Navigation Menu

É a primeira vez que
você acessa este blog
neste computador!


Deseja ver antes
nossa apresentação?


SIM NÃO

Mostrando postagens com marcador heresia. Mostrar todas as postagens

Algumas Notas Sobre a Inquisição

O tópico "Inquisição" rotineiramente aparece nos diálogos no ambiente acadêmico e circulando na internet. Geralmente quando se fala da Inquisição em ambientes seculares o que predomina é a desinformação, um desprezo enorme pelas fontes e pelo trabalho de historiadores competentes, que são substituídos por matérias de revistas tendenciosas, imagens mal-intencionadas e livros didáticos de Ensino Fundamental e Médio, todos baseados essencialmente em mitos forjados e disseminados pelos Iluministas e outros opositores da Igreja Católica Romana - eu, mesmo não sendo católico, me entristeço com essa forçada panfletagem da parte de muitos protestantes. É claro que algo do que se prega hoje sobre a Inquisição é veraz, é evidente que a Inquisição não deveria ter existido e que crimes sinistros foram efetuados por seus tribunais, mas há todo um outro lado propositadamente esquecido. Falemos sobre ele.

1 - A Inquisição em seu tempo:
A Inquisição começou no século XIII - o primeiro tribunal para julgar crimes contra a fé existiu na Sicília, em 1223 d.C. Naquele período diversas heresias começaram a florescer e se espalhar pela cristandade. As primeiras medidas da Igreja para frear o avanço herético foram pacíficas, mas a ineficácia dessa empreitada levou ao combate formal. Mas devemos entender essa medida em seu próprio período.

Havia uma ligação exageradamente íntima entre o Estado e a Igreja, entre o poder civil e o eclesiástico, e o enfrentamento da heresia era, sobretudo, uma defesa da paz social. Considerando a relação sólida e una da Igreja com a sociedade, qualquer pensamento e movimento que viesse a abalar a ordem religiosa, também abalava a ordem social.

O que a Inquisição fez foi, basicamente, tomar para si sistemas que eram habituais na sociedade de então - mas vale lembrar que ela se desenrolou de modo mais benigno do que os tribunais contemporâneos, tendo sido criada também para frear os excessos cometidos nas rotineiras perseguições aos hereges. Com o passar dos séculos, os cristãos foram compreendendo a incompatibilidade entre as práticas inquisidoras e o Evangelho. Mesmo na Idade Média, muitos cristãos já demonstravam perceber tais falhas e entristeciam-se com elas.

O emprego da força para corrigir os dissidentes era o tratamento normal que se dava a quase todos os criminosos, acusados dos mais variados delitos - e a heresia era o mais grave, principalmente por causa do abalo social que provocava. A unidade da fé era um dos bens mais preciosos da cristandade, considerando que, na Idade Média, todo o mundo Ocidental se proclamava cristão - um dos principais elementos integradores da sociedade civil era, sem dúvida, a antiquíssima instituição romana. Quando as hordas de bárbaros marcharam pela Europa e promoveram a queda de Roma, no século V, a Igreja foi a única instituição imperial que sobreviveu e coube ao bispo de Roma a proteção da população civil diante dos invasores, também coube à Igreja a preservação da Cultura Clássica e da própria escrita num mundo que mergulhava no estilo de vida bárbaro, destituído do alfabeto. A responsabilidade social, militar, intelectual e de organização urbana e do trabalho no campo recaiu sobre a Igreja, que preencheu esse vácuo de poder e inevitavelmente construiu toda uma sociedade que orbitava entorno de suas catedrais e mosteiros. Não é difícil entender como o modo de vida e pensamento cristãos eram considerados tão importantes para as autoridades e para o próprio povo - sentimento que se intensificou durante os quatro séculos campanhas muçulmanas de conquista das terras cristãs do Oriente Médio, Ásia Menor, Norte da África e Península Ibérica, quase culminando na tomada do coração da França, mais poderosa nação cristã do período, na Batalha de Poitiers, ocorrida no dia 25 de outubro de 732 d.C., entre Poitiers e Tours. Antes de conclamadas as cruzadas, os maometanos tomaram para si dois terços de todos os territórios cristãos, e a Primeira Cruzada ocorreu sob a ameaça de conquista da maior cidade cristã do mundo daqueles dias, Constantinopla - não é estranho, considerando tudo isso, que centenas de milhares de cristãos tenham se mobilizado livremente para o combate. Também não deve causar estranheza as reações enérgicas aos hereges, que ameaçavam esse vital fator de união continental, que ultrapassava os diversos povos e culturas.

A heresia foi elevada ao mesmo nível do crime de lesa-majestade, que se resumia na tentativa de assassinato ao rei, crime punível com fogueira. Isso deixa, mais uma vez, evidente a falta de limites claros entre os campos da política e da religião - em parte resultante do processo histórico acima descrito -, de modo que os líderes civis viam nos distúrbios religiosos perigos sociais. Esse medo não era infundado, pois, de fato, os heresiarcas tinham o costume de querer obter poder, originando guerras e desordens sociais. 

2 - A conduta dos Tribunais:
Os primeiros tribunais da Inquisição na Espanha foram criados em 1242 d.C. Como ocorria em outros países europeus, tais tribunais dependiam dos bispos diocesanos e geralmente eram bastante benévolos.

Infelizmente, durante o período espanhol dos Reis Católicos (Fernando de Aragão e Isabel de Castela), a Inquisição Espanhola esteve bastante sujeita a interferências do poder secular. Visando a unidade religiosa e a repressão dos dissidentes, os Reis objetivaram a conversão dos hebreus, que eram 110.000, e dos mouriscos, 350.000. Infelizmente a prática dos tribunais nem sempre foi digna: alguns se convertiam por livre vontade, mas outros o faziam forçadamente - e, quando decidiam regressar aos seus cultos familiares, acabavam sendo perseguidos. 

Naquela época, porém, considerando a estreitíssima ligação entre religião e política e a brevidade da vida, o que fazia o povo simples observar a eternidade como um bem supremo, as pessoas tendiam a ver com bons olhos os inquisidores, comumente tidos como "guardiões da ortodoxia". O herege era, portanto, discernido como um perigo social e espiritual, capaz de ameaçar aquilo que o plebeu mais valorizava, segundo a sua compreensão: a salvação eterna. 

Como dito no primeiro parágrafo desse tópico, esses tribunais costumavam ser benévolos. A morte por fogueira era rara, somente aplicada ao herege costumaz, que nunca se arrependia - não que isso justifique. A maior parte dos delitos tinha como pena a excomunhão, a tomada dos bens, multas, prisões ou orações e esmolas penitenciais. Embora a Inquisição tenha admitido o uso da tortura, havia regras que limitavam a sua aplicação: elas não podiam pôr em risco a vida do acusado e nem chegar ao extremo da mutilação. A verdade é que a tortura era utilizada com toda a normalidade nos tribunais civis - só que na Inquisição, o acusado confesso e arrependido era, depois de torturado, liberado, livrando-se da morte, o que não acontecia nos julgamentos civis. 

Geralmente, os direitos do acusado eram mais respeitados pela Inquisição do que nos tribunais civis. Também não havia na Inquisição uma larga diferença nos tratamentos por ocasião da classe social dos julgados.

3 - Os números da Inquisição:
O mais famoso dos tribunais, a Inquisição Espanhola, iniciou-se em 1242 e só deixou de existir formalmente em 1834. Seu período de maior atuação se deu entre 1478 e 1700 d.C., no governo dos Reis Católicos e dos Áustrias. Sobre os condenados à fogueira, Heningsen e Contreras analisaram os 44.674 casos abertos entre 1540 e 1700: apenas 1346 receberam essa sentença. São 9 mortos por ano em todo o território que vai da Sicília ao Peru, compreendendo o Império Espanhol da época. Henry Kamen calculou que, ao longo de seus seis séculos de existência, a Inquisição Espanhola matou um total aproximado de 3 mil acusados. Com base nisso, Kamen afirmou: "é interessante comparar as estatísticas de condenações à morte pronunciadas na Europa entre os séculos XV e XVIII pelos tribunais civis e pelos inquisitoriais: para cada cem penas de morte decretadas pelos tribunais comuns, a Inquisição decretou uma."

Hoje estão disponíveis mais de cinco mil estudos publicados sobre a Inquisição. Com essa farta informação, os mitos acerta do Tribunal do Santo Ofício foram todos demolidos. Só falta a opinião pública ser reformulada com base nessas valorosas informações.

Natanael Pedro Castoldi

Fontes: Luzes e Sombras na Igreja, Alfonso Aguiló, Quadrante, 2011, pgs 28-39; revista Leituras da História, edição 59, Edit. Escola, Batalha de Tours, O Fim do Avanço Muçulmano, pgs 28 e 29; As Grandes Batalhas da História, 1, Larousse, 2009, pgs 44-45; Os Cristãos, Tim Dolwey, Martins Fontes, 2009, pgs 50 e 72, 94-95; Uma Breve História do Cristianismo, Geoffrey Blainey, 2012, pg 121-122, 139; O Cristianismo Através dos Séculos, Earle E. Cairns, VidaNova, 2008, pgs 104-105, 194-195; Monges Medievais, Ricardo da Costa, Eliane Ventorim e Orlando Paes Filho, Planeta, 2004, pgs 5, 7, 9 e 10; Panorama da História da Igreja, James P. Eckman, Curso Vida Nova de Teologia Básica, 4, 2010, pg  51; Guia Ilustrado Zahar Arquitetura, Jonathan Glacey, Zahar, 2013, pgs 224-227; A História das Religiões, Crenças e Práticas Religiosas do Século XII aos nossos dias, Folio, 2008, pg 11

Leia também:

Os Apócrifos: O Evangelho de Tomé

Dentre os apócrifos do Novo Testamento, ou pseudepígrafos, o mais famoso e valorizado é o Evangelho de Tomé - muitos estudiosos e numerosos leigos têm tomado esse documento como base para descaracterizar a figura de Cristo conforme nos é apresentada no Novo Testamento. Há até quem diga que tal documento seja, inclusive, mais antigo do que todos os evangelhos canônicos e que, portanto, se trata da tradição mais fidedigna que temos sobre a vida e a obra de Jesus. Mediante tais alegações, faz-se pertinente questionar a autenticidade da suposta obra de Tomé. Segue uma breve reflexão - tire as suas próprias conclusões.

Para comprovar a impossibilidade de se usar o Evangelho de Tomé como fonte para conhecer o verdadeiro Jesus (e perceber que ele não foi escrito pelo apóstolo Tomé), nos basta verificar o seu estranho conteúdo e argumentar em prol de sua tardia redação. É o que tentaremos fazer.

1 - O que é o Evangelho de Tomé?
Treze livros encadernados em couro (códices), escritos em copta e datados de 350-380 d.C., foram encontrados no Egito em 1945, isso nas proximidades de Nag Hammadi. Um desses livros, em especial, chamou muito a atenção dos estudiosos, uma vez que já começa aludindo a Cristo: "Estas são as palavras secretas que o Jesus vivo falou e Judas, o mesmo Tomé, escreveu." O nome do documento veio do sua última frase: "O Evangelho Segundo Tomé." Considerando que nos séculos 3º e 4º alguns Pais da Igreja comentaram sobre a circulação de um evangelho sob o nome do apóstolo Tomé, pensou-se que aquele material preservado na aridez do Egito seja o mesmo que os antigos cristãos conheciam.

A obra, contendo um prólogo e 114 dizeres, a maioria atribuídos a Jesus, após lida e traduzida, mostrou-se muito semelhante a outro documento, encontrado meio século antes em Oxyrhynchus, no Egito - são três fragmentos de papiro que contêm cerca de 20% do Evangelho de Tomé. Esses documentos gregos foram datados de 200 a 300 d.C.
Fonte: O Jesus Fabricado, Craig Evans, Cultura Cristã, 2009, pg 58. Craig Evans é professor de Novo Testamento e diretor do programa de Graduação no Acadia Divinity College em Wolfville, Nova Scotia, foi consultor sobre o "The Gospel of Judas" para a Naional Geografic Society e depõe como perito em documentários da BBC, do Discovery Channel e do History Channel.

Bruce M. Metzger, Ph. D., autor de mais de 50 livros traduzidos em diversas línguas, co-editor d"A Nova Bíblia Oxford anotada com os apócrifos" e editor geral de mais de 25 volumes da série "O Novo Testamento: ferramentas e estudos", além de ser mestre pelo Seminário e pela Universidade de Princeton, onde também fez seu doutorado - ele é doutor por cinco faculdades e universidades -, tendo sido professor na Tyndale House, em Cambridge, Inglaterra, em Clare Hall, Cambridge, e no Wolson College, Oxford, sendo, atualmente, professor do Seminário Teológico de Princeton (ele ensina o Novo Testamento há cerca de 50 anos), presidente do comitê responsável pela "Nova Versão-Padrão Revisada" da Bíblia, colaborador da Academia Britânica e membro do "Kuratorium" do Instituto Vetus Latina, do Beuron, Alemanha - ele chegou a ser presidente da Sociedade de Literatura Bíblica, da Sociedade Internacional para Estudos do Novo Testamento e da Sociedade Patrística Norte-Americana -, afirma que o Evangelho de Tomé surgiu no século V, em uma cópia em copta - que ele traduziu -, mas que parece ter sido escrito em grego por volta de 140 d.C. Apesar das divergências, ao seu ver há algumas citações realmente proferidas por Cristo nesse documento, embora tenham sido acometidas de modificações.
Fonte: Em Defesa de Cristo, Lee Strobel, Vida, 2011, pgs 74 e 88.

2 - Alegações em favor do Evangelho de Tomé:
O defensores da antiguidade e originalidade do Evangelho de Tomé, em especial os representantes do Jesus Seminar, com ênfase em Crossan, afirmam que o documento preserva uma tradição pré-sinótica. Para fortalecer suas alegações, Crossan cita o Tomé 54: "Bem-aventurados os pobres, porque vosso é o reino dos céus", vendo ali uma redação mais antiga do que a versão maior do grego de Mateus, que acrescente "de espírito"  depois de "pobres".

3 - A mensagem de Tomé:
Craig Evans afirma que o Evangelho de Tomé se trata de um escrito esotérico que se propõe a relatar os ensinos secretos de Jesus, reservados aos discípulos mais aptos. O Jesus encontrado nesse evangelho é diferente daquele que nos é apresentado no Novo Testamento - em Tomé a mensagem de Cristo é, como já dito, esotérica, e a profundidade do Seu ensino estava guardada apenas para uma elite espiritual. Enquanto o Jesus do Novo Testamento exorta para que Seus discípulos tenham fé, o Jesus de Tomé estimula os discípulos a encontrar "a interpretação das palavras" para que eles não provem a morte - outra ocasião se dá na passagem similar à de Mt 7:7-11, com a diferença de que o esforço dos discípulos os traria surpresa, os faria reinar e achar descanso. O enfoque do documento está antes na mística do conhecimento do que na fé, carregando evidentes traços gnósticos, caracterizados pelos Pais da Igreja dos séculos 3º e 4º como aqueles que "afirmavam ter o segredo ou o conhecimento secreto". Mesmo não sendo um exemplo de gnosticismo plenamente desenvolvido, o Evangelho de Tomé apresenta forte elementos dessa filosofia herege.

Há uma tendência no gnosticismo de considerar de pouco valor o Antigo Testamento e o povo hebreu - os mais radicais chegaram a sugerir que o mundo material foi criado por um "Deus mau", o Deus de Israel. Todo o elemento material era desprezado e considerado vil, enquanto o elemento espiritual era tido como superior, apontando para a salvação não como o perdão dos pecados, mas como a libertação do corpo físico através do conhecimento - para eles era estranha a ideia de que Cristo tenha vindo ao mundo em carne e osso e que tenha pregado contra o pecado. Se engana quem pensa que houve apenas um pensamento gnóstico nos primeiros séculos da Era Cristã;

4 - A data da redação de Tomé:
A maioria dos códices de Nag Hammadi data da segunda metade do século 4º, mas é evidente que grande parte desses documentos são apenas cópias de obras anteriores. O códice que contém o Evangelho de Tomé pode ser datado da primeira metade do século 4º, mas como temos os fragmentos de Oxyrhynchus, é possível considerar o Evangelho de Tomé como um texto do início e meados do século 3º - um dos fragmentos foi escrito no início dos anos 200 d.C. Quase todos os acadêmicos concordam que Tomé pode ter sido escrito em meados do século 2º, mas é praticamente impossível que tenha sido produzido antes de 175 ou 180 d.C. Consideremos 4 evidências de que o Evangelho de Tomé é posterior aos textos bíblicos:

A - Tomé conhece muitos escritores do Novo Testamento:
Mais da metade dos escritores do Novo Testamento são citados ou aludidos no Evangelho de Tomé (Mateus, Marcos, Lucas, João, Atos, Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Colossenses, 1 Tessalonicenses, 1 Timóteo, Hebreus, 1 João e Apocalipse), parecendo mais uma colagem de materiais do Novo Testamento e apócrifos. O autor geralmente interpreta esses textos alegoricamente, sustentando, com isso, as ideias gnósticas do final do século 2º.

As tradições contidas em Tomé não refletem um cenário que predata os escritos do Novo Testamento (e é por isso que Crossan sugere versões hipotéticas anteriores ao Tomé que possuímos). Não há como saber se houve uma versão de Tomé diferente daquela encontrada em Nag Hammadi e em Oxyrhynchus - especular uma obra mais antiga, desprovida das embaraçosas características que sugerem um período mais antigo, não faz sentido. A presença de grandes e numerosas porções do Novo Testamento em Tomé não deixa dúvidas sobre a sua datação - ela precisa se situar no século 2º.

B - Tomé contêm material dos evangelhos que os acadêmicos consideram mais tardios:
No Evangelho de Tomé há uma significativa quantidade de material de Mateus, Lucas e João. Tal evidência é interessante, pois muitos estudiosos têm Marcos e a fonte Q (o material comum a Mateus e Lucas, mas inexistente em Marcos) como os documentos mais antigos, colocando o Evangelho de Tomé numa situação delicada, uma vez que ele faz uso de documentos mais recentes. Minha fonte apresenta 24 textos de Mateus, Lucas e João que, de alguma forma, reaparecem em Tomé - listarei alguns:

- Alguns dos 14 textos de Mateus apresentados por Craig Evans:
 Mt 5:10 - Tomé 69a; Mt 5:14 - Tomé 32; Mt 7:6 - Tomé 93; Mt 13:24-30 - Tomé 57; Mt 13:45-46 - Tomé 76; Mt 13:47-50 - Tomé 8.
- Os 5 textos de Lucas apresentados por Craig Evans:
Lc 11:27-28 e 23:29 - Tomé 79; Lc 12:13-14 - Tomé 72; Lc 12:16-21 - Tomé 63; Lc 12:49 - Tomé 10; Lc 17:20-21 - Tomé 3.
- O 5 textos de João apresentados por Craig Evans:
Jo 1:9 - Tomé 24; Jo 1:14 - Tomé 28; Jo 4:13-15 - Tomé 13; Jo 7:32-36 - Tomé 38; Jo 8:12 e 9:5 - Tomé 77.

Como o Evangelho de Tomé poderia ser anterior aos evangelhos canônicos se ele apresenta numerosas evidências de que, em sua redação, fez uso dos mesmos, tomando parte, em especial, daqueles que foram escritos por último?

C - Tomé reflete uma tradição mais tardia dos evangelhos:
Antes de sugerir que o Evangelho de Tomé seja fruto de uma tradição independente e mais antiga sobre Cristo, é necessário observar o seu uso de textos editados pelos evangelistas canônicos. Características de editoração em Mateus e Lucas são encontradas em Tomé! Alguns dos textos de Tomé que aludem ao Evangelho de Mateus, como Mt 13:24-30 e 15:13, contêm editoração de Mateus; Tomé também usa editoração posterior quando toma base em Mt 12:50 (Tomé 99) e 15:11 (Tomé 34b), ao invés de utilizar o similar mais antigo de Marcos; a combinação "esmolas, oração e jejum" de Mt 6:1-18, aparece em Tomé 6 e 14, mesmo que de forma negativa, refletindo o pensamento gnóstico; Tomé (Tomé 5-6) também faz uso da versão editada por Lucas (Lc 8:17) de Mc 4:22. Fica evidente que o apócrifo seguiu Lucas em muitos outros textos: Lc 12:49 - Tomé 10; Lc 10:8-9 - Tomé 14; Lc 12:51-53 e Mc 10:34-39 - Tomé 16; Lc 14:26-27 e Mt 10:37 - Tomé 55.

Para os defensores da antiguidade e singularidade do Evangelho de Tomé, a forma abreviada de diversos textos, em comparação com os similares canônicos, indica uma composição mais antiga - um exemplo muito utilizado está na parábola dos maus administradores, apresentada em Mt 21:33-41, Mc 12:1-9 e Lc 20:9-16, que reaparece em Tomé 65: no relato de Marcos cerca de onze palavras são extraídas de Isaías 5:1-7, palavras que, na maioria, não aparecem em Tomé, fazendo Crossan sugerir que Tomé é mais antigo que Marcos, mas isso sem considerar que na versão de Lucas, evidentemente posterior a Marcos, apenas duas palavras foram mantidas - eis um exemplo de uma abreviação da tradição, coisa que torna a proposta de Crossan insustentável. Com base nas evidências, muitos estudiosos têm sido levados a crer que Tomé apresenta uma versão encurtada e editada de Lucas. Isso se repete com a parábola da pedra rejeitada, que aparece em Mt 21:42, Mc 12:10-11 e Lc 20:17, sendo a versão de Lucas a mais curta e justamente a que serviu de base para Tomé 66.

D - Tomé apresenta conhecimento de tradições, especialmente a tradição cristã oriental da Síria:
Pouco tempo depois de publicado o Evangelho de Tomé, notou-se a sua afinidade com a tradição dos cristãos orientais da Síria, com ênfase na tradição do século 2º, incluindo a harmonia dos evangelhos escrita por Taciano, o Diatessaron - o Diatessaron era a única forma de Evangelho do Novo Testamento que os cristãos sírios conheciam no século 2º. Até alguns dos defensores da redação de Tomé no 1º Século reconhecem que seu local de redação foi Edessa, na Síria oriental - eles ressaltam que o nome "Judas Tomé" se encontra em outras obras de origem e circulação síria, dentre os quais se encontra o "Livro de Tomé, o Contencioso", que já começa lembrando o Evangelho de Tomé: "As palavras secretas que o Salvador disse a Judas Tomé, que eu mesmo, 1 Matatias, escrevi", e o "Atos de Tomé", cujo autor aparece como "Dídimo Judas Tomé", concordando plenamente com o prólogo do Evangelho de Tomé; na versão siríaca de João 14:22, Judas é identificado como "Judas Tomé", indicando que tal composição do nome era recorrente na tradição siríaca. Essas tradições que serviram de base para o Evangelho de Tomé emergiram no século 2º.

Praticamente desde o início do debate acerca do Evangelho de Tomé, especialistas em siríaco reconhecem o estilo semítico, especialmente siríaco, do documento.  Esses estudiosos também perceberam que, em alguns pontos, as leituras distintas de Tomé concordam com a versão siríaca do Novo Testamento ou com o Diatessaron, de Taciano. O estudioso Nicholas Perrin, traduzindo a versão copta para o siríaco e para o grego, supondo que o documento tenha sido escrito originalmente em siríaco, identificou mais de trezentas palavras-chave siríacas que ligam quase todos os 114 dizeres da obra. O trabalho de Perrin também demonstrou que Tomé mostra familiaridade com a ordem e o modo de arranjar o material do Diatessaron, levando o estudioso a concluir que o Evangelho de Tomé dependeu indiretamente dos Evangelhos do Novo Testamento apresentados ao autor desconhecido através da sua harmonia na obra de Taciano. Mediante as inúmeras ligações de Tomé com os Evangelhos e outros materiais religiosos siríacos, é impossível apoiar sua antiguidade e singularidade - nos pontos em que Tomé diverge dos Evangelhos, ele concorda com a tradição siríaca! Vamos para um último exemplo:

- Mateus 10:34, do grego: "Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada."
- Lucas 12:51, do grego: "Supondes que vim para dar paz à terra? Não, eu vo-lo afirmo; antes, divisão."
- Evangelho de Tomé 16a: "Eles não sabem que é a divisão que eu vim lançar sobre a terra: fogo, espada e guerra."
- Mateus 10:34b, do siríaco: "Eu vim não para trazer paz, mas divisão de mentes e uma espada."
- Reconhecimentos siríacos 2.26.6: "Eu vim não para trazer paz sobre a terra, mas guerra."

Note que Tomé deriva "divisão" de Lucas e "espada" de Mateus, ambos presentes na versão siríaca de Mateus, e que a palavra "guerra" deriva do Reconhecimentos siríacos, indicando que a versão de Tomé se baseou no siríaco de Mateus e no texto Reconhecimentos siríacos. Até o Tomé 54, sugerido por Crossan como uma versão mais antiga do texto dos evangelhos canônicos em grego, acaba aparecendo na versão siríaca de Mateus, encontrada no Diatessaron. Volto a frisar que o Diatessaron só estava disponível para os cristão siríacos no século 2º.

Há, por fim, aqueles que sugerem que Tomé possua uma forma literária capaz de suportar uma data mais antiga, como a suposta fonte Q. O problema é que o Evangelho de Tomé só encontra sentido dentro de uma tradição siríaca do século 2º, não se encaixa na Palestina judaica pré-70 d.C. e combina muito bem com as outras coleções de dizeres, algumas da Síria, que surgiram nos séculos 2º e 3º - uma dessas coleções é a "Sentenças de Sexto", originária da Síria do 2º Século, coincidindo em local e período com o Evangelho de Tomé. É altamente provável que Tomé seja apenas mais uma coleção de dizeres siríacos do Século 2.

Craig Evans, baseado em sua pesquisa, conclui que o documento em questão necessariamente é do século 2º, especialmente considerando que o Diatessaron não foi escrito antes do ano 170 d.C. Para ele, portanto, faz sentido afirmar que nada que esse documento nos traga é confiável para aprender algo sobre o Jesus histórico.
Fonte: Fonte: O Jesus Fabricado, Craig Evans, Cultura Cristã, 2009, pgs 58-70.

5 - Considerando a opinião de Bruce M. Metzger, Ph. D.:
Metzger, por sua vez, considera que algumas das citações de Tomé são, de fato, baseadas em dizeres de Cristo, mesmo que tenham sofrido algumas alterações. Como base ele aponta dois textos conforme apresentados em Tomé: "Uma cidade construída sobre alta montanha e fortificada, não pode estar oculta" e "Deem a César as coisas que são de César e deem a Deus as coisas que são de Deus, e me deem o que é meu" - no primeiro texto, apenas a palavra "alto" foi acrescentada, enquanto no segundo, aquilo que aparece depois da última vírgula. Há, porém, trechos muitíssimo estranhos aos evangelhos, como o que diz, aludindo ao panteísmo: "Cortem a madeira, ali estou. Ergam uma pedra, e me acharão ali", ou ainda outro, bastante machista e incompatível com o Cristo nos apresentado na Bíblia: "Simão Pedro disse a eles: 'Maria deveria deixar-nos, pois as mulheres não são dignas da vida'. Jesus disse: 'Eu a guiarei para fazer dela homem, de modo que também ela possa tornar-se um espírito vivo semelhante a vocês homens. Pois toda mulher que se tornar homem entrará no reino do céu."

Sobre a acusação de que o Evangelho de Tomé foi sumariamente excluído através dos concílios da Igreja, Metzger afirma:
"Não há base histórica para isso. O que os sínodos e concílios fizeram no século V e nos seguintes foi ratificar o que já tinha sido acatado pelos cristãos em toda a parte. Não é certo dizer que o Evangelho de Tomé teria sido excluído por algum decreto do concílio. O certo é que o Evangelho de Tomé excluiu a si mesmo! Ele não estava de acordo om os outros testemunhos sobre Jesus que os cristãos primitivos consideravam dignos de confiança. (...) O cânon, na verdade, é uma separação decorrente da visão intuitiva dos cristãos."
Fonte: Em Defesa de Cristo, Lee Strobel, Vida, 2011, pgs 87-90.

Conclusão:
Se o apócrifo no qual os críticos das Escrituras mais depositaram suas esperanças trata-se de um documento tardio e simplesmente ignorado pelos cristãos primitivos, não vejo motivos para alerde mediante a propaganda sensacionalista sobre um "Jesus desconhecido", "uma outra face de Cristo" ou "o Jesus que a Igreja tentou esconder". Nem esse e nem nenhum dos apócrifos que hoje estão na moda nos podem servir como referencial de estudo sobre Cristo - isso deve servir, ao menos, para os estudiosos honestos. Com isso não estou dizendo que devemos evitar o estudo desse material, pois se assim fosse, eu não teria escrito tal artigo - pelo contrário: todos devem ler os documentos apócrifos e compará-los com o material de nossas Bíblias! Se assim fosse, teríamos menos gente aterrorizada ou radiante mediante a barulheira que ecoa das periferias e do submundo das pesquisas neotestamentárias.

Natanael Pedro Castoldi

Leia também:

Quem Foi Giordano Bruno?

Giordano Bruno (1548-1600) se tornou um baluarte da luta dos anticristãos contra a Igreja, que comumente o consideram "mais um cientista assassinado pela Igreja, inimiga da Ciência". Mas quem era Giordano Bruno e por qual motivo ele foi morto? Começaremos com algo sobre Galileu e, então, falaremos sobre o suposto "mártir da Ciência".

"Líderes religiosos no meu país, a Índia, nunca perseguiram alguém como Galileu. Isso me dá o direito de ter orgulho? Pois bem, no século XIX nossos professores ensinavam - em uma faculdade fundada pelos britânicos - que a Terra se apoiava nas costas de uma imensa tartaruga! Nós nunca perseguimos alguém como Galileu porque a Índia hinduísta, budista, animista ou muçulmana nunca produziu um. Quem não tem filhos, nunca tem conflitos com adolescentes.

A Igreja não executou cientistas por causa da ciência destes. Os conflitos ('heresias') eram teológicos, morais, sociais, pessoais, políticos ou administrativos. A ciência nasceu na universidade - uma instituição inventada pela Igreja. Quase todos os primeiros dos cientistas antigos trabalharam em universidades, supervisionados pelos bispos. Muitos deles eram teólogos e exegetas. Giordano Bruno (1548-1600) é tido como cientista assassinado pela Igreja. A Igreja o viu como um monge renegado e um mago hermético, que praticou um pouco de astronomia, mas não prestou nenhuma colaboração à ciência. Bruno ensinou uma filosofia especulativa e imanentista sobre a alma do mundo como um número infinito de mundos. Esse seu imanentismo, influenciado pela Grécia antiga, e pelo islã, atrasou a ciência."
Fonte: O Livro que Fez o Seu Mundo, Vishal Mangalwadi, Vida, 2013, pg 269.

Natanael Pedro Castoldi

Leia também:

Objetos Santos, Teologia da Prosperidade e Outras Heresias

O texto que segue, retirado do anterior "A Bíblia, o Mal e as Heresias - Respostas Sobre Versículos Estranhos" e ampliado, pretende responder adequadamente ao mau uso de alguns versículos bíblicos para justificar o anticristianismo.

A Bíblia e as heresias:
Postagem "Mitologia", dO Mirante

A -"Jesus usa de barro para curar, por isso objetos podem ser meios de aplicação do poder de Deus -João 9:6-7": 
Tal proposta não tem grande fundamento, mostrando-se mais um argumento desesperado para os que querem manter seu comodismo e secularismo, do que um posicionamento devidamente bíblico. Se você acha conclusivo tal trecho da Palavra, de Deus usando algo existente como ferramenta de cura, então explique a escassez de outros eventos desse tipo no Novo Testamento - há poucos, pois grande parte dos atos milagrosos de Jesus e dos apóstolos se consumaram de modo direto, sem a dependência da matéria, o que serve de padrão. Se Cristo não dependeu de matéria para curar outros cegos -Mateus 9:28-30-, então Seu poder é suficiente para não depender, de modo algum, de nenhuma matéria para curar em qualquer circunstância e qualquer problema, por isso não se pode crer que o "lodo" foi essencial na cura, mas foi o meio utilizado para curar uma pessoa específica, segundo a lição que Cristo lhe queria ensinar e conforme o que havia em seu coração, também não se deve esquecer que O Criador é, evidentemente, criativo e independente, podendo agir de modo novo e diferente, segundo a Sua vontade, mas o meio utilizado nunca pode interferir na verdade de que O Criador, que fez tudo diretamente do Nada apenas com Seu poder, tem condições plenas de agir tremendamente sem nenhuma ponte física.

Repare, ainda, que o cego da passagem de João busca Cristo de mãos vazias, sem cobrar-Lhe ou orientar-Lhe sobre como o curar, apresentando-Lhe o lodo, não! Ele chegou-se ao Filho carregado apenas de fé, de plena certeza de que o poder e o amor de Cristo eram suficientes para a sua cura completa e, por isso, apenas por isso, foi curado, o lodo foi tido como iniciativa de Jesus que, com base na fé de antemão demonstrada pelo cego, decidiu aplicá-lo como método de cura. Em resumo: o cego apenas se curou em fé diante de Cristo pedindo-Lhe a cura, mas o método usado para curar, abençoar, não veio da iniciativa do cego, mas daquele que cura e abençoa, é Ele quem determina os meios para os fins, a nós cabe principiar e obedecer. A questão do lodo e da necessidade de lavar os olhos no Tanque de Siloé, no contexto, mais pareceu uma ferramenta didática para o curado do que um meio essencial para a cura: Jesus queria ensinar uma verdade prática para o cego, de que para ser "próspero" não basta simplesmente orar ao céu que as bênçãos caem como chuva, sem esforço, pelo contrário, é necessário ter a iniciativa e demandar esforço e tempo, pois o mecanismo pelo qual o cristianismo trabalha é projetado para, evitando o comodismo pelo conforto e facilidade, tornar os fiéis proativos e de caráter lapidado pelo serviço.

As "igrejas pseudo-cristãs" da atualidade, que utilizam do nome de Deus como argumento para vender relíquias milagrosas por altíssimos valores, com base em pura ganância, estão, portanto, trabalhando com mentira descarada, primeiramente porque não parte da pessoa determinar um objeto, um meio, pelo qual Deus irá exercer Seu poder, mas, unicamente, a iniciativa de, pela fé, pedir-Lhe segundo as suas necessidades, o meio a canalizar a bênção, se por ventura a oração for respondida -pois o "NÃO" de Deus também existe, podendo ser tido como uma disciplina para o cristão interesseiro e descompromissado ou proteção da parte dO Pai, que deixa de dar ao homem pecador aquilo que pode corromper seu coração-, está a cargo dO Criador, que poderá usufruir de infindáveis artifícios, desde o advento milagroso, sem canal algum, súbito e explicitamente sobrenatural, até o envio de um irmão com palavras de encorajamento ou disposição de auxiliar em serviço ou recursos, mas tudo depende dos planos soberanos dO Eterno, segundo aquilo que Ele quer ensinar ao fiel. A dependência exclusiva da fé, sem o apego à matéria, como se  O Criador da matéria dependesse dela, é um teste para o cristão, uma disciplina benéfica, fazendo-o aproximar-se da face verdadeira de Deus e aprofundar os relacionamentos com Aquele que transcende -Hebreus 11:1-. Quem crê que O Criador do Universo tem poder para agir sem depender de nada além de Si mesmo, está preparado para entender que Ele pode utilizar-se da matéria que Ele mesmo criou como ferramenta de bênção, mas sem necessitar dela e tal percepção cria uma imagem sadia e sóbria dAquele com quem fomos criados para nos relacionar, um Deus que é mais que religião, um Deus que é vivo, proativo, independente, absolutamente surpreendente e soberano e que, embora algumas vezes difícil de ser entendido, deve ser tido antes como um amigo muito próximo, do que uma divindade fria e totalmente deslocada de nossa realidade.

No final das contas uma coisa é certa: Deus não canaliza o Seu poder a um objeto específico, produzido por uma empresa específica, "abençoado" por um pastor específico e vendido por um valor determinado, não!! Ele é independente e pode agir com mais poder, se você tiver fé, através de um cascalho da beira do rio do que através daquele "martelinho milagroso" que você comprou do "apóstolo" por "apenas mil reais". Deus não age por dinheiro, não é como um banco, que dá mais retornos financeiros conforme os valores nele depositados, não! Ele já é, naturalmente, dono de tudo o que criou e não há nada que esteja fora de Seus domínios, portanto, o "martelo milagroso" não está mais perto de Deus do que a folha seca caída ao chão!! Em momento algum da Bíblia O Pai é "ativado" por meio de objetos, como se fosse uma divindade pagã, na verdade a única coisa que realmente chama a atenção de Deus em qualquer lugar do mundo e por meio de qualquer coisa é uma fé sincera, firmemente fundamentada numa devoção real, evidenciada por um coração disposto e entregue -Salmos 34:18. Nem ao menos o Templo de Salomão era um recipiente adequado para Deus, que não pode ser limitado pela matéria, já que transcende - é o próprio Salomão quem o diz em 1 Reis 8:27 -, tendo mais um sentido didático para o povo, do que uma necessidade direta para Deus -evidenciando a diferença gritante que há entre Deus, santo, e o homem, pecador; mantendo o temor dO Pai, afim de provar o coração dos hebreus -e estrangeiros convertidos- e deixando muito clara a necessidade de Cristo para reaproximar O Pai dos homens, dos arrependidos. Com Cristo o véu do Templo se rasgou -Mateus 27:51-, indicando que temos acesso direto aO Pai -João 4:21-24-, tornando-nos, agora, o verdadeiro templo de Deus -1 Coríntios 3:16.

B -"Deus promete prosperidade aos Seus filhos"-Isaías 1:19:
Esse é um exemplo escancarado daquilo que disse sobre o fato de os "cristãos" de hoje picotarem os textos bíblicos procurando só o conveniente e ignorando o inconveniente, mesmo que ele esteja evidente, pois dois versículos acima há uma condição para o "comer o melhor da terra":"Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas." É um típico exemplo de querer o agradável e evitar aquilo que exige esforço, entrega, pois todos falam de Isaías 1:19, mas poucos lembram de seu verso irmão, o 17, que, convenhamos, é bem mais nobre e vital do que o 19! Quando Deus propôs a Lei aos hebreus - eu digo "propôs", pois Ele não os obrigou a aceitá-la, mas deu-lhes liberdade de concordarem com os termos ou não e, somente após concordarem, cobrou-lhes a obediência -, certamente o objetivo principal não era fazer prosperarem materialmente os indivíduos da nação israelita, mas fazer valer a Aliança Abraâmica, de o povo de Israel ser uma bênção para o mundo -Gênesis 12:3-, o que tem uma aplicação diretamente eterna, e é aqui que entra o auxílio aos necessitados, excluídos e ignorantes, como a mensagem prática da teoria, como o demonstração da bondade de Deus por meio de Seus seguidores, fazendo a atenção dos povos se levantarem para o tão bondoso e ativo Deus de Israel. Então o plano de Deus era, pela benéfica postura dos hebreus, fazer as nações derredores se prostrarem e, se curvando, serem abençoadas materialmente como os hebreus já eram - tirando que a fartura de alimentos e outros recursos, prometidos por Deus, também deveria ser mais um meio de auxílio humanitário do que alicerce para o comodismo.

O problema dos cristãos de hoje é que se esquecem do objetivo de estarmos aqui, como abençoados pela culminância da Aliança Abraâmica, que é Cristo. Queremos imaginar que o Céu já começa agora e que fomos colocados nesse mundo como criaturas inúteis, que devem apenas angariar bens materiais e saúde. Queremos atrair os mundanos pela ganância, o que, por si só, é algo totalmente anticristão: "eles vão querer vir pra nossa igreja porque aqui existe prosperidade". Esquecemos também que estamos no Novo Testamento, não no Velho, vivendo num mundo a funcionar de modo diferente, já que O Cristo, a Pedra Angular, já esteve entre nós para consertar parte das coisas, portanto o nosso chamado não é "mais" para "prosperidade" -e nunca foi-, mas para entrega, privação, luta e, se houver alguma bênção, que ela seja repartida com os necessitados, pois é para os fracos que Jesus veio e, sendo nós outrora fracos, para os fracos devemos ir -leia: "Quem somos?" e "O Fundamento". Nós estamos nesse mundo, como cristãos, antes para levar a Boa Nova aos cativos e o maior prêmio, tanto para nós, quanto para eles, é a Vida Eterna! Aqueles que se preocupam muito mais em ter todos os problemas resolvidos e infindáveis riquezas materiais, para serem maiores do que os outros ou viverem plenamente bem, antes de terem com os pobres e necessitados, não são, de fato, cristãos, pois o cristianismo prega a humildade e generosidade - se o cristão tem bens em demasia, é porque não está usando, destinando, parte do que Deus lhe deu para suprir as necessidades daqueles que padecem de privações, resumindo-se mais num hipócrita, num tremendo mal exemplo, do que num emissário de vida, seja ela boa para eternidade, seja ela boa para a mortalidade - vide Tiago 1:23-27. Lembremos que o miserável não se interessará pelo teu Deus até saber o quanto você, como seguidor de Deus, se importa com ele - matada a fome, tomado o banho e vestida a roupa nova, terá condições físicas e psicológicas de se interessar por algo além de apenas sobreviver.

O fato é que devemos separar as coisas: Israel, inicialmente, está na parte da Aliança Abraâmica correspondente à descendência genética do Pai da Fé -Gênesis 12:1-2- e o Velho Testamento está relacionado diretamente aos fatos ocorridos com a nação assim constituída, havendo profecias e leis direcionadas exclusivamente ao povo em questão, por isso não podemos tê-las como para nós, pois fazemos parte dos "estrangeiros" na Aliança Abraâmica -v 3. Há uma diferença entre o que se refere a um estado político e um reino espiritual e são esses os focos diferenciais do Velho e do Novo Testamento e a prosperidade material, que só aparece como promessa terrena no Antigo Testamento, tem um vínculo de necessidade muito maior no estado político de Israel do que no reino espiritual inaugurado depois de Cristo, do qual os israelitas cristãos também podem fazer parte - um reino maior, alicerçado na Palestina, com a cruz cravada na rocha como uma bandeira de conquista posta no cume de uma montanha ou na torre da fortaleza inimiga, mas que se alastra pelo mundo inteiro, unindo, do Povo Escolhido, os que aceitaram Cristo, aos gentios que igualmente se converteram aO Filho.

É uma questão de lógica: num mundo sem Cristo e com o Espírito Santo a descer e estimular apenas alguns ungidos de Deus, o relacionamento com O Pai, que é o centro da fé -O Filho veio para reaproximar o homem dO Pai e o Espírito Santo é enviado como representante dO mesmo-, só poderia ser tido de uma forma mais distante e fria, já que não havia o nascer de novo no Espírito de Deus, o que define e inspira o cristão a servir aO Pai, e o Pecado, ainda não vencido e aniquilado pelo sacrifício dO Filho, mantinha um abismo quase que intransponível entre O Santo Deus e o pútrido homem. O mundo sem Cristo não podia funcionar corretamente e hoje, mesmo que imerso em caos, pelo menos a relação entre Deus e os homens que aceitaram carregar a marca dO Filho, as engrenagens estão todas no lugar, pois o cerne de perfeição foi reinserido na Criação, para reaproximar o imperfeito do Perfeito Deus. O Pai, simplesmente, não tinha alternativa, dentro de uma realidade de livre arbítrio, senão a de sugerir leis para o Povo Escolhido agradá-Lo ou não, nem tanto leis para aproximarem-nos dEle, pois sem Cristo ninguém se aproxima de Deus, independente das obras, mas leis para testar o seu interesse em estar ou não com Ele através da obediência, valorizando-se mais a devoção sincera e fazê-los entender um pouco da Sua natureza -através das verdades eternas, dos conceitos, por detrás da letra fria-, do Seu padrão e experimentar, através da obediência, a Sua bondade ou, através da desobediência -após o aviso prévio e muitas chances-, a Sua justiça e poder - então a imagem de um verdadeiro pai se constrói: Ele dita as regras, supre as necessidades e, quando necessário, por amor disciplina, sabendo do que será melhor para um futuro sadio -Jeremias 5-, leve em conta que a possibilidade de dura disciplina gera o medo de errar voluntariamente, evitando a rebeldia, e, quando aplicada, demonstra, na prática, que falhar machuca, é prejudicial e, no caso de nosso relacionamento com Deus, expressa a realidade de que o afastamento do Deus da Vida só pode gerar dor -Hebreus 12:6-8.

Agora a Lei parece demonstrar a sua mais necessária utilidade: fundamentar a nação política de Israel num sólido alicerce de moral -punição do adultério, afim de preveni-lo pelo medo, assim como da rebeldia, furto...-,  sanidade física -cuidado com alimentos, armazenamento, afastamento temporário de doentes e mães após o parto...-, parâmetros religiosos -monoteísmo, o Templo e festas memoriais, rituais de obediência e entrega, prevenção contra o paganismo, como no caso de não se misturar tecidos nas roupas, já que a mistura de tecidos era um típico ritual cananeu, segundo a crença de que os tecidos "acasalariam" e "promoveriam" prosperidade- e orientações políticas -auxiliar na preservação da propriedade de terceiros, não trapacear, respeitar a honra das mulheres, dos líderes da família, dos sacerdotes e do Senhor...-, veja alguns exemplos em Levítico 19 e Deuteronômio 22. A questão é que todo esse sistema de leis extremamente profundas a amparar completamente Israel tinha um objetivo central e posterior: fundamentar uma nação rígida e forte, que sobrevivesse tempo suficiente para sair dela, como fruto da Promessa, O Messias, e isso num contexto de relativa segurança sanitária, moral e política, além, é claro, como já disse, de transmitir conceitos sobre a natureza de Deus através de exemplos práticos. Cristo veio para reaproximar Deus dos homens, sim, mas também para corrigir a postura dos homens em relação à Lei, mostrando-nos que a questão não é o seguir de uma letra fria e estritamente literal, mas o aplicar honesto de conceitos amplos - e isso com base em sobriedade e sinceridade.

Bom, até agora eu não falei muito sobre a prosperidade em si, pois tudo não passou do pano de fundo para o que direi na seqüência: Deus diz, no Antigo Testamento, que recompensará a obediência à Lei com prosperidade material para a nação e isso tem dois motivos principais, ao meu ver: como o povo precisaria obedecer aos estatutos dO Pai para manter-se unido e forte até a vinda do Messias, servia como um estímulo, um apoio, um chamariz, pois sem a habitação do Espírito Santo entre os homens -numa realidade sem Cristo o oposto seria impossível, lembre-se também do livre arbítrio, pois Deus não arromba portas, ide Apocalipse 3:20-, mas no Templo, eles não teriam aquele forte ímpeto espiritual de obedecer aO Pai e ter profundo prazer nisso, pois, só após algumas disciplinas de nossa parte, o anseio por Deus, que é Santo e Perfeito, é inspirado em nós pelo Espírito Santo habitando-nos, sendo Ele também Santo e Perfeito, já que, naturalmente, pela carne, repudiamos O Pai. Os homens, sem o Espírito Santo e Cristo, não tinham motivos naturais para a obediência às Leis de Deus, mas a promessa de prosperidade era um meio dO Pai, na realidade do livre arbítrio, estimulá-la. O segundo motivo também está incluso na realidade da nação política: como Israel tinha que se fortalecer e sobreviver até a vinda dO Messias, precisava de um alicerce econômico estável, o que proporcionaria o comércio com as nações vizinhas, abasteceria as famílias israelitas e enriqueceria de recursos e saúde todo o estado, o que também aumentaria a natalidade, isso sem contar com o fato de que a prosperidade chamaria a atenção dos povos vizinhos para Israel e Seu Deus, como já disse - é claro que a prosperidade como resposta à obediência também servia como um ensinamento, deixando evidente que vida abundante só existe diante do Deus Vivo, mas vale lembrar que a ganância e arrogância sempre foram condenadas pelo Pai, vide Amós 6, por isso "prosperidade" tem limites. Então toda a questão da Lei e das bênçãos como recompensa serviram, principalmente, para garantir a sobrevivência de Israel e a vinda dO Messias, o foco central da História Humana, e é Cristo que, vindo, divide a história do Reino em duas, separando as águas: passou-se o reino político e iniciou-se o reino espiritual, mantido hoje através do Espírito Santo em nós.

Hoje, como cristãos, não temos motivos para vivermos atrás de prosperidade. Eu não desconsidero o Antigo Testamento, de forma alguma, pois ele nos traz exemplos de fé e luta fortíssimos, nos ensina muito sobre Deus e nos mina de conhecimento e entusiasmo com O Pai, só acho que o AT é apenas o alicerce espiritual e histórico para o cristianismo, o Novo Testamento, que brotou dele, reformando seus ensinamentos e mostrando a Boa Nova dO Filho ao mundo que se inseriu, após a Sua morte e ressurreição, na realidade do Reino Espiritual. Da mesma forma, não penso que o cristão não deva buscar a realização material, pois Cristo nos ensina a pedir aquilo que almejamos -Mateus 7:7- e também não penso que Deus não pode ou não quer nos abençoar materialmente, pois, de fato, Ele se importa conosco e procura pela nossa felicidade -Mateus 6:30-, a questão está na realidade em que vivemos hoje: não sendo um reino material, político, mas uma congregação mundial de fiéis, não precisamos de fortes alicerces econômicos para nos sobressairmos, e como Cristo já morreu por nós e o Espírito Santo é quem nos motiva naturalmente a estar com Deus, não dependemos de nenhum estímulo material para tal, pois isso inibe a fé sincera, que é aquilo que O Pai procura. A missão dos cristãos hoje -sejam hebreus convertidos ou gentios igualmente salvos- é diferente da missão da Antiga Israel: não temos que constituir uma nação que atraia pessoas de outros povos para si, como um ímã, através da chamativa prosperidade, mas temos, como emissários do Reino de Cristo na Nova Aliança, que ir até as pessoas e as atrairmos para Jesus pelo nosso bom exemplo, pelas palavras de libertação e salvação eterna e, quem sabe, pelo suprir de suas necessidades básicas, através do ato de repartir o que temos - na Velha Aliança os que sofriam eram atraídos para Israel, na Nova Aliança os que se alegram em Cristo são atraídos pelos que sofrem. De qualquer forma, o estilo de vida itinerante que o ideal cristão propõe não pode combinar com o padrão sedentário que a "prosperidade" exige.

É fato que Deus quer curar, trazer conforto e prosperidade aos que sofrem, aos abatidos, é por isso que muitos vão até Ele e, conhecendo-O verdadeiramente, se entregam, é o próprio Deus que o orienta, dizendo "vinde" -Mateus 11:28-, mas dessa libertação promovida na vida dos que passam a crer não deve suceder uma rotina folgada e voltada para as riquezas desse mundo e é por isso que Cristo, após nos erguer e fazer conhecer O Pai, desfere outro mandamento, o "ide" -Mateus 28:19-20. Como O Messias já veio e abriu as portas do Céu para nós, nossos interesses nesse mundo, como filhos de Deus, devem, fundamentalmente, ser voltados ao que é eterno -Colossenses 3:1-2-, primeiramente porque Deus não divide domínios com as riquezas mundanas em nossas vidas -Mateus 6:24-, pois repudia a idolatria -Mateus 22:37-, em segundo lugar porque toda a matéria, seja bela ou rígida, irá se desfazer com o tempo ou no Dia do Senhor, quando Ele julgará o mundo -Mateus 6:19-20- e em terceiro lugar, porque nos serão cobradas as vidas dos incrédulos a quem não apresentamos o Evangelho, já que nos omitimos -Tiago 4:17- e permitimos o seu tropeço nas trevas enquanto nos preocupávamos mais em amontoar tesouros -Marcos 9:42. Lembre-se de que não fazer a vontade de Deus é desobediência -Mateus 12:30-, a desobediência gera inimizade -João 15:14- e a inimizade para com Deus nos afasta dEle, rumo ao Fogo Eterno -Mateus 22:11-13. A "prosperidade" da forma como se apresenta hoje, não pode ser bíblica, pois oferece ao homem aquilo que já em pecado ele quer, sendo apenas mais um fruto do diabólico humanismo de nossos dias, até porque Deus não incentivaria o homem a procurar justamente por aquilo que dificultasse o desenrolar da Grande Comissão e da vida cristã, pois desde o Éden caímos no erro de nos deixar levar pelo que é belo e saboroso, pelo que é prazeroso -Gênesis 3:6- e facilmente abandonamos Deus em troca do ego -Mateus 6:1-6; Lucas 22:26-, do comodismo -Mateus 25:1-13. A nossa real prosperidade será no Céu, futuramente!! Hoje, meu caro, somos guerreiros!

C -"Prosperidade é uma evidência de que a pessoa está agradando à Deus"
Isso o livro Jó já tratou de aniquilar, pois ele sofreu terrivelmente mesmo sendo um homem justo. Deus não trabalha com trocas, não se pode comprar a Sua bênção, pois assim como Ele permite que as dádivas do sol estejam disponíveis ao incrédulo -Mateus 5:45-, pode permitir que o crédulo passe fome, em ambos os casos fazendo-o por amor. Especificamente no caso do sofrimento, da dor, da doença, fome ou frio, somos lapidados, desistimos de nós mesmos e nos entregamos completamente à Deus, a única salvação, o que aprofunda nosso relacionamento com Ele e aperfeiçoa nosso caráter, fazendo-nos mais simples, humildes e acessíveis -2 Coríntios 12:9; Filipenses 4:12-13.

"Prosperidade" nem de perto é evidência derradeira da proximidade com Deus, embora possa ser um pequeno indicativo -Mateus 6:25-34-, basta analisarmos o fato de que Satanás ofereceu todos os reinos do mundo -caídos- para Cristo como condição de Ele desistir de Sua missão salvífica -Lucas 4:5-7. Um "cristão" de hoje certamente consideraria uma "bênção" de prosperidade sem tamanho ter o mundo inteiro nas mãos -e uma evidência descarada da ação de Deus-, mas estaria sendo, simplesmente, precipitado. O texto nos mostra uma realidade perigosa: Satanás também pode promover prosperidade na vida dos homens, mas qual é a condição? Devoção para com ele. O "cristão" que prospera, mas vive pouco do que a Bíblia fala, estando em pecado, portando-se com arrogância e ganância, vivendo mais para o EU do que para Deus e os outros, provavelmente, segundo o que o texto de Lucas nos diz, está recebendo a sua prosperidade diretamente de Satanás, já que ele a busca pelos meios e motivações erradas, além do fato de tal prosperidade corrompê-lo ainda mais. O Inimigo é o mestre da enganação -2 Coríntios 11:14-, sempre disposto a aniquilar os filhos de Deus -João 10:10-, imobilizando-os ou, até mesmo, destruindo-os eternamente - ou, pelo estímulo, levando-os a fazerem-no consigo mesmos -Jeremias 12:1. Com isso não quero dizer que Deus não permite que alguns prosperem, aqueles que Ele sabe que não vão se corromper, pois para cada um Ele determina uma missão específica e pessoas com recursos financeiros são essenciais para financiar missões evangelísticas no mundo inteiro e dar amparo para irmãos e igrejas locais.

Mateus 7:21-23 é bem conclusivo: não importam as evidências físicas, se o cristão não faz a vontade de Deus, não O obedece, tudo é vão e, provavelmente, as supostas evidências não são de Deus, mas frutos do esforço, poder do EU ou, até mesmo, de Lúcifer. Com isso não descarto as possibilidades de O Pai ser a fonte das riquezas e do poder eventualmente exercido por seus seguidores desobedientes, mas parece-me mais provável que não seja. Então aqui entramos noutra questão: não é porque o culto de tal igreja tem gritaria, línguas espirituais, curas e ricos testemunhos, que, de fato, Deus seja o centro das coisas. Muita da ação pode ser fruto de emoção ou postura forjada para chamar a atenção, porém, de fato, há coisas indiscutivelmente espirituais, mas eu entendo que o aspecto dessas coisas evidencia a sua origem: se algo é bizarro, estranho demais, como uma pessoa a cair súbita e duramente ao chão, indivíduos tremendo freneticamente nesse mesmo chão ou gritos altíssimos, suponho ter algum envolvimento demoníaco -é hipótese-, que, se não relacionado a um exorcismo, não passa de um teatro de enganações, pois a presença de Deus, quando agindo sem empecilhos, é suave, branda e promove paz de espírito -1 Reis 19:11-13. O fato é que, se você vê eventos sobrenaturais numa igreja que idolatra o templo, o prédio, que se apega a relíquias como se fossem poderosas -um retorno ao judaísmo, aos tempos sem Cristo-, que prega a prosperidade, que vende objetos milagrosos, idolatra o pastor -retorno à Idade Média- e procura, incansavelmente, altíssimas ofertas em dinheiro -sendo que só Jesus basta, João 14:6-, desconfie das fontes, pois é impossível ser igreja cristã, de Cristo, sem seguir os parâmetros definidos por Jesus no Novo Testamento, já que a identidade do cristianismo está na prática e aceitação de determinadas questões que, se revogadas, descaracterizam-no e, portanto, o anulam -Gálatas 1:8. Também desconfie dos chavões: "Eu determino que Deus me dará 'tal coisa'", pois isso vai contra a lógica de que quem determina as coisas é O Pai, que, além de soberano, sabe o que nos é melhor -Romanos 9:20; Lucas 22:42- ou o "eu profetizo sobre a minha cidade..." quando, na verdade, não foi Deus quem inspirou essas palavras - 2 Pedro 1:21. Desde quando o homem tomou o lugar de Deus nas decisões?! Desde quando?! A igreja de nossos dias precisa retomar o saudável temor do Pai!! Provérbios 9:10. A experiência espiritual não pode ser o fundamento da fé, a essência, mas, sim, o conhecimento da Palavra e a vida prática com Cristo, tendo o Espírito Santo diariamente agindo na rotina, não em eventos específicos! Marcos 16:20 afirma que os sinais milagrosos não ocorrem apenas como belo espetáculo, mas existem, acompanhados da pregação, exclusivamente para confirmar que aqueles que divulgam o Evangelho são, de fato, de Deus e que, portanto, falam a verdade, logo, sinais e prodígios desacompanhados de uma vida cristã coerente ou de uma doutrina indiscutivelmente bíblica, não são frutos dO Pai, mas quando há sinais e milagres ao lado da sã doutrina e exemplo de vida, sem hipocrisia, daí podemos creditar a ação celestial - feitos miraculosos também servem como chamariz para o evangelismo. O fato é que a grande luta do cristianismo não é por cura, fartura, liberdade em termos materiais, apesar de auxiliar nisso, mas o acúmulo de "tesouros eternos", já que tudo aqui é efêmero!

Natanael Pedro Castoldi

Leia também: