - a única coisa boa no seguidor de Cristo é o próprio Criador. Agora analisemos alguns versículos que tratam de aprovação moral humana em atrito com a aprovação moral divina:

"Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles; aliás, não tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus. Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita; para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente.
E, quando orares, não sejas como os hipócritas; pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente." Mateus 6:1-6
Ora, dar esmolas é um ato de bondade. Louvar em alto e bom tom, pra todo mundo ver, aparentemente também é algo moralmente aceitável. Pessoas não-cristãs também fazem essas coisas. Isso é bondade humana! Acontece que a moral de Deus é perfeita, como já dito, e não pode ser maculada por nenhuma intenção impura do coração humano, o que inclui o desejo por reconhecimento e o alimentar do ego, fazendo a boa obra não como um fim, mas um meio de se envaidecer. Nos versículos temos, portanto, uma distinção clara daquilo que para o homem é considerado bom e daquilo que para Deus é considerado bom, de modo que as pessoas, humanamente falando, podem ser tidas como boas, diferentemente do que pode ser considerado nas vias espirituais. Verifique que Deus valoriza o ato de adorar e dar esmolas, orienta para que isso seja feito, mas faz entender que a intenção do coração pode tanto qualificar, quanto desqualificar o ato.

5 - No cristianismo o "ser" é validado pelo "fazer":
"Porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo." 1 Pedro 1:16
Entendemos que nada do que o homem faz antes ou depois ser cristão o aproxima de Deus, porque ou ele é habitação do Espírito Santo, ou não. Mas isso não significa que o cristão não deva se preocupar com atitudes boas, humanamente saudáveis e que concordem com o padrão moral que Deus incutiu em nossa natureza: mesmo que seja impossível que, com a nossa natureza carnal, nos tornemos bons diante de Deus, a Sua exortação é para que tentemos nos tornar o melhor que conseguirmos, o que significa lutar contra as diversidades do pecado, nutrir a sabedoria e buscar conhecer Deus e se relacionar com Ele, tentando nutrir a santidade, agindo como alguém que, de fato, é morada do Espírito de Deus. É natural que o Espírito Santo exale Seu Fruto (Gálatas 5:22) daqueles que não bloqueiam, por meio de comportamentos constantemente vis, a Sua ação (Hebreus 10:26). O cristão que verdadeiramente é habitado pelo Bom Deus, necessariamente pratica atos de bondade espontaneamente - mesmo que precise, inicialmente, se disciplinar para isso (Mateus 12:33).

Conclusão:
As pessoas precisam de religião para serem boas?
a - Humanamente falando: Não. Pessoas fazem coisas boas mesmo sem religião.
b - Espiritualmente falando: Diante de Deus as pessoas precisam de Cristo. Elas, por si mesmas, não são boas (no âmbito espiritual). Deus é que é bom, Deus é que irradia a Sua bondade onde Ele habita, de modo que a bondade que reside no cristão não é sua, não se origina nele, mas é de Deus, originada em Deus. A religião necessariamente torna as pessoas espiritualmente boas? Não. O Bom Deus é que, nas pessoas, faz a bondade habitar-lhes.

"Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço.
E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim.
Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo.
Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros. Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte? 
Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado." Romanos 7:15-25

Natanael Pedro Castoldi

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