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O que Pensar das Cruzadas?

Em nossos tempos de "politicamente correto", tornou-se motivo de plena maldade alegar algo positivo nas Cruzadas, que constituem um dos temas de maior relevância para os críticos da Igreja, que amam pretextos para questionar o valor da fé cristã. Será que as Cruzadas, embora vis, foram tão negativas quanto se prega? É sobre isso que esse breve estudo falará - tire as suas próprias conclusões.

Seria ridículo pensar que um evento de dois séculos, com nove levas de soldados cristãos à Terra Santa, com incontáveis conflitos e a presença de centenas de milhares de seres humanos falhos, não nos envergonhou com nenhum comportamento moralmente vil. Foram tantas motivações, tantas campanhas, tantas ganâncias, tanta fé de ambos os lados, que seria impossível não encontrar nada de degradante - como o saque de Béziers, em 1209, ou a liderança impiedosa de Reinaldo de Châtillon. O problema é que a maioria dos cristãos tende a simplesmente concordar com os céticos , aceitando a pessimista perspectiva de que tudo “foi absurdamente terrível”. Não quero perdoar a Igreja de seu comportamento anticristão, mas pretendo, humanamente, levantar algumas questões menos negativas sobre os "conflitos santos". Fontes: Revista BBC História, Idade Média, Edit. Tríada, Edição 4, pg 49; As Grandes Batalhas da História, Nº 1, Edit. Larousse, 2009, pgs 62-63.

Geralmente se começa a falar das Cruzadas pelos cristãos, mas eu começarei pelos muçulmanos. Vejamos: entre 632 e 850 d.C. o islamismo dominou pelo poder armado da Arábia às fronteiras da Índia, todo o Norte da África, todo o Oriente Médio, partes da Ásia Menor, as maiores ilhas do Mar Mediterrâneo e quase toda a Península Ibérica, indo do Mar Aral até o Oceano Atlântico. Um século depois da morte de Maomé, o islamismo já havia subjugado metade dos territórios cristãos: as cidades mais tradicionais da história e teologia cristã estavam subjugadas, com suas relíquias, suas igrejas, suas bibliotecas. Antioquia tinha caído. Jerusalém estava tomada. Cartago possuía minaretes. Alexandria também estava prostrada aos árabes. As terras de Jesus, Orígenes ou Agostinho já não eram mais cristãs. Fonte: Os Cristãos, Tim Dolwey, Martins Fontes, 2009, pgs 93-94.

Mas os muçulmanos não haviam terminado: em 732 bereberes recém islamizados, sob Abd-ar-Rahm-al-Gafigi, se digladiaram com Charles Martel (688-741) e suas tropas no que ficou conhecida como a Batalha de Tours ou Poitiers. Vindos da Espanha, os muçulmanos, após cruzarem os Pirineus, dominaram a Cerdanha e direcionaram-se para Bordeaux, onde, nas proximidades do rio Loire, ameaçavam a abadia de São Martinho de Tours, na qual Carlos Magno assentou-se com seus exércitos. Em Moussais, entre Poitiers e Tours, no dia 25 de outubro de 732, os exércitos se enfrentaram, tendo Charles Martel como vitorioso, o que levou os muçulmanos à fuga. Sabe-se que, se os conquistadores muçulmanos tivessem óbito êxito nessa campanha, muito provavelmente todo o Mundo Cristão teria sido dominado pelo islamismo. Isso fica muito claro ao se ler a edição de número 59 da revista Leituras da História, Edit. Escala, de nome Batalha de Tours, O Fim do Avanço Muçulmano, que na própria capa já diz: “Não fosse Charles Martel, o mundo ocidental hoje seria islâmico e se ajoelharia, cinco vezes ao dia, em direção à Meca”. Verifiquei especialmente as páginas 28 e 29. Usei como base também as páginas 44 e 45 do livro As Grandes Batalhas da História, Larousse.

A Batalha de Poitiers não foi parte das Cruzadas, tampouco um ataque, apenas defesa. Aliás, os cristãos permaneceram quase que exclusivamente apenas se defendendo por um período de mais de 400 anos enquanto os muçulmanos dominavam seus territórios, tempo tal que resultou na perda de 2/3 dos territórios cristãos para os islâmicos. Com a lição de Poitiers e a perspectiva de que nunca o inimigo iria cessar o avanço, os cristãos nutriram a certeza de que, se não reagissem, certamente seriam dominados. A Primeira Cruzada -1095-99 d.C.- só foi finalmente lançada quando a maior cidade cristã do mundo, Constantinopla, se via terrivelmente ameaçada pelos árabes – o imperador Aleixo I Comneno fez um pedido de ajuda desesperado: seu glorioso império se via menor que o território da Grécia atual e sua capital, prestes a cair. As Cruzadas, ao contrário do que muitos supõe, não se deram para a conversão dos muçulmanos, mas, apenas, para a expulsão dos mesmos das terras cristãs que foram perdidas. Fonte: Os Cristãos, Tim Dolwey, pgs 94-95.

James P. Eckman, no livro Panorama da História da Igreja, Curso Vida Nova de Teologia Básica, VidaNova, 2005, pgs 55-56, diz: "Os muçulmanos eram predominantemente árabes até o século 11, quando os turcos seljúcidas tomaram o controle de grande parte do território islâmico. Muito mais fanáticos e brutais, os turcos atormentavam os peregrinos cristãos e ameaçavam a segurança da Igreja Ocidental."

No livro Uma Breve História do Cristianismo, Geoffrey Blainey, Fundamento, 2012, pg 139, podemos ler: “Entre os séculos sétimo e décimo, as forças do islã capturaram mais da metade de todos os territórios cristãos da Europa e da Ásia Menor. As cruzadas, mal coordenadas, recuperaram apenas uma parte do que estava perdido.”

O livro O Cristianismo Através dos Séculos, Earle E. Cairns, VidaNova, 2008, pgs 194-195, trata melhor das causas das Cruzadas: primeiramente, segundo Cairns, deve-se ter em mente que a motivação máxima das Cruzadas era, sim, religiosa; a expansão e violência dos turcos seljúcidas, que perseguiam os peregrinos cristãos que entravam na Palestina, criou o desconforto que explodiu nas guerras; Aleixo, Imperador de Constantinopla, pediu ajuda dos cristãos da Europa Ocidental mediante a ameaça dos invasores asiáticos muçulmanos; as Cruzadas deram uma nova chance para se resolver o perene problema do controle sobre o Oriente Próximo; a Europa Ocidental passava por um período de fome e, portanto, a economia precisava de uma guinada; os venezianos tinham interesse em ampliar suas rotas comerciais; os normandos que participaram das Cruzadas provavelmente estavam interessados em saques a na fixação de feudos na Palestina; havia, ainda, os que iam para a Guerra Santa pela aventura e honra, para fugir da rotina de miséria ou, ainda, para alcançarem o perdão por crimes. Mais de um milhão de pessoas se mobilizaram por advento da Primeira Cruzada.

O livro Panorama da História da Igreja, James P. Eckman, Curso Vida Nova de Teologia Básica, 4, Vida Nova, 2005, pgs 55-56, trata de alguns legados positivos que as Cruzadas deixaram: mudanças culturais penetraram na Europa Ocidental, uma vez que os cruzados levavam consigo vestimentas, costumes e alimentos diferentes; livros do Mundo Antigo, preservados pelos muçulmanos, que antes haviam conquistado as principais cidades cristãs da Antiguidade, passaram a circular na Europa; o comércio reviveu, a "classe média" começou a tomar conta do Ocidente.

Geoffrey Blainey ressalta o fato de que as Cruzadas nem sempre foram vistas de modo tão pessimista na História: "As Cruzadas já foram vistas de modo mais favorável por muitos historiadores ocidentais, que elogiavam o idealismo de dezenas de milhares de cruzados, bem como de outras dezenas de milhares que ficavam em casa. 'A humanidade se enriqueceu por causa das cruzadas', escreveu um renomado estudioso britânico do início do século 20. 'Não se pode chamar de sombrios os tempos em que os cristãos se reuniram em torno de uma causa comum e levaram a bandeira de sua fé até o túmulo de seu redentor.'" Fonte: Uma Breve História do Cristianismo, Geoffrey Blainey, pg 139.

Vale lembrar que, por advento dos 900 anos da Primeira Cruzada, um grupo de cristãos europeus fez uma manifestação pedindo perdão por aqueles que, em nome de Cristo, saquearam e mataram, agindo de modo contrário ao que Jesus ensinou. Seu manifesto foi o seguinte: “Desejamos retomar os passos dos cruzados para pedir desculpas por seus atos e para demonstrar o verdadeiro significado da cruz. Lamentamos profundamente as atrocidades cometidas em nome de Cristo por nossos antecessores. Renunciamos à ganância, ao ódio e ao medo e condenamos toda a violência em nome de Jesus Cristo. Eles estavam motivados pelo ódio e pelo preconceito, mas nós oferecemos o amor e a fraternidade. Jesus, o Messias, veio para dar vida. Perdoem por permitir que seu nome fosse associado com a morte.” Fonte: Apologética Cristã, Israel Belo de Azevedo, Curso Vida Nova de Teologia Básica, Vida Nova, 2006, Volume 6, pg 21.

Natanael Pedro Castoldi

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