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A Ciência, a Igreja e o Islã

-> Apresentação e Índice
Muitas pessoas não compreendem que o que define "ciência" não é a mera descoberta de fenômenos e o desenvolvimento de tecnologias. Por ciência temos um sistema de busca pelo conhecimento, pautado em método, repousando sobre uma determinada filosofia - a saber, de que a verdade sobre os seres e fenômenos pode ser conhecida e de que o mundo em que vivemos é real e possui leis constantes e que podem ser vislumbradas e entendidas. O método tradicional de pesquisa científica é, obviamente, o "método científico", que valoriza a observação do fenômeno, o experimento e a repetição do mesmo para a tomada de conclusões críveis - os precursores desse pensamento foram os monges Roger Bacon, padre franciscano (1214-1294), e Tomás de Aquino, frade dominicano (1225-1274). Mesmo que uma cultura tenha indivíduos de grande potencial, eles dificilmente buscarão pelas "leis da natureza" se acreditarem que o mundo natural é habitado e governado por milhões de pequenas divindades que controlam, ao seu bel prazer, cada fenômeno.
Fonte: Revista Aventuras na História, Coleção Grandes Guerras, Ed. 8, Abril, novembro de 2005, pg 52.

Observação: esse é um artigo sobre a história da origem da ciência. Nesse caso, não se trata de opinião do autor.

1 - Por qual motivo apenas o Ocidente produziu a ciência?
A Índia antiga produziu grandes cirurgiões, mas não chegou a desenvolver a medicina científica; no século V, o indiano Arybhata sugeriu que a Terra gira entorno do seu eixo e ao redor do Sol, mas sua proposta não gerou debates como no Ocidente. Uso da Índia como primeiro exemplo, pois minha fonte inicial é Vishal Mngalwadi, erudito indiano convertido ao cristianismo. Segundo ele, a Índia, mesmo tendo uma riquíssima tradição histórica de intelectuais, não foi a precursora da ciência porque sua cosmovisão sustentava que o mundo visível não passava de uma ilusão, um sonho. Esse tipo de perspectiva levou tanto os sábios hindus quanto budistas a perder a motivação filosófica - eles buscavam um paraíso psicológico. A mesma busca se deu no Ocidente cristão até o século XVI, quando que "uma porção maior da cristandade teve condições de ler a Bíblia e a levou a sério" - daí em diante se espalhou o entendimento de que, por exemplo, a saída do Éden foi a perda de um paraíso literal, terrestre, e não apenas uma alegoria, como se pensava anteriormente. A paixão Ocidental pela ciência começou precisamente quando os cristãos dedicaram-se no resgate do mandato que Deus deu ao homem: que ele dominasse a natureza.

Os pioneiros da ciência acreditavam que o mundo natural era um reino real, não uma dimensão mágica, dominada por espíritos e demônios. Seu pressuposto era de que o mundo é inteligível, pois Deus o "criou de maneira racional, ordenada e regido por leis naturais" - o mundo não fora criado por uma divindade maligna para fazer a humanidade cair no engano através do contato com a "matéria impura". Os cristãos logo compreenderam que a matéria, tendo sido criada por Deus, não é maligna e que, portanto, é digna de ser estudada - daí começaram a se perceber como gerentes da Criação, podendo administrá-la para o benefício do futuro e da humanidade. Essa mentalidade nasceu com a crítica ao racionalismo aristotélico - o método científico presume que a lógica humana tem valor, mas que os fatos observador estão acima de suas conclusões particulares. Essa lógica é usada, por sua vez, para interpretar e encontrar sentido nos fatos - teorias são formuladas para entender o mundo. Essas teorias, porém, só são científicas se fazem predições quantitativas empiricamente verificáveis ou falseáveis. Para esse sistema funcionar, a ciência precisa de objetividade, de observação e de uma constante atitude cética.

Percepções panteístas impossibilitam o desenvolvimento científico, pois "se Deus e a natureza são um, então a natureza não tem um Legislador, nem há 'leis da natureza' para serem descobertas". Na percepção da natureza como Gaia, a ordem natural não é nada além de uma "dança" imprevisível, sem leis matemáticas quantificáveis. A China antiga também teve seus grande intelectuais e promoveu admiráveis descobertas e inventos, mas igualmente não pôde desenvolver a ciência. Segundo Alfred North Whitehead, a ciência originou-se diretamente do ensino bíblico de que o cosmo é produto da "racionalidade inteligível de um ser pessoal" - a China, portanto, não desenvolveu a ciência porque na maior parte da sua história não nutriu a firme convicção em um Criador todo-poderoso. A posição quanto ao pensamento chinês foi sustentada por Joseph Needhem, historiados marxista: após sua pesquisa, ele concluiu que "não havia boas razões geográficas, raciais, políticas ou econômicas para explicar o fracasso da China para desenvolver a ciência" - os chineses "não desenvolveram a ciência porque nunca lhes ocorreu que esta fosse possível".

Gregos, egípcios, chineses, indianos e muçulmanos pré-modernos nutriram incontáveis percepções da natureza, observando e catalogando fatos, desenvolvendo aptidões, acumulando e transmitindo conhecimento. O astrônomo, geógrafo e poeta grego Eratóstenes (276-196 a.C.), mediu a circunferência da Terra; Arquimedes (287-212 a.C.) desenvolveu princípios matemáticos sobre alavancas, polias e parafusos; Hiparco (190-120 a.C.) calculou o ano solar em 365 dias e 6 horas... mas, ainda assim, os antigos nunca geraram uma cultura da ciência. Ainda que tivessem observado atentamente o mundo natural, eles não se esforçaram para verificar empiricamente as suas explicações - na tentativa de explicar o mundo, eles se valeram da intuição, da lógica, dos mitos, do misticismo e do racionalismo, sem atentar para o empirismo. Por exemplo: a lógica baseada na intuição, de Aristóteles, afirmava que, se duas pedras fossem atiradas de um penhasco, a que tivesse o dobro do peso da outra cairia duas vezes mais rápido - nenhum estudioso aristotélico antigo chegou a testar empiricamente essa afirmação para constatá-la ou reprová-la, até que Galileu Galilei (1564-1642), tomando como fundamento a Bíblia, testou a afirmação e a reprovou.

Intuição, lógica, observação, experimentação, informação, técnica, especulação e a análise de textos imbuídos de autoridade são coisas que precedem o Século XVI, mas elas, por si mesmas, não podem constituir uma ciência sustentável. Foi só na Europa cristã que a astrologia se transformou em astronomia, que a alquimia virou química e que a matemática tomou o posto de linguagem da ciência - e isso só aconteceu nos séculos XVI e XVII, quando a cristandade ocidental levou a sério Gênesis 1:28. É lógico que Gênesis já era conhecido há milhares de anos quando a ciência propriamente dita passou a existir - a novidade dos séculos XVI e XVII, segundo Peter Harrison, foi uma leitura literal do relato, não alegórica:

"Apenas quando a narrativa da Criação foi despida de seus elementos simbólicos é que o mandamento de Deus a Adão pôde ser relacionado a atividades mundanas. Se o jardim do Éden fosse apenas uma alegoria sublime, tal como Fílon, Orígenes e mais tarde Hugo de São Vítor sugeriram, não haveria muito incentivo em tentar restabelecer um paraíso na terra. Se o mandamento de Deus a Adão de cultivar o jardim tivesse um significado primariamente simbólico, como Agostinho acreditava, então a ideia de que o homem deveria estabelecer o paraíso pela jardinagem e pela agricultura não teria tido o impacto que teve na mentalidade do século XVII."

2 - As limitações do pensamento grego antigo:
Primeiramente, a Bíblia não é um livro Europeu e, por esse motivo, dos séculos V ao XI, os eruditos europeus tinham a tendência de observar o mundo sob a ótica platônica. Segundo Platão, o Reino das Ideias é o mundo real e o mundo material não passa de uma sombra. Vishal Mangalwadi exemplifica Platão da seguinte forma: mesmo que as casas tenham grandes diferenças entre si, todas elas são consideradas "casa" porque são sombras da mesma "Ideia" do que é "casa" que existe no mundo real, não material ou espiritual das ideias. Cada objeto real pode ter um número incalculável de sombras no mundo material. Tendo esse princípio em mente, os eruditos medievais inicialmente estudavam a natureza da sombra para, acima de tudo, entender a realidade espiritual.

Essa influência grega propiciou a percepção de que o mundo material é inferior ao espiritual, apenas uma imagem transitória e decadente do mundo espiritual, eterno e imutável. A natureza era considerada basicamente um livro pictórico escrito por Deus para transmitir uma mensagem superior: todos os animais, plantas, rochas e fenômenos eram, sobretudo, símbolos destinados a nos levar a compreender melhor as realidades espirituais - eles observavam a formiga mais para extrair ensinamentos e virtudes do seu comportamento trabalhador, do que para compreendê-la como o ser que é em si mesma. O método alegórico foi incorporado justamente para extrair do mundo material, inferior, esses ensinamentos superiores. Esse método fora desenvolvido pelos filósofos gregos para auxiliar na interpretação dos seus poemas, mitos e das suas lendas, objetivando "higienizar narrativas moralmente problemáticas". Fílon, o judeu alexandrino, adotou o método hermenêutico alegórico para encontrar a filosofia grega no Antigo Testamento.

Os cristãos alexandrinos, seguindo o exemplo de Fílon, adotaram a alegoria para ler tanto a Bíblia quanto o mundo natural e, obviamente, essa postura prejudicou a compreensão da natureza. A ciência ocidental só passou a existir quando a Bíblia começou a ser lida literalmente, sem ser obscurecida pela alegoria - a ciência desabrochou quando as Escrituras e a natureza passaram a ler lidas objetiva ou indutivamente, com o objetivo de descobrir a mensagem que traziam por elas mesmas. Segundo Peter Harrison, a ciência só veio a ser tornar "revolução" porque os Reformadores protestantes insistiram que a palavra de Deus inserida na Bíblia e na natureza deve ser interceptada de maneira literal. Os teólogos católicos estabeleceram as bases da ciência nos séculos XIII e XIV e a Reforma estabeleceu a autoridade intelectual da Bíblia e disseminou na cultura popular os ensinamentos da Palavra a respeito de Deus, da criação, do homem, do pecado, da salvação, do conhecimento, da educação e do sacerdócio universal de todos os crentes - ideias cruciais para a Revolução Científica.

Segundo Rodney Stark, 50 dos 52 mais importantes cientistas que foram pioneiros na Revolução Científica eram cristãos. 60% dos homens que criaram a ciência foram cristãos devotos - os demais eram "cristãos nominais". 

3 - A ciência e a Bíblia:
 Ainda que Tomás de Aquino e Roger Bacon tenham sido os responsáveis pelas base do pensamento científico, os fundadores do método científico foram Francis Bacon (1561-1626) e Galileu Galilei (1564-1642), confiando mais na observação empírica do que na lógica ou autoridade humana. Os dois intelectuais cristãos defendiam a acurada leitura dos "dois livros de Deus", a Bíblia e a natureza. Sobre isso, Francis Bacon declarou:

"Pois nosso Salvador disse: 'Vós errais não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus' (Mt 22:29), deixando-nos livres para estudar, se quisermos nos livrar do erro: primeiro, as Escrituras, que revelam a vontade de Deus, e depois as criaturas [ciência natural], que expressam seu poder, sendo o último uma chave para o primeiro: não apenas abrindo o nosso entendimento para conceber o verdadeiro sentido das Escrituras pelas noções gerais da razão e das regras do discurso, mas principalmente por abrir nossa crença, ao nos fazer meditar sobre a onipotência de Deus, que está assinada e esculpida principalmente em suas obras."

Galileu Galilei também declara algo nesse sentido:

"Pois a Bíblia Sagrada e os fenômenos da natureza procedem igualmente da palavra divina, a primeira, dita pelo Espírito Santo, e os últimos como executores obedientes do mandamento de Deus."

Os Estados Unidos da América, como afirma a Declaração de Independência, 1776, foram fundados sobre as "leis da natureza e da natureza de Deus". A abertura intelectual do Ocidente se deu, fundamentalmente, por uma teologia resultante da aproximação da Bíblia e do afastamento de Platão e do Islã. Os nomalistas medievais perceberam que "a doutrina de Deus faz mais sentido que uma lógica subserviente à observação empírica" - ao evitarem a heresia averroísta de pensar que Deus agiu de acordo com uma necessidade intrínseca, sendo a criação um ato totalmente livre do Criador, que configurou a natureza conforme o Seu desejo, descobriram que a ordem do universo não pode ser conhecida por dedução de quaisquer princípios, mas apenas por observação e por revelação. Dessa forma, os nomalistas constataram que o mundo físico só poder ser discernido de modo empírico - Deus poderia fazer tudo o que desejasse independente de qualquer ordem racional que pudesse guiar a mente humana em suas predições, de modo que nada pode ser previsível em absoluto. 

Os filósofos gregos, como Aristóteles e Platão, fitaram a natureza para vislumbrar verdades metafísicas universais, trabalhando de modo abstrato e dedutivo, disso oferecendo conclusões que se tornaram pressuposições "a priori" de gerações futuras, vindo a acorrentar a mentalidade europeia, que só foi solta quando a doutrina da liberdade de Deus foi discernida com base na Bíblia, propiciando o método científico. Além disso, a percepção da natureza boa do mundo material criado por Deus, tornou o elemento material digno de ser estudado. Disso, Vishal Mangalwadi conclui: "A ciência é um estudo objetivo ('secular') das leis da natureza por causa de sua inspiração bíblica como criação de Deus, não apesar disso." A ciência não veio a existir sobre a pressuposição de um materialismo sem Deus.

Até mesmo as teologias bíblicas do Pecado, da Queda e da Salvação influenciaram o desenvolvimento inicial da ciência. Diante da percepção dos males que afligem o homem e o mundo, a conclusão mais óbvia dos antigos, especialmente dos gnósticos, foi a de que a matéria é inerentemente má, de modo que Deus não pode encarnar-Se num corpo humano. O Novo Testamento, em especial João, refuta com poder essa percepção gnóstica e, concordando com o Antigo Testamento, deixa claro que a matéria é boa. Movimentos influenciados por filosofias orientais observam os problemas físicos como meramente ilusórios, enquanto a Palavra os apresenta como problemas reais, resultantes da rebelião de Adão e Eva - a desordem do mundo natural veio a dificultar o mandato humano de domínio da natureza. Essa compreensão, apoiada no sacrifício expiatório de Cristo e na Sua ressurreição, fez o homem compreender que pode vir a restaurar a si mesmo através da entrega ao Salvador e ao mundo através das artes e das ciências, conforme declara Francis Bacon.

Quando a Bíblia começou a ser entendida com mais profundidade, se observou que Adão e Eva conheceram a natureza tal como ela era antes da Queda e que a Queda resultou na perda do conhecimento da natureza, de modo que, para recuperar a imagem do Criador, era necessário ao homem ter a mente renovada e, redescobrindo o mundo, iniciar a sua restauração para a unidade original, isso através do domínio e do controle da natureza.

Mosteiros budistas e hinduístas até hoje não ensinam ciência, mas as universidades europeias - originadas da própria Igreja - a desenvolveram e a divulgam. Por qual motivo isso acontece? Os estudiosos bíblicos aprenderam há muito tempo que a leitura do "livro da natureza" era mais importante do que a análise de livros em grego e em latim - estes foram escritos por homens, mas o primeiro foi escrito pelo próprio Deus. Paracelso disse que o livro da natureza deveria ser lido com mais atenção e proeminência do que as obras de Galeno, Avicena e Aristóteles, pois ao primeiro "Deus mesmo fez, escreveu e encadernou". Houve até os que ousaram afirmar que o estudo da natureza deve preceder o das próprias Escrituras.

Muitos filósofos e cientistas de hoje aproximam-se do niilismo, pois duvidam da possibilidade de se encontrar respostas para as "grandes questões" da humanidade. Quase todos os fundadores da ciência, porém, acreditavam que as "grandes questões" já estavam devidamente respondidas nas Escrituras e que a sua função, dada por Deus, era de estudar as "questões pequenas e específicas" da natureza - como eram e funcionavam, como poderiam ser dominadas para o proveito do homem. Nesse sentido, eles não usavam do método científico para encontrar a Verdade sobre tudo, pois eles estavam convictos que as verdades centrais já estavam reveladas na Palavra - seu método existia para conhecer os seres e fenômenos e, com isso, recuperar o conhecimento e o domínio do homem sobre a natureza.
Fonte: O Livro que Fez o Seu Mundo, Vishal Mangalwadi, Vida, 2013, pgs 259-276, 281-287.

4 - Os muçulmanos e a ciência:
Sendo direto, conforme aquilo que define ciência, podemos afirmar que o Islã não produziu ou desenvolveu a ciência. Mas precisamos ser honestos quanto ao legado muçulmano para o posterior advento da Revolução Científica. 

A Europa Ocidental perdeu quase todos os seus registros da Cultura Clássica quando o Império Romano do Ocidente finalmente foi arruinado - muito do que sobrou foi resgatado e copiado por monges em mosteiros isolados, protegidos dos bárbaros, especialmente os monges da Irlanda que, segundo Thomas Cahill, salvaram a Civilização Ocidental (Como os Irlandeses Salvaram a Civilização Ocidental, Thomas Cahill, Objetiva, 1999) -, havendo uma quantidade significativa de material depositada em cidades antigas do Norte da África, da Ásia Menor e do Oriente Médio - regiões que os maometanos vieram a conquistar em suas campanhas iniciais, confiscando esses documentos gregos e latinos. Outra fonte considerável de manuscritos clássicos o Islã encontrou na Igreja Oriental, que preservara e copiara as obras gregas. Do grego, os muçulmanos passaram esses documentos para o árabe e, com base neles, desenvolveram significativos avanços na astronomia, na medicina, na alquimia e na tecnologia. Quando o mundo muçulmano estava no seu período dourado (séculos VIII ao XIII), sendo muito maior do que a Europa cristã e estando bastante adiantado no desenvolvimento do conhecimento, diversas escolas, observatórios e bibliotecas foram fundadas, assim como hospitais e hospitais-escola. Já no século VIII, o califado de Abbasid montou uma magnífica biblioteca em Bagdá. Ao incorporarem o uso do papel, mais barato, bibliotecas imensas foram fundadas na vastidão das suas terras, como a de Córdoba, com aproximadamente 400 mil volumes. Até o século XVI, os maiores centros na arte de produção de livros ficavam em Herat, Afeganistão, em Tabriz e Shiraz, Irã. A arte da caligrafia se tornou tão importante para os muçulmanos, que eles resistiram ao uso da imprensa, mantendo mais de 100 mil copistas para o abastecimento das bibliotecas e dos estudiosos. Obviamente essa resistência cobrou um preço. 

Com os avanços muçulmanos dentro da Europa cristã, com a conquista de Portugal e Espanha, principalmente, esses manuscritos árabes que continham o conhecimento clássico foram sendo apresentados aos europeus. Ao longo dos séculos, muitos estudantes universitários da Europa compravam material muçulmano para o seu enriquecimento técnico e filosófico. Ainda assim, foi a Europa cristã, e não o mundo muçulmano, que produziu e desenvolveu a ciência. Por qual motivo isso aconteceu?

Primeiramente, o fracasso dos muçulmanos medievais no desenvolvimento da ciência se deve à sua postura acrítica ao pensamento grego. Nos séculos XII e XIII, a pseudociência grego-islâmica quase tragou o Ocidente - o que salvou a Europa da cosmovisão grega, incompatível com a Bíblia, foi a sua leitura das Escrituras. Mesmo que o Islã creia num Criador todo-poderoso, faltou-lhes a Bíblia - ainda que Maomé tenha declarado a Bíblia como divinamente inspirada, ela só é lida pelos maometanos para ser criticada. 

Por volta do século X, os compiladores de uma obra islâmica, Rasa'il, abraçaram a ideia grega de que o mundo é Gaia, abrindo caminho para percepções panteístas, cíclicas, animistas e mágicas, que vieram a permear a cosmovisão islâmica, infectando o Islã com a perspectiva platônica de que o mundo é compreensível a partir das formas eternas dos seus objetos. Para o grego, conhecer algo é conhecer a sua forma e, concebendo a forma, se discerne a essência, culminando em conclusões definitivas, que não se mudam pela experiência. O necessitarianismo metafísico aristotélico e islâmico tornou desnecessária a verificação empírica do "conhecimento verdadeiro". Os mais destacados filósofos muçulmanos medievais, como Avicena (980-1037) e Averróis (1128-1198), acabaram se tornando inflexíveis defensores de Aristóteles, tendo as suas ideias como completas e infalíveis - a observação que contradissesse Aristóteles estaria, de pronto, errada.

Os teólogos europeus também estudaram todos os grandes livros, recebendo e valorizando o conhecimento grego, mesmo que ele viesse por meio dos muçulmanos. A diferença é que os europeus, tendo um compromisso com a Bíblia, se colocavam a criticar as posições gregas quando elas contradiziam as Escrituras. A sua cosmovisão bíblica se desenvolveu sobre Aristóteles, purificando a sua confiança na razão humana da influência animista e fortalecendo-a ao fundamentá-la na imagem de Deus. Sobre isso, M. B. Foster declarou:

"A primeira grande contribuição da teologia cristã ao desenvolvimento da moderna ciência natural foi o fortalecimento que ela forneceu ao elemento científico do próprio Aristóteles; em particular, forneceu uma justificativa para a fé, que para Aristóteles era um pressuposto sem base, já que a razão na natureza pode ser descoberta pelo exercício da razão no homem. O elemento 'racionalista' na filosofia da natureza de Aristóteles era incoerente com o 'animismo'que ele manteve lado a lado com aquele. Esse animismo é completamente incompatível com a doutrina cristã, e precisou ser completamente eliminado de qualquer teoria da natureza que pretendia ser coerente com uma teologia cristã."

As conquistas de Alexandre, o Grande, alastraram as ideias gregas para lugares muito distantes, como a Índia, mas em diversas culturas, o animismo, o gnosticismo e o misticismo suprimiram a razão e a evidência. A Bíblia, por sua vez, reforçou a confiança dos gregos na mente humana e removeu a irracionalidade do animismo. Ainda segundo Foster, o nascimento da ciência se deve mais a discordância de Aristóteles do que a concordância sobre a utilidade da razão - essa discordância, aponta ele, são os elementos não-gregos, ou seja, bíblicos, a que os teólogos medievais recorrerem em sua crítica ao pensamento helenístico.

Dentre os elementos não-gregos, ou bíblicos, que favoreceram o advento da ciência, está a percepção de que o cosmos não é eterno e de que Deus não faz parte do universo - estando Ele fora da matéria e sendo livre para criar qualquer coisa, também não existem formas eternas. Intelectuais como Alberto Magno (1206-1280) introduziram a ciência e a filosofia árabes no mundo medieval e as criticaram, compreendendo que o necessitarianismo de Aristóteles contradizia a liberdade e a onipotência de Deus - pela dedução filosófica, se pressupunha o que o Criador precisava ou não realizar. No Concílio Eclesiástico de 1277, foi rejeitada formalmente a ideia grego-islâmica do que "Deus pode ou não pode fazer" - a crença na liberdade total de Deus acabou por se tornar um dos pilares do método científico: precisamos observar o que Deus fez, não presumir o que ele poderia ou não poderia fazer.

A posição do Concílio de 1277, conclamado pelo bispo de Paris, Etienne Tempier, e pelo arcebispo da Cantuária, Robert Kilwardby, foi reforçada por uma crítica ainda mais forte, realizada pelos teólogos franciscanos nomalistas, como William de Ockham (1285-1349). Ockham, através do princípio da "Navalha de Ockham", derrubou a perspectiva aristotélico-muçulmana, fundamentando a lei natural e todos os valores éticos na vontade de Deus, não na necessidade metafísica ou nas formas. O defensor de Ockham, Pierre d'Ailly (1350-1420), influenciou Martinho Lutero e Zwinglio, levando a perspectiva de Ockham sobre a Bíblia para a Reforma Protestante e, assim, estimulando a ciência empírica.

O fato é que o empenho muçulmano no desenvolvimento do conhecimento e das tecnologias perdeu fôlego. O tipo de pesquisa científica que os maometanos desenvolveram entrou em declínio por  intermédio, principalmente, de mudanças políticas: o conhecimento floresceu em tempos de paz e prosperidade, vindo a enfraquecer quando os recursos foram canalizados para a defesa e a agricultura. A situação piorou quando os europeus requisitaram o Novo Mundo, aquecendo o comércio e a riqueza, levando os governantes muçulmanos a perder a sua proeminência global. Outra causa do declínio do conhecimento entre os maometanos se deu por seu sistema de organização social: os muçulmanos favoreciam, em suas escolas, a transmissão do conhecimento local, de um estudioso para o outro ou em pequenos grupos, estimulando a estabilidade. As universidades europeias, por sua vez, sustentavam o debate acadêmico, pautado no desafio e na subversão do conhecimento estabelecido, atividade que os maometanos ortodoxos tinham como herética, já que valorizavam a aprendizagem como meio de aperfeiçoamento espiritual.
Fontes: O Livro da Ciência, GloboLivros, 2014, pgs 13-14; Uma Breve História da Ciência, Ronei Clécio Mocellin, Nova Didática, 2000, pgs 34-35; Uma Breve História da Ciência, Patricia Fara, Fundamento, 2014, pgs 69-76; O Livro, Uma História Viva, Martyn Lyons, 2011, pgs 47-49; O Livro que Fez o Seu Mundo, Vishal Mangalwadi, Vida, 2013, pgs 277-281.

Conclusão:
É comum ouvir ou lermos que o cristianismo apenas obscureceu a ciência, atrasando-a, mas, como vimos, aconteceu justamente o oposto! A única civilização do mundo a ter desenvolvido por conta a ciência foi justamente aquela que orbitava entorno da Igreja e da Bíblia. Também é comum nos depararmos com o argumento de que os muçulmanos foram muito mais longe do que os cristãos no desenvolvimento científico e que, se não fosse o seu declínio, hoje estaríamos muito mais desenvolvidos, o que também não é verdade. É claro que a produção de tecnologias mais primitivas não necessariamente depende de uma visão de mundo pautada na ciência, mas muito do que temos hoje, que faz parte das nossas vidas diárias, é fruto direto de uma visão científica de mundo, que critica, que observa, que experimenta, que tem o mundo material como bom, útil, e dominável para o bem da própria natureza e do homem. A visão grego-islâmica de mundo não foi a causa do desenvolvimento tecnológico os maometanos, mas ela certamente limitaria avanços mais profundos se não fosse contestada e suprimida, na Europa, pela percepção bíblica de mundo. Bastaram apenas alguns séculos depois de a Palavra começar a ser lida e entendida literalmente para termos a ciência como "revolução", para presenciarmos o incrível momento histórico conhecido como Revolução Científica.

Leve na mente algumas questões sobre o artigo:
- Ao contrário do que muitos dizem, a filosofia grega provavelmente não levaria o homem aos avanços científicos que presenciamos na história dos últimos séculos.
- A Bíblia foi a peça fundamental para o esclarecimento, aperfeiçoamento e purificação do pensamento grego. O pensamento grego, por si só, não produziu ciência, pois ele se alastrou no mundo muçulmano e até a Índia e a ciência só veio a existir na Europa, onde havia uma forte tradição cristã.
- Os fundadores da ciência não a percebiam como fonte de autoridade para se descobrir a verdade sobre tudo. A teologia mantinha seu posto central no tratamento das "grandes questões" e a ciência se ocupava com as "pequenas", restritas mais ao funcionamento dos elementos e o seu domínio.

Natanael Pedro Castoldi

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Revisitando o Julgamento de Galileu Galilei

-> Apresentação e Índice
Infelizmente, o caso de Galileu Galilei entrou para a história como um trunfo contra a Igreja e em favor de uma cisão entre a ciência e a religião. Com o estímulo da propaganda anticristã Iluminista, a verdade dos fatos sobre o julgamento do grande cientista foi distorcida e a distorção acabou ocupando o lugar dos eventos reais, adentrando nos livros didáticos, revistas e até mesmo em documentários. A história de que Galileu foi torturado e morto pela Igreja, "inimiga da ciência", se enraizou de tal modo no imaginário popular que, segundo uma pesquisa realizada pelo Conselho da Europa com estudantes de ciências de todo o Continente, 30% dos acadêmicos acreditavam na morte do cientista na fogueira e 97% imaginavam que ele fora torturado. De fato é esse tipo de impressão que os artistas eternizaram ao longo de três séculos de pinturas sobre o julgamento do astrônomo. A verdade é que Galileu não foi aprisionado numa cela, não foi torturado e, muito menos, morto na fogueira. João Paulo II, em 1981, nomeou uma qualificada equipe para a análise profunda e rigorosa do julgamento de que falamos e, após onze anos de estudos, todo o processo foi devidamente esclarecido, abrindo um fecundo campo de debates sobre a questão. Hoje é possível estabelecer com elevado grau de certeza o que de fato aconteceu com Galileu Galilei.

1 - Precedentes e resumo dos fatos:
Galileu Galilei, nascido em Pisa no ano de 1564, tornou-se um homem de temperamento difícil. Por volta dos 25 anos, depois de nomeado assistente de matemática na Universidade de Pisa, redigiu um panfleto contra os seus colegas e foi agressivo num debate contra uma pessoa próxima ao grão-duque, tornando-se em "persona non grata". Esse último acontecimento obrigou-o a sair da Universidade de Pisa. Protegido do cardeal Guidobaldo del Monte, Galileu conseguiu a cátedra da Universidade de Pádua.

Durante seu tempo em Pádua, Galileu encontrou uma luneta holandesa e fabricou um exemplar mais potente. Com ela realizou extensas observações da Lua, suas crateras e montes, da superfície do Sol, de luas de Júpiter, da observação de Saturno e de diversos outros pontos da Via Láctea. Ao observar Vênus, percebeu a existência de fases como as da Lua e concebeu que a sua órbita estava centrada no Sol, não na Terra, em concordância com Copérnico, clérigo cristão que cogitou no heliocentrismo anteriormente. Galileu produziu e publicou um folheto com suas constatações, "O mensageiro celeste", dedicado ao seu antigo aluno Cosme II de Médicis, grão-duque da Toscana no momento. Quando o grão-duque soube que Galileu nomeara as luas de Júpiter de "satélites medicianos", presenteou-o com um colar de ouro e uma medalha. Sob influência do grão-duque, o astrônomo também foi nomeado primeiro-matemático da Universidade de Pisa. Esse cargo não exigia que morasse em Pisa e nem lecionasse, podendo permanecer em Pádua com sua elevada renda, mas a insaciável sede por reconhecimento fez Galilei retornar para Pisa. Ele queria ser admitido nos círculos dos sábios e frequentar o ambiente das autoridades eclesiásticas, e sabia que, caso viesse a comprovar a tese de Copérnico, jamais cairia no esquecimento.

O problema é que, em 1619, a obra de Copérnico fora incluída no Index, levando Galileu a agir com cautela. Somente quando o seu amigo, o cardeal Maffeo Barberini se tornou o papa Urbano VIII, o astrônomo sentiu-se seguro para o desenvolvimento de suas teses. O pontífice recebeu-o com honrarias e o cientista aproveitou para apresentar o projeto de uma obra polêmica, que exporia as teses (a de Copérnico e a vigente na época, a aristotélica) sobre o regimento dos planetas através do colóquio entre três amigos. O papa permitiu a publicação do opúsculo, mas exigiu que nenhum dos lados fosse favorecido. O problema é que, na obra ("Diálogo sobre os dois grandes sistemas do mundo"), o defensor do antigo sistema chama-se Simplício ("simples") e defende seu ponto desferindo os mesmos argumentos que o papa. Além disso, Galileu fez uso de um estratagema para obter o "imprimatur", que é a declaração eclesiástica de que uma obra não vai contra os pilares da Igreja, submetendo apenas uma parte dela para a censura. Descumprindo a promessa feita ao papa, o cientista se coloca abertamente ao lado de Copérnico. 

Apesar de tudo isso - de ter sido comparado ao "simples" (Simplício) e de Galileu defender Copérnico -, o papa estava disposto a perdoar, mas havia algo entre ele e o sábio: a Congregação do Santo Ofício, o Tribunal da Inquisição. Mesmo evitando demonstrar fraqueza, Urbano VIII procurou auxiliar Galileu da melhor forma, encarregando uma comissão de teólogos para examinar a sua obra na esperança de que ele fosse absolvido. Não foi o que aconteceu e Galileu precisou passar pelo julgamento.

O papa Urbano VIII, embora cético quanto a capacidade humana de desvendar os segredos do Cosmos, era amigo de Galileu. Leandro Narloch explica o processo com mais detalhes: o papa permitiu a publicação do livro do astrônomo com a condição de que o heliocentrismo e o geocentrismo foram tratados apenas como teorias, e representantes da Inquisição, depois de analisarem o texto e proporem algumas emendas, chegaram a recomendar a publicação. Galileu, porém, manteve a versão favorável ao heliocentrismo, pelo que foi repreendido pelo papa e, um ano depois de publicado o livro, chamado para o Tribunal da Inquisição, em Roma.

Em Roma, na Basílica de Santa Maria della Minerva, no dia 22 de junho de 1633, Galileu recebeu seu veredicto: sua obra não poderia ser publicada, ele seria preso e deveria abjurar os seus erros. Mesmo se disponibilizando a ensinar apenas o geocentrismo, Galileu Galilei foi tido como suspeito de heresia e, condenado à prisão na sede do Santo Ofício, passou por um "exame rigoroso" de suas crenças, o que foi erroneamente entendido como "tortura" - cópias dessa condenação espalharam-se pela Europa, consolidando a crença de que ele fora, de fato, torturado. Voltaire ajudou a solidificar essa percepção. De fato, Galileu padeceu algum nível de humilhação, mas jamais fora torturado - os modos comuns de tortura eram severos demais para alguém com 69 anos e como Galileu sobreviveu sem sequelas, não pode ter sofrido flagelos. As próprias normas da Inquisição livravam idosos, crianças, doentes e mulheres grávidas da tortura - Galileu era velho e sofria de artrite e hérnia. O grande astrônomo não padeceu maus-tratos.

A sentença foi dada - vários juízes e o próprio papa se negaram a subscrevê-la: o astrônomo iria cumprir pena em prisão domiciliar, por consideração do papa. A prisão de Galileu começou no palácio renascentista do embaixador de Florença, seguiu para os aposentos de um oficial e para a casa do arcebispo Piccolomini - ele nunca ficou um dia numa cela comum. Viveu em palácios de amigos, alguns da alta hierarquia católica, e, por fim, na própria casa. Durante esse tempo, segundo Alfonso Aguiló, ele teve a liberdade de continuar a trabalhar na sua ciência, de receber visitas e de publicar as suas obras. Assim foi até a sua morte natural. Segundo seu discípulo e biógrafo, Vicenzo Viviani, Galileu morreu com firmeza filosófica e cristã aos 77 anos de idade, pacificamente em casa (Arcetri, perto de Florença), na sua cama, depois de ter recebido indulgência plenária e a bênção do papa - segundo ele, o astrônomo viveu e morreu como um bom cristão. Ao contrário do que se faz parecer hoje, o julgamento do cientista foi feito com relativa mansidão.
Fonte: Revista História Viva, nº 45, Eles Mudaram o Mundo, pgs 28-31; Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo, Leandro Narloch, LeYa, 2013, pgs 80-81; Luzes e Sombras na Igreja, Alfonso Aguiló, Quadrante, 2011, pgs 44-45.

2 - O pensamento da época:
Um dos maiores erros com relação do caso de Galileu está em pensar que na sua época havia um grande atrito entre os cientistas, "detentores da razão", e os clérigos, "amantes dos dogmas". Na verdade, havia cientistas que defendiam dogmas e clérigos profundamente apegados ao pensamento científico - inclusive monges cientistas. É interessante observar, por exemplo, que os cientistas da época chegaram a desenvolver complexos cálculos para saber quando Jesus voltaria. Em oposição ao que Galileu e Copérnico defendiam não estava apenas a classe sacerdotal, mas toda uma classe científica secular, e ao lado de Copérnico e Galileu se encontravam muitos abades, freis, monges, padres, bispos, cardeais e até o papa.

O fato é que o heliocentrismo de Copérnico já tinha quase dois mil anos quando proibido pela Igreja. Aristarco, séc. 3 a.C., propôs a teoria de que o Sol estava no centro do Universo e de que a Terra girava entorno de si própria e entorno dele. Mas desde a Grécia Antiga essa percepção fora rejeitada por uma série de observações da época. Vigorou a percepção aristotélica de mundo, com a Terra ao centro, e tal filosofia se encontrava ainda bastante rígida nos dias de Galileu, sendo defendida pela maioria dos sacerdotes e cientistas seculares.

Quando o astrônomo observou que Copérnico estava certo, toda uma teologia entorno da necessidade de a Terra estar no centro do Universo, que sustentava a ideia de o homem ser o projeto central de Deus, se abalou. A cosmovisão predominante há diversos séculos estava sendo agredida. Alfonso Aguiló lamenta que interpretações errôneas do texto bíblico, considerado literalmente quando deveria ser entendido poeticamente, tenham dado sustentação para paradigmas inquestionáveis. É por isso que a maior parte dos astrônomos da época de Galileu preferiu não tomar partido, como Tycho Brahe e William Gilbert, sugerindo teorias bastante peculiares - Tycho, astrônomo mais famoso daqueles dias, dizia que os planetas se moviam entorno do Sol, mas que o Sol e a Lua giravam ao redor da Terra, que estava fixa no centro do Universo; Gilbert não engolia a ideia do movimento de translação do nosso planeta. Mas o próprio Galileu não era de todo razoável - por exemplo, fez pouco das análises de Johannes Kepler, que mais tarde se mostraram verazes, como a órbita elíptica dos planetas. Considere que na época não havia uma divisão muito clara entre ciência, misticismo e imaginação fértil - Galileu chegou a calcular o tamanho do Diabo, baseado nas descrições de Dante Alighieri. O famoso astrônomo também eram considerado um bom astrólogo. A astronomia estava começando a se tornar independente da astrologia e a química estava se separando da alquimia, que visava, sobretudo, transformar metais comuns em ouro. É interessante notar que Isaac Newton, um século depois, foi ridicularizado pelos mais brilhantes matemáticos ao afirmar que a força de atração é proporcional à massa dos corpos - ele foi acusado de acreditar em magias e milagres.

Diversos cientistas e filósofos se colocaram em franca oposição ao heliocentrismo. Muitos chegaram a duvidar das próprias observações no telescópio: segundo Cesare Cremonini, mais destacado filósofo naturalista da Universidade de Pádua, as imagens que apareciam no telescópio de Galileu Galilei eram ilusão de ótica. Giovanni Magini, matemático da Universidade de Bolonha, também não confiava nas imagens do telescópio. Martin Horky, discípulo de Magini, escreveu um livro inteiro para atacar as ideias do astrônomo italiano - chegou a dizer que Galileu se preocupou em anunciar a descoberta dos satélites de Júpiter apenas por interesse financeiro, criticou a sua aparência e afirmou que o telescópio do astrônomo era uma fraude. Dentre os ataques sofridos por Galileu na época, o mais sólido foi escrito pelo filósofo, poeta e matemático Ludovico delle Colombe, e publicado no livro "Contra o Movimento da Terra", no qual considera a teoria de Copérnico "perigosa" e "louca". Um dos argumentos desferidos contra as observações de Galileu foi o de que a Lua, embora aparente ter montanhas e crateras, continuava a ser uma esfera perfeita, como previa a filosofia aristotélica: uma camada cristalina cobria todo o seu relevo. Foram Colombe e Francesco Sizzi, filósofos e não sacerdotes, os maiores responsáveis por acusar o heliocentrismo perante a teologia e, com isso, alimentar a controvérsia. Textos como o de Salmos 104:5 foram apontados para desqualificar a tese defendida por Galileu. É claro que o astrônomo italiano, considerando o seu temperamento, não fugiu da briga e não evitou ridicularizar seus adversários.

Além de o pensamento aristotélico estar consolidado no ambiente eclesiástico e secular há muitos séculos, havia forte resistência à mudanças da parte dos professores de astronomia da época, em geral pouco qualificados, já que astronomia era uma disciplina básica que fazia parte dos cursos introdutórios, ensinada somente até o nível elementar. As percepções de Galileu ameaçavam aquilo que esses professores ensinavam e tinham o potencial de minar a sua posição na comunidade acadêmica. Se já não bastasse essa posição dos acadêmicos, Galileu e outros matemáticos da época desrespeitavam a hierarquia das artes liberais demonstrando as suas descobertas para além dos modelos matemáticos, descrevendo-as dentro dos parâmetros físicos de mundo, coisa que cabia apenas aos filósofos - a matemática era observada como uma disciplina inferior.

Segundo o historiador Stillman Drake, autor de 130 livros e estudos sobre Galileu, é estranho que os historiadores ainda hoje prefiram culpar os teólogos no lugar dos filósofos no caso de Galileu Galilei, sendo que foram os filósofos aqueles que exigiram a intervenção dos teólogos.

3 - Galileu e a Igreja:
Sem conseguir persuadir os astrônomos e filósofos, o cientista italiano recorreu ao Colégio Romano, grande centro astronômico do século XVII e fundado pelos jesuítas. Dentre os seus eminentes membros estava o padre Clávio, considerado por alguns como sendo o maior matemático da época. Galileu manteve bastante contato com Clávio e foi convencendo-o aos poucos, através das observações telescópicas, da tese que defendia. Em abril de 1611, o Colégio Romano homenageou o grande astrônomo, quando o jesuíta Odon van Maelcot disse que Galileu era "digno de ser citado entre os astrônomos mais célebres e felizes".

Ainda assim, o debate teológico acerca do pensamento de Copérnico se acirrava. Houve filósofos, cientistas seculares e sacerdotes contra e a favor de Galileu. Em 1584, o eremita agostiniano, Diego Zúñiga, professor de teologia na Universidade de Salamanca, já havia utilizado de Jó 9:6 para fundamentar a ideia de que a Terra se movia. O teólogo carmelita Paolo Antonio Foscarini defendeu a ideia de que, se a observação sustentasse o movimento da Terra, o certo era conciliar a interpretação bíblica com a natureza. O debate teológico estava em desenvolvimento e Galileu decidiu participar dele.

Mesmo afirmando que a natureza trazia mais verdades sobre Deus do que a Letra Sagrada, Galileu era um bom católico e sabia dividir bem as coisas terrenas e espirituais. A percepção de que a Bíblia nem sempre precisava ser interpretada literalmente, pois muitas vezes fazia uso de linguagem poética ou utilizava de percepções mais antigas, compatíveis com os povos do passado, havia sido trabalhada e defendida por gente como Tomás de Aquino, no século XIII, que percebeu que as ideias de Aristóteles sobre a perfeição e eternidade dos astros iam contra princípios cristãos. O astrônomo italiano em momento algum lutou contra a Igreja, mas se esforçou para torná-la mais aberta às descobertas. A verdade é que Galileu, segundo Stillman Drake, "se sentiu compelido a fazer tudo o que podia para prevenir um erro por parte da Igreja que poderia colocar a sabedoria dela em descrédito". Acerca disso, Leandro Narloch conclui que Galileu "deixa de ser um inimigo e passa a ser fruto da melhor tradição do catolicismo."

É fácil compreender, ao menos em parte, a reação da Igreja aos posicionamentos de Galileu, tanto seu comportamento quanto as suas ideias: a Reforma Protestante tinha se alastrado para quase todo o Norte da Europa, ameaçando a Igreja Católica Apostólica Romana em quase todos os sentidos - números, territórios, poder, prestígio... Como reação, foi convocado o Concílio de Trento, que reafirmou a autoridade do papa, ampliou a luta contra os hereges e firmou a ICAR como a autoridade máxima na interpretação da Bíblia. Diante desse quadro, a oposição ao tradicional sistema aristotélico era a última coisa que a Igreja desejava, e um conflito teológico, encabeçado pelas ideias de um único astrônomo, que chegou a zombar do papa, apenas dificultava as coisas. Foi justamente nesse período turbulento que os textos de Copérnico e de outras influências de Galileu foram banidos. Com a Contrarreforma, houve um recuo teológico e os filósofos, matemáticos e sacerdotes de maior prestígio se posicionavam contra a nova astronomia.

Essa mudança de postura, por advento da Contrarreforma, é melhor entendida quando percebemos que as ideias de Copérnico, algumas décadas antes, foram recebidas com entusiasmo pelo papa Clemente VII e por outras autoridades eclesiásticas.

Em 1741, o erro do tribunal que julgou Galileu Galilei fora reconhecido e Bento XIV ordenou que o Santo Ofício desse o imprimatur à primeira edição das obras completas do astrônomo. Em 1822, a sentença errônea foi reformada sob o aval do papa Pio VII.
Fontes: Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo, Leandro Narloch, LeYa, 2013, pgs 65-83; Luzes e Sombras na Igreja, Alfonso Aguiló, Quadrante, 2011, pgs 40-46.

Conclusão:
Uma das piores formas de analisar o passado é vê-lo com os olhos do presente. O cientista do século XVI não entra nas mesmas definições do cientista do século XXI, assim como o sacerdote. Uma característica essencial da ciência é a mutação: ela sempre se movimenta e se altera, de modo que é incoerente avaliar a relação entre a ciência e a religião no passado com base naquilo que a ciência é hoje. Infelizmente, a história tem sido constantemente reescrita para favorecer determinados grupos e ideologias. Não caiamos no erro de pensar no passado apenas como ferramente de combate para as militâncias de hoje e isso serve tanto para os cristãos quanto para os seus inimigos intelectuais.

Se fizermos uso dos critérios frouxos que colocam Galileu como representante da razão contra uma Igreja "irracional" por matar cientistas, seríamos obrigados a ver a Revolução Francesa, tida como centrada na deusa Razão, como inimiga do conhecimento, pois nela fora guilhotinado, por exemplo, o francês protagonista da revolução científica da química no seu tempo, Antoine Laurent Lavoisier - naquela mesma ocasião, o presidente do tribunal declarou que "a República não precisa de sábios".
Fonte: Luzes e Sombras na Igreja, Alfonso Aguiló, Quadrante, 2011, pg 41.

Natanael Pedro Castoldi

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Algumas Notas Sobre a Inquisição

O tópico "Inquisição" rotineiramente aparece nos diálogos no ambiente acadêmico e circulando na internet. Geralmente quando se fala da Inquisição em ambientes seculares o que predomina é a desinformação, um desprezo enorme pelas fontes e pelo trabalho de historiadores competentes, que são substituídos por matérias de revistas tendenciosas, imagens mal-intencionadas e livros didáticos de Ensino Fundamental e Médio, todos baseados essencialmente em mitos forjados e disseminados pelos Iluministas e outros opositores da Igreja Católica Romana - eu, mesmo não sendo católico, me entristeço com essa forçada panfletagem da parte de muitos protestantes. É claro que algo do que se prega hoje sobre a Inquisição é veraz, é evidente que a Inquisição não deveria ter existido e que crimes sinistros foram efetuados por seus tribunais, mas há todo um outro lado propositadamente esquecido. Falemos sobre ele.

1 - A Inquisição em seu tempo:
A Inquisição começou no século XIII - o primeiro tribunal para julgar crimes contra a fé existiu na Sicília, em 1223 d.C. Naquele período diversas heresias começaram a florescer e se espalhar pela cristandade. As primeiras medidas da Igreja para frear o avanço herético foram pacíficas, mas a ineficácia dessa empreitada levou ao combate formal. Mas devemos entender essa medida em seu próprio período.

Havia uma ligação exageradamente íntima entre o Estado e a Igreja, entre o poder civil e o eclesiástico, e o enfrentamento da heresia era, sobretudo, uma defesa da paz social. Considerando a relação sólida e una da Igreja com a sociedade, qualquer pensamento e movimento que viesse a abalar a ordem religiosa, também abalava a ordem social.

O que a Inquisição fez foi, basicamente, tomar para si sistemas que eram habituais na sociedade de então - mas vale lembrar que ela se desenrolou de modo mais benigno do que os tribunais contemporâneos, tendo sido criada também para frear os excessos cometidos nas rotineiras perseguições aos hereges. Com o passar dos séculos, os cristãos foram compreendendo a incompatibilidade entre as práticas inquisidoras e o Evangelho. Mesmo na Idade Média, muitos cristãos já demonstravam perceber tais falhas e entristeciam-se com elas.

O emprego da força para corrigir os dissidentes era o tratamento normal que se dava a quase todos os criminosos, acusados dos mais variados delitos - e a heresia era o mais grave, principalmente por causa do abalo social que provocava. A unidade da fé era um dos bens mais preciosos da cristandade, considerando que, na Idade Média, todo o mundo Ocidental se proclamava cristão - um dos principais elementos integradores da sociedade civil era, sem dúvida, a antiquíssima instituição romana. Quando as hordas de bárbaros marcharam pela Europa e promoveram a queda de Roma, no século V, a Igreja foi a única instituição imperial que sobreviveu e coube ao bispo de Roma a proteção da população civil diante dos invasores, também coube à Igreja a preservação da Cultura Clássica e da própria escrita num mundo que mergulhava no estilo de vida bárbaro, destituído do alfabeto. A responsabilidade social, militar, intelectual e de organização urbana e do trabalho no campo recaiu sobre a Igreja, que preencheu esse vácuo de poder e inevitavelmente construiu toda uma sociedade que orbitava entorno de suas catedrais e mosteiros. Não é difícil entender como o modo de vida e pensamento cristãos eram considerados tão importantes para as autoridades e para o próprio povo - sentimento que se intensificou durante os quatro séculos campanhas muçulmanas de conquista das terras cristãs do Oriente Médio, Ásia Menor, Norte da África e Península Ibérica, quase culminando na tomada do coração da França, mais poderosa nação cristã do período, na Batalha de Poitiers, ocorrida no dia 25 de outubro de 732 d.C., entre Poitiers e Tours. Antes de conclamadas as cruzadas, os maometanos tomaram para si dois terços de todos os territórios cristãos, e a Primeira Cruzada ocorreu sob a ameaça de conquista da maior cidade cristã do mundo daqueles dias, Constantinopla - não é estranho, considerando tudo isso, que centenas de milhares de cristãos tenham se mobilizado livremente para o combate. Também não deve causar estranheza as reações enérgicas aos hereges, que ameaçavam esse vital fator de união continental, que ultrapassava os diversos povos e culturas.

A heresia foi elevada ao mesmo nível do crime de lesa-majestade, que se resumia na tentativa de assassinato ao rei, crime punível com fogueira. Isso deixa, mais uma vez, evidente a falta de limites claros entre os campos da política e da religião - em parte resultante do processo histórico acima descrito -, de modo que os líderes civis viam nos distúrbios religiosos perigos sociais. Esse medo não era infundado, pois, de fato, os heresiarcas tinham o costume de querer obter poder, originando guerras e desordens sociais. 

2 - A conduta dos Tribunais:
Os primeiros tribunais da Inquisição na Espanha foram criados em 1242 d.C. Como ocorria em outros países europeus, tais tribunais dependiam dos bispos diocesanos e geralmente eram bastante benévolos.

Infelizmente, durante o período espanhol dos Reis Católicos (Fernando de Aragão e Isabel de Castela), a Inquisição Espanhola esteve bastante sujeita a interferências do poder secular. Visando a unidade religiosa e a repressão dos dissidentes, os Reis objetivaram a conversão dos hebreus, que eram 110.000, e dos mouriscos, 350.000. Infelizmente a prática dos tribunais nem sempre foi digna: alguns se convertiam por livre vontade, mas outros o faziam forçadamente - e, quando decidiam regressar aos seus cultos familiares, acabavam sendo perseguidos. 

Naquela época, porém, considerando a estreitíssima ligação entre religião e política e a brevidade da vida, o que fazia o povo simples observar a eternidade como um bem supremo, as pessoas tendiam a ver com bons olhos os inquisidores, comumente tidos como "guardiões da ortodoxia". O herege era, portanto, discernido como um perigo social e espiritual, capaz de ameaçar aquilo que o plebeu mais valorizava, segundo a sua compreensão: a salvação eterna. 

Como dito no primeiro parágrafo desse tópico, esses tribunais costumavam ser benévolos. A morte por fogueira era rara, somente aplicada ao herege costumaz, que nunca se arrependia - não que isso justifique. A maior parte dos delitos tinha como pena a excomunhão, a tomada dos bens, multas, prisões ou orações e esmolas penitenciais. Embora a Inquisição tenha admitido o uso da tortura, havia regras que limitavam a sua aplicação: elas não podiam pôr em risco a vida do acusado e nem chegar ao extremo da mutilação. A verdade é que a tortura era utilizada com toda a normalidade nos tribunais civis - só que na Inquisição, o acusado confesso e arrependido era, depois de torturado, liberado, livrando-se da morte, o que não acontecia nos julgamentos civis. 

Geralmente, os direitos do acusado eram mais respeitados pela Inquisição do que nos tribunais civis. Também não havia na Inquisição uma larga diferença nos tratamentos por ocasião da classe social dos julgados.

3 - Os números da Inquisição:
O mais famoso dos tribunais, a Inquisição Espanhola, iniciou-se em 1242 e só deixou de existir formalmente em 1834. Seu período de maior atuação se deu entre 1478 e 1700 d.C., no governo dos Reis Católicos e dos Áustrias. Sobre os condenados à fogueira, Heningsen e Contreras analisaram os 44.674 casos abertos entre 1540 e 1700: apenas 1346 receberam essa sentença. São 9 mortos por ano em todo o território que vai da Sicília ao Peru, compreendendo o Império Espanhol da época. Henry Kamen calculou que, ao longo de seus seis séculos de existência, a Inquisição Espanhola matou um total aproximado de 3 mil acusados. Com base nisso, Kamen afirmou: "é interessante comparar as estatísticas de condenações à morte pronunciadas na Europa entre os séculos XV e XVIII pelos tribunais civis e pelos inquisitoriais: para cada cem penas de morte decretadas pelos tribunais comuns, a Inquisição decretou uma."

Hoje estão disponíveis mais de cinco mil estudos publicados sobre a Inquisição. Com essa farta informação, os mitos acerta do Tribunal do Santo Ofício foram todos demolidos. Só falta a opinião pública ser reformulada com base nessas valorosas informações.

Natanael Pedro Castoldi

Fontes: Luzes e Sombras na Igreja, Alfonso Aguiló, Quadrante, 2011, pgs 28-39; revista Leituras da História, edição 59, Edit. Escola, Batalha de Tours, O Fim do Avanço Muçulmano, pgs 28 e 29; As Grandes Batalhas da História, 1, Larousse, 2009, pgs 44-45; Os Cristãos, Tim Dolwey, Martins Fontes, 2009, pgs 50 e 72, 94-95; Uma Breve História do Cristianismo, Geoffrey Blainey, 2012, pg 121-122, 139; O Cristianismo Através dos Séculos, Earle E. Cairns, VidaNova, 2008, pgs 104-105, 194-195; Monges Medievais, Ricardo da Costa, Eliane Ventorim e Orlando Paes Filho, Planeta, 2004, pgs 5, 7, 9 e 10; Panorama da História da Igreja, James P. Eckman, Curso Vida Nova de Teologia Básica, 4, 2010, pg  51; Guia Ilustrado Zahar Arquitetura, Jonathan Glacey, Zahar, 2013, pgs 224-227; A História das Religiões, Crenças e Práticas Religiosas do Século XII aos nossos dias, Folio, 2008, pg 11

Leia também:

Quem é o Verdadeiro Deus?

-> Apresentação e Índice
Um argumento ateísta comumente lido na internet afirma que é impossível sabermos qual é o "Deus Verdadeiro", uma vez que existem, literalmente, centenas de milhões de divindades e que todas possuem a mesma possibilidade de existência. Será que esse argumento procede? Vou responder a questão sem recorrer aos esquemas de resposta prontos que tenho em alguns livros ou que li em sites, pois não me parece produtivo publicar mais do mesmo. Espero que o material que segue seja esclarecedor.

Observação: esse texto foi pensado para ser lido de uma vez só ou em momentos segundo os tópicos numerados. Ele pode ser examinado brevemente ou explorado exaustivamente, pois foram indicados ao longo de sua redação diversos outros artigos do EOMEAB. É interessante salientar que cada tópico numerado é completo em si mesmo, sendo possível a leitura de qualquer um dentro ou fora da ordem e compreensível a repetição de determinados argumentos. O texto foi escrito livremente, alguns dos princípios trabalhados ganham corpo conforme ele se desenvolve.

Índice: 1 - As divindades em duas categorias e as cosmogonias antigas; O "Deus Verdadeiro", Criador de tudo, precisa ser; Qual divindade é mais coerente?; 2 - As três principais visões religiosas mundiais; 3 - Fé racional versus fideísmo; 4 - As categorias das religiões; 5 - A singularidade de Jesus Cristo; 6 - A singularidade da Bíblia; - As profecias bíblicas; - A historicidade da Bíblia; - A confiabilidade do texto bíblico; - Um livro singular e universal; - Um livro transformador; Resumo e conclusão.

1 - As divindades em duas categorias e as cosmogonias antigas:
Me parece interessante iniciar a argumentação considerando dois tipos básicos de divindade: as criadas por divindades superiores e aquelas que são criadoras eternas. Quando falamos do "Deus Verdadeiro", Aquele que criou o Universo e tudo o que nele há, necessariamente devemos descartar as divindades criadas, que são a maioria absoluta. Um massivo número de deuses das religiões politeístas originou-se da atividade criativa de um ente superior, sem origem, de modo que tais divindades não podem ser consideradas no debate sobre o "Deus Verdadeiro" - elas mesmas, de certo modo, possuem um deus sobre elas.

O "Deus Verdadeiro", Criador de tudo, precisa ser:
- Espiritual e imaterial, pois Ele é o próprio criador da matéria.
- Atemporal e eterno, pois Ele criou tudo e não pode ter um deus sobre Ele. Se tivesse, não seria o "Deus Verdadeiro" - e esse "deus sobre Ele" seria o "Deus Verdadeiro".
- Onipotente, onisciente e onipresente, considerando o Seu domínio, o Seu conhecimento e a Sua presença sobre aquilo que criou e que é menor do que Ele.
Isso combina com o conceito de Causa e Efeito, que afirma que o efeito nunca pode ser maior do que a causa - ele não pode ter mais energia e complexidade que aquilo que lhe deu origem. E combina com a Primeira e a Segunda Leis da Termodinâmica: nada se cria por si mesmo e a energia da matéria sempre decai, de modo que um ser eterno para além da matéria deve ter dado origem ao universo material, que é finito. Como a Causa sempre é maior que o Efeito, o Causador do Universo precisa ser maior do que ele em todos os aspectos: superior em elemento e natureza. A complexidade da natureza e a moralidade humana sugerem uma Causa intelectual e moral.

Existem mitologias, como a nórdica, que nem sequer cogitam a existência de alguma divindade eterna - tudo começa com o Caos, compreendido em três reinos: o Ginnungagap (Grande Vazio), Musspell (Reino do Fogo) e Niflheim (Terra da Neblina). A origem de tudo se dá com a mistura dos ares quentes de Musspell com os ventos gélidos de Niflheim no Ginnungagap. O processo de origem é impessoal e independe de qualquer divindade - originando-as e, portanto, formando deuses de natureza inferior, contidos no Universo e submetidos às limitações da carne, como os mitos nórdicos deixam claro. Temos aqui e noutros politeísmos algo como um ateísmo: são criaturas humanas buscando favores de criaturas divinas - assim como buscam favores de outras criaturas humanas. Trata-se de uma relação entre o ser biológico humano e o ser biológico divino, que é apenas mais poderoso e sábio do que o homem. Mas, no final das contas, não há nenhuma entidade de instância superior a quem se submetem os seres divinos e os seres humanos - há apenas criatura e não Criador. Há apenas Efeito e nunca Causa Primeira. 

Os gregos, por sua vez, não puderam evitar a crença em seres primordiais volitivos - e não apenas  em regiões cósmicas. Também encontramos na cosmogonia grega o caos primordial, que aparece no Gênesis, mas os gregos inseriram algo de pessoal nas figuras do Céu, filho da Terra que, unido à mãe, gerou os titãs. Ocorre que Gaia, a Mãe-Terra, simplesmente brota desse Caos Primordial, acompanhando o pensamento nórdico sobre as origens: no final das contas, não existe uma divindade criadora e eterna. O Caos desprovido de qualquer Deus é a origem de tudo e, portanto, todos os deuses são criação, como os seres humanos. Isso foi corrigido posteriormente com a ideia de uma divindade desconhecida e inacessível, estritamente espiritual. As limitações das divindades gregas ficam bastante claras quando percebemos que elas precisam se alimentar das orações dos homens - há uma relação de interdependência, como se as duas partes precisassem acreditar uma na outra. É o homem sustentando os deuses e os deuses sustentando o homem. São criaturas associando-se com criaturas. Aqui retornamos ao conceito de ateísmo trabalhado no parágrafo anterior.

Na Babilônia também se encontram alguns dos aspectos até aqui trabalhados: no começo havia dois mares - esse Oceano Primordial aparece em Gênesis -, um de água doce e outro de água salgada, Apsu e Tiamat, habitados pela névoa, Mummu. Foi a união entre Apsu e Tiamat que originou dois grandes deuses, Anu, o deus do céu, e Ea, o deus da Terra e da água. Como acontece nas outras mitologia até então trabalhadas, segue um conflito entre as criaturas divinas e muitos dos elementos que constituem a Terra são apenas corpos de deuses e criaturas primordiais que definharam - os elementos materiais são reconhecidos como divindades em si mesmos. Apesar de os babilônicos dotarem de certa volição os mares de Apsu e Tiamat, não temos aqui alusões diretas a uma divindade eterna e de uma instância superior, que fuja do elemento natural.

Há diversas percepções sobre a origem do Universo entre os egípcios, mas todas concordam em alguns aspectos: o combate entre a ordem e o caos e entre criação e destruição, no Oceano Primevo e no Criador que descansava nele sob a forma de uma "serpente cósmica" - Rá, o deus-sol, Atum, "o tudo", ou Nebertcher, "o senhor sem limites". No Princípio há um grande oceano, Nun, "não-ser", e nele Rá tomou consciência, criando os demais deuses através de sua masturbação - das narinas fez nascer Chu, e da sua boca emanou Tefnut. Usando três princípios - poder criativo, percepção e afirmação -, Rá criou todos os elementos conforme os nomeava. Cogitando em seu coração, Rá fez surgir em Nun todas as plantas, aves e animais da Terra. Apesar de mais sofisticada, os egípcios antigos não conseguiram se distanciar suficientemente das demais cosmogonias antigas: temos uma entidade inanimada que contem a divindade volitiva, que, mesmo sendo eterna e incriada, desperta a sua consciência em determinada ocasião. Nos egípcios encontramos a primeira divindade que pode entrar na gama de opções para ser o "Deus Verdadeiro", considerando sua "ausência de limites" e a sua "eternidade" - a dificuldade em considerá-la está no fato de a sua consciência estar ativa em um espaço limitado de tempo e no fato de ter sido contida por Nun. De qualquer forma, pela primeira vez há um ser que pode ser descrito como pertencente à uma instância superior, desprendida da matéria. Aqui fugimos da espécie de ateísmo presente nos demais cultos politeístas.

Talvez a percepção antiga que mais pode encaixar-se no que esperamos do "Deus Verdadeiro", além daquela que aparece no Gênesis, está no deus supremo da mitologia hindu, Prajapati, uma divindade eterna e não-concebida que existe antes de tudo, sendo o criador de Brahma, o deus criador. 

É justamente nesse tipo de divindade que devemos nos concentrar: ela precisa ser eterna, não-concebida e preexistente. O "Deus Verdadeiro" não pode ter nenhuma divindade sobre ele, uma divindade que o criou e a quem precisa se submeter, e não pode ser cativo do mundo e da humanidade, não pode pertencer à mesma instância de elementos materiais, inanimados e biológicos, a que pertencem as outras criaturas. Ele não pode ser criatura.

Em religiões como o hinduísmo, que fundem o politeísmo e o monoteísmo, geralmente os deuses não passam de manifestações inferiores, aparentes, projetadas ou míticas de um único Deus Verdadeiro.

Não podemos cair no erro de crer em divindades imersas na matéria, que venham a compor o próprio mundo material. O politeísmo e o panteísmo não são respostas. Se "tudo é Deus", então Deus não é nada, Deus não existe, e regressamos ao mesmo tipo de ateísmo que existe nos politeísmos que não sustentam a divindade criadora eterna. O Universo material não pode ser eterno. Recomendo a leitura do seguinte artigo do EOMEAB: Nós Somos Deus? Tudo é Deus?

O politeísmo é, portanto, uma enganação: ou não existe nenhuma divindade verdadeira, no sentido de situar-se numa instância superior de natureza e elemento, culminando numa espécie de ateísmo, ou existe apenas uma divindade verdadeira, criadora de todas as demais - se os deuses menores são monoteístas, creditando existência ao único ser divino que os criou, por qual motivo havemos de depositar devoção em alguma divindade que não seja essa? O que os pagãos geralmente faziam era apenas trocar coisas com os deuses menores, dando-lhes o que queriam para a obtenção de favores ou para apaziguar sua ira, da mesma forma que faziam com outras pessoas. Todo o politeísmo possui um Deus Maior e alguns realmente creem numa divindade atemporal e criadora. Nalguns casos, essa Divindade Suprema está presente, como no teísmo, e noutros, está ausente, como no deísmo. Em diversos cultos pagãos, a ausência de adoração ao Deus Supremo se dava por uma compreensão errônea de Sua natureza, estando Ele totalmente inacessível e, logo, exigindo o culto à divindades de instâncias inferiores, que serviriam como intermediárias. Na busca do "Deus Verdadeiro" devemos, portanto, fugir do "deus vento", do "deus pedra" e do "deus corvo", também devemos fugir do "deus da guerra", do "deus da morte" e de quaisquer divindades criadas e corpóreas. Sobra-nos apenas uma gama limitadíssima de deuses possíveis, dentre os quais Iavé, Prajapati e Rá. Nós precisamos nos focar no "Deus dos deuses" e não nos "deuses de Deus".

Observemos que nos politeísmos existe uma associação irredutível de divindades, com uma dependência muito estreita entre uma e outra, de modo que a exclusão de determinadas divindades centrais anula a possibilidade de crença em qualquer outra - ou a incoerência na própria cosmogonia, como a inexistência de uma divindade eterna preexistente, descarta qualquer possibilidade de tal mitologia preservar algo do "Deus Verdadeiro".
Fontes: As Melhores Histórias da Mitologia Nórdica, A. S. Franchini e Carmen Seganfredo, Artes e Ofícios, 2006, pg 9; As 100 Melhores Histórias da Mitologia, A. S. Franchini e Carmen Seganfredo, L&PM, 2006, pg 13; Mitologia, Philip Wilkinson e Neil Philip, Zahar, 2010, pgs 36, 114, 141, 156, 226-228; Em Defesa da Fé Cristã, Dave Hunt, CPAD, 2012, pgs 45-46; Manual de Defesa da Fé, Peter Kreeft e Ronald K. Tacelli, Central Gospel, 2013, pg 540.

Observando a lógica acima retratada, parece natural ter no monoteísmo a configuração religiosa primordial, começando com uma entidade eterna e incriada, para depois cogitar numa família divina e, então, num panteão formado pelos filhos desse casal. A verdade é que o monoteísmo, ou ao menos a existência de uma Divindade Suprema, com traços presentes em diversos politeísmos, parece ser a forma mais antiga da religião - há registros antiquíssimos de monoteísmo ou monolatria e honoteísmo nas mais diversas regiões do mundo, como a China, a Grécia, o Egito, o Oriente Médio e a América.

O chinês Lao-Tzé disse, do século VI a.C., certa vez disse: "Antes do tempo, e durante o tempo, tem existido um Ser com existência própria, eterno, infinito, completo e onipresente... Para além deste Ser, antes do início, não havia nada."
Fonte: Lao-Tzé. Teo-te-ching, tr. Léon Weiger. Versão inglesa por Derek Bryce. 1991. Llanerch Publishers. Lampeter. p. 13.

Um antigo texto encontrado em Hierápolis, no Egito, afirma: "Eu sou o criador de tudo o que existe... que surgiu a partir de minha boca. Os céus e a terra não existiam, nem tinha sido criada a erva do campo nem as coisas que rastejam. Eu as fiz surgir do abismo primordial, a partir de um estado de não existência..."
Fonte: Paráfrase de Bill Cooper B. A. Hons da tradução literal de Wallace Budge em The Gods of the Egyptians. Vol. 1. Dover. New York. 1969. pp. 308-313.

O filósofo pagão Hesíodo declarou, no século oitavo a.C., que "Antes de tudo veio à existência o Vazio... em seguida, a Terra. ... Do Vazio veio a escuridão... e da Noite veio a Luz e o Dia...", sendo refletido por Xenófanes: "Homero e Hesíodo deram aos deuses todos os atributos que entre os homens são vergonhosos e censuráveis - roubo, adultério e mentira. ... [Porém] existe um Deus, maior entre os deuses e homens, não semelhante aos mortais quer em forma quer em pensamento... que vê como um todo, pensa como um todo, ouve como um todo. ... Ele permanece sempre no mesmo estado, sem qualquer mudança... E longe de se fadigar, governa tudo com sua mente."
Fonte: Hesíodo. Thogony. tr. Norman Brown. 1953. Bobbs-Merril Co. New York. p. 15; Fonte: Barnes, Jonathan. 1987. Early Greek Philosophy. Penguin Classics. Harmondsworth. p. 42.

O grande filósofo Platão também nutria uma visão de divindade bastante próxima do monoteísmo:
"Ressaltemos, portanto, a razão pela qual o grande modelador desde universo dinâmico realmente o modelou. Ele era bom, e o que é bom não possui em si qualquer partícula de cobiça; sendo, portanto, isento de cobiça, ele desejada que todas as coisas fossem tão semelhantes a ele quanto possível. É este um princípio válido para a origem de um mundo dinâmico tanto quanto podemos descobrir a partir da sabedoria humana..."
Fonte: Platão. Timaeus and Criteas. tr. Desmond Lee. 1965. Penguin Classics. Harmondsworth. p. 42.

Assim como Tales de Mileto (625-545 a.C.):
"Das coisas existentes, Deus é a mais antiga - pois ele não é gerado. O mundo é a mais bela, pois é criação de Deus... A mente é a mais veloz, pois tudo perscruta."

Há outras frases que merecem estar aqui, mas me parece que essas já servem ao propósito da postagem. A lógica de uma entidade máxima a criar tudo foi percebida mesmo entre os pagãos.
Fontes: Depois do Dilúvio, Bill Cooper B. A. Hons, SCB, 2008, pgs 13-27.

É interessante notar que a palavra "Theos", usada por Platão e Xenófanes como referência ao Eterno Criador, serviu de bases para Zeus (note a semelhança com "Deus"), que deixou de ser usado como designação para a Divindade Suprema por resultado de uma corrupção mitológica da entidade. El Elyon era a designação da Divindade Suprema dada pelos cananeus - "Elyon" também aparece entre os fenícios. Alá, o Deus Único dos muçulmanos, encontra sua origem em "El" e "Elohim", que indica o Único Deus dos hebreus. Entre os incas pré-colombianos havia uma divindade eterna e criadora que precedia o politeísmo, chamada Viracocha - divindade semelhante a Thakur Jiu, na Índia, Magano, na Etiópia, Koro, também na África, Shang Ti, na China, e Hananim, na Coreia.
Fontes: O Fator Melquisedeque, Don Richardson, Vida Nova, 2013, pgs 13-75; Uma Outra História das Religiões, Odon Vallet, Globo, 2002, pg 92.. Uma discussão mais completa sobre o assunto você encontrará no seguinte artigo do EOMEAB: Origens: A Religião.

É curioso como há um rastro monoteísta na maioria dos politeísmos antigos e perceber o quanto o monoteísmo se mostrou a melhor opção em momentos de intensa atividade idólatra. Para justificar esse posicionamento, vou citar duas ocasiões nas quais governantes, percebendo as incoerências da crença múltiplos deuses, optaram pelo resgate da fé numa única divindade:

Na tentativa de remover o entulho de mitologias e superstições que havia sido depositado por sobre a ideia de um Criador, o faraó Aknhathon procurou persuadir todo o Egito de que havia somente uma única divindade, Atum, e não as muitas que os egípcios adoravam. Tal faraó tentou concentrar todo o culto ao Único Deus na cidade de Amarna. Por questões de poder político e econômico, uma vez que a quantidade de deuses e templos movimentava um intenso comércio, o clero logo resgatou o politeísmo tradicional.

Certa vez, o rei inca Pachacuti, que reinou entre 1438 e 1437 d.C., percebeu que a divindade máxima de seu povo, o Sol, não correspondia aos requisitos do Deus Supremo: ele era obrigado a seguir sempre o mesmo caminho e a sua glória era bloqueada por qualquer nuvem. Certo de que o Sol não poderia ser o Deus Verdadeiro, Pachacuti procurou entre as tradições antigas dos incas alguma divindade que pudesse corresponder aos atributos do Eterno. Após longa busca, o rei se deparou com Viracocha, que descreveu da seguinte forma, segundo o dr. B. C. Brundage, Universidade de Oklahoma, EUA: "Ele é antigo, remoto, supremo e não criado. Também não necessita da satisfação vulgar de uma consorte. Ele se manifesta como uma trindade quando assim deseja,... caso contrário, apenas guerreiros e arcanjos celestiais rodeiam sua solidão. Ele criou todos os povos pela sua 'palavra', assim como todos os huacas (espíritos). Ele é o Destino do homem, ordenando seus dias e sustentando-o. É, na verdade, o princípio da vida, pois aquece os seres humanos através de seu filho criado, Punchao (o disco do sol, diferente de Inti). É ele quem traz a paz e a ordem. É abençoado em seu próprio ser e tem piedade da miséria humana. Só ele julga e absolve os homens, capacitando-os a combater suas tendências perversas."
Fontes: Uma Outra História das Religiões, Odon Vallet, Globo, 2002, pg 20; O Fator Melquisedeque, Don Richardson, Vida Nova, 2013, pgs 37-46.

Note que, mesmo entre os politeístas, há um forte senso moral. A moralidade é uma característica humana ímpar e universal, sem fontes naturais perceptíveis, exigindo uma causa moral. Mas o politeísmo geralmente não responde ao clamor moral do ser humano, considerando que as divindades, limitadas pelo corpo e vulneráveis às mesmas paixões e desvios que acometem o homem, são comumente mais depravadas que nós, abusando de seu poder em massacres e manipulação e com incontrolável apetite sexual. Não havendo nenhuma Divindade Suprema para definir um padrão moral claro, nem os supostos deuses menores e nem os homens encontram uma moralidade objetiva - mesmo que a sua consciência grite coisas como "é certo" e "é errado". Quando os filósofos e eruditos antigos falavam da Divindade Suprema, quase sempre a associavam à perfeição e à bondade, coisa que não tinham como fazer com as divindades menores.

Ora, o Universo, construído com intrincada ordem para possibilitar a vida, sugere a existência de um Criador benigno, que visa a perpetuação da existência. Isso não combina com divindades adeptas da carnificina e do caos.

O panteísmo também não apresenta respostas para a moralidade humana, que inquestionavelmente existe. Para o panteísta, que afirma que Deus é tudo - e logo, que Deus é nada -, a divindade está acima do Bem e do Mal - ela não pode servir de base para a definição de uma moral objetiva, que é realidade em nossa mente, e o Bem e o Mal, que são reais, passam a ser vistos apenas como ilusões. De certa forma, o panteísmo - que é ateísta no sentido de afirmar que Deus não é nada -, concorda com o ateísmo no que se refere à moralidade: é impossível discernir de modo objetivo o que é certo e o que é errado.

A moralidade humana se observa na religião principalmente através dos atos de sacrifício e disciplina que sempre se mostraram presentes na tentativa do homem de relacionar-se com o Criador. Um relacionamento com uma Divindade relacional fora quebrado e precisava ser reatado. O sacrifício de animais, objetivando atrair favor divino e apaziguar a divindade, evidenciam um sentimento de culpa e desmerecimento que o homem sempre nutriu: uma culpa por algo que tenha feito de errado, pela transgressão, pelo burlar de um padrão moral que uma Mente superior definiu como correto. Mesmo não encontrando nos deuses menores a origem dessa moralidade, ainda assim os pagãos realizavam esses sacrifícios expiatórios.

Dentro do espectro da moralidade, o politeísmo também não consegue responder aos anseios humanos pelo que denominamos como "perfeição". A própria ideia de que algo é imperfeito sugere a existência de outro que é perfeito - mas aquele que é perfeito não é conhecido pelo homem senão em sua mente e de modo abstrato, pois é não existe perfeição no Universo conhecido e observável. Diante de divindade imorais, é impossível encontrar bases para a certeza de que há algo perfeito por detrás de nosso anseio pela perfeição. Para adentrar mais profundamente nesse debate, leia os seguintes artigos do EOMEAB: Grandes Textos - O Perfeito Precisa Existir, Parte 1Grandes Textos - O Perfeito Precisa Existir, Parte 2.

O politeísmo também dificilmente responde aos anseios de eternidade que habitam o coração humano. O homem evita a morte por tê-la como algo completamente antinatural - existe o germe da eternidade em nosso ser. Nós estranhamos a passagem do tempo como se ele não devesse passar e como se nós não devêssemos mudar. É por isso também que o ser humano tende a procurar por uma divindade eterna - a verdade é que uma das únicas razões para termos em nós um senso tão forte de eternidade está na própria existência do Eterno. Incríveis monumentos foram erigidos para fugir do término da vida, incontáveis sacrifícios foram realizados em prol disso.
Fonte: Em Defesa da Fé Cristã, Dave Hunt, CPAD, 2012, pgs 45-46 e 231-232; Cristianismo Puro e Simples, C. S. Lewis, Martins Fontes, 2014, pgs 21-35; Cristianismo Puro e Simples, C. S. Lewis, Martins Fontes, 2014, pg 48. Leitura recomendada: Apologética Contemporânea, William Lane Craig, Vida Nova, 2012, pgs 61-83. Leia o seguinte artigo do EOMEAB: Origens: O Sentimento de Culpa.

E quanto ao pluralismo religioso?
O pluralismo, ou relativismo religioso, sustenta que todas as religiões e divindades levam à mesma realidade eterna, que são qualitativamente iguais e devem coexistir. A coexistência no sentido de saber conviver é essencial, mas nenhuma pessoa pode crer em duas religiões diferentes ou pensar que diversas religiões podem ser complementares: se todas as religiões estão certas, então todas estão erradas, da mesma forma que se tudo é Deus, então Deus é nada, ou, se tudo é verdade, então nada é verdadeiro. É impossível crer que religiões antagônicas levem para o mesmo lugar, que crenças que partem de premissas opostas cooperem para um objetivo comum - é impossível que todos os deuses e apenas um Deus sejam realidades simultâneas, é inconcebível que duas religiões exclusivistas estejam certas ao mesmo tempo, embora seja provável que o Deus Verdadeiro, por ser moral e, por isso, relacional, tenha se apresentado ao homem e inspirado uma religião específica. Também não me parece que a "religião da colher de madeira" seja tão viável quanto o cristianismo - existe toda uma gama de observações filosóficas, teológicas, científicas, experimentais e históricas que podem sustentar a veracidade de uma religião.
Leia mais sobre o assunto no seguinte artigo do EOMEAB: As Religiões não se Completam?

Qual divindade é mais coerente?
O monoteísmo é a única perspectiva religiosa que faz sentido com a ideia de uma Divindade Suprema, eterna, perfeita e moral. Por ser moral e ter criado seres relacionais, essa divindade também é relacional. Nesse caso precisamos verificar qual das divindades salientadas até aqui se faz mais crível. Não citarei todas as Divindades Supremas, por desconhecer - e é muito provável que muitas delas reflitam o mesmo Deus, como uma memória primordial do monoteísmo primevo, com variações decorrentes do tempo:

- Atum: a divindade egípcia combina com os atributos de eternidade, mas ela não foi a primeira a movimentar a roda da existência, tendo a sua consciência despertada num ambiente preexistente, no Oceano Primordial. Depois de desperta, Rá se torna uma divindade de comportamento semelhante às demais, sem evidenciar perfeição e oferecer respostas para a moralidade humana.
- Prajapati: a Divindade Suprema do hinduísmo se apresenta sob a forma dos demais deuses, tornando-a incoerente, no sentido de revelar-se dentro de padrões imperfeitos e moralmente questionáveis, entrando em discordância com o que se espera do Deus Verdadeiro. Além disso, Prajapati em pessoa é inacessível, misteriosa, distante, entrando em atrito com a necessidade de o Deus Verdadeiro ser relacional.
- Iavé: como nas demais cosmogonias antigas, no relato de Gênesis há o Caos, o atrito entre a desordem e a ordem e o Oceano Primordial, mas Iavé é o único que não está contido nesse Oceano - Ele também não luta contra o Caos como um oponente, sendo Ele o próprio criador da desordem, que modela para produzir a ordem. Ele é o agente ativo e criativo de todo o processo, existindo em Si mesmo antes de qualquer outra coisa e criando tudo à partir do Vazio Absoluto, da inexistência. Isso combina com as exigências da Causa e Efeito e da Termodinâmica. Desde a criação de Adão e Eva, Ele se mostra relacional e moralmente reto - e a evidência da Trindade desde Gênesis reforma a Sua natureza relacional e amorosa (A Trindade na Bíblia). Temos aqui bases para a moral, o anseio pela eternidade e a perfeição. Recomenda-se a leitura dos primeiros três capítulos do Gênesis.

Tão interessante quanto o relato de Gênesis, é a própria religião que Iavé entregou aos hebreus. Mesmo havendo um padrão moral reconhecido universalmente pelo homem, nenhum ser humano cogitaria num livro de leis tão complexo e condenatório quanto a Torá - são centenas de ordenanças religiosas, sociais, sanitárias, políticas, econômicas e militares bastante singulares e de dificílimo cumprimento. Quem estipularia tão sofisticadas e complicadas normas para propiciar a própria condenação em caso de inevitável tropeço? O judaísmo também é oficialmente considerado o mais antigo monoteísmo da história humana, tendo brotado de um universo politeísta completamente incompatível, como que por revelação, juntamente com as Leis. Os hebreus revolucionaram por terem sido os primeiros a registrar a história de seu povo no próprio livro sagrado, assim como foram os primeiros a desenvolver o Direito escrito no Oriente Médio - sua organização política, religiosa e social divergiam largamente daquilo que era comum entre os outros povos da região. Um dos exemplos mais dramáticos da singularidade do judaísmo está na existência de um único templo em Jerusalém: naquela época o monoteísmo por si só já era considerado difícil de engolir - não racionalmente, mas política e economicamente -, mas a existência de um único templo em toda a nação era uma loucura, algo que apenas dificultava o controle político, atrapalhava a economia e propiciava o sincretismo nas fronteiras. Essa exclusividade judaica não parece ter razão de ser em termos de ganho para a nação - está mais para uma revelação cumprida penosamente.

A organização do Livro Sagrado dos hebreus e a prática de seus preceitos religiosos destoa daquilo que comumente se observa em praticamente todos os demais livros sagrados e religiões, que são fruto natural do desenvolvimento de tradições tribais, completamente dentro da esfera de vontade humana: os hebreus inovaram em quase tudo, não havendo profunda influência de seus vizinhos. O que aconteceu foi o surpreendente encorpar de um monoteísmo que estranhamente foi apresentado a Abraão, primeiro pelo próprio Deus na politeísta Ur e, depois, por Melquisedeque, rei de Salém, na Palestina.
Fontes: Almanaque Ilustrado de Símbolos, Mark O’Connell e Raje Airey, Edit. Livros Escala, pgs 44-45; Uma Outra História das Religiões, Odon Vallet, Edit. Globo, pags 19-24, 26 e 38-40.

2 - As três principais visões religiosas mundiais:
Existem três visões religiosas principais: o teísmo, o panteísmo e o ateísmo. Analisar essas três raízes principais é outra forma de interceptar o Deus Verdadeiro - um Criador pessoal que tudo fez, mas não faz parte da obra; nenhum Criador, sendo a divindade o próprio Universo - um ente impessoal; não existe divindade alguma. Retomemos a análise anterior do panteísmo:

No panteísmo Deus é tudo e tudo é Deus. Como já trabalhado, essa percepção é extremamente errônea, pois se Deus é tudo, então Deus não é nada - Deus não existe. Na verdade, podemos perceber no panteísmo algo como o ateísmo, pois nos dois casos a divindade é o mesmo que nada. Para o panteísta, o Universo como divindade é eterno e imutável - pois a divindade precisa ser imutável -, não possui origem e é auto-existente, o que combina com a percepção ateísta: ao afirmarem que já havia existência antes do Big Bang, os ateus não falam da origem do Universo, mas de uma transformação, e são obrigados a cogitar numa realidade eterna para a matéria. Os dois posicionamentos não se sustentam, pois é cientificamente evidente que o Universo passou a existir da inexistência, considerando a Causa e Efeito e a Termodinâmica e é óbvio que toda a matéria está em constante mutação. Racionalmente falando, também é impossível que exista um tempo eterno para o elemento material, pois se o passado é um tempo sem fim, o presente momento nunca poderia chegar. A conclusão lógica, considerando o decaimento da energia, é que a existência precisou brotar da inexistência, o tempo da atemporalidade, a matéria da imaterialidade, o espaço do Vazio Absoluto, o ser do não-ser - absurdos, a não ser que acreditemos em Deus. Tudo leva a crer que existe um Deus atemporal, imaterial e infinito. O Universo veio da ausência do Universo, mas não pode ter vindo da ausência da existência. De algum lugar ele veio, mas nunca de si mesmo. Ora, havendo um princípio para o Universo, deve haver um Principiador; havendo evidências de um intrincado projeto na Criação, temos de cogitar a existência de um Projetista. A eternidade da matéria é inviável e, portanto, tanto o panteísmo quanto o ateísmo não se sustentam - há um Deus eterno, espiritual, infinito, todo-poderoso, onisciente e onipresente por detrás de tudo, o modificador imutável, Aquele que é feito de Si mesmo, que está contido apenas em Si.

Outra forma de observar a validade do teísmo está na observação da moralidade objetiva: o Mal é a ausência do Bem, assim como o Caos é a ausência da Ordem e a Morte é a ausência da Vida - não existiria Mal se não existisse Bem, seria impossível definir o Caos se não existisse a Ordem e nada morreria se já não houvesse Vida, assim como não se discerne a Escuridão sem conhecer-se a Luz. Isso significa que há um Bem Primeiro, uma Ordem Primeira, uma Vida Eterna, uma Luz Inacessível. Significa que o Criador é Plenamente Bom, e não Mal - o Mal é a redução do Bem, de modo que o Bem precisa ser criado e o Mal não. Há o Sumo Bem, Aquele que é Perfeito - sendo a imperfeição apenas a redução de uma obra perfeita -, mas também existe o Mal no Universo. Como o Sumo Bem não pode conter o Mal inquestionável que está alojado no Universo, então esse Bem Eterno precisa estar separado da Criação. Há uma separação entre Deus e o mundo. Leia mais sobre isso no EOMEAB: Grandes Textos - O Deus Evidente

O teísmo mostra-se coerente com a observação racional do Universo, portanto o Deus Verdadeiro existe e não está no panteísmo e nem no politeísmo - ainda mais porque há politeísmos panteístas (a materialidade do Universo provém de deuses) e ambos se aproximam do ateísmo. A origem do Universo também impossibilita o panenteísmo, que afirma que a matéria é uma das partes de Deus - mas o Deus imutável não combina com a ideia de que parte de Si passou a existir em determinado momento. Lembre que a matéria mutante não combina com a imutabilidade divina.

Tudo leva a crer que o Universo brotou de uma divindade que não faz parte dele, que pertence à outra instância, que é ela mesma. A própria existência das religiões pode sugerir que essa Divindade Suprema é um ser relacional, que revelou-Se ao homem e que pode ser interceptada parcialmente em diversas perspectivas religiosas, mas que cuidou para ser encontrada especificamente num determinado segmento religioso, proveniente não de uma descoberta humana, mas de uma revelação que veio a combinar com os anseios mais primordiais da humanidade - ou seja, uma religião que realmente faz sentido para os nossos clamores mais profundos, de um Deus que nos conhece. Como já falamos, esse Deus é relacional também pela consideração de nossa moralidade - Ele incutiu em nós um padrão de conduta que O agrada com o objetivo de propiciar um relacionamento em conformidade com a Sua natureza -, o que combina com a Sua vontade criativa e centrada na preservação da vida. Se Deus existe, Ele não está inacessível - o deísmo simplesmente não se encaixa nessas exigências.
Fontes: Não Tenho Fé Suficiente Para Ser Ateu, Norman Geisler e Frank Turek, Vida, 2012, pgs 22-33; Cristianismo Puro e Simples, C. S. Lewis, Martins Fontes, 2014, pg 50. Leia mais no EOMEAB: O Panteísmo Faz Sentido?A Religião Ateísta.

Não nos sobram muitas opções. Parece que aqui Iavé se mostra evidente. Principalmente quando consideramos que a religião do Deus Verdadeiro precisa ter um apelo universal, não podendo limitar-se a uma determinada região geográfica, como no caso de ramos tradicionais do hinduísmo; a um determinado grupo étnico; limitando a tradução e distribuição de Suas Escrituras Sagradas, como é o caso do Islamismo; ou inspirando a formulação de um livro sagrado cujo texto é incompreensível, como é, mais uma vez, o caso do hinduísmo. Para compreender melhor o que é o Islã e a sua origem, observando as diversas influências religiosas que se fundiram para a formulação dessa religião, leia o seguinte artigo do EOMEAB: Entendendo o Islamismo. Uma análise interessante sobre a natureza do texto do Alcorão você pode encontrar no livro "Por que Confiar na Bíblia?, de Amy Orr Ewing, Ultimato, 2008, pgs 72-83. Há um artigo bem fundamentado sobre os livros sagrados das religiões aqui no EOMEAB: A Bíblia não é Igual aos Outros Livros Sagrados?

O fato é que Alá não se apresenta como um Deus relacional, conforme nos informa Werner Gitt:
1 - No Islã, Deus não se revela, permanecendo distante e inacessível. A exclamação "Alá é grande!" demonstra que não se pode estabelecer um relacionamento pessoal dom Ele.
2 - O muçulmano acha incompreensível afirmar que Deus é nosso Pai - isso é uma blasfêmia, pois Alá está totalmente separado desse mundo.
3 - A encarnação de Deus em Jesus Cristo, ápice do amor de um Deus relacional, é incompreensível para o Islã. No islamismo também é impossível entender como Deus pode derramar-se na humanidade através do Espírito Santo.
4 - No Islã, a misericórdia de Alá não lhe cobra um preço. Ele é arbitrário em Seus julgamentos.

Uma análise cuidadosa entre Iavé e Alá demonstra que, embora existam semelhanças de nomenclatura, não se tratam do mesmo Deus. São divindades incompatíveis.
Fonte: Perguntas Que Sempre São Feitas, Werner Gitt, Actual, 2005, pgs 110-111.

Nós estamos falando de Deus como o Sumo Bem, o Amor, Aquele que preserva a vida, sendo a própria Vida Eterna, e o criador de seres vivos que militam pela sobrevivência, a Causa relacional das criaturas relacionais. Esse Criador, que é Perfeito, é também plenamente justo e não pode aplicar juízos de modo arbitrário. Ele sempre coopera com a Vida, seja extinguindo da existência aquilo que destrói o viver, seja restaurando aqueles que estão definhando - aqueles que morrem espiritualmente pelo afastamento da Fonte de Vida, que é Ele. Esse Bem Supremo mais uma vez se mostra relacional e pessoal. Repito que, com base nessas considerações, não podemos observar divindades menores que sejam imorais e destruidoras da existência, nem divindades maiores inacessíveis e muito menos divindades impessoais. Leia mais sobre isso no EOMEAB: Grandes Textos - A Origem do MalGrandes Textos - As Fontes de DeusA Simplicidade do Cristianismo - 7: O Que é Certo e o Que é ErradoA Simplicidade do Cristianismo - 10: A Lógica do Juízo de Deus.

3 - Fé racional versus fideísmo:
Espera-se que a religião do Deus Verdadeiro transmita verdades verificáveis cientifica e filosoficamente. Essa religião também precisa encontrar raízes na história humana, não limitando-se a mitos de tempos remotos, de terras fantásticas e envolvendo divindades inacessíveis. O Deus Verdadeiro, que é relacional, revelou-Se no tempo histórico e interagiu com pessoas reais. Aqui entram em conflito os politeísmos, que não procuram responder o mundo, as filosofias e religiões orientais, as seitas e os três principais monoteísmos, dentre os quais destaco o cristianismo.

Nas filosofias e religiões orientais, segundo Vishal Mangalwadi em diversas passagens da sua obra, O Livro que Fez o Seu Mundo, publicado pela Editora Vida em 2013 (capítulo 6), os mantras servem para esvaziar a mente - e o estágio mais pleno da mente humana é a completa irracionalidade e impessoalidade. Não se procura explicar nada. Além disso, os livros sagrados dessas religiões não foram escritos para serem lidos ou entendidos, pois é o texto em si mesmo que tem um significado religioso, não a sua mensagem - é disso que brotam as orações mecânicas dos budistas. Ao contrário do que acontece nessas religiões, a Bíblia estimula o cristão a estar com a mente sempre ativa ao máximo e a própria oração é uma conversa bastante racional com Deus. Observe algumas passagens bíblicas sobre a questão da racionalidade e das bases histórias da Palavra: Provérbios 1:22; 2:10; 8:5 e 9; 10:14; 12:1; 14:15 e 18 e 22:3; João 8:32; 19:35 e 21:24; 1 Timóteo 1:4; 4:7; 2 Timóteo 4:3-4; Tito 1:14; Atos 26:25-26; 2 Pedro 1:16 e Lucas 1:1-4.

É com base na perspectiva singular que a Bíblia tem da natureza, destoando do paganismo, que a ciência pôde desenvolver-se. Os pagãos acreditavam que os elementos naturais representavam divindades e que, portanto, não se submetiam a regras que mereciam ser estudadas - além disso, quem era o homem para explorar "os deuses"? A ideia de que o mundo é separado de Deus foi essencial para o surgimento do pensamento científico.
Fontes: Perguntas que Sempre São Feitas, Werner Gitt, Actual, 2005, pg 62; Uma História Politicamente Incorreta da Bíblia, Robert J. Hutchinson, pgs 147-151. Leia mais no seguinte artigo do EOMEAB: A Bíblia e a Ciência

O cristianismo está plenamente situado na história humana e a Bíblia, mesmo que não seja científica, apresenta verdades verificáveis sobre a natureza e a vida.
Fonte: 20 Evidências de que Deus Existe, Kenneth D. Boa e Robert M. Bowman Jr., CPAD, 2012, pg 18. Sobre percepções científicas da Bíblia, leia os seguintes artigos do EOMEAB: A Bíblia: Falhas Matemáticas, Biológicas e Geográficas?As Prescrições Sanitárias do Antigo Testamento.

4 - As categorias das religiões:
Considerando que Deus é Sumo Bem, Ele não deixaria de revelar-Se ao homem e, portanto, há uma religião verdadeira. Uma religião só, pois é impossível que percepções antagônicas de mundo sejam verdades simultâneas. Essa religião verdadeira, por sua vez, deve ser revelada e não cogitada, precisa ser diferente das demais e não mais do mesmo. O homem imperfeito seria capaz de descobrir sozinho como retomar o relacionamento rompido com o Deus Perfeito? Todos os seres humanos de todos os tempos perceberam que tal relacionamento foi quebrado e o que vemos se resume em três posicionamentos: negligência, tentativas baseadas no esforço humano pelo reatar com o Criador ou a iniciativa do Sumo Bem de aproximar-Se do homem para retomar o relacionamento com Ele. No segundo caso é o homem tentando retomar o relacionamento com o Criador e no terceiro, o Sumo Bem almejando reiniciar Suas relações com o homem. É esperado que o Sumo Bem se aproxime do homem e não o contrário. Apenas uma única religião se encaixa no terceiro.

a - Religiões primitivas: 
Animismo, totemismo e outras percepções já descartadas.

b - Religiões Sapienciais: 
Resume todo o tipo de religião que se baseia na sabedoria humana e na experiência de vida. Geralmente as religiões dessa categoria mostram ao homem um caminho a seguir - o homem desenvolve uma jornada em busca do Paraíso. Quase sempre se enaltece a meditação, as ascese, a contemplação e o autoconhecimento. Dentro dessa categoria não raramente ocorre uma confusão sobre o que é filosofia e o que é religião. Exemplos: hinduísmo (Séc. XV a.C.), budismo (Séc. VI a.C.), jainismo (Séc. VI a.C.), taoismo (Séc. VI a.C.) e confucionismo (Séc. VI a.C.).

c - Religiões Proféticas:
São as religiões que têm como origem um profeta, alguém que comunicou a revelação recebida de Deus. É interessante notar que todas as religiões proféticas do mundo, em maior ou menor grau, consideram a sua origem (ao menos alguns de seus fundamentos mais primitivos), na pessoa de Abraão - levando em conta todas as crenças que brotaram das religiões maiores que, por sua vez, encontram no Patriarca a semente da sua fé. Das religiões proféticas, praticamente todas brotaram de três crenças principais: o judaísmo, mais antigo monoteísmo da história, o cristianismo, como uma continuação bastante precisa da revelação veterotestamentária, e o islamismo, o movimento mais tardio dos três, que reinterpretou tanto o Velho, quanto o Novo Testamento, para compactuar com sua proposta. Exemplo: judaísmo, samaritanos, islamismo e cristianismo.

d - Religiões Espiritualistas:
São todas aquelas que têm como fonte a revelação dos espíritos. Exemplos: espiritismo e religiões afro-brasileiras.

e - Místicas Filosóficas:
Resume todo o tipo de opção de vida que assume caráter religioso, uma forma de crença. Exemplos: gnosticismo, teosofia, cabala e Nova Era.

f - Superstições:
Podem ser entendidas como o falso culto prestado a Deus ou o excesso de religião. Exemplos: magia, quiromancia e tarô.

Verifiquemos as categorias: 
As Religiões Sapienciais propõe um caminho pelo qual o fiel deve seguir para achar o Divino. As Religiões Proféticas se baseiam nas mensagens do profeta, tradicionalmente consideradas advindas da mente do próprio Deus. As Religiões Espiritualistas possuem sua base de autoridade nas palavras dos espíritos. As Místicas Filosóficas sacralizam costumes e pensamentos humanos. As Superstições podem ser consideradas como remanescentes das Religiões Primitivas, com poder emanando de objetos, astros e diversas outras criaturas. As Religiões Sapienciais, Espiritualistas, Filosóficas e as Superstições consideram o homem capaz de atingir a Plenitude por conta própria, obedecendo às regras do jogo e manipulando os recursos materiais e espirituais do universo. Em essência, todas elas se combinam: é do homem que parte o poder ou, se não o poder, pelo menos a iniciativa - são todas, sem exceção, bastante humanistas: é o homem o centro da fé, é ele que percorre o caminho e manipula o universo para conquistar, por mérito, a Glória. Essas religiões se combinam tanto nos fundamentos, que quase todos os seus adeptos costumam afirmar: "todos os caminhos levam a Deus", que "basta fazer o bem". Ou seja: quase nenhuma delas faz uso de um discurso exclusivista, do tipo: "fora desse sistema não há salvação". É esse tipo de pensamento otimista que o homem gosta de ouvir - é muito fácil seguir qualquer crença desse tipo. Alguns poderiam citar o hinduísmo como exceção, mas tal religião é tão descentralizada que muitos acham melhor considerá-la no plural: "os hinduísmos". São quase quatrocentas milhões de divindades e uma absurda quantidade de pensamentos doutrinários - muitos, inclusive, antagônicos entre si, em teoria incapazes de coexistir. Mas coexistem nesse emaranhado de deuses particulares, crenças e mitologia.

De todas as categorias a única realmente diferente é a das Religiões Proféticas. É o único sistema verdadeiramente teocêntrico: o homem é absolutamente incapaz de atingir a divindade por seu próprio esforço e entendimento, sendo Deus quem precisa se revelar e aproximar-se do ser humano. Uma peculiaridade já citada é que basicamente todas as Religiões Proféticas partem da mesma raiz histórica: Abraão. Não existe nenhuma concordância histórica entre as religiões das demais categorias, resultantes exclusivamente da experiência humana moldada pelo contexto histórico, cultural e geográfico. Sendo Abraão a raiz histórica das Religiões Proféticas, podemos entender que a Torá é o livro mais fundamental desse segmento religioso e que o judaísmo foi a primeira experiência profética da história humana de que temos conhecimento. Já na Torá presenciamos o mais característico aspecto das Religiões Proféticas: Deus precisou se revelar porque o Seu padrão moral é tão perfeito que o homem jamais conseguiria absorvê-lo em sua experiência entre si e com o mundo natural. Uma rápida leitura da Lei já é suficiente para mostrar a profundidade da moral Divina, absolutamente inatingível para o homem comum - o que, por si só, justifica a necessidade de Deus se revelar. O homem jamais conseguiria atingir Deus com base em si mesmo - sabemos que o imperfeito é infinitamente menor que o Perfeito, que o limitado é infinitamente menor que o Ilimitado, que o temporal não pode penetrar no Atemporal, que a matéria não pode adentrar na Imaterialidade. Isso afasta tremendamente as Religiões Proféticas de todas as demais formas de religião.

As três principais religiões proféticas:
Dos três pilares religiosos mais comuns das Religiões Proféticas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo todas tendo como figura primeira Abraão), dos quais brotaram quase todas as formas de religiosidade profética que hoje temos, o mais singular, sem dúvida, é o cristianismo. O cristianismo tem como fundador uma figura histórica que conserva em si mesma a excelência moral, sapiencial e espiritual, sendo vastamente considerada o maior revolucionário, líder, educador e psicólogo de todos os tempos. São cerca de 24 mil manuscritos antigos do Novo Testamento relatando a Sua existência (alguns desses documentos datam de vinte a trinta anos depois de Sua Ressurreição), mais de 86 mil citações antigas dos Pais da Igreja sobre o Novo Testamento e uma porção de citações sobre Sua pessoa da parte de historiadores e líderes antigos. Os cristãos, sem alterar o texto veterotestamentário, conseguiram encontrar todas as evidências possíveis para ver em Cristo o ápice da história humana: a Lei mostrou que o homem comum é absolutamente incapaz de suprir o padrão moral de Deus, mas não apresentou uma solução clara para esse problema, de modo que havia uma expectativa messiânica de libertação física e espiritual, como bem relata Isaías 53. Cristo era necessário para cumprir a Lei, sem Ele não faria sentido Deus revelar o Seu padrão moral: seria irônico mostrar ao homem o quão errado e condenado ele está se não fosse para apontar uma solução - provocaria uma angústia gratuita, uma vez que, sem nenhuma salvação, seria melhor nem tomar consciência da insuficiência humana, Isso não combinaria com o Sumo Bem. No mais, foram identificadas cerca de 300 profecias messiânicas veterotestamentárias que se cumpriram em Cristo, o que cria uma sequência perfeita, enquanto surpreendente, entre o Velho e o Novo Testamento e entre o judaísmo e o cristianismo.

Digamos que, se houvesse um caminho para o homem percorrer para chegar até Deus, Jesus cobriu, sendo Ele moralmente perfeito e, portanto, compatível com o Pai, igualmente perfeito. Com status divino, o Deus Encarnado veio ao encontro do homem, não apenas em revelação moral e verbal, mas em carne e osso. Na verdade, Deus preparou o homem com uma revelação escriturística e, então, fez-se presente através de uma figura histórica - poucos entenderiam a necessidade da vinda de Cristo se não tivesse sido criada uma expectativa antes dela. A experiência e a teologia cristãs posteriormente evidenciaram outra singularidade do cristianismo: enquanto as demais formas de religião apontam para o poder que, partindo do imperfeito homem, possibilitava a sua ascensão até a Perfeita Divindade, o cristianismo prega que, tendo Cristo feito o homem aceitável para Deus, o Espírito Santo pode habitá-lo e, assim, o próprio Deus está no homem, não mais em prédios, livros, músicas, magos ou rituais - aí é Deus no homem que mantém o homem perto de Deus. Nesse caso, o homem chega até Deus sem ao menos ter saído do lugar - é o Eterno que, por pura Graça, toma o homem para si sem que ele tenha mérito algum, até porque o homem, imperfeito, nunca poderia obter qualquer espécie de mérito diante de Deus, Perfeito. Faço questão, ainda, de afirmar que o cristianismo é a única religião do mundo que tem como origem histórica eventos inquestionáveis, não palavras e vislumbres imaginativos, mas a morte, a ressurreição e a ascensão da pessoa histórica chamada Jesus.

Alguns séculos depois do cristianismo surge o islamismo, atualmente a segunda maior religião do mundo (sabemos que o cristianismo é a primeira). O islamismo se considera uma continuação da Torá, do Antigo Testamento, embora não possua muitas afinidades com as Escrituras veterotestamentárias e seja bem menos compatível com o Antigo Testamento do que o Novo Testamento cristão, com quem em parte rivaliza e em parte compactua. Várias reinterpretações islâmicas da história veterotestamentária comprovaram-se arqueologicamente insustentáveis e a posição do fiel perante Deus, Alá, é praticamente idêntica ao que o Antigo Testamento já considerava: ele continua refém de uma série de leis. Na verdade, a salvação do muçulmano ainda é baseada no mérito, ou seja, apesar da revelação divina, é o homem que, cumprindo as prescrições da divindade e pertencendo à comunidade religiosa garante o seu lugar no Paraíso. Nesse sentido, o islamismo não satisfaz adequadamente as expectativas geradas pelos escritos judaicos.

Como conclusão, verificamos que, das Religiões Proféticas, a única realmente pura e plena é o cristianismo: havendo necessidade de revelação divina em todas, o judaísmo evidencia a incapacidade humana de atingir o Divino e o islamismo enaltece tal capacidade, enquanto o cristianismo conclui o judaísmo e se opõe ao islamismo, afirmando que, além de ser necessário que Deus se revele ao homem, é necessário que o Altíssimo se aproxime do ser humano, pois, se o homem é incapaz de perceber o Eterno adequadamente (carecendo da Sua revelação), também é incapaz de chegar até Ele por conta própria.
Fonte: Religiões, Crenças e Crendices, de Urbano Zilles, EdiPUCRS, 2012. Extraído da postagem do EOMEAB: As Religiões em Categorias

5 - A singularidade de Jesus Cristo:
Segue um breve texto sobre a singularidade de Cristo. Trata-se de uma reflexão minha publicada no facebook.com no dia 21 de dezembro de 2014:

Foi no monoteísmo mais antigo e rígido da história que apareceu um cara afirmando ser Deus e Se sustentando em diversas profecias dos séculos anteriores. Porém esse homem não era louco: Sua sabedoria e perspicácia cativaram os mais simples, mas deixaram as autoridades perplexas - quando um governante romano decidiria fazer perguntas de cunho filosófico para um mero judeu, camponês da Galileia? Ele também não era um mentiroso, pois Sua pregação até hoje é tida como detentora da mais elevada moralidade. Esse homem singular pregava o cumprimento de algo que começara em Gênesis 3:15 - e fazia todo o sentido -, sustentando Suas palavras com feitos extraordinários, realizados de modo incomum: sem o uso de apetrechos, medalhões, soluções ou rituais, e sem recorrer a ninguém além de Si mesmo, simplesmente falando e fazendo as coisas acontecerem - pessoas eram curadas, voltavam da morte, eram alimentadas, a tempestade se acalmava, a água tornava-se caminho sólido para Sua caminhada e até os demônios reconheciam a Sua autoridade. Seu nome foi tão poderosamente reconhecido por todo o mundo, que até pagãos o declamavam, sem conhecimento, em seus exorcismos.

Todos os movimentos de Cristo pareciam ser pensados - Ele sabia exatamente onde tudo iria dar e, por isso, falava com grande coragem e autoridade. Quem, além do Messias prometido, poderia considerar-Se o próprio "Eu Sou"? Nunca ninguém em Israel havia usado esses termos para falar de si mesmo. Quem, além do Messias, poderia citar a Lei, mas revisá-la com base na Sua própria autoridade e testemunho? Quem, além do Ungido, teria a audácia de chamar Iavé de "Paizinho"? Referir-se ao Pai com tamanha intimidade era inaceitável para os judeus, que mal tinham coragem de pronunciar ou escrever o nome de Deus.

Quem foi esse homem que não precisou bajular ninguém para dar início ao movimento mais poderoso de toda a história humana? Que não precisou se colocar como um revolucionário dos pobres, nem um conselheiro dos reis? Que não precisou inflamar o exacerbado nacionalismo judaico e nem curvar-se de modo interesseiro aos invasores romanos? A Sua vida, mensagem, morte e ressurreição eram escândalo para os judeus e os gentios, mas a evidência era forte demais para ser ignorada. O legionário romano precisou curvar-se diante da cruz, reconhecendo que Ele era o Filho de Deus, pois os fundamentos do mundo se abalaram quando "tudo se consumou" e as trevas cobriram a região. E o que aconteceu no terceiro dia, que fez dos discípulos amedrontados e escondidos, os mais corajosos e incansáveis evangelistas de que temos conhecimento, sustentando a verdade inconveniente da Ressurreição até o martírio? Sim, Ele ressuscitou! E nem os judeus e nem os romanos foram capazes de mostrar alguma evidência do contrário. Aqueles que presenciaram Sua morte também declararam Seu retorno - e mais de 500 pessoas O viram de uma única vez.

Quem foi esse homem que dividiu a História? Que em três anos mudou para sempre os alicerces da Civilização? Cujo exemplo e cuja pregação sustentaram as mais significativas revoluções? Quem foi esse homem que ainda hoje é seguido por 2,2 bilhões de pessoas, sendo o centro do livro mais amado - ou odiado - e lido de todos os tempos? Que serviu de base para os mais importantes passos da humanidade nos últimos dois milênios? Mais estudos foram feitos sobre Cristo do que sobre qualquer outro tema! Como já reconheceu o cético: seria necessário um Jesus para inventar Jesus. Ninguém teria uma inteligência tão completa e sublime para criar uma figura tão surpreendente, que até hoje é considerada por muitos como o maior educador, o maior líder, o maior psicólogo, o maior dos sábios e uma das pessoas mais inteligentes que já pisaram na face da Terra. Ele é tão espetacular que evitamos incluí-Lo nas listas das pessoas importantes de nossa história - pois Ele é o próprio centro da História. Como não agir como o ex-ateu, Lew Wallace, que, ao ler o Novo Testamento com o objetivo de destruí-lo, não encontrou opção senão a de se curvar diante da magnitude daquele que realmente é o Salvador do Mundo? E que definitivamente foi elevado aos céus diante dos olhos daqueles que se submeteram às mais terríveis privações e torturas em amor ao Seu nome? Como pode alguém que esteve entre nós há tanto tempo ainda ser considerado como o maior responsável pelas mais significativas mudanças de vida, curas e despertamentos, sejam intelectuais, sejam espirituais, de pessoas do mundo inteiro? Coisas incríveis continuam acontecendo com o simples evocar do Seu nome! A estadia de Cristo entre nós, vindo da Eternidade como Divindade e voltando para lá, foi mais do que uma estrela iluminada na constelação das figuras históricas que mudaram o mundo: Ele foi mais como um cometa, que encheu o céu noturno de luz e que colidiu com a Terra de modo violento e profundo, deixando marcas indeléveis e alterando para sempre a sua configuração. Nenhum lugar desse mundo seria o mesmo sem a Sua presença. E é por isso que eu sou cristão.
Fonte: Jesus Cristo: O Centro da História. Para uma melhor compreensão da Trindade, leia o seguinte artigo do EOMEAB: O Mistério da Trindade. Sobre a maior evidência da divindade de Cristo, a Ressurreição, leia o seguinte artigo do EOMEAB: Existem Evidências da Ressurreição de Cristo?

A verdade é que em diversas religiões há uma expectativa messiânica - o homem sempre reconheceu a sua incapacidade de chegar até Deus e sonhou com semi-deuses e divindades enfrentando o Mal em seu lugar para resgatá-lo. Essa temática se repete na mitologia: no mito nórdico, Thor, filho de Odin, e representante dos deuses diante dos homens, enfrenta ferozmente a Serpente do Mundo, Nodhogg, que se enrola entorno da Árvore da Vida, alimentando-se dela. Fonte: As Melhores Histórias da Mitologia Nórdica, A. S. Franchini e Carmen Seganfredo, Edit. Artes e Ofícios, pgs 12, 165-168 e 178. Na mitologia grega, a figura de Thor como enfrentador da Serpente se transfere para Apolo, deus ligado às faculdades humanas –Fonte: Guia Ilustrado Zahar, Mitologia, Philip Wilkinson e Neil Philip, pg 319-, que se digladia ferozmente com Píton, conforme pode ser lido no livro As 100 Melhores Histórias da Mitologia, A. S. Franchini e Carmen Seganfredo, Edit. L&PM, pgs 27 e 28. Podemos, ainda, nos lembrar de Hércules, maior semideus, que no penúltimo dos seus 12 Trabalhos enfrenta o dragão que protegia os frutos dourados do Jardim de Hespérides. Fonte: As 100 Melhores Histórias da Mitologia, A. S. Franchini e Carmen Seganfredo, pgs 200; Guia Ilustrado Zahar, Mitologia, Philip Wilkinson e Neil Philip, Edit. Zahar, pg 61. Note a associação da Serpente e do Fruto com o Mal. A verdade é que diversas histórias aparecem repetidamente em mitos dos quatro cantos do mundo, indicando uma memória ancestral comum a toda a humanidade. Leia mais sobre isso no seguinte artigo do EOMEAB: As Mitologias Indicam um Passado Comum?

Sobre a presença de uma figura messiânica redentora nos mitos antigos, C. S. Lewis desfere a seguinte declaração:
 “O coração do cristianismo é um mito que é também um fato. O velho mito do Deus Que Morre, sem deixar de ser um mito, desce do céu da lenda e imaginação para a terra da história. Ele acontece numa data determinada, num lugar determinado, seguido de consequências históricas definíveis. Passamos de um Balder ou de um Osíris, que morrem ninguém sabe onde nem quando, para uma Pessoa histórica que é crucificada... sob Pôncio Pilatos. Tornando-se fato, o mito não deixa de ser mito: eis o milagre. [...] Deus é mais do que deus, não menos: Cristo é mais do que Balder, não menos. Não devemos nos envergonhar da auréola mítica presente em nossa teologia. Não devemos ficar nervosos com ‘paralelos’ e ‘Cristos pagãos’: eles precisam estar ali – seria um empecilho se não estivessem.” Fonte: Fé e Descrença, Ruth Tucker, Edit. MundoCristão, pg 64.

As mais diversas religiões primitivas demonstram esse forte desejo pela redenção, mas foi apenas no cristianismo que esse anseio antiquíssimo e universal encontrou a sua resolução.

Jesus Cristo é tão singular que muitas religiões ainda hoje querem incluí-Lo de alguma forma:
- Os Hindus acreditam que Jesus foi um tipo de avatar de Vishnu.
- Muitos budistas creem que Jesus foi uma reencarnação do próprio Buda ou um grande Bodhisttva.
- Nos islamismo Jesus aparece como um grande profeta, isso porque, no Dia do Julgamento, ficará ao lado de Alá na Balança.
- O cristianismo, porém, com base na sua veracidade histórica, consiste naquilo que Jesus falou sobre si mesmo e seus demais ensinamentos e atitudes. Se muitas religiões O querem, e isso é um fator comum entre elas, por qual motivo não haveria de escolher a única religião que O tem como Centro?! Fonte: DVD As 12 Maiores Mentiras, apresentado por Kevin Sorbo, BV Films.

É interessante encerrar esse tópico citanto C. S. Lewis uma última vez, quando ele descreve o desenvolvimento da religião ao longo da caminhada humana, culminando em Cristo:

“A humanidade está dividida entre ‘a maioria que acredita em algum tipo de Deus ou deuses, e a minoria que não acredita’.” E, daqueles que acreditam: “... Um grupo é o dos hindus, que acredita ‘que Deus está além do bem e do mal’; outro, o grupo dos judeus, maometanos e cristãos, que acredita que ‘Deus é definitivamente ‘bom’ e ‘justo’ , um Deus que toma partido, que ama o amor e odeia o ódio.”

“Primeiro, Ele nos deu uma consciência, o senso de certo e errado. E por toda a história humana, as pessoas tentavam... segui-lo. Nenhuma delas foi completamente bem-sucedida. Em segundo lugar, Deus deu à raça humana histórias “disseminadas por todas as religiões pagãs sobre um deus que morreu e voltou a viver e, com sua morte, de alguma forma, deu vida ao homem.” Em terceiro lugar, Deus selecionou um povo particular – os judeus – para instruí-los sobre o tipo de Deus que Ele era, "que havia um só Deus e que Ele se preocupava com a conduta certa". As Escrituras judaicas registram esse período de instrução.
Então algo chocante aconteceu. "Entre esses judeus, de uma hora para outra, levantou-se um homem que saiu por aí dizendo que era Deus". Lewis escreve que se esse homem tivesse surgido entre hindus ou outros panteístas, onde as pessoas muitas vezes dizem que são um com Deus ou uma parte de Deus, sua alegação pareceria razoável. Mas esse homem era judeu, para quem Deus "significava o Ser externo ao mundo por Ele criado". Lewis argumentava que, nesse contexto, a reivindicação desse homem de ser Deus "era a coisa mais chocante que jamais havia sido pronunciada por lábios humanos".
Fonte: C.S. Lewis, Deus em Questão, Armand M. Nicholi, Jr, Ultimato, 2005, pgs 49-50.

Temos um Deus Perfeito e relacional. Perfeição é o auge, o ápice positivo das características e do Ser. Jesus é inevitável, pois Ele é o máximo, em Sua vinda, morte e ressurreição, daquilo que entendemos por relacionamento. Considerando o problema real do pecado, Cristo é inescapável para um Deus que ama perfeitamente. E a Sua vinda não fere em nada os atributos inescapáveis da Divindade Suprema.

Para entender os motivos que levaram Cristo a morrer pela humanidade, leia o seguinte artigo do EOMEAB: A Simplicidade do Cristianismo - 3: A Lógica do Sacrifício de Cristo

6 - A singularidade da Bíblia:
Um dos maiores argumentos em favor do cristianismo e, logo, do Deus cristãos, está na própria Bíblia. Não necessariamente em suas declarações, mas propriamente em sua natureza, que supera de longe qualquer outro livro sagrado ou literatura secular. Analisemos algumas informações:

- As profecias bíblicas: 3268 dos 6408 versículos bíblicos com indicações proféticas já se cumpriram. Existem cerca de 300 profecias messiânicas no Antigo Testamento que se cumpriram em Jesus Cristo.
Fontes e leitura complementar: Perguntas que Sempre São Feitas, Werner Gitt, Actual, 2005, pg 33; Bíblia de Estudo das Profecias, John C. Hagee, Atos, 2005, pg 987A Autoridade Profética da Bíblia.
- A historicidade da Bíblia: a Bíblia é, definitivamente, um livro histórico e, portanto, a fé cristã se baseia, acima de tudo, em eventos que realmente se desenrolaram em nosso mundo - nós interpretamos ocorrências históricas! Vejamos algumas frases sobre a historicidade da Palavra:
Nelson Glueck, maior arqueólogo bíblico do mundo, responsável pela escavação de mais de 1000 sítios arqueológicos no Oriente Médio, incluindo o achado das Minas do Rei Salomão, após meticulosa pesquisa, disse: “sobre a quase inacreditável precisão histórica da Bíblia e, particularmente, quando ela é fortificada por fatos arqueológicos”. (...) “Pode ser dito categoricamente que nenhuma descoberta arqueológica jamais colocou em dúvida uma referência bíblica”.
Fonte: Por que Acreditar na Bíblia, John Blanchard, Edit. Fiel, edição virtual autorizada, pg 24.
William Ramsay, um dos maiores arqueólogos de todos os tempos e fundador da Academia Britânica, com a intenção de desacreditar os escritos do autor bíblico Lucas, viajou por todo o Mediterrâneo analisando as referências que o evangelista faz de 32 países, 54 cidades e 9 ilhas, porém não encontrou nenhum erro! Por fim, reconheceu que Lucas era “um historiador de primeira grandeza” e que “deveria ser colocado ao lado dos maiores historiadores”.
Fonte: Dr. Rodrigo P. da Silva sobre Sir William Ramsay; Por que Acreditar na Bíblia, John Blanchard, Edit. Fiel, edição virtual autorizada, pgs 23 e 24. Leia mais no EOMEAB: A Exatidão Histórica da Bíblia
- A confiabilidade do texto bíblico: 
"Aproximadamente um oitavo de todas as variações textuais [dos manuscritos bíblicos] tem alguma importância, a maioria é apenas uma questão de mecanismos de ortografia ou estilo, por exemplo. No total, apenas um sessenta avos pode não ser considerado como 'trivialidade' ou pode ser entendida de alguma forma como uma 'variação substancial'". Norman Geisler.
Fonte: Por Que Confiar na Bíblia?, Amy Orr-Ewing, Ultimato, 2008, pg 60.
"Reconstruir o original (...) [do] Novo Testamento [é fácil] - com uma precisão acima de 99 por cento, com as incertezas restantes sendo insignificantes. (...) Existem 5.300 manuscritos grego e porções, 10.000 da Vulgata Latina, e 9.300 de outras versões. (...) [somando] mais de 24.000 porções de manuscritos (...) sendo que os fragmentos mais antigos datam entre 50 e 300 anos após o manuscrito original ter sido escrito. (...)
É essa abundância de material que tem permitido a estudiosos como Westcott e Hort, Ezra Abbott, Philip Shaff, A. T. Robertson, Norman Geisler, e William Nix colocarem a restauração do texto original com uma precisão acima de 99 por cento." A estimativa de "variações circunstanciais" de Hort é de um décimo de 1 por centro, e a de Abbot é de um quarto de 1 por cento - os números de Hort que incluem as "variações triviais" ainda é inferior a dois por cento do texto.
"O número de manuscritos do Novo Testamento... é tão grande que é praticamente certo que a leitura verdadeira de cada passagem duvidosa é preservada em uma ou outra dessas autoridades antigas. Isto não pode ser dito de nenhum outro livro do mundo." Sir Frederic Kenyon.
Fonte: Os Fatos Sobre a Bíblia, John Ankerberg, John Weldon e Dilon Burroughs, Actual, 2011, pgs 23-24. Leia mais sobre isso no EOMEAB: Posso Confiar no Texto Bíblico Atual?
- Um livro singular e universal: 
Há uma unidade imutável entre os 66 livros bíblicos: são mais de 40 autores, das mais diversas classes sociais –de reis a pescadores-, contextos culturais –do Egito à Roma-, geográficos –três continentes-, linguísticos -do grego ao hebraico-, literários –de poesia à narrativa, do aramaico ao grego- e históricos -1600 anos de redação- trabalhando com um assunto central, único, em perfeita coesão, sem contradição, de modo que é impossível inserir outros documentos nessa ordem impecável e nitidamente alcançada pela observação de seu único real autor, responsável pela unidade temática assombrosa: o próprio Deus. Fontes: Por que Confiar na Bíblia?, Amy Orr-Ewing, pg 41 e 42; Bíblia de Estudo das Profecias, John C. Hegee, pg 1420; Perguntas que Sempre São Feitas, Werner Gitt, Actual, 2005, pgs 38-39; Defenda Sua Fé, Joe Coffey, Série Cruciforme, VidaNova, 2012, pg 47.
A Bíblia mais antiga tem 1600 anos de idade. A mais recente deve ter menos de 1 minuto. Nos últimos 50 anos 3,9 bilhões de bíblias foram lidas, sendo o livro mais lido do mundo nesse período, seguido por Citações do Presidente Mao Tse Tung, com 820 milhões de leituras, quatro vezes menos. Fonte: squidoo.com/mostreadbooks. São vendidas, anualmente, 100.000.000 de bíblias, estando a Bíblia sempre no topo de preferência. Fonte: Por que Confiar na Bíblia?, Amy Orr-Ewing, pg 41. Entre 1997 e 2002, as Sociedades Bíblicas Unidas, distribuíram 2.979.000.000 de exemplares e porções da Bíblia. Em 2002 tínhamos a Bíblia traduzida para 2203 línguas diferentes (90% da população mundial) e, quatro anos depois, mais de 600 projetos de tradução, 500 para línguas ainda não atingidas, estavam em andamento. Fonte: Por que Acreditar na Bíblia, John Blanchard, Fiel, 2006, pg 5.
- Um livro transformador:
A Bíblia foi responsável por 75% de todas as revoluções sociais que varreram o Ocidente entre os séculos XVIII e XIX, como o movimento antiescravagista, as reformas prisionais, a melhora no tratamento de deficientes mentais, educação infantil, feminina... O Livro do Conhecimento, acerca da Bíblia, diz: “Considerada simplesmente como literatura, a Bíblia, em qualquer idioma, tem impressionado de forma mais profunda a mente humana que qualquer outro livro em todo o mundo, e não se pode calcular a extensão com que ela tem moldado as ideias do mundo, e desta forma a humanidade.” Fonte: Por que Acreditar na Bíblia, John Blanchard, pg 42.

Temos aqui, portanto, um livro extremamente singular, divinamente embasado em profecias certeiras, plenamente histórico e confiável, de caráter universal e profundamente transformador, cooperando com as exigências do Livro Sagrado do Verdadeiro Deus, apresentado minuciosa e perfeitamente no relato escriturístico.

Resumo e conclusão:
Então, quem é o Deus Verdadeiro? Por quais motivos?
O Deus Verdadeiro é Iavé, o Único Deus, o Deus Pai, o Deus Filho e o Deus Espírito Santo. E essa conclusão é bem fundamentada. O Deus Verdadeiro é o Sumo Bem, pois é necessário existir o Bem para o Mal aparecer, o Perfeito para a imperfeição surgir, a Ordem para ocasionar a desordem, a Vida para acarretar na morte e a Luz para se discernir o que são as trevas. Ele é Perfeito. Esse Deus Criador é a Causa Primeira do Universo, em conformidade com a lei da Causa e Efeito e as leis da Termodinâmica - nada pode vir do nada, porém o Universo não pode ser eterno em si mesmo. Esse Criador está, portanto, acima do tempo, da matéria e do espaço, sendo atemporal, imaterial e infinito, onipotente, onipresente e onisciente.

Segundo essas definições, precisamos excluir as divindades menores dos politeísmos, pois são criaturas. Devemos atentar apenas para os deuses maiores, os criadores eternos. Sobram poucos, dentre os quais Iavé, Alá, Rá e Prajapati. Por ser o Sumo Bem, criador e mantenedor da vida e originador da moralidade humana, esse Deus precisa ser relacional e acessível, restando-nos Iavé.

Outra forma de chegar no Deus Verdadeiro é analisar o que faz mais sentido: o teísmo, o panteísmo ou o ateísmo. Tanto o panteísmo quanto o ateísmo apontam para a inexistência de Deus, logo, o teísmo, que inclui o cristianismo, é a percepção religiosa verdadeira. O teísmo, que percebe um Deus criador que está fora da Criação, também se sustenta quando consideramos a moralidade humana: se Ele é o Sumo Bem e existe o Mal no Universo, Ele precisa estar fora do Universo. O deísmo não é válido, pois esse Deus precisa ser relacional.

Uma terceira forma de encontrar o Deus Verdadeiro está na consideração dos tipos de religião: apenas uma categoria religiosa, a profética, tira do homem, finito e imperfeito, a responsabilidade por reatar o relacionamento que foi quebrado com o Deus Infinito e Perfeito. Nesse caso, é mais provável que alguma das religiões proféticas seja a verdadeira. Todas as principais vieram de Abraão e tomam como base primeira a Torá: a Lei judaica mostrou ao homem a sua condição de condenação, mas não lhe apresentou uma salvação. O Islamismo manteve o interesse nas obras, não vindo a solucionar o problema apresentado na Torá. Apenas o cristianismo resolve perfeitamente bem o problema do pecado, descrevendo a vinda do próprio Deus para nos aproximar dEle.

Outra forma de considerar o Deus Verdadeiro, está na separação entre as religiões que apoiam a racionalidade e encontram raízes na história daquelas que rejeitam a razão, pois o Deus Verdadeiro nos apresentaria verdades verificáveis e, por ser relacional, nos visitaria dentro da história. Isso exclui o politeísmo pagão e as religiões orientais.

Uma quinta forma de verificar qual é o Deus Verdadeiro é atentar para Jesus Cristo, a consumação de uma expectativa salvífica universal. Jesus agiu como Deus, morreu e ressuscitou dos mortos. Esse é um evento histórico e, portanto, inquestionável. Temos aqui a figura central do mais coerente teísmo, da mais coerente religião profética, do mais profundo monoteísmo.

A sexta forma de encontrar o Deus Verdadeiro está na verificação da Bíblia. Esse livro descreve exatamente como deve ser o Criador e está totalmente sustentado em profecias cumpridas e em eventos históricos, possui um texto plenamente confiável e singular e verdadeiramente transformou a humanidade. É evidente que o Verdadeiro Deus apresenta-se nesse livro espetacular.

Por eliminatória e utilizando uma variedade de recursos e lógicas diferentes, conseguimos interceptar aquele que é o Verdadeiro Deus: o Deus judaico-cristão, o Deus Pai, o Deus Filho e o Deus Espírito Santo! O fato de existirem centenas de milhões de divindades não significa que todas estejam no mesmo nível de coerência. Não é ilógico ser cristão.

Natanael Pedro Castoldi

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