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Revisitando o Julgamento de Galileu Galilei

-> Apresentação e Índice
Infelizmente, o caso de Galileu Galilei entrou para a história como um trunfo contra a Igreja e em favor de uma cisão entre a ciência e a religião. Com o estímulo da propaganda anticristã Iluminista, a verdade dos fatos sobre o julgamento do grande cientista foi distorcida e a distorção acabou ocupando o lugar dos eventos reais, adentrando nos livros didáticos, revistas e até mesmo em documentários. A história de que Galileu foi torturado e morto pela Igreja, "inimiga da ciência", se enraizou de tal modo no imaginário popular que, segundo uma pesquisa realizada pelo Conselho da Europa com estudantes de ciências de todo o Continente, 30% dos acadêmicos acreditavam na morte do cientista na fogueira e 97% imaginavam que ele fora torturado. De fato é esse tipo de impressão que os artistas eternizaram ao longo de três séculos de pinturas sobre o julgamento do astrônomo. A verdade é que Galileu não foi aprisionado numa cela, não foi torturado e, muito menos, morto na fogueira. João Paulo II, em 1981, nomeou uma qualificada equipe para a análise profunda e rigorosa do julgamento de que falamos e, após onze anos de estudos, todo o processo foi devidamente esclarecido, abrindo um fecundo campo de debates sobre a questão. Hoje é possível estabelecer com elevado grau de certeza o que de fato aconteceu com Galileu Galilei.

1 - Precedentes e resumo dos fatos:
Galileu Galilei, nascido em Pisa no ano de 1564, tornou-se um homem de temperamento difícil. Por volta dos 25 anos, depois de nomeado assistente de matemática na Universidade de Pisa, redigiu um panfleto contra os seus colegas e foi agressivo num debate contra uma pessoa próxima ao grão-duque, tornando-se em "persona non grata". Esse último acontecimento obrigou-o a sair da Universidade de Pisa. Protegido do cardeal Guidobaldo del Monte, Galileu conseguiu a cátedra da Universidade de Pádua.

Durante seu tempo em Pádua, Galileu encontrou uma luneta holandesa e fabricou um exemplar mais potente. Com ela realizou extensas observações da Lua, suas crateras e montes, da superfície do Sol, de luas de Júpiter, da observação de Saturno e de diversos outros pontos da Via Láctea. Ao observar Vênus, percebeu a existência de fases como as da Lua e concebeu que a sua órbita estava centrada no Sol, não na Terra, em concordância com Copérnico, clérigo cristão que cogitou no heliocentrismo anteriormente. Galileu produziu e publicou um folheto com suas constatações, "O mensageiro celeste", dedicado ao seu antigo aluno Cosme II de Médicis, grão-duque da Toscana no momento. Quando o grão-duque soube que Galileu nomeara as luas de Júpiter de "satélites medicianos", presenteou-o com um colar de ouro e uma medalha. Sob influência do grão-duque, o astrônomo também foi nomeado primeiro-matemático da Universidade de Pisa. Esse cargo não exigia que morasse em Pisa e nem lecionasse, podendo permanecer em Pádua com sua elevada renda, mas a insaciável sede por reconhecimento fez Galilei retornar para Pisa. Ele queria ser admitido nos círculos dos sábios e frequentar o ambiente das autoridades eclesiásticas, e sabia que, caso viesse a comprovar a tese de Copérnico, jamais cairia no esquecimento.

O problema é que, em 1619, a obra de Copérnico fora incluída no Index, levando Galileu a agir com cautela. Somente quando o seu amigo, o cardeal Maffeo Barberini se tornou o papa Urbano VIII, o astrônomo sentiu-se seguro para o desenvolvimento de suas teses. O pontífice recebeu-o com honrarias e o cientista aproveitou para apresentar o projeto de uma obra polêmica, que exporia as teses (a de Copérnico e a vigente na época, a aristotélica) sobre o regimento dos planetas através do colóquio entre três amigos. O papa permitiu a publicação do opúsculo, mas exigiu que nenhum dos lados fosse favorecido. O problema é que, na obra ("Diálogo sobre os dois grandes sistemas do mundo"), o defensor do antigo sistema chama-se Simplício ("simples") e defende seu ponto desferindo os mesmos argumentos que o papa. Além disso, Galileu fez uso de um estratagema para obter o "imprimatur", que é a declaração eclesiástica de que uma obra não vai contra os pilares da Igreja, submetendo apenas uma parte dela para a censura. Descumprindo a promessa feita ao papa, o cientista se coloca abertamente ao lado de Copérnico. 

Apesar de tudo isso - de ter sido comparado ao "simples" (Simplício) e de Galileu defender Copérnico -, o papa estava disposto a perdoar, mas havia algo entre ele e o sábio: a Congregação do Santo Ofício, o Tribunal da Inquisição. Mesmo evitando demonstrar fraqueza, Urbano VIII procurou auxiliar Galileu da melhor forma, encarregando uma comissão de teólogos para examinar a sua obra na esperança de que ele fosse absolvido. Não foi o que aconteceu e Galileu precisou passar pelo julgamento.

O papa Urbano VIII, embora cético quanto a capacidade humana de desvendar os segredos do Cosmos, era amigo de Galileu. Leandro Narloch explica o processo com mais detalhes: o papa permitiu a publicação do livro do astrônomo com a condição de que o heliocentrismo e o geocentrismo foram tratados apenas como teorias, e representantes da Inquisição, depois de analisarem o texto e proporem algumas emendas, chegaram a recomendar a publicação. Galileu, porém, manteve a versão favorável ao heliocentrismo, pelo que foi repreendido pelo papa e, um ano depois de publicado o livro, chamado para o Tribunal da Inquisição, em Roma.

Em Roma, na Basílica de Santa Maria della Minerva, no dia 22 de junho de 1633, Galileu recebeu seu veredicto: sua obra não poderia ser publicada, ele seria preso e deveria abjurar os seus erros. Mesmo se disponibilizando a ensinar apenas o geocentrismo, Galileu Galilei foi tido como suspeito de heresia e, condenado à prisão na sede do Santo Ofício, passou por um "exame rigoroso" de suas crenças, o que foi erroneamente entendido como "tortura" - cópias dessa condenação espalharam-se pela Europa, consolidando a crença de que ele fora, de fato, torturado. Voltaire ajudou a solidificar essa percepção. De fato, Galileu padeceu algum nível de humilhação, mas jamais fora torturado - os modos comuns de tortura eram severos demais para alguém com 69 anos e como Galileu sobreviveu sem sequelas, não pode ter sofrido flagelos. As próprias normas da Inquisição livravam idosos, crianças, doentes e mulheres grávidas da tortura - Galileu era velho e sofria de artrite e hérnia. O grande astrônomo não padeceu maus-tratos.

A sentença foi dada - vários juízes e o próprio papa se negaram a subscrevê-la: o astrônomo iria cumprir pena em prisão domiciliar, por consideração do papa. A prisão de Galileu começou no palácio renascentista do embaixador de Florença, seguiu para os aposentos de um oficial e para a casa do arcebispo Piccolomini - ele nunca ficou um dia numa cela comum. Viveu em palácios de amigos, alguns da alta hierarquia católica, e, por fim, na própria casa. Durante esse tempo, segundo Alfonso Aguiló, ele teve a liberdade de continuar a trabalhar na sua ciência, de receber visitas e de publicar as suas obras. Assim foi até a sua morte natural. Segundo seu discípulo e biógrafo, Vicenzo Viviani, Galileu morreu com firmeza filosófica e cristã aos 77 anos de idade, pacificamente em casa (Arcetri, perto de Florença), na sua cama, depois de ter recebido indulgência plenária e a bênção do papa - segundo ele, o astrônomo viveu e morreu como um bom cristão. Ao contrário do que se faz parecer hoje, o julgamento do cientista foi feito com relativa mansidão.
Fonte: Revista História Viva, nº 45, Eles Mudaram o Mundo, pgs 28-31; Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo, Leandro Narloch, LeYa, 2013, pgs 80-81; Luzes e Sombras na Igreja, Alfonso Aguiló, Quadrante, 2011, pgs 44-45.

2 - O pensamento da época:
Um dos maiores erros com relação do caso de Galileu está em pensar que na sua época havia um grande atrito entre os cientistas, "detentores da razão", e os clérigos, "amantes dos dogmas". Na verdade, havia cientistas que defendiam dogmas e clérigos profundamente apegados ao pensamento científico - inclusive monges cientistas. É interessante observar, por exemplo, que os cientistas da época chegaram a desenvolver complexos cálculos para saber quando Jesus voltaria. Em oposição ao que Galileu e Copérnico defendiam não estava apenas a classe sacerdotal, mas toda uma classe científica secular, e ao lado de Copérnico e Galileu se encontravam muitos abades, freis, monges, padres, bispos, cardeais e até o papa.

O fato é que o heliocentrismo de Copérnico já tinha quase dois mil anos quando proibido pela Igreja. Aristarco, séc. 3 a.C., propôs a teoria de que o Sol estava no centro do Universo e de que a Terra girava entorno de si própria e entorno dele. Mas desde a Grécia Antiga essa percepção fora rejeitada por uma série de observações da época. Vigorou a percepção aristotélica de mundo, com a Terra ao centro, e tal filosofia se encontrava ainda bastante rígida nos dias de Galileu, sendo defendida pela maioria dos sacerdotes e cientistas seculares.

Quando o astrônomo observou que Copérnico estava certo, toda uma teologia entorno da necessidade de a Terra estar no centro do Universo, que sustentava a ideia de o homem ser o projeto central de Deus, se abalou. A cosmovisão predominante há diversos séculos estava sendo agredida. Alfonso Aguiló lamenta que interpretações errôneas do texto bíblico, considerado literalmente quando deveria ser entendido poeticamente, tenham dado sustentação para paradigmas inquestionáveis. É por isso que a maior parte dos astrônomos da época de Galileu preferiu não tomar partido, como Tycho Brahe e William Gilbert, sugerindo teorias bastante peculiares - Tycho, astrônomo mais famoso daqueles dias, dizia que os planetas se moviam entorno do Sol, mas que o Sol e a Lua giravam ao redor da Terra, que estava fixa no centro do Universo; Gilbert não engolia a ideia do movimento de translação do nosso planeta. Mas o próprio Galileu não era de todo razoável - por exemplo, fez pouco das análises de Johannes Kepler, que mais tarde se mostraram verazes, como a órbita elíptica dos planetas. Considere que na época não havia uma divisão muito clara entre ciência, misticismo e imaginação fértil - Galileu chegou a calcular o tamanho do Diabo, baseado nas descrições de Dante Alighieri. O famoso astrônomo também eram considerado um bom astrólogo. A astronomia estava começando a se tornar independente da astrologia e a química estava se separando da alquimia, que visava, sobretudo, transformar metais comuns em ouro. É interessante notar que Isaac Newton, um século depois, foi ridicularizado pelos mais brilhantes matemáticos ao afirmar que a força de atração é proporcional à massa dos corpos - ele foi acusado de acreditar em magias e milagres.

Diversos cientistas e filósofos se colocaram em franca oposição ao heliocentrismo. Muitos chegaram a duvidar das próprias observações no telescópio: segundo Cesare Cremonini, mais destacado filósofo naturalista da Universidade de Pádua, as imagens que apareciam no telescópio de Galileu Galilei eram ilusão de ótica. Giovanni Magini, matemático da Universidade de Bolonha, também não confiava nas imagens do telescópio. Martin Horky, discípulo de Magini, escreveu um livro inteiro para atacar as ideias do astrônomo italiano - chegou a dizer que Galileu se preocupou em anunciar a descoberta dos satélites de Júpiter apenas por interesse financeiro, criticou a sua aparência e afirmou que o telescópio do astrônomo era uma fraude. Dentre os ataques sofridos por Galileu na época, o mais sólido foi escrito pelo filósofo, poeta e matemático Ludovico delle Colombe, e publicado no livro "Contra o Movimento da Terra", no qual considera a teoria de Copérnico "perigosa" e "louca". Um dos argumentos desferidos contra as observações de Galileu foi o de que a Lua, embora aparente ter montanhas e crateras, continuava a ser uma esfera perfeita, como previa a filosofia aristotélica: uma camada cristalina cobria todo o seu relevo. Foram Colombe e Francesco Sizzi, filósofos e não sacerdotes, os maiores responsáveis por acusar o heliocentrismo perante a teologia e, com isso, alimentar a controvérsia. Textos como o de Salmos 104:5 foram apontados para desqualificar a tese defendida por Galileu. É claro que o astrônomo italiano, considerando o seu temperamento, não fugiu da briga e não evitou ridicularizar seus adversários.

Além de o pensamento aristotélico estar consolidado no ambiente eclesiástico e secular há muitos séculos, havia forte resistência à mudanças da parte dos professores de astronomia da época, em geral pouco qualificados, já que astronomia era uma disciplina básica que fazia parte dos cursos introdutórios, ensinada somente até o nível elementar. As percepções de Galileu ameaçavam aquilo que esses professores ensinavam e tinham o potencial de minar a sua posição na comunidade acadêmica. Se já não bastasse essa posição dos acadêmicos, Galileu e outros matemáticos da época desrespeitavam a hierarquia das artes liberais demonstrando as suas descobertas para além dos modelos matemáticos, descrevendo-as dentro dos parâmetros físicos de mundo, coisa que cabia apenas aos filósofos - a matemática era observada como uma disciplina inferior.

Segundo o historiador Stillman Drake, autor de 130 livros e estudos sobre Galileu, é estranho que os historiadores ainda hoje prefiram culpar os teólogos no lugar dos filósofos no caso de Galileu Galilei, sendo que foram os filósofos aqueles que exigiram a intervenção dos teólogos.

3 - Galileu e a Igreja:
Sem conseguir persuadir os astrônomos e filósofos, o cientista italiano recorreu ao Colégio Romano, grande centro astronômico do século XVII e fundado pelos jesuítas. Dentre os seus eminentes membros estava o padre Clávio, considerado por alguns como sendo o maior matemático da época. Galileu manteve bastante contato com Clávio e foi convencendo-o aos poucos, através das observações telescópicas, da tese que defendia. Em abril de 1611, o Colégio Romano homenageou o grande astrônomo, quando o jesuíta Odon van Maelcot disse que Galileu era "digno de ser citado entre os astrônomos mais célebres e felizes".

Ainda assim, o debate teológico acerca do pensamento de Copérnico se acirrava. Houve filósofos, cientistas seculares e sacerdotes contra e a favor de Galileu. Em 1584, o eremita agostiniano, Diego Zúñiga, professor de teologia na Universidade de Salamanca, já havia utilizado de Jó 9:6 para fundamentar a ideia de que a Terra se movia. O teólogo carmelita Paolo Antonio Foscarini defendeu a ideia de que, se a observação sustentasse o movimento da Terra, o certo era conciliar a interpretação bíblica com a natureza. O debate teológico estava em desenvolvimento e Galileu decidiu participar dele.

Mesmo afirmando que a natureza trazia mais verdades sobre Deus do que a Letra Sagrada, Galileu era um bom católico e sabia dividir bem as coisas terrenas e espirituais. A percepção de que a Bíblia nem sempre precisava ser interpretada literalmente, pois muitas vezes fazia uso de linguagem poética ou utilizava de percepções mais antigas, compatíveis com os povos do passado, havia sido trabalhada e defendida por gente como Tomás de Aquino, no século XIII, que percebeu que as ideias de Aristóteles sobre a perfeição e eternidade dos astros iam contra princípios cristãos. O astrônomo italiano em momento algum lutou contra a Igreja, mas se esforçou para torná-la mais aberta às descobertas. A verdade é que Galileu, segundo Stillman Drake, "se sentiu compelido a fazer tudo o que podia para prevenir um erro por parte da Igreja que poderia colocar a sabedoria dela em descrédito". Acerca disso, Leandro Narloch conclui que Galileu "deixa de ser um inimigo e passa a ser fruto da melhor tradição do catolicismo."

É fácil compreender, ao menos em parte, a reação da Igreja aos posicionamentos de Galileu, tanto seu comportamento quanto as suas ideias: a Reforma Protestante tinha se alastrado para quase todo o Norte da Europa, ameaçando a Igreja Católica Apostólica Romana em quase todos os sentidos - números, territórios, poder, prestígio... Como reação, foi convocado o Concílio de Trento, que reafirmou a autoridade do papa, ampliou a luta contra os hereges e firmou a ICAR como a autoridade máxima na interpretação da Bíblia. Diante desse quadro, a oposição ao tradicional sistema aristotélico era a última coisa que a Igreja desejava, e um conflito teológico, encabeçado pelas ideias de um único astrônomo, que chegou a zombar do papa, apenas dificultava as coisas. Foi justamente nesse período turbulento que os textos de Copérnico e de outras influências de Galileu foram banidos. Com a Contrarreforma, houve um recuo teológico e os filósofos, matemáticos e sacerdotes de maior prestígio se posicionavam contra a nova astronomia.

Essa mudança de postura, por advento da Contrarreforma, é melhor entendida quando percebemos que as ideias de Copérnico, algumas décadas antes, foram recebidas com entusiasmo pelo papa Clemente VII e por outras autoridades eclesiásticas.

Em 1741, o erro do tribunal que julgou Galileu Galilei fora reconhecido e Bento XIV ordenou que o Santo Ofício desse o imprimatur à primeira edição das obras completas do astrônomo. Em 1822, a sentença errônea foi reformada sob o aval do papa Pio VII.
Fontes: Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo, Leandro Narloch, LeYa, 2013, pgs 65-83; Luzes e Sombras na Igreja, Alfonso Aguiló, Quadrante, 2011, pgs 40-46.

Conclusão:
Uma das piores formas de analisar o passado é vê-lo com os olhos do presente. O cientista do século XVI não entra nas mesmas definições do cientista do século XXI, assim como o sacerdote. Uma característica essencial da ciência é a mutação: ela sempre se movimenta e se altera, de modo que é incoerente avaliar a relação entre a ciência e a religião no passado com base naquilo que a ciência é hoje. Infelizmente, a história tem sido constantemente reescrita para favorecer determinados grupos e ideologias. Não caiamos no erro de pensar no passado apenas como ferramente de combate para as militâncias de hoje e isso serve tanto para os cristãos quanto para os seus inimigos intelectuais.

Se fizermos uso dos critérios frouxos que colocam Galileu como representante da razão contra uma Igreja "irracional" por matar cientistas, seríamos obrigados a ver a Revolução Francesa, tida como centrada na deusa Razão, como inimiga do conhecimento, pois nela fora guilhotinado, por exemplo, o francês protagonista da revolução científica da química no seu tempo, Antoine Laurent Lavoisier - naquela mesma ocasião, o presidente do tribunal declarou que "a República não precisa de sábios".
Fonte: Luzes e Sombras na Igreja, Alfonso Aguiló, Quadrante, 2011, pg 41.

Natanael Pedro Castoldi

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- O Caso de Galileu Galilei
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Algumas Notas Sobre a Inquisição

O tópico "Inquisição" rotineiramente aparece nos diálogos no ambiente acadêmico e circulando na internet. Geralmente quando se fala da Inquisição em ambientes seculares o que predomina é a desinformação, um desprezo enorme pelas fontes e pelo trabalho de historiadores competentes, que são substituídos por matérias de revistas tendenciosas, imagens mal-intencionadas e livros didáticos de Ensino Fundamental e Médio, todos baseados essencialmente em mitos forjados e disseminados pelos Iluministas e outros opositores da Igreja Católica Romana - eu, mesmo não sendo católico, me entristeço com essa forçada panfletagem da parte de muitos protestantes. É claro que algo do que se prega hoje sobre a Inquisição é veraz, é evidente que a Inquisição não deveria ter existido e que crimes sinistros foram efetuados por seus tribunais, mas há todo um outro lado propositadamente esquecido. Falemos sobre ele.

1 - A Inquisição em seu tempo:
A Inquisição começou no século XIII - o primeiro tribunal para julgar crimes contra a fé existiu na Sicília, em 1223 d.C. Naquele período diversas heresias começaram a florescer e se espalhar pela cristandade. As primeiras medidas da Igreja para frear o avanço herético foram pacíficas, mas a ineficácia dessa empreitada levou ao combate formal. Mas devemos entender essa medida em seu próprio período.

Havia uma ligação exageradamente íntima entre o Estado e a Igreja, entre o poder civil e o eclesiástico, e o enfrentamento da heresia era, sobretudo, uma defesa da paz social. Considerando a relação sólida e una da Igreja com a sociedade, qualquer pensamento e movimento que viesse a abalar a ordem religiosa, também abalava a ordem social.

O que a Inquisição fez foi, basicamente, tomar para si sistemas que eram habituais na sociedade de então - mas vale lembrar que ela se desenrolou de modo mais benigno do que os tribunais contemporâneos, tendo sido criada também para frear os excessos cometidos nas rotineiras perseguições aos hereges. Com o passar dos séculos, os cristãos foram compreendendo a incompatibilidade entre as práticas inquisidoras e o Evangelho. Mesmo na Idade Média, muitos cristãos já demonstravam perceber tais falhas e entristeciam-se com elas.

O emprego da força para corrigir os dissidentes era o tratamento normal que se dava a quase todos os criminosos, acusados dos mais variados delitos - e a heresia era o mais grave, principalmente por causa do abalo social que provocava. A unidade da fé era um dos bens mais preciosos da cristandade, considerando que, na Idade Média, todo o mundo Ocidental se proclamava cristão - um dos principais elementos integradores da sociedade civil era, sem dúvida, a antiquíssima instituição romana. Quando as hordas de bárbaros marcharam pela Europa e promoveram a queda de Roma, no século V, a Igreja foi a única instituição imperial que sobreviveu e coube ao bispo de Roma a proteção da população civil diante dos invasores, também coube à Igreja a preservação da Cultura Clássica e da própria escrita num mundo que mergulhava no estilo de vida bárbaro, destituído do alfabeto. A responsabilidade social, militar, intelectual e de organização urbana e do trabalho no campo recaiu sobre a Igreja, que preencheu esse vácuo de poder e inevitavelmente construiu toda uma sociedade que orbitava entorno de suas catedrais e mosteiros. Não é difícil entender como o modo de vida e pensamento cristãos eram considerados tão importantes para as autoridades e para o próprio povo - sentimento que se intensificou durante os quatro séculos campanhas muçulmanas de conquista das terras cristãs do Oriente Médio, Ásia Menor, Norte da África e Península Ibérica, quase culminando na tomada do coração da França, mais poderosa nação cristã do período, na Batalha de Poitiers, ocorrida no dia 25 de outubro de 732 d.C., entre Poitiers e Tours. Antes de conclamadas as cruzadas, os maometanos tomaram para si dois terços de todos os territórios cristãos, e a Primeira Cruzada ocorreu sob a ameaça de conquista da maior cidade cristã do mundo daqueles dias, Constantinopla - não é estranho, considerando tudo isso, que centenas de milhares de cristãos tenham se mobilizado livremente para o combate. Também não deve causar estranheza as reações enérgicas aos hereges, que ameaçavam esse vital fator de união continental, que ultrapassava os diversos povos e culturas.

A heresia foi elevada ao mesmo nível do crime de lesa-majestade, que se resumia na tentativa de assassinato ao rei, crime punível com fogueira. Isso deixa, mais uma vez, evidente a falta de limites claros entre os campos da política e da religião - em parte resultante do processo histórico acima descrito -, de modo que os líderes civis viam nos distúrbios religiosos perigos sociais. Esse medo não era infundado, pois, de fato, os heresiarcas tinham o costume de querer obter poder, originando guerras e desordens sociais. 

2 - A conduta dos Tribunais:
Os primeiros tribunais da Inquisição na Espanha foram criados em 1242 d.C. Como ocorria em outros países europeus, tais tribunais dependiam dos bispos diocesanos e geralmente eram bastante benévolos.

Infelizmente, durante o período espanhol dos Reis Católicos (Fernando de Aragão e Isabel de Castela), a Inquisição Espanhola esteve bastante sujeita a interferências do poder secular. Visando a unidade religiosa e a repressão dos dissidentes, os Reis objetivaram a conversão dos hebreus, que eram 110.000, e dos mouriscos, 350.000. Infelizmente a prática dos tribunais nem sempre foi digna: alguns se convertiam por livre vontade, mas outros o faziam forçadamente - e, quando decidiam regressar aos seus cultos familiares, acabavam sendo perseguidos. 

Naquela época, porém, considerando a estreitíssima ligação entre religião e política e a brevidade da vida, o que fazia o povo simples observar a eternidade como um bem supremo, as pessoas tendiam a ver com bons olhos os inquisidores, comumente tidos como "guardiões da ortodoxia". O herege era, portanto, discernido como um perigo social e espiritual, capaz de ameaçar aquilo que o plebeu mais valorizava, segundo a sua compreensão: a salvação eterna. 

Como dito no primeiro parágrafo desse tópico, esses tribunais costumavam ser benévolos. A morte por fogueira era rara, somente aplicada ao herege costumaz, que nunca se arrependia - não que isso justifique. A maior parte dos delitos tinha como pena a excomunhão, a tomada dos bens, multas, prisões ou orações e esmolas penitenciais. Embora a Inquisição tenha admitido o uso da tortura, havia regras que limitavam a sua aplicação: elas não podiam pôr em risco a vida do acusado e nem chegar ao extremo da mutilação. A verdade é que a tortura era utilizada com toda a normalidade nos tribunais civis - só que na Inquisição, o acusado confesso e arrependido era, depois de torturado, liberado, livrando-se da morte, o que não acontecia nos julgamentos civis. 

Geralmente, os direitos do acusado eram mais respeitados pela Inquisição do que nos tribunais civis. Também não havia na Inquisição uma larga diferença nos tratamentos por ocasião da classe social dos julgados.

3 - Os números da Inquisição:
O mais famoso dos tribunais, a Inquisição Espanhola, iniciou-se em 1242 e só deixou de existir formalmente em 1834. Seu período de maior atuação se deu entre 1478 e 1700 d.C., no governo dos Reis Católicos e dos Áustrias. Sobre os condenados à fogueira, Heningsen e Contreras analisaram os 44.674 casos abertos entre 1540 e 1700: apenas 1346 receberam essa sentença. São 9 mortos por ano em todo o território que vai da Sicília ao Peru, compreendendo o Império Espanhol da época. Henry Kamen calculou que, ao longo de seus seis séculos de existência, a Inquisição Espanhola matou um total aproximado de 3 mil acusados. Com base nisso, Kamen afirmou: "é interessante comparar as estatísticas de condenações à morte pronunciadas na Europa entre os séculos XV e XVIII pelos tribunais civis e pelos inquisitoriais: para cada cem penas de morte decretadas pelos tribunais comuns, a Inquisição decretou uma."

Hoje estão disponíveis mais de cinco mil estudos publicados sobre a Inquisição. Com essa farta informação, os mitos acerta do Tribunal do Santo Ofício foram todos demolidos. Só falta a opinião pública ser reformulada com base nessas valorosas informações.

Natanael Pedro Castoldi

Fontes: Luzes e Sombras na Igreja, Alfonso Aguiló, Quadrante, 2011, pgs 28-39; revista Leituras da História, edição 59, Edit. Escola, Batalha de Tours, O Fim do Avanço Muçulmano, pgs 28 e 29; As Grandes Batalhas da História, 1, Larousse, 2009, pgs 44-45; Os Cristãos, Tim Dolwey, Martins Fontes, 2009, pgs 50 e 72, 94-95; Uma Breve História do Cristianismo, Geoffrey Blainey, 2012, pg 121-122, 139; O Cristianismo Através dos Séculos, Earle E. Cairns, VidaNova, 2008, pgs 104-105, 194-195; Monges Medievais, Ricardo da Costa, Eliane Ventorim e Orlando Paes Filho, Planeta, 2004, pgs 5, 7, 9 e 10; Panorama da História da Igreja, James P. Eckman, Curso Vida Nova de Teologia Básica, 4, 2010, pg  51; Guia Ilustrado Zahar Arquitetura, Jonathan Glacey, Zahar, 2013, pgs 224-227; A História das Religiões, Crenças e Práticas Religiosas do Século XII aos nossos dias, Folio, 2008, pg 11

Leia também:

O Cristianismo Foi Fundado nos Concílios do Século IV?

Ainda há muita gente que sustenta que foi Constantino, através do Concílio Niceno, revisado no Concílio Constantinopolitano (325 e 381 d.C.), o responsável pela fundação do cristianismo, sendo somente ali que os pilares centrais da fé cristã, como a divindade de Cristo e a teologia da Trindade, foram devidamente formulados e estabelecidos como regra. Será que isso é verdade?

Resumo do que segue: 1 - Os cristãos já adoravam Cristo como Deus há séculos; a - A evidência documental neotestamentária; b - A datação dos escritos do Novo Testamento; c - Os testemunhos neotestamentários mais antigos da divindade de Cristo; d - Os Pais da Igreja e a divindade de Cristo; e - O testemunho de não-cristãos sobre a divindade de Cristo; f - O testemunho do próprio Cristo; g - Jesus não era apenas mais uma divindade romana; 2 - O debate sobre a Trindade precede o Concílio Niceno-Constantinopolitano; 3 - Constantino inventou o cristianismo?; Conclusão

1 - Os cristãos já adoravam Cristo como Deus há séculos:
A divindade de Cristo não foi estabelecida nos Concílios Niceno e Constantinopolitano. É impossível, tomando consciência das evidências disponíveis, considerar tais concílios como o ponto de partida para a ideia de Jesus ser Deus. Vejamos algumas delas:

a - A evidência documental neotestamentária:
Existem muitos manuscritos antigos do Novo Testamento que precedem os concílios em questão. Seria insanidade sugerir que tais documentos tenham sido forjados e envelhecidos pelos romanos do século IV simplesmente para embasar as aspirações de Constantino. A quantidade de manuscritos anteriores aos Concílios Niceno e Constantinopolitano que dispomos é evidência clara de que o movimento cristão como religião já era bastante antigo, bem estruturado e detinha grande número de fiéis - no ano 100 d.C. já havia forte presença cristã na região de Roma, da Ásia Menor, da Palestina, da Grécia e do Norte da África; e no ano 200, os cristãos estavam numerosamente presentes na Península Ibérica e no coração da França. A fé crescia num ritmo de 40% por década - 1 mil na década de 40; 1,4 mil na década de 50; 7.530 no ano 100; 40.496 no ano 150; 217.795 no ano 200; 1,1 milhão no ano 250; e 6,3 milhões no ano 300, antes dos Concílios Niceno e Constantinopolitano (valores aproximados segundo Rodney Stark). Uma fé sem estrutura não atrairia tantos fiéis.
Fontes: Os Cristãos, Tim Dowley, Martins Fontes, 2009, pg 16; Uma História Politicamente Incorreta da Bíblia, Robert J. Hutchinson, Agir, 2012, pg 192.

 - Os manuscritos neotestamentários mais antigos:
O Evangelho de João, que é o que melhor sustenta a divindade de Cristo, também é o que aparece num dos mais antigos manuscritos de que temos conhecimento, o Papiro de Rylands, datado do ano de 125 d.C. Considerando que João escreveu em Éfeso e que o manuscrito em questão foi encontrado no Egito, é natural esperarmos cerca de duas décadas entre a redação original e a sua circulação até um ponto tão distante. Rylands pode, portanto, ser uma cópia feita diretamente do autógrafo. O que temos certeza é que desde antes do ano 125 já havia uma crença muitíssimo forte acerca da divindade de Jesus, que está mais do que clara nos escritos de João.

Outro documento de grande antiguidade é um fragmento do Evangelho de Marcos datado da década de 50 d.C., cerca de 20 anos depois da morte e ressurreição de Jesus. Esse fragmento foi encontrado nas cavernas de Qumran, que foram seladas e abandonadas no ano 70 d.C. - o estilo de escrita desse pequeno fragmento foi utilizado somente até o ano 50 d.C. Tendo em vista o Papiro Rylands e o fragmento 7Q5, do Mar Morto, torna-se inquestionável o fato de que os relatos neotestamentários acerca do Messias não são fruto de deturpações míticas que precisam de três ou mais gerações para serem produzidas.

Outros manuscritos muito antigos, abrangendo os Evangelhos, Atos, as epístolas gerais e/ou as epístolas de Paulo, são: os papiros I, II e III, de Chester Beatty, datados entre os séculos II e III; e os papiros II, VII, VIII, XIV e XV, de Bodmer, datados entre os séculos II e IV. Há considerável fartura de folhas nalguns desses manuscritos, chegando a ter 102. Foram catalogados, até o momento, 96 papiros.

Possuímos entre 10 e 15 manuscritos dos cem primeiros anos após a conclusão do Novo Testamento.

b - A datação dos escritos do Novo Testamento:
Papias, bispo de Hierápolis, falecido em 130 d.C., preservado por Eusébio de Cesaréia (263-340 d.C.), declarou a autoria apostólica e de pessoas ligadas aos apóstolos de documentos como Mateus, Marcos, Lucas e João. Isso significa que, segundo aquele que morreu antes da metade do século II, os Evangelhos foram todos escritos por pessoas muito próximas ao Messias, ou ligadas ao testemunho dessas.

Cartas escritas por três Pais da Igreja, Clemente, Inácio e Policarpo, isso entre 95-110 d.C., citam 25 dos 27 livros neotestamentários. Considerando que Clemente estava em Roma e Policarpo em Esmirna, centenas de quilômetros distantes, é certo que o Novo Testamento tenha sido escrito muitos anos antes das cartas deles, pois da redação original para uma circulação tão grande, abrangendo regiões tão distintas, foram necessárias algumas décadas. Isso significa que provavelmente todos os livros do Novo Testamento não foram escritos senão antes do ano 100.

A ausência de menções a alguns dos eventos mais marcantes da história da Igreja Primitiva, como o martírio de Paulo e Pedro e a destruição do Templo em Jerusalém, indica que quase todos os livros do Novo Testamento não podem ter sido redigidos depois de 70 ou, até 62 d.C. Paulo foi martirizado em 68 d.C. - e a obra de Lucas termina com Paulo e Tiago ainda vivos, sendo que Tiago morreu como mártir em 62 d.C. É evidente, com base nisso, que Lucas escreveu Atos antes de 62 d.C. - e, tendo em mente que o Evangelho de Lucas e o livro dos Atos constituem uma continuidade, podemos ter certeza que Lucas foi escrito algum tempo antes de Atos, por volta do ano 60.

Há, ainda, fortes evidências para a redação de muitos dos documentos neotestamentários entre as décadas de 40 e 50, com uso de fontes da década de 30. Análises cuidadosas da epístola de Tiago apontam, com categoria, para uma redação feita, no máximo, no ano 46 d.C.; e algumas das mais sérias análises da epístola de Paulo aos Gálatas sugere sua redação por volta do ano 48 d.C. Mas há evidências ainda mais espetaculares:

c - Os testemunhos neotestamentários mais antigos da divindade de Cristo:
Paulo escreveu 1 Coríntios por volta de 55 e 56 d.C., mas nalgum momento ele transferiu para a carta um credo cristão da década de 30 d.C. - de alguns anos após a ressurreição de Cristo. 1 Co 15:3-8 é declarada como a transmissão de um conhecimento que Paulo recebeu sobre a ressurreição de Jesus, que teria sido formulado entre 18 meses e 8 anos após o evento. Um testemunho tão antigo da ressurreição do Messias é, também, um testemunho sobre a Sua divindade. Mas há ainda outros:

Tanto Filipenses 2:5-11, quanto Colossenses 1:15-20 se parecem com antigos hinos da Igreja Primitiva, que teriam sido aprendidos por Paulo quando ele esteve em Jerusalém, na década de 30 d.C. O prólogo de João 1:1-5 também soa como um antiquíssimo hino sobre a divindade do Messias. Há algo entorno de 41 sessões do Novo Testamento que se parecem com credos formulados desde os primeiros anos da Era Cristã.


d - Os Pais da Igreja e a divindade de Cristo:
Dos séculos I ao III temos importantíssimos testemunhos de cristãos acerca dos documentos neotestamentários e, portanto, acerca da divindade Cristo, explícita em diversos textos, especialmente do Evangelho de João e das Cartas de Paulo. Segue uma lista de alguns deles:

Clemente de Roma, 96 d.C.; Hermas, 150 d.C.; Irineu, 140-203 d.C.; o Cânon Muratoriano, 172 d.C.; a Antiga Versão Latina, anterior a 170 d.C.; Tertuliano, 150-222 d.C.; Inácio, 116 d.C.; Policarpo, 69-155 d.C.; Papias, 80-155 d.C.; O Didaqué, 120 d.C.; Melito, 170 d.C.; Teófilo de Antioquia, 115-188 d.C.; Justino Mártir, 100-165 d.C.; Clemente de Alexandria, 155-215 d.C.; Orígenes de Alexandria, 185-253 d.C.; e Dionísio de Alexandria, 200-265 a.C. O Novo Testamento é considerado em sua totalidade através dos testemunhos desses cristãos e dos documentos aqui apontados. Isso significa que todas as bases para as formulações teológicas acerca da divindade de Cristo e da Trindade já estavam estabelecidas antes dos Concílios Niceno e Constantinopolitano, que muito dessa produção já estava fervilhando e que profundos debates já se realizavam.

e - O testemunho de não-cristãos sobre a divindade de Cristo:
É claro que os não-cristãos do início da Era Cristã nunca declararam crer na divindade de Cristo, residindo sua importância nas afirmações sobre como os cristãos adoravam Jesus como Deus e criam na ressurreição.

- Luciano de Samósata (125-185 d.C.): com declarações agressivas contra os cristãos, Luciano se queixa de que os seguidores de Cristo abandonaram os deuses gregos em troca de "um sofista crucificado que introduziu esses novos mistérios e conseguiu convencer seus adeptos a adorar só a ele." Nos século II já se sabia que os cristãos adoravam ao Messias como Deus.

- Flávio Josefo (37-100 d.C.): o Testemunho Flaviano é o mais espetacular de todos os relatos não-cristãos sobre Jesus do Primeiro Século:

"Naquele tempo apareceu Jesus, que era um homem sábio, se todavia devemos considerá-lo simplesmente como homem, tanto as suas obras eram admiráveis. Ele ensinava os que tinham prazer em ser instruídos na verdade e foi seguido não somente por muitos judeus, mas mesmo por muitos gentios. Era o CRISTO. Os mais ilustres da nossa nação acusaram-no perante Pilatos e ele fê-lo crucificar. Os que o haviam amado durante a vida não o abandonaram depois da morte. Ele lhes apareceu ressuscitado e vivo no terceiro dia, como os santos profetas haviam predito e que ele faria muitos outros milagres. É dele que os cristãos, que vemos ainda hoje, tiram o seu nome."

- Tácito (56-117 d.C.): "Assim, para calar os rumores, Nero jogou a culpa e puniu com requintes de crueldade uma classe de homens odiados por causa de seus vícios, a quem as multidões chamam de cristãos. Cristo, de quem eles receberam o nome, foi executado por ordem de Pôncio Pilatos na época em que Tibério era imperador, e assim essa superstição perniciosa foi contida por breve tempo, apenas para retornar revigorada, não apenas na Judeia, berço da praga, mas até alcançar Roma, lugar onde todas as coisas horríveis e vergonhosas que há no mundo encontram abrigo."

- Suetônio (70-130 d.C.): "A punição foi imposta aos cristãos, uma classe de homens que aderiu a uma superstição recente e nociva". 

- Plínio, o Moço (61 ou 62 - 114 d.C.): "Eles afirmaram [...] que sua única culpa, seu único erro, era terem o costume de se reunirem antes do amanhecer num certo dia determinado, quando então cantavam responsivamente um hino a Cristo, tratando-o como Deus, e prometiam solenemente uns aos outros não cometerem maldade alguma, não deflaudarem, não roubarem, não adulterarem, nunca mentirem, e não negar a fé quando fossem instados a fazê-lo."

Segundo os relatos daqueles que observaram o movimento cristão nos séculos I e II, fica evidente que os cristãos eram considerados membros de uma religião centralizada em Cristo, que era adorado como Deus. A crença na divindade de Cristo, portanto, estava muitíssimo viva desde as primeiras décadas da Era Cristã.
Fontes: Cristãos da Terceira Geração, Eduardo Hoornaert, Vozes, 1997, pg 117Uma Análise das Evidências Extra-Bíblicas sobre Jesus.

f - O testemunho do próprio Cristo:
O próprio Jesus foi o primeiro a considerar a Sua divindade. Aqui não cabe o debate sobre a pessoa de Cristo, mas, apenas, a percepção antiquíssima de Jesus como Deus. Para William Lane Craig, já havia uma cristologia bastante completa nas primeiras duas décadas após a ressurreição do Messias. Segundo o historiador da igreja, Jaroslav Pelikan*, o sermão cristão mais antigo, o mais antigo relato sobre um mártir cristão, a mais antiga narrativa pagã sobre a Igreja e a oração litúrgica mais antiga (1 Co 16:22) são todas passagens que se referem a Jesus como Senhor e Deus. Ele declara: "Sem dúvida, era essa a mensagem em que a igreja acreditava e que ensinava: que 'Deus' era um nome adequado para Jesus Cristo." Se Jesus nada tivesse falado sobre ser Ele o próprio Deus, a única explicação para essa forte fé estaria no enlouquecimento coletivo dos discípulos apenas alguns anos após a crucificação. A verdade é que Jesus declarou sua divindade em diversos momentos (segue o material retirado de meu artigo de nome "Jesus Afirmou Ser o Messias? Declarou Ser Deus?"):

Quando Caifás questionou Jesus sobre se Ele era "o Cristo, o Filho do Deus Bendito", o Mestre respondeu: "Sou." E mais: "E vereis o Filho do Homem assentado à direita do Poderoso vindo com as nuvens do céu." Somente Deus pode ser adorado, mas aqui Cristo está afirmando ser aquele que julgaria o mundo e que receberia adoração, explicitando ser o próprio Criador. No Evangelho de João há 7 passagens nas quais Jesus se considera o próprio "Eu Sou", a forma como Deus se apresentou ao profeta Moisés em Êxodo 3:13-14 (6:35; 8:12; 10:7 e 9; 10:11 e 14; 11:25; 14:6; 15:1 e 5) - ora, nessas passagens Cristo está afirmando que é eterno e auto-existente! Tal declaração é tão forte que, no caso de Jo 8:56-59, os judeus imediatamente recolherem pedras para atirar nele. Talvez a única passagem que supere essas seja a de Jo 10:30, na qual Jesus declara: "Eu e o Pai somos um".

Declarações indiretas da divindade de Cristo:
- Em Jo 17:5, Jesus diz que Ele estava com o Pai antes que o mundo existisse, partilhando da glória de Deus. O AT, porém, afirma que existe apenas um Único Deus e que Deus não dá a Sua glória para ninguém (Dt 6:4; Is 45:5 e 42:8).
- Jesus disse, em Ap 1:17, "Eu Sou o Primeiro e o Último". O mesmo que Deus fala sobre si mesmo em Is 44:6.
- Em Jo 10:11, Jesus diz que Ele é "o Bom Pastor", conforme o que Deus diz em Sl 23:1 e Ez 34:12.
- Joel 3:12 afirma que Deus é quem julgará as nações. Jesus diz que Ele julgará todas as pessoas (Mt 25:31; Jo 5:27).
- O salmista diz que "o Senhor é a minha luz" (Sl 27:1) e Jesus diz que Ele é "a luz do mundo" (Jo 8:12).
- Jesus se declara o "doador da vida" (Jo 5:21), enquanto o AT afirma que Deus é o único que pode "doas a vida" (Dt 32:39; 1 Sm 2:6; Is 26:19; Dn 12:2; Jó 19:25).
- Jesus afirmou que Ele é o único caminho para o Pai (Jo 14:6).
- Cristo declara-se como o "noivo" (Mc 2:19; Mt 9:15; 25:1-13; Lc 5:34), mas Deus é identificado como o "noivo" no AT (Is 62:5; Os 2:16).

Jesus tomava atitudes exclusivas de Deus:
- Só Deus pode perdoar pecados. Cristo perdoou! Mc 2:5-11.
- Só Deus pode estabelecer mandamentos. Cristo estabeleceu um novo mandamento! Mt 28:18-19.
- Assim como Deus entregou os 10 Mandamentos para Moisés, Jesus entregou um Novo Mandamento aos discípulos. Jo 13:34.
- Só Deus pode receber orações. Cristo pediu aos discípulos que orassem em Seu nome! Jo 14:13 e 14 e 15:7.
- Só Deus pode ser adorado (Êx 20:1-4; Dt 5:6-9; At 14:15; Ap 22:8-9). Jesus aceitou adoração! Mt 8:2, 9:18, 14:33, 15:25, 20:20, 28:17; Mc 5:6; Jo 9:38, 20:28. Jesus não repreendeu os atos de adoração, mas elogiou-os - Jo 20:29 e Mt 16:17.

Declarações da divindade de Cristo da parte dos evangelistas e apóstolos:
João diz que Jesus é Deus (Jo 1:1 e 14); Paulo diz que Cristo "é Deus acima de todos" (Rm 9:5) e que "em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade" (Cl 2:9); Pedro diz que os crentes "de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo a fé" (2 Pe 1:1); Mateus afirma a divindade de Cristo quando cita Isaías 7:14, na qual o filho da virgem deveria ser chamado de Emanuel, que significa "Deus conosco" (Mt 1:23); o autor de Hebreus fiz que "O Filho é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser, sustentando todas as coisas por sua palavra poderosa" (Hb 1:3), além de citar Salmos 45:3, afirmando que Deus diz o seguinte sobre o Filho: "O teu trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre" (Hb 1:8). Até os demônios aparecem reconhecendo a divindade de Cristo (Mt 8:29; Lc 4:34 e 42)!

* O mais antigo sermão cristão sobrevivente depois do Novo Testamento começa assim: "Irmãos, temos de pensar em Jesus Cristo como Deus, como juiz dos vivos e dos mortos. E não devemos subestimar nossa salvação; pois quando o subestimamos, também esperamos receber menos." O mais antigo relato de um sobrevivente da morte de um mártir diz: "É impossível abandonarmos Cristo [...] ou adorar qualquer outro. Pois ele, sendo o Filho de Deus, o adoramos, mas valorizamos [...] os mártires." A mais antiga oração litúrgica sobrevivente da Igreja afirma: "Vem, Senhor!" E o relato pagão mais antigo sobre a Igreja declara que os cristãos se reuniam antes da aurora "entoando um hino a Cristo como se para [um] Deus."
Fonte: A Tradição Cristã 1, O Surgimento da Tradição Católica, 100-600, Jaroslav Pelikan, Sheed Publicações, 2014, pg 186.

g - Jesus não era apenas mais uma divindade romana:
Muitos consideram que Jesus fosse apenas uma entre muitas outras divindades romanas do período, adotada pelos cristãos e por Constantino. A verdade é que todas as evidências arqueológicas e documentais mais antigas (Evidências de Jesus no Primeiro Século?) apontam para Cristo como uma figura histórica palestina e para o cristianismo como uma religião monoteísta inicialmente vinculada ao judaísmo, que nada tinha com o paganismo romano (os romanos até abriam uma exceção de culto aos judeus), principiada em Jerusalém. Jesus não tinha relação nenhuma com o panteão romano. Aliás, o cristianismo não era visto com bons olhos por muitos pagãos do período, gerando conflitos e perseguições, coisa que seria diferente caso fosse uma invenção romana para manipular as massas. Até é possível que o imperador romano desejasse apagar o cristianismo inserindo Jesus no panteão romano, como era costume em Roma, mas os cristãos nunca aceitaram a comparação de Cristo com os deuses pagãos, gerando um grande desconforto. Podemos verificar duas coisas interessantes em três relatos pagãos: primeiro, que o cristianismo era visto como um causador de problemas - e não um mecanismo de controle do povo - e, segundo, que o culto cristão era tão desprezado pelos pagãos quanto os cristãos desprezavam o paganismo, evidenciando a impossibilidade de Jesus ter sido pensado pela aristocracia romana:

O discurso de Celso, escrito por volta de 175 d.C.:
"Apareceu uma raça nova nascida ontem, sem pátria, nem tradições, voltada contra todas as instituições religiosas e civis, perseguida pela justiça, universalmente qualificada de infames mas que se gloria da execração geral: são os cristãos." Eles constituem "um punhado de gente simples, grosseira, perdida moralmente, que constitui a clientela ordinária dos embusteiros... ignorantes, fechados, incultos e simples de espírito, almas vis e ignavos, escravos, mulheres pobres e crianças... tecelões de lã, sapateiros e calceteiros, gente de extrema ignorância e destituída de qualquer educação, que dizem maravilhas a mulheres que não têm mais juízo que eles mesmos." Eles vivem "na tenda do sapateiro ou na loja do pisoeiro", pois são herdeiros dos judeus, "escravos foragidos do Egito e que nunca fizeram nada de extraordinário, nunca primaram nem pelo número nem pela consideração". São "sapateiros, pedreiros, serralheiros", "gente grosseira e impura".

"A sabedoria lhes é um mal e a loucura um bem." São "inimigos dos ricos", "sectários que querem fazer grupinhos à parte e se separam da sociedade comum", "adversários da cultura, que não querem fazer o que todo mundo faz". "A aversão dos cristãos contra templos, altares e estátuas é como a marca e o sinal da união, secreta e misteriosa, entre eles, e sua recusa em participar das cerimônias religiosas repousa sobre um conceito errôneo de Deus."

Jesus: um "desassistido que percorria o país com dez ou onze seguidores tirados da lama do povo, entre marinheiros e publicanos, sem futuro, ganhando vergonhosamente uma precária subsistência", filho de "camponeses" ou de um "carpinteiro", "sedutor do povo e embusteiro", "de baixa estatura, feio e sem nobreza", "personagem que terminou por uma morte infame uma vida infame." Ele segue favorecendo a fidelidade do Imperador.
Fonte: Cristãos da Terceira Geração, Eduardo Hoornaert, Vozes, 1997, pgs 136-137.

O testemunho de Tácito, escrito por volta de 110 d.C., foi trabalhado anteriormente. É importante conferir.

Suetônio, escrevendo por volta de 120 d.C.:
"Como os judeus, instigados por Cresto, provocavam distúrbios frequentes, ele os expulsou de Roma."

Sobre essas severas acusações contra o cristianismo, é interessante que o leitor verifique a postagem "As Ofensas aos Cristãos Primitivos".

Contra o que tais pagãos declararam, há uma belíssima carta cristã do ano 120 d.C., que estabelece os motivos que levavam os cristãos a um comportamento tão diferente do dos pagãos, deixando evidente a natureza singular e de origem nada romana do cristianismo. Falo da Carta a Diogneto, que se encontra o livro "Padres Apologistas", Paulos, 2014, pgs 11-30, e na postagem de nome "Sobre os Primeiros Cristãos".

2 - O debate sobre a Trindade precede o Concílio Niceno-Constantinopolitano:
O livro "A Tradição Cristã 1, O Surgimento da Tradição Católica, 100-600, Jaroslav Pelikan, Sheed Publicações, 2014", pgs 185-234, trabalha de modo exaustivo sobre o desenvolvimento do debate acerca da natureza de Cristo e da Trindade, deixando evidente que ambos começaram muito antes dos concílios em questão - até porque algumas das heresias mais antigas surgiram de desentendimentos sobre o assunto, crendo apenas na divindade de Cristo ou descrendo nela, ou crendo na impossibilidade de Deus ser "Um e Três". Tais impasses levantaram muitos heresiarcas e patriarcas da Igreja, e o debate se desenvolveu sem a necessidade de conclamar nenhum concílio formal - desse modo, os Concílios Niceno e Constantinopolitano apenas trataram de refletir sobre e oficializar aquilo que já estava em circulação. Até porque, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento deixam claras a natureza humana e divina de Cristo e a doutrina da Trindade (A Trindade na Bíblia).

Algumas colocações interessantes de Pelikan sobre o assunto:

"A doutrina crida, ensinada e confessada pela igreja católica dos séculos II e III levou à Trindade, pois o cristianismo, nesse dogma, traçou a linha que a separava do sobrenaturalismo pagão e reafirmava seu caráter como religião da salvação."

"Clemente de Alexandria mostra que as tendências docetizantes, mesmo entre os crentes ortodoxos, deve ser considerada como uma forma de 'pensar em Jesus Cristo como de Deus.' (...) a própria existência do docetismo também é um testemunho da tenacidade da convicção de que Cristo tinha de ser Deus, mesmo à custa de sua verdadeira humanidade."

"Atanásio: 'Como é possível alguém não se enganar em relação à presença encarnada [do Filho] se o indivíduo ignora totalmente a geração genuína e verdadeira do Filho pelo Pai?'"

Tertuliano "acha impossível acreditar em um Deus a menos que se diga que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um e o mesmo." Eram comuns as expressões "Deus nasceu", "Deus sofredor" e "Deus morto".

"Tertuliano: 'Ainda que o um [Deus] não fosse também dessa forma [Pai, Filho e Espírito Santo], que eles são todos do um, a saber, pela unidade da substância, apesar do mistério dessa economia, não obstante, estar protegido - o que dispõe a unidade na Trindade, apresentando Pai, Filho e Espírito como três, e, no entanto, não três em qualidade, mas em sequência; não em substância, mas em aspecto; não em poder, mas em [sua] manifestação.'"

"Essa doutrina da relação entre Cristo e Deus, entendida como está, ou seja, como Hipólito e Tertuliano a registraram, revela ter sido uma sistematização da crença cristã popular."

Sibélio: "Da mesma maneira que há 'diferentes tipos de dons, mas o Espírito é o mesmo', também o Pai é o mesmo, mas é expandido no Filho e no Espírito." Sibélio é considerado o responsável pela ideia herege de que a Trindade é como o Sol - o mesmo que se revela de três formas diferentes.

"Noeto (...) raciocinava assim: 'Preciso, uma vez que um [Deus] é reconhecido, tornar esse um o sujeito do sofrimento. Pois Cristo era Deus e sofreu por nossa causa, sendo ele mesmo o Pai, para que pudesse nos salvar."

Do livro "Teologia Sistemática, História e Filosófica", Alister E. McGrath, Sheed Publicações, 2005, pgs 56-61:

Segundo McGrath, até 325 d.C., ano do Concílio Niceno, a Igreja Primitiva havia chegado à conclusão de que Jesus era "um em substância" com Deus. Esse encorpar da cristologia é o primeiro passo para o desenvolvimento das ideias sobre a Trindade. O debate cristológico patrístico pode ser resumido da seguinte forma:

- As Escolas: a Escola de Alexandria tendia a enfatizar a divindade de Cristo, enquanto a Escola de Antioquia enfatizou a humanidade do Messias.
- Os debates: Ário (250-336 d.C.) foi o responsável pela "controvérsia ariana", no século IV. Ele alegava que Cristo deveria ser considerado apenas uma criatura, mesmo que superior às demais. Na oposição, temos Atanásio, que sustentava a divindade de Cristo, sendo ela essencial para o entendimento acerca da salvação. Após algum tempo de debate, o arianismo foi tido como herege. Em seguida desenvolveu-se o "debate apoliranista", entorno das ideias de Apolinário de Laudicéia (310-390 d.C.), que considerava que Cristo não poderia ser considerado totalmente humano. Apolinário recebeu oposição de autores como Gregório de Nazianzo, que afirmou que Jesus não poderia redimir a humanidade se não fosse, também, homem. 
- Os concílios: o Concílio de Nicéia (325 d.C.) foi convocado por Constantino especialmente para solucionar os desentendimentos cristológicos que desestabilizavam seu império. Nesse concílio a controvérsia ariana teve seu fim, confirmando o que já estava sendo afirmado sobre a divindade de Cristo. O Concílio de Calcedônia (451 d.C.) reafirmou o Concílio Niceno e respondeu a novas polêmicas acerca da humanidade de Cristo, surgidas depois de Nicéia (325).

McGrath também comenta brevemente sobre o desenvolvimento da doutrina da Trindade:

Já havia algum debate sobre a Trindade desde antes de considerada a natureza divina de Cristo, mas foi natural a sua definição quando oficializada a ideia de que Jesus, mesmo diferente do Pai, era Deus. A cristologia, como base para a definição mais clara da doutrina da Trindade, não foi resultado dos Concílios Niceno e Constantinopolitano, mas de um período bastante longo de controvérsias e debates, não sendo, portanto, tais concílios os responsáveis pela formulação de suas doutrinas principais.

A ideia de Deus ser "Um e Três" foi estabelecida por debates cristológicos que culminaram com o Concílio de Nicéia, sendo consolidada a doutrina da divindade do Espírito Santo como resultado disso. Atanásio e Basílio de Cesaréia foram os maiores responsáveis por seu desenvolvimento. Vale lembrar que a oficialização de doutrinas não indica o princípio das mesmas - toda  oficialização de uma doutrina cristã é resultado de um debate anterior.

A posição da Igreja Oriental sobre o assunto foi desenvolvida especialmente por Basílio de Cesaréia (330-379 d.C.), Gregório de Nazianzo (329-389 d.C.) e Gregório de Nissa (330-396 d.C.), os Pais Capadócios, que iniciaram suas reflexões sobre a Trindade por meio da observação das distintas formas através das quais se experimenta a presença do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A posição da Igreja Ocidental, associada especialmente a Agostinho de Hipona, partiu da unidade de Deus, seguindo para as implicações do amor de Deus, afim de compreendermos a Sua natureza.

A formulação da doutrina da Trindade, portanto, começou antes dos Concílios Niceno e Constantinopolitano e não foi concluída com eles, seguindo em debate por algum tempo depois.

3 - Constantino inventou o cristianismo?
Tal pergunta não precisaria nem ser feita depois de todo esse estudo. A verdade é que ele mesmo se converteu antes do Concílio Niceno, no ano de 312 d.C., e que a sua própria mãe já era cristã antes disso. Não iremos entrar nos méritos do caráter de Constantino, mas sabe-se que não havia lucro algum, em termos políticos, em adotar o cristianismo, uma religião numericamente minoritária e que havia sido perseguida com ferocidade. É possível que Constantino tenha observado no comportamento dos cristãos, que a todos serviam, uma forma de produzir maior unidade no Império, mas ceder diante daqueles que representavam um décimo da população, muito hostilizados por todos, e, assim, desafiar as instituições tradicionais, não faz sentido se não considerarmos um real interesse pela pessoa de Cristo.

O fato é que o Concílio Niceno não tive o aval de Constantino para formular uma nova religião, mas apenas para solucionar os problemas e as controvérsias existentes dentro daquela que agora era a religião oficial do Império Romano. Qualquer desordem dentro da Igreja prejudicava os negócios romanos. Para o imperador, era urgente que os cristãos entrassem num consenso e o consenso obtido não foi produto de uma invenção ocorrida durante o concílio, mas apenas de um esclarecimento maior sobre aquela que já era a ortodoxia cristã há séculos.
Fonte: Uma Breve História do Cristianismo, Geoffrey Blainey, Fundamento, 2012, pgs 54-58.

Conclusão:
A teologia cristã encontra seu esqueleto fundamental na Bíblia e, portanto, desde que o Novo Testamento foi concluído, todas as bases para o entendimento sobre a Trindade e a natureza de Cristo já estavam estabelecidas. Foi o Novo Testamento que possibilitou o debate sobre tais doutrinas, não os Concílios Niceno e Constantinopolitano. Tendo diante de nós evidências numerosas de que o cristianismo e o Novo Testamento existem desde o Século Primeiro, não há motivos para continuar compactuando com a ideia de que a fé cristã foi inaugurada no século IV ou que foi somente ali que foram cogitados os principais pilares do entendimento cristãos. O cristianismo, pela boca dos próprios romanos e também pelo testemunho dos cristãos, não pode ter sido uma invenção do imperador!

Natanael Pedro Castoldi

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O Cristão, a Legítima Defesa e a Guerra Justa

Existe uma perigosa teologia circulando em nossos dias: a de que amor é o mesmo que passividade, humilhação, engolir a injustiça de modo omisso. Amor não é isso! Amor não é observar inerte o tirano consumindo vidas ou o criminoso estuprando sua família. Com base em Chesterton, no livro Ortodoxia, Mundo Cristão, percebo o amor como algo ativo - uma reflexão completa sobre isso você encontrará no artigo "A Dinâmica do Amor Cristão". O amor está além do pessimismo e do otimismo, pois o pessimismo não envolve movimento de mudança, apenas crítica, assim como o otimismo, que, não querendo ver a realidade em sua totalidade, não se movimenta por achar que "tudo está bom" - já o amor é realista: por amar, ele não produzirá apenas um pessimista, que só verá o que há de ruim, e muito menos um mero otimista, que vive uma mentira. O amor nos incentiva ao movimento, à reação diante da maldade - o amor cristão tem, sim, um aspecto feroz, e o amor pode se irar diante da vilania, assim como Deus o faz. É por amar que ele deseja, ardentemente, ver a mudança acontecer e, para tal, pode chegar ao ponto do sacrifício. Isso significa, sim, que o cristão tem direito à legítima defesa e que podemos apoiar aquilo que a teologia cristã definiu como "Guerra Justa" - que é exatamente o que o Papa Francisco conclamou diante das recentes movimentações terroristas no Iraque, onde cristãos e outras minorias estão senso massacradas.

O primeiro ponto a considerarmos aqui, é que a Bíblia não aprova uma guerra por qualquer motivo, encorajando a paz com todas as pessoas (Romanos 12:28). Mas isso não significa que não existam circunstâncias nas quais uma guerra ou um conflito se justifiquem (Mateus 24:6):

1 - A Bíblia não proíbe todas as circunstâncias de assassinato. Matar em legítima defesa é justificado (Êxodo 22:2).
2 - A morte em casos em que se aplica a pena de morte é validada (Gênesis 9:6). O governo está divinamente autorizado a usar "a espada" (Romanos 13:4) - isso foi reconhecido por Jesus (João 19:11).
3 - Deus emitiu as regras de guerra para Israel (Deuteronômio 20).
4 - Embora Jesus impedisse que os discípulos usassem a espada para fins espirituais (Mateus 26:52), Ele incentivou seus seguidores a comprarem uma espada, caso fosse necessário para se protegerem (Lucas 22:36-38) - como os discípulos não foram atacados, Jesus reprovou a atitude de Pedro.
5 - João Batistas não pediu pela abolição dos exércitos e nem exortou os soldados ao arrependimento pela sua função militar (Lucas 3:14).

Mesmo que a Bíblia incentive a obediência cristã aos governantes (Romanos 13:1-7; Tito 3:1; 1 Pedro 2:13-14), tal obediência tem limites:

1 - Quando o governo ordena a adoração de ídolos ou de um rei (Daniel 3:6).
2 - Quando o governo proíbe a pregação do Evangelho (Atos 4:5).
3 - Quando o governo ordena a matança de crianças (Êxodo 1).
4 - Os cristãos podem discordar de governos que se envolvem em guerras injustas. Mesmo assim, como nos casos de Daniel (Daniel 6), os três jovens hebreus (Daniel 3) e Pedro (Atos 4-5), os que desobedecem devem estar dispostos a arcar com as consequências.

A Bíblia também apresenta várias condições para uma guerra justa:

1 - Ela deve ser declarada pelo governo (Romanos 13:4).
2 - Sua motivação reside na defesa dos inocentes e/ou contra um agressor perverso (Gênesis 14).
3 - Ela deve ser travada por meios justos (Deuteronômio 20:19).

Por fim, os argumentos bíblicos em prol do pacifismo total são imperfeitos:

1 - A instrução de Jesus sobre "dar a outra face" se refere a um insulto pessoal (como um tapa no rosto), não a ferimentos físicos (Mateus 5:39).
2 - A exortação para o amor pelos nossos inimigos não elimina o uso da força para impedir que ele nos matem (Atos 23, quando Paulo recorre à proteção do Império para impedir sua morte).

O significado do "não matarás", de Êxodo 20:13:

Despedaçar, matar, assassinar - levar à morte, homicídio. A palavra indica homicídio premeditado, um assassinato acidental ou um ato supremo de vingança.

Fonte: Bíblia de Estudo Defesa da Fé, CPAD, 2010, pg 1070, Norman Geisler; Bíblia de Estudo Palavras-Chave, CPAD, 2011, pgs 1935 e 1936, referência 7523.

Tanto na Bíblia quanto na História da Igreja, os servos de Deus aparecem agindo e reagindo contra medidas incoerentes e injustas - nalgumas vezes até de forma bastante agressiva. As grandes revoluções que o pensamento cristão promoveu, desde o fim da luta de gladiadores no Coliseu até a abolição da escravatura, necessitaram de indignação, de ira, de movimento, do enfrentamento de um sistema cruel e de um forte senso de sacrifício.

Natanael Pedro Castoldi

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A Igreja Católica, os Judeus e o Nazismo

Como foi possível que um papa que salvou centenas de milhares de judeus do Holocausto seja, atualmente, considerado "O Papa de Hitler"? Certamente houve uma grande desconstrução da realidade dos fatos! Analisemos como se deu essa meticulosa distorção da verdade:

A imagem do Papa Pio XII começou a mudar por advento de publicações soviéticas, com ênfase no jornal Pravda, que, em certa edição, afirmou que o pontífice "aceitou Hitler, mas também concordava com ele em tudo; o papa havia trabalhado secretamente para Mussolini". Nada mais conveniente para a URSS, que nutria conflitos tanto contra a Igreja Católica, quanto contra o nazismo. De modo menos alarmante, jornais e revistas ocidentais também questionaram o comportamento do papa em questão diante do nazismo, tido como "silencioso demais". Outros mecanismos de difamação foram utilizados, como o teatro e a publicação de livros - o mais prejudicial deles, de autoria do jornalista John Cornwell, lançado em 1999, foi o "Hitler's pope: The secret history os Pius XII", publicado no Brasil no ano 2000. Segundo a fonte consultada, o livro é bastante agressivo e possui pouco valor histórico, considerando que Cornwell acabou por desculpar-se pela obra em 2007, afirmando que a publicou sem ter consultado fontes suficientes. Aprofundemos.

O aparente silêncio papal encontra motivos no contexto: com a URSS aniquilando o catolicismo em seu território, os avanços do protestantismo noutras partes do mundo, a inimizade do Vaticano com vários políticos franceses, que décadas antes apoiaram a redução dos Estados Papais, reduzindo-os ao Estado do Vaticano, e o crescimento do Nazismo, a ICAR padecia de uma severa crise. Em circunstâncias assim, qualquer movimento descuidado, dadas as proporções da crise que a ICAR sofria, poderia custar um preço extremamente elevado - perceba que o Vaticano está ligeiramente próximo de onde Mussolini, aliado de Hitler, governava. Apesar disso, mesmo dando passos bastante cautelosos, o Vaticano sempre lutou contra o Nazismo. Analisemos como tal luta se desenvolveu:

O jornalista britânico, Gordon Thomas, que, como eu, é protestante, em seu livro" Os judeus do papa - O plano secreto do Vaticano para salvar os judeus das mãos dos nazistas", edit. Geração, levanta uma série de questões que, segundo ele, foram desconsideradas por outros pesquisadores: ele observa que, dos 44 discursos que Pio XII fez como núncio apostólico "e, portanto, na própria Alemanha", 40 denunciavam o Nazismo, além disso, após analisar cuidadosamente a vida de Eugênio Pacelli (Pio XII), constatou que ele aprendeu hebraico com amigos judeus de Roma e que tinha o costuma de jantar nos 'shabat' com esses colegas e estes, por sua vez, o acompanhavam na ceia de Natal.

No leito de morte de Pio XI, Pio XII recebeu a ordem de "continuar a defender os judeus", fazendo-o desde o seu primeiro discurso como papa, no qual claramente criticou a exaltação da raça ariana - "quem exalte a raça, o povo ou o Estado (...), elevando-os a um nível idolátrico, distorce e perverte uma ordem do mundo planejado e criado por Deus..." E na sua primeira encíclica, "Summi pontificatus", afirmou que "não há gentios nem judeus, circuncisão ou não-circuncisão". Mas a empreitada não ficou só no papel: judeus ganharam vistos da ICAR para diversos países - só na Alemanha, 200 mil judeus escaparam do Nazismo por intermédio da ICAR, que, além disso, ordenou que seus cardeais no país conseguissem certidões de nascimento para eles. Fazendo uso de mensagem telegráficas criptografadas, a ICAR alertou os judeus poloneses sobre a imediata invasão dos nazistas em seu país, orientando para que buscassem refúgios. Diversos judeus intelectuais do gueto de Roma passaram a trabalhar no Vaticano, evitando que fossem mortos. Pio XII também autorizou que a sua residência de verão, o Castelgandolfo, servisse de refúgio para os necessitados. A sua defesa dos judeus levou, inclusive, à formulação de uma missão de sequestro do pontífice da parte da SS nazista - a pressão foi tanta que espiões chegaram a entrar no Vaticano.

Terminada a Guerra, Pio XII recebeu 80 sobreviventes de vários campos de concentração, desejosos de agradecer aos esforços na luta contra o Holocausto. Além disso, o Congresso Sionista Mundial e diversas associações do mundo enviaram ofertas à ICAR como forma de agradecimento pelas ações durante  2ª Guerra Mundial. Isaac Herzog, rabino-mor de Jerusalém no período, escreveu que "o povo de Israel jamais esquecerá o que a Sua Santidade e seus ilustres delegados (...) estão fazendo em favor de nossos desafortunados irmãos e irmãs na hora mais trágica de nossa história."

Acredita-se que algo entorno de 800 mil judeus escaparam por advento das intervenções do Vaticano.
Fonte: Revista História Viva, Grandes Temas, Ed. Especial, nº 50, Segredos do Vaticano, pgs. 53-55, Mauro Trindade. Você pode ler mais sobre o tema no seguinte artigo do EOMEAB: "O Nazismo e a Igreja Católica".

Natanael Pedro Castoldi

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A Igreja é Indestrutível?

Embora o título sugira um estudo sobre a eternidade do Corpo de Cristo, não é exatamente sobre isso que pretendo falar aqui. É claro que a manifestação atual da Igreja como Corpo do Deus Eterno a torna indestrutível, mas entendo que há outras questões menos óbvias que podem ser levantadas. Espero que a reflexão que segue se reflita numa sensação de segurança e paz para o cristão que me lê.

Diante da configuração atual de nosso mundo Ocidental, especialmente o Brasil, é normal temermos: a Igreja está sob ataque de todas as frentes, o que inclui um número incalculável de inimigos internos. Tudo o que há de mais caro para o cristianismo está sendo dilacerado ferozmente, como a moralidade e o exclusivismo. Há grupos extremistas dentro e fora da Igreja, promovendo uma bagunça sem paralelo na história humana, fomentando guerras sociais, religiosas, morais, étnicas e culturais. Estão tentando amordaçar a Igreja, impedindo-a de se manifestar sobre quaisquer assuntos que sejam, além de condená-la por medidas que ela toma para si mesma, que fazem parte de sua natureza histórica e teológica - de dentro e de fora estão tentando conquistá-la, tomá-la de assalto, e, assim, fazer com que ela corresponda exatamente aos desejos do "espírito de nosso século", sendo somente apenas mais uma das ferramentas para a configuração de uma Nova Civilização Ocidental, "liberta" do jugo judaico-cristão. É claro que a Igreja, assim como é o maior opositor dessa iniciativa blasfema, pode ser também o seu recurso mais poderoso, se rendida: aquilo que tem mais potencial para o bem, também pode ser terrivelmente malévolo, se invertido. Ocorre, felizmente, que a fatia de líderes, congregações e massas cristãs rendidas, instantaneamente deixam de ser cristãs e não respondem mais pelo cristianismo, pois, mais do que uma instituição, a Igreja é um conceito, uma ideia, uma realidade que existe na imutabilidade do Deus Eterno, que encontra suas raízes no mundo espiritual. Não me parece necessário trabalhar detalhadamente sobre o que aflige a Igreja, por isso vou direto ao que importa:

1 - A Igreja é indestrutível porque uma força maior do que a humana trabalha em seu favor:
O conhecedor do Novo Testamento, especialmente do livro de Atos dos Apóstolos, há de perceber que a verdadeira força pode detrás da Igreja é a do próprio Deus. Considerando o relato neotestamentário como verdadeiramente histórico e a visivelmente milagrosa origem e expansão da Igreja nos primeiros séculos, mesmo sob perseguição, não podemos ignorar o "dedo do Criador" nessa história - ou, pelo menos, deve-se considerar essa possibilidade. Eu mesmo, ainda que sendo jovem, já presenciei várias ações evidentemente espirituais do Eterno, algumas testemunhadas por muitas pessoas, outras na solitude - isso, considerando a minha tendência para o ceticismo, é bastante significativo. Há incontáveis testemunhos cristãos relativos ao tema, seja na Igreja Livre, seja na Igreja Perseguida, e você pode facilmente encontrá-los através de uma rápida pesquisa ou da conversa com cristãos mais experientes. É claro que não devemos acreditar em qualquer testemunho, nutrindo critérios para a análise dos fatos.

Gostaria de tomar como exemplo da ação de Deus para além da iniciativa humana uma notícia recente, resultante da análise de mais de 600 conversão de muçulmanos ao cristianismo: entre os africanos muçulmanos que se converteram à Cristo, segundo o missionário Karel Sanders, da África do Sul, 42% o fizeram depois de terem tido sonhos e visões nas quais o Messias apareceu para lhes convidar para abraçar a salvação. É possível encontrar tal informação no gospelmais.com.br, gnotícias, do dia 28 de setembro de 2011, sob o título "Muçulmanos estão tendo visões e sonhos de Jesus e se convertendo ao cristianismo". Leia mais sobre o assunto na Criacionismo.com.br de 26 de fevereiro de 2014, no artigo de nome "Jesus Se revela a jovem muçulmana em sonho", por Michelson Borges. Julgue as informações como desejar.

Com isso lembrei-me da seguinte afirmação de Cristo: "E, respondendo ele, disse-lhes: Digo-vos que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão." Lucas 19:40

2 - O Cristianismo fortalece um sistema moral comum ao ser humano de todo o mundo:
O relativista moral pode até pregar a inexistência de uma moral objetiva e favorecer alguns comportamentos imorais, mas somente um louco não irá, mesmo que involuntariamente, reconhecer e sustentar um comportamento benéfico - principalmente se for em seu favor. Ou o relativista aceitará que lhe roubem a carteira? Sendo assim, mesmo que o pensamento ocidental milite para aniquilar o sistema moral que o cristianismo sustenta, basta se comportar segundo a moralidade sugerida pelo cristianismo que muitos se alegrarão de você, especialmente se não souberem que você é cristão. Mas isso não vem ao caso.

A questão é que Cristo pregou uma conduta que, em vários aspectos, é universalmente aceitável: não roube, não assassine, não traia sua esposa, não agrida seu filho, não humilhe o seu próximo, não seja arrogante, não seja orgulhoso, não seja mentiroso, não destrate seus pais... Ora, praticamente todas as civilizações e povos de toda a história e de todos os cantos do mundo sustentaram esses preceitos morais - C. S. Lewis, fundamentando as afirmações sobre a "lei natural", apresentadas no livro "A Abolição do Homem", evidencia códigos morais semelhantes de mais de 12 povos antigos - romanos, ameríndios, nórdicos, hebreus... Isso significa que, quando nossa sociedade relativizar tanto a moral, a ponto de prender-se aos seus instintos animalescos e regredir ao nível de Sodoma, uma multidão silenciosa de indivíduos, incomodados e instigados pela compreensão moral que lhes é inata, se voltará novamente para aquilo que Cristo pregou, para a noção de um comportamento moralmente aceitável que reside no mais profundo da mente humana, contra a qual cansaram de lutar e tentar silenciar através do álcool e do sexo. Sim, Jesus sustentou traços morais comuns ao ser humano de todas as épocas e lugares, mas foi além, chegando ao amor sacrificial.

Com base nessa realidade, portanto, mesmo que a Igreja esteja sendo terrivelmente abalada pelas forças desse mundo, a fortíssima noção de certo e errado, de bem e de mal, de bom e de ruim, continuará levando muitos ao desejo por Cristo que, por fim, culminará na conversão. Basta que os cristãos continuem se comportando como Jesus para que a Igreja sobreviva a qualquer ataque, uma vez que ela trabalha com algo que reside no mais profundo da mente de todos os homens, correspondendo ao que eles, querendo ou não, sabem que é verdadeiro.
Fontes: Apologética Cristã para o Século XXI, Louis Markos, Central Gospel, 2013, pg 32; A Abolição do Homem, C. S. Lewis, Martins Fontes, 2005, pgs 79-95.

A mera observação da natureza e da consciência aponta para Deus. Enquanto houver natureza e consciência, portanto, Deus pode ser encontrado. Enquanto houver um homem pisando na terra, haverá a possibilidade de o Criador ser encontrado e adorado.

3 - O Cristianismo trabalha com um desejo comum a quase todos os seres humanos:
Eu disse "quase" para não ser injusto com ninguém, mas é mais provável que seja "todos" mesmo. Há em toda a humanidade uma espécie de esperança messiânica, de desejo pelo Paraíso, de fuga do mundo. Encontramos nas histórias dos mais diversos povos a noção de que as coisas estão, de alguma forma, erradas, sendo resultado de um longo processo de decadência - na aurora da humanidade as coisas eram melhores. Há uma incessante busca por Deus, por salvação, por recuperar o que fora perdido, por reparar o estrago, para reencontrar as veredas da excelência e da eternidade. Todos temem e estranham a morte. Podemos viver num mundo dominado por poderes ateus ou por filosofias religiosas otimistas, mas nada será capaz de anular o enraizado clamor do espírito humano por libertação, por reencontrar-se, por voltar a ser o que já foi. Para tudo isso o cristianismo, através de Cristo, apresenta respostas. Na verdade o Cristianismo vai além: ele é a própria conclusão de muitas histórias pré-cristãs contadas por diversos povos do mundo, histórias essas resultantes de uma experiência comum, histórias semeadas por Deus no âmago do homem - consideremos o livro "O Fator Melquisedeque", Don Richardson, Vida Nova, 2008, ou a postagem encontrada sob o título "A Revelação Universal de Deus - C. S. Lewis".

A tendência de crer numa divindade superior é comum a todos os homens de todos os tempos - nada jamais irá aniquilar tal propensão, que é mais do que visceral. Havendo um homem no mundo, portanto, há potencial para que Deus seja louvado.
Leia mais sobre isso no artigo "As Mitologias Indicam um Passado Comum?"

4 - O Cristianismo responde aos anseios mais elementares:
"Quem sou?"; "De onde vim?"; "Para onde vou?"; "Por qual motivo existo?" Nenhuma ditadura do relativismo será capaz de anular esses questionamentos - o ser humano sempre conviveu com essas perguntas e sempre tentará solucioná-las. Não há escapatória! E é no cristianismo que gente vinda das mais diversas culturas, religiões, filosofias e outros contextos, encontra as mais satisfatórias respostas.

5 - O Cristianismo supera as mais diversas barreiras:
A mensagem de Cristo foi pensada para absolutamente todos os seres humanos, sem ater-se aos limites geográficos de uma região, às barreiras culturais, religiosas, filosóficas, de gênero, idade, raça, classe social... Todas as pessoas são chamadas para a igualdade de valor diante do Criador - é claro que as falhas morais, que destoem do ideal de Deus para o mundo, precisam, mesmo que aos poucos, de tratamento e correção. A questão é que, num primeiro momento, todos, absolutamente todos, podem simplesmente se curvar diante do Filho e aceitá-Lo como Senhor e Salvador. É lógico que num contexto onde a luta de classes, sexos, raças, culturas e religiões é fomentada, como é o caso do Brasil, a mensagem de Cristo evidencia sua maravilhosa natureza.

Por não ser fundamentado em prédios, líderes, raças, filosofias, políticas, sistemas econômicos, culturas, geografias e quaisquer outras "humanidades", mas, sim, centrar-se em Cristo, nada que esse mundo arme para destruí-lo dará conta - Jesus marcou a história profundamente e vive hoje, como sempre, na Pessoa da Divindade. Nada pode apagar a História e a Divindade. Não estamos falando de prescrições alimentares, formas de vestir, vocabulário específico ou qualquer espécie de ritual: estamos falando do relacionamento do homem com o Criador e do relacionamento do homem cristão com outros cristãos ou com pessoas que não o são. Isso é mais do que um mero código moral, um combinado de disciplinas ou um saber: isso é vida, não letra, não pedra, não tecido.

6 - O Cristianismo acontece onde há relacionamento:
A imitação de Cristo se dá essencialmente através do relacionamento entre os seres humanos. A mídia pode ser dominada pelo anticristianismo, as instituições de ensino podem doutrinar as crianças como desejarem, o governo pode vetar a manifestação cristã, o evangelismo, a divulgação de material cristão... mas nunca poderá impedir que as pessoas se relacionem. E é no relacionamento, nas conversas, nos desabafos, nos abraços e sussurros no ouvido, que Jesus é mostrado. Para isso bastam duas pessoas e um lugar relativamente seguro. É por isso que a Igreja sempre cresceu com a perseguição.

Uma das coisas mais elementares sobre a humanidade é que o ser humano se relaciona - havendo dois, não importa se estão no mercado público ou numa tenebrosa masmorra, há relacionamento. Por isso, há potencial para o florescer do cristianismo em qualquer lugar onda há gente. É por tomar bases na imitação de Cristo e acontecer no relacionamento que o cristianismo pode sobreviver até ao mais ferrenho e sistemático ataque à política, filosofia, economia, religião...

7 - A Igreja acontece em qualquer lugar, em qualquer horário e com qualquer pessoa:
Um dos mais poderosos dos pontos que quero ressaltar é esse: existe uma Igreja Universal, que engloba todos os cristãos verdadeiros do mundo inteiro, existe uma Igreja Local, que engloba os cristãos de uma determinada localidade, e existe a Igreja que posso chamar de "Factual". A primeira é atemporal e recebemos o apoio dela através das orações dos cristãos em favor da Igreja nos quatro cantos do mundo; a segunda é importante, pois através dela recebemos uma cobertura espiritual, psicológica, financeira e até social, além de possibilitar algumas práticas importantes para o cristão; a terceira, a qual quero me ater, encontra a sua importância por sustentar as demais. "Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles", afirmou Jesus. Nem a primeira e nem a última das formas de Igreja pode ser destruída, pois enquanto houverem dois cristãos reunidos no nome de Cristo, essas duas existirão. Foquemos, por sim, na terceira:

Chamei-a de Igreja Factual, pois ela tem uma conotação temporal, baseada em fatos do momento, ela começa e se desfaz em questão de segundos, minutos, horas ou dias. Esse tipo de Igreja existe quando eu sento para conversar com meu irmão cristão, seja na faculdade, seja no trabalho, seja na praça. Ela começa quando nos cumprimentamos e termina quando nos despedimos - e, quando nos despedimos, eu e ele vamos nos encontrar com outros cristãos e começar outras Igrejas. Para destruir essa forma de Igreja, deve-se matar todos os cristãos - o que é verdadeiramente impossível. Até dois cristãos presos na mesma cela constituem Igreja.

Podem perseguir, podem torturar, podem aniquilar milhões, mas nunca destruirão a Igreja. Enquanto houverem cristãos caminhando pelas ruas e sentando para conversar no banco da praça, haverá Igreja. É claro que a Igreja Institucional é importante, pois ela assegura alguns direitos e afirma para cidades, nações e para o mundo alguns padrões de comportamento e algumas ideias que são importantes para a humanidade, além de sustentar uma vasta produção artística e literária da parte da Igreja, que também se envolve em ações missionárias e humanitárias de larga escala, o que exige organização e recursos, mas ela jamais supera em termos de importância a denominada "Igreja Factual". Ora, enquanto houverem seres humanos com consciência, habitando esse mundo e compartilhando dos mesmos anseios se encontrando e trocando ideias, havendo ao menos um cristão por perto, teremos Igrejas ou, pelo menos, "Igrejas em potencial".

Espero que isso gere no coração do leitor ânimo e tranquilidade. Não são os ataques do mundo que nos ameaçam. A Igreja é um organismo pulsante, vivo, extremamente dinâmico e encabeçado pelo próprio Criador - não há força alguma nesse Universo que a fará desaparecer. Que sirva, também, para conscientizá-lo sobre aquilo que está corroendo muitas congregações e movimentos cristãos: o cristianismo encontra suas bases no próprio Deus e em aspectos universais e atemporais do ser humano e é isso que o torna tão forte, duradouro e flexível - pensamentos filosóficos, políticos, religiosos, econômicos, científicos e de qualquer outra espécie são frutos de momentos e locais específicos e, portanto, tomá-los como centro da fé sempre culminará em ruína.

A fé cristã se desenvolve com vigor e serenidade naquela aldeia no coração da África, naquele subúrbio em Xangai e na cobertura de um prédio em Londres. A fé cristã se desenvolveu na Galileia rural e nos bairros de Roma do Século I, nas aldeias germânicas e mosteiros irlandeses da Idade Média, na China e na América do período das Grandes Navegações, na França dos tempos da Revolução Francesa, nos Estados Unidos expandindo-se para o Oeste, antes, durante e depois das Duas Grandes Guerras Mundiais e hoje está em curso na Europa dita "pós-cristã". Ele surgiu na Palestina, floresceu na Europa, explodiu na América do Norte e Oceania, se alastrou pela América Latina, se encorpou na Ásia e ecoa retumbante na África; enquanto entra em crise num lugar, se fortalece no outro; enquanto enfraquece na Europa pós-moderna, ganha espaço na Rússia pós-comunista; uma geração o ignora, enquanto a próxima o resgata. E é exatamente assim que tem que ser.

Poderia, ainda, citar as evidências para o cristianismo ("O Universo Foi Projetado Para Nós"; "A Veracidade do Novo Testamento"; "Em Defesa do Antigo Testamento") e a verdade de que ele atinge profundamente das pessoas mais simples até as mais intelectuais ("Intelectuais Que Encontraram Deus - Ateístas e Teístas").

Natanael Pedro Castoldi

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