Navigation Menu

É a primeira vez que
você acessa este blog
neste computador!


Deseja ver antes
nossa apresentação?


SIM NÃO

Mostrando postagens com marcador relativismo. Mostrar todas as postagens

A Igreja Psicótica - Os Perigos da Alienação



Índice:

1 - Introdução, definições e esclarecimentos
2 - O contexto social, econômico, cultural e religioso
3 - O novo gnosticismo
4 - A leitura alegórica
5 - A anti-intelectualidade
6 - O dualismo platônico 
7 - Fatalismo e fenomenologia 
8 - Breve história do pentecostalismo
9 - A rejeição da cultura 
10 - O mercado gospel 
11 - As ondas de avivamento
12 - O esquecimento do Pecado
13 - A perda de valor da Bíblia
14 - A proeminência do fenômeno
15 - Hierarquias e competições
16 - Afrouxamento moral
17 - Propagandização de si mesmo
18 - O endeusamento de líderes 
19 - O controle e a infantilização
20 - O legalismo
21 - O jogo das aparências
22 - O despreparo para lidar com o pecado
23 - A ditadura do medo 
24 - A arrogância espiritual 
25 - A morte da personalidade
26 - A ilusão do "príncipe encantado"
27 - Os casamentos-relâmpago
28 - Confissão positiva, confirmação e profecia
29 - O desamparo acadêmico 
30 - Mensagens subliminares, pactos e esquizofrenia
31 - O fanatismo
32- Questões finais

1 - Não raramente recebo algum vídeo sobre celebrações evangélicas bastante singulares, de um tipo que me era absolutamente desconhecido há alguns anos, mesmo tendo nascido em lar cristão e conhecido várias igrejas de muitas denominações. São cultos exacerbadamente frenéticos, caracterizados por batidas musicais exaustivamente repetitivas, propiciando um ambiente de transe, de êxtase, que decorre em algo parecido com uma hipnose coletiva. Nesses eventos, as pessoas costumam girar e saltar incontáveis vezes, também são levadas a constantes quedas, seguidas de tremedeiras e espasmos. Não raramente, o exercício se dá em torno de algum objeto, algum símbolo, como cajados e "arcas da aliança". A similaridade desse tipo de ritual com o que se percebe em religiões mais místicas, espiritualistas, fenomenologias pagãs e idólatras, é gritante. Tento entender as razões de tais vídeos estarem circulando com grande frequência atualmente, mas só encontro duas possibilidades: ou seus participantes estão tendo condições maiores de filmar e expor as atuações de suas igrejas, ou há um alastramento bastante perigoso de novas modalidades de culto. Independentemente do quanto isso têm acontecido, percebo como exageros típicos do extremo de uma percepção muito abrangente e, por isso, preocupante, para a qual uma só palavra parece resumir tudo: psicose.

Entende-se por psicótico o indivíduo que perde o contato com a realidade, que se relaciona com as coisas de modo alucinatório, delirante, não vendo-as como são - ou vendo coisas que nem sequer existem. Nesse sentido, o mundo do psicótico é povoado por construções mentais inteiramente suas, norteando a sua interpretação das coisas e o tipo de relação que ele desenvolverá com o que está ao seu redor - ou com aquilo que ele acha que está. Como você pode discernir, a psicose é sintoma de uma psicopatologia, de uma disfunção no funcionamento da mente de quem dela sofre. O psicótico está inserido numa situação mental que prejudica a sua saúde integral, a sua qualidade de vida: ele não se percebe como o que realmente é, ele não intercepta o próximo e as coisas em sua realidade objetiva. Não é difícil ligar essa desventura mental ao que fora descrito no parágrafo anterior. Há igrejas verdadeiramente psicóticas, que disseminam uma mentalidade doentia, ideias tóxicas que humilham seus membros, rebaixando-os aos seus impulsos e desejos mais baixos, levando-os ao adoecimento da mente e da alma pelo desligamento da realidade de si mesmos e do mundo. Como cristão estudante de psicologia, muito me assusta ver em muitas igrejas evangélicas o solo propício para o germinar da loucura pelo alastrar de um novo tipo de idolatria: a sacralização da demência. Para mim, tendo em vista as consequência práticas de alguns discursos e comportamentos vigentes, a questão é de saúde pública. Favoreço a liberdade de culto, mas há gente sendo absorvida, ensandecida, manipulada por maquinações persuasivas, que não residem em interesses nobres e tampouco cristãos, mas tão somente de comércio, poder e vaidade.

Antes de seguirmos, faz-se necessário antecipar alguns esclarecimentos: em primeiro lugar, não sou cessacionista - acredito que ainda hoje Deus ministra dons na Sua Igreja. Concordo que o Espírito Santo não pode ser controlado, mas também penso que Ele não pode ser manipulado. Nutro respeito pelo movimento pentecostal, especialmente pelo clássico - que fique claro, pois trabalharei bastante com o pentecostalismo de terceira geração. Também reconheço o excelente trabalho social que as igrejas têm desenvolvido com as classes mais vulneráveis, razão de o artigo não ser direcionado a nenhuma igreja em específico, preferindo tratar de fenômenos difusos, não necessariamente interligados. Fique em evidência, ainda, que não sou contra a igreja institucional e não tenho parte com os desigrejados.

O objetivo desse trabalho é denunciar e alertar para a tomada de consciência perante as possíveis consequências de entendimentos perigosos vigentes. Não pretendo trazer respostas e soluções para os problemas abordados, tampouco entendo que estou livre de todos eles ou que faço parte de uma igreja plenamente sã. Temos diante de nós algo como um inconsciente coletivo, profundamente arraigado na cultura brasileira, de maneira que muitos dos pontos são tendência em quase todas as congregações - por isso minha preocupação não está em agradar ou defender uma bandeira determinada. Também entendo que é necessário que existam igrejas singulares para diferentes culturas e segmentos da sociedade, e penso que Deus pode agir, em Sua soberania, segundo a disposição do coração do fiel, de maneira que não percebo que as igrejas que sustentam ideias perigosas estejam levado todos os seus membros à perdição. Também aconselho que se tenha em mente que não quero defender extremos: a acusação de um ponto não significa que sustento o oposto. No mais, trata-se de uma reflexão mais antropológica e psicológica do que teológica. Boa leitura!

2 - Leitor, perceba: há pessoas profundamente predispostas e sugestionáveis, pessoas feridas, vulneráveis, interessadas em recorrer a qualquer auxílio em favor de soluções para superar a pobreza, recuperar a saúde física e psicológica, restaurar as relações familiares, tirar algum familiar do vício... Some-se a isso a provável falta de instrução e amparo social e familiar. Essas pessoas estão em busca de soluções emergenciais e não as encontram em suas previsões de futuro, nas condições de que dispõem, pois carecem de recursos e perspectivas, e, portanto, não guardam significativa esperança naquilo que são capazes de fazer ou de que os outros e o próprio Estado podem lhes oferecer. A situação é singularmente grave numa cultura paternalista como a brasileira: a mentalidade latina do patrono, a figura arquetípica do líder da família ou do clã, sustém uma disposição de dependência, que enfraquece o senso de iniciativa. Responsáveis pela coleta de sua subsistência, tais pessoas andam pelas ruas com olhos bem abertos, atentos para qualquer sinal ou indicativo de solução. Nessa busca, não demoram para encontrar uma grande placa com a seguinte mensagem: "Pare de sofrer". Aquele que transcende as limitações desse mundo de dor poderá lhes dar a tão esperada "vitória". O apelo é fatal, quase sempre surte efeito, e isso tudo é legítimo. Cristo chamou para si os cansados e sobrecarregados (Mateus 11:28). O problema é o uso que tem sido feito disso.

Esse público, que carrega demandas prementes, angústias dolorosas, mazelas do nível mais básico, está suscetível a se largar nos braços de qualquer pessoa bem vestida que estiver pregando triunfo do púlpito da igreja. Quem sofre deseja ardentemente um lugar para repousar, alguém que possa lhe dar amparo. Infelizmente, muitos pregadores são treinados para, além de atrair e perceber essas pessoas, extrair delas o pouco que ainda possuem. O líder carismático, bom na oratória, na lábia, que fala com convicção, calibrando meticulosamente o tom de voz e se comunicando de forma simples, com autoridade e familiaridade de quem experimenta o discurso de vitória e prospera por conta disso, terá certa facilidade em manobrar seus ouvintes. O uso de recursos lúdicos é especialmente importante, considerando o apelo emocional das imagens e da interação que o pregador realiza com elas.

É relativamente fácil, nessas circunstâncias, que o líder da congregação seja colocado em elevadíssimo pedestal: ele é detentor de um conhecimento salvífico obtido pela "vasta" experiência, pela "unção" recebida e pela leitura da Palavra, geralmente pouco conhecida dos ouvintes, de maneira que a sua existência como patrono é fundamental para a orientação, para a sustentação e para a estima do público que o acompanha. Se ele dominar técnicas de propaganda e de atuação dramática, eventualmente promovendo espetáculos de autopromoção diante de todos, como a realização programada de batalhas com endemoniados, expostos ao ridículo perante multidões e câmeras de televisão, poderá chegar ao extremo de se entronizar, usar coroa e ainda ter os fiéis beijando os seus pés - como realmente está acontecendo nalguns lugares. Evidentemente, as carências do povo o tornam sugestionável a trocas comerciais com o "ungido apóstolo": parece-lhe legítimo dispor dos rendimentos de duas semanas de trabalho pela suposta promessa de sucesso em sua causa mais urgente. Assim, se constrói o tipo de negócio que produz "patriarcas" capazes de custear imensas fazendas, mansões e pequenos aviões. E se a causa do fiel não é ganha, é por "falta de fé e de dinheiro".

No Brasil há solo fértil para o alastrar desse tipo de entendimento. A pobreza e a carência de instrução têm ampla presença, de modo que se observa a necessidade ao mesmo tempo que se carrega certo nível de impotência para entender e lidar com a situação. Deseja-se ascender, mas faltam recursos. É claro que a isso se soma o famoso "jeitinho brasileiro", que se define pelo interesse em fazer tudo do modo mais fácil, evitando maximamente o esforço e o risco - o que nos leva ao entendimento de que o povo que se deixa levar pela charlatanice pode ter, sim, a sua parcela de culpa. A recente ascensão econômica dos mais pobres e da classe média, com a ampliação de seu poder de compra, também tem servido para suster o tipo de sistema religioso de que tratamos aqui: o interesse pela aquisição de bens de consumo cada vez mais caros é razão suficiente para mover multidões, assim como a melhora financeira e as consequentes "vitórias" alcançadas têm servido para atestar a efetividade do discurso e, portanto, do "poder" do pregador. Não quero cair no erro de limitar a questão às condições de renda mais baixas, pois tem sido observada a corrida pela prosperidade também em pessoas já endinheiradas, como é o caso, particularmente, de cristãos norte-americanos. Aos fiéis que permanecem com maiores dificuldades tudo o que falta, conforme o discurso que se alastra, é "fé" e "depositar mais do pouco que têm aos pés do apóstolo". Até agora, toda a caminhada em função da bênção não envolveu nenhuma exortação pelo reconhecimento do Pecado e de Cristo como Senhor e Salvador - não Aquele que salva da penúria material, mas da profunda corrupção do homem pela Queda e consequênte condenação ao Inferno.

Evidentemente, as carências no nível mais baixo levam a uma busca essencialmente materialista. A pessoa dificilmente irá se interessar em empreitadas mais elevadas se os apelos do presente forem de segurança no suprimento de suas necessidades fisiológicas básicas e amparo social, conforme consta na famosa Pirâmide de Maslow. É claro que pode haver uma busca por um ideal existencial transcendente mesmo na miséria total, como sabiamente nos aponta Viktor Frankl (1905-1997) no seu relato dos campos de extermínio da Segunda Guerra Mundial, Em Busca de Sentido, publicado pela Editora Sinodal e pela Editora Vozes. Mas a tendência mais natural ao homem é a busca por conforto fisiológico e emocional.

Isso é maiormente relevante numa cultura religiosa que lida com Deus de uma maneira mecânica, aproximada dos modos de culto tribais: o mundo é regido por forças favoráveis e desfavoráveis, uma espécie de animismo. As nuances do clima são interpretadas como ação direta do Criador ou de demônios da natureza, as consequências de maus cuidados com a saúde são atribuídas a ações do Maligno, a própria lógica de mordomia, de economia, é substituída pela ação do "Devorador" - o problema financeiro tem uma causa iminentemente espiritual. Não é estranho que o imaginário acerca do Devorador é muito parecido com aquele de povos antigos que, em suas mitologias, atribuíam muitos de seus problemas às divindades trapaceiras, como o coiote em tribos norte-americanas, Loki para os nórdicos, Eshu-Elegba para os yorubá e o afamado Saci-Pererê, do folclore brasileiro. Parece-me que a formação cultural do nosso povo, com fortes influências indígenas e africanas, ajuda a lançar luz sobre essa questão. Nesse imaginário, das forças à disposição do homem, que pode acessá-las por meio de ritos e magias, a maior de todas é Deus.

Aqui entra, a meu ver, a visão de mundo herdada do catolicismo ibérico, fortemente influenciado pelo Islã, que esteve por séculos sob o controle da Península. A ideia de um Deus menos pessoal, distante, irado, que dificilmente pode ser visto como Pai - criando, com isso, um generalizado sentimento de orfandade -, distanciando o Céu da Terra, deixa uma espécie de vácuo a ser preenchido por entidades mais pessoais, como anjos, santos, relíquias, pregadores dotados de poder e demônios - pois eles possuem lugar de destaque em muitos dos novos tipos de culto. Nesse meio, quando o Criador age, o faz tão somente por meio de uma força tratada como impessoal, que toma o controle do corpo e da mente do fiel, com quem não há relação, apenas a submissão do corpo como envólucro de atuação desse poder. Muitas dessas possessões não têm diferido em nada do que se observa em cultos de religiões tradicionalmente espiritualistas e totêmicas. O indivíduo tem sua mente adormecida, subjugada, para adentrar num estado de transe pelo acesso a uma "Mente Superior", pela dispersão naquilo que o totêmico e o panteísta poderiam chamar de "Força Vital". O próprio uso de objetos e liturgias como vias de acesso ao divino é característico do totemismo.

Não é difícil ver nisso semelhança às doutrinas persas do zoroastrismo, que foi uma das fontes de inspiração do próprio Maomé para a concepção do Islã: o cosmos é habitado por duas forças opostas, pelo que é divinamente Bom e pelo que é diabolicamente Mau. Essas forças estão em eterno conflito e usam o homem como terreno de combate - ou o indivíduo está possuído pelo Mal ou está possuído pelo Bem. Não há uma relação pessoal com essas entidades, que apenas tomam conta do ser e o utilizam em sua guerra cósmica - o máximo que o indivíduo pode fazer diante desse tipo de fatalismo é clamar para ser conquistado pelo Bom e se relacionar com entidades intermediárias. O imaginário medieval, que funde percepções cristãs, gregas e pagãs, ainda está bastante vivo nas mentes populares: há dois reinos, o Inferno e o Céu, e dois reis de forças quase equivalentes, Deus e o Diabo, se confrontando na "Terra Média" - não era assim que se pensava na Patrística e na Escolástica, mas foi isso que a mente do povo comum assimilou. É possível que o crente que pesa dessa maneira venha a se sentir responsável pela própria vida e pelos seus próprios atos?

3 - Há traços iminentemente gnósticos nessa modalidade de fé. Na Antiguidade houve vários tipos de gnosticismo, pois suas bases de crença podiam ser associadas a todo a forma de religião, e alguas delas estiveram ligadas ao cristianismo. Enquanto produto da mentalidade grega, que supervaloriza a Razão, isso num período de crescimento das religiões de mistério, preenchendo um vácuo deixado pelo enfraquecimento das religiões oficiais do Império Romano, o gnosticismo nutria a ideia de que havia um conhecimento secreto, oculto, para além daquilo que as mentes comuns, que não foram escolhidas ou iniciadas, eram capazes de ver - e que esse conhecimento secreto é, por si só, catártico e salvífico. Esse tipo de heresia nunca deixou de existir, ainda que tenha perdido terreno ao longo da história, e hoje se faz presente no tipo de igreja de que temos tratado aqui. Os "cristãos" gnósticos dividiam os homens nas seguintes categorias: os incrédulos, os crentes rudimentares e os crentes iluminados. Os novos gnósticos dividem a humanidade entre aqueles que são carnais, aqueles que são crentes carnais e aqueles que são crentes espirituais, rotulando o esquema de "hierarquia dos salvos".

Ora, se por um lado somos um joguete de forças superiores e, por outro, temos acesso ao Criador com base na qualidade de nossa interação com os intermediários, seja o louvor, seja o dinheiro, seja todo e qualquer ritual ou totem, é inevitável que dividamos os fiéis em degraus de relevância: há os que foram especialmente agraciados, ungidos, que tiveram acesso aos conhecimentos ocultos, aos códigos do divino e que, por isso, emanam mais poder, e há aqueles que não receberam tais graças, que não foram iniciados pela transferência de poder ou pela possessão espiritual do divino. Essas castas, apesar de apresentarem certa flexibilidade, tendem a ser mais deterministas, estáticas, tendo seu trânsito de classe administrado pelos que estão no "nível de cima" - eles é que podem, tomando para si a posição de Elias, passar adiante o poder. Tratamos aqui, perceba, de um tipo de conhecimento altamente experiencial, determinado pelos fenômenos e pelas sensações, de maneira que aquele que mais experiências carrega, que domina com mais maestria os rituais, que conhece mais profundamente os segredos dos elementos que dão acesso ao transcendente, que com mais autoridade manipula anjos, demônios e o próprio poder do Criador, tende a ser tratado como agraciado, superior, sucessor direto do Messias e, portanto, figura central e indispensável para a distribuição de dons, curas, libertações e, claro, conhecimentos. Como intermediário entre a congregação e Deus, colocado como sacerdote cuja intimidade com o Senhor é capaz de angariar mais favores ao povo por ele liderado, além de apaziguar a ira do Eterno, seu entendimento das Escrituras é dado como regra de fé e fonte de doutrina, uma vez que, em sua suposta conexão direta com o divino, seus pronunciamentos são quase todos advindos de revelação. Há, então, a tradicional negação gnóstica da letra, do livro.

4 - Essa autoridade que o pregador tem sobre as Escrituras só é possível com base em outra perspectiva, também associada aos gnósticos, embora tenha sido usada por muitos cristãos ligados à ortodoxia: a leitura alegórica. Os alegoristas dos primeiros séculos da Era Cristã dividiam os cristãos entre aqueles que entendiam o significado oculto e mais espiritual da Palavra e aqueles que não eram capazes de discerní-lo. Aos agraciados detentores do conhecimento secreto, portanto, cabe uma autoridade especial em termos de leitura e interpretação da Bíblia. O exercício da alegoria consiste em tomar qualquer texto e observar as ilustrações como símbolos que remetem a realidades superiores, como a tentativa de atribuir a cada uma das cinco pedras que Davi coletou para lutar contra Golias um significado espiritual - segundo alguns pregadores, cada pedra representa um sentimento, dos quais o "homem segundo o coração de Deus" só usou o último: ira, orgulho, vingança, ódio e o Nome do Senhor. Essa percepção brota do dualismo platônico, que divide a existência em dois mundos, o sensível e o inteligível - cada coisa que percebemos pelos sentidos é mero reflexo de uma forma perfeita, ideal, que habita um mundo superior, de maneira que tudo possui um significado para além de sua realidade objetiva, sendo mais espiritualmente elevado aquele que souber interceptar as formas mais perfeitas a partir das imperfeições vigentes. O abstrato, o racional, é mais próximo do divino do que o objeto em si - ou seja, é mais admirável aquele que for capaz de perceber os códigos ocultos nas coisas e, por meio deles, acessar o Mundo Superior. Não é espantoso que aquele que consegue manipular os elementos de maneira a beneficiar os fiéis é também entendido como "apóstolo" por meio de quem o entendimento das Escrituras é mais puro. É evidente que, com isso, a Palavra perde a sua objetividade e o seu significado intrínseco, podendo ser interpretada e torcida segundo os interesses daquele que por meio de sua autoridade deseja manejar a multidão.

5 - Cabe aqui a observação do inti-intelectualismo típico da mentalidade brasileira, que é ainda mais presente em muitas igrejas evangélicas. O imaginário do "jeitinho brasileiro", iminentemente materialista, talvez resultante de uma fusão entre os ideais de uma cultura fundamentalmente mercantil, como foi o caso da portuguesa, e dos conhecimentos práticos para a subsistência dos povos nativos ou para cá trazidos, observa a dedicação de tempo às atividades estritamente intelectuais como desperdício, principalmente se não houver retorno material envolvido nesse esforço cognitivo. Não estou trabalhando a questão de maneira a desdenhar esse tipo de visão de mundo, totalmente funcional em seus devidos contextos, quero somente visualizá-la como possibilidade de explicação para o fenômeno anti-intelectual de que estamos falando.

A mentalidade latina que se estabeleceu no nosso país, junto ao uso ostensivo de escravos durante séculos, reduziu o trabalho braçal aos grupos étnicos e sociais menos privilegiados e teve o ócio como condição louvável. Poderia somar a isso à relação católica com o ensino que, apesar de existente e relevante, raramente se ocupou em seus países de proeminência com a erradicação do analfabetismo e a disseminação de alta cultura - percebo uma diferença gritante entre as cidades de colonização alemã, essencialmente luteranas, e as de colonização italiana, enraizadas no modelo civilizacional latino e católico. É claro que seria injusto desmerecer as contribuições culturais do catolicismo brasileiro, pois foi ele o responsável pelos maiores avanços nesse sentido na história de nosso país, até porque, como já sugerido, a animosidade ao uso da Razão é mais gritante em igrejas evangélicas. Não podemos, contudo, negar que grande parte da perspectiva dos evangélicos advém de sua cultura popular de berço, quase sempre católica.

Segundo as análises que tenho feito, a mentalidade animista também propicia esse tipo de comportamento. A negação da necessidade da Razão geralmente acompanha uma percepção religiosa que nega a objetividade da natureza e a sua sustentação sob leis determinadas e identificáveis. Quando a explicação para os fenômenos naturais e humanos é reduzida à ação de Deus, dos anjos, dos demônios ou do líder espiritual, com a jornada humana ligada mais às ideias de destino e de sorte, que também são divindades específicas de panteões pagãos, a necessidade de se tentar entender a realidade de maneira objetiva é minada. A própria tendência ao alegorismo coopera com esse sistema, já que emerge uma propensão a interpretar os eventos cotidianos como meras ilustrações de realidades abstratas, fundamentados no interesse divino de transmitir uma mensagem especial.

6 - Aqui, por fim, chegamos ao que considero ser a maior causa da anti-intelectualidade: o dualismo platônico. Por um entendimento iminentemente grego de espiritualidade, que transpassa a história da Igreja, tem-se o Bom como espiritual e o Mau como material - nega-se a matéria em favor de um aprofundamento em "Deus". Esquecem-se que a Criação, incluindo os elementos materiais, foi tida por "muito boa" pelo Criador. Nesse contexto, não há nada de relevante para a fé a ser obtido com o entendimento mais profundo das coisas, da natureza, das ciência, da cultura humana. Conhecimentos desse tipo são dados como "vaidade" e, não raramente, "ferramentas de Satanás para levar os crentes ao ceticismo". Veja: o conhecimento é entendido como essencialmente mau. Tal percepção, além de reduzir o homem a níveis inferiores, fazendo-o ser dominado pelos impulsos fisiológicos e emocionais, retira de Deus a soberania sobre todas as coisas, entendendo que o elemento palpável é vil em si mesmo, pertencente ao "reino do Inimigo" - seria a matéria, portanto, a realidade mais distante da pureza espiritual do Eterno, conforme trabalhado pelo neoplatonismo. Assim, cabe ao fiel uma constante luta em favor da fantasmagorização, de um deslocamento cada vez maior da realidade das coisas, usufruindo, para tal, de transes, de desligamentos da mente, de dispersões no ambiente, de elevações místicas, ao estilo das filosofias e religiosidades orientais. Desse ponto, pela rejeição da matéria, podemos ter duas posturas: a mais ascética, que entende por espiritualmente relevante as privações e sofrimentos do corpo, e a mais hedonista, que se entrega aos prazeres carnais destrutivos, uma vez que a saúde física não é interessante para o espírito.

Lembrando-me do que Francis Schaeffer (1912-1984) nos traz n'A Morte da Razão, também posso visualizar no dualismo as razões para a busca por êxtases. Por meio de uma análise histórica concisa, Schaeffer traça os caminhos da mente ocidental, desde Tomás de Aquino (1225-1274) e o fortalecimento do aristotelismo, que tinha nos elementos particulares da natureza a fonte dos conhecimentos, até os movimentos de contracultura de sua época, da fuga de jovens do materialismo por vias químicas. Para o pensador cristão, quando a mente cristã dividiu a realidade em duas partes, em revelações separadas, em Natureza e Graça, as questões naturais e pertinentes às ações humanas cotidianas ganharam proeminência sobre as questões de "fé", que ficaram relegadas aos momentos de culto formal. Conforme os particulares suprimiram os universais, a percepção individual sobre a realidade ganhou força: cada indivíduo percebia o mundo de uma maneira inteiramente sua e não havia mais uma razão superior e externa para contestá-lo. Disso o caminho se abriu para o relativismo.

Assim, o homem, ao tentar se desvencilhar das amarras da religião e dos arbítrios de Deus em favor de uma liberdade total, percebeu-se ainda mais preso conforme seu entendimento sobre o mundo natural se intensificou: ele foi reduzido a um mero elemento à mercê do fluxo impessoal de um universo sem Deus, mera pulsão, mero instinto, totalmente preso à máquina biológica, sem nenhum sentido superior. Dessa percepção angustiante, surge o que ficou conhecido como existencialismo: nega-se a realidade, desliga-se do mundo tal como ele é, em favor de uma libertação da mente e da colocação do homem como gerente de seu destino - é claro que isso só seria possível ignorando as amarras naturais. Sem Deus no "andar de cima", o próprio homem precisou definir a si mesmo e se situar no mundo, mas percebeu ser incapaz de fazê-lo. A angústia disso produzida, especialmente mediante o alastrar da máquina biológica à máquina industrial, encaminhou-se para o romantismo: se entregue aos seus desejos, seus sentimentos, sem restrições. É claro que a rendição à nulidade não é razão existencial suficiente para trazer paz ao coração humano e, assim, com um vazio no "andar de cima", o homem passou a entorpecer-se fazendo uso de drogas, imergindo em batidas musicais perturbadoramente repetitivas, reduzindo-se ao sexo. O "andar de cima" foi ocupado com qualquer coisa. O mundo então globalizado, possibilitou a adoção de filosofias orientais, focadas em exercícios constantes para o silenciamento da mente que, no Ocidente, estava perturbada.

Em Schaeffer, nesse breve e lacunoso resumo aqui disposto, temos, portanto, uma razão bastante clara para o tipo de culto que estou denunciando aqui: sem que o Evangelho seja devidamente pregado, faltando compreensões sobre a natureza de Deus, sobre a Queda e o Pecado, sobre a necessidade de salvação por meio de Cristo Jesus e sobre a dependência que devemos ter da Graça de um Deus totalmente soberano, não pode haver real conversão e, portanto, uma mudança de mente. Estende-se, assim, o raciocínio pagão para dentro do culto "cristão". Não há cosmovisão cristã sem o estabelecimento dos fundamentos da fé e, assim, o que temos é uma perpetuação sincrética dos vícios de mente que precederam a ida à igreja. O indivíduo larga, por exemplo, os eventos de estirpe xamânica, encharcados de substâncias que manipulam a mente em favor da transcendência, e imerge em celebrações ocupadas essencialmente em subir em montes e orar exaustivamente para o surgimento espontâneo de labaredas verdes no chão - um tipo de experiência que evangélicos e ufólogos têm em comum. Leitor, perceba: a mentalidade religiosa pagã não nutre uma ideia clara sobre o que é uma pessoa (a definição de "pessoa" é produto da Patrística e de suas reflexões sobre a Eucaristia), pois não percebe uma Pessoa Divina a ordenar e categorizar o mundo e dar-lhe sentido. Há, apenas, um ser humano confuso, querendo sobreviver aos movimentos da natureza, aos caprichos de entidades impessoais, e, para tal, concebendo rituais de aproximação, apaziguamento e favorecimento.

7 - O que temos nesse contexto é, tão somente, fatalismo - não é possível que o pagão veja a si mesmo como algo além de um mero objeto dentro de uma máquina sempre pronta a esmagá-lo. O que brota disso é angústia, desconforto, medo e, portanto, um ardente desejo por libertação da matéria ameaçadora, por libertação desse mundo, por transcendência. Um tipo de "culto cristão" que, não tendo experimentado uma mudança de mente, perpetua o imaginário pagão, irá propiciar todo o tipo de êxtase pelas razões aqui expostas - até porque o próprio Deus não é percebido como verdadeiramente pessoal, mas como uma divindade que age em ondas de poder, para extermínio ou para bênção. Nesse cenário, é compreensível o insaciável interesse por milagres, por transgressões das leis naturais, com ênfase em curas, como é comum em todos os tipos de religiosidade assemelhados, com seus pajés, curandeiros e benzedeiros. Também não é de surpreender a busca pela possessão do divino, uma das vias de transcendência, de libertação. Não podemos negar que o ser humano carrega um interesse quase incontrolável pelo poder, pelo sublime, pelo estranho - e para a idolatria do fenômeno, do mover sobrenatural em si mesmo, que segue o grupo dominado pelo sentimentalismo. A meu ver, a negação da razão e da lógica natural é uma outra forma de luta contra a matéria e em favor da transcendência: parece que a superação dos mecanismos determinados que regem os elementos é vista como um louvável passo de fé por "mais de Deus", de "vitória contra a carne".

8 - A isso tudo parece-me legítimo vislumbrar a cultura pentecostal norte-americana, pois foi de lá que o movimento pentecostal surgiu e se instalou no Brasil. Minha sina não é contra o pentecostalismo, até porque eu mesmo partilho de um ambiente profundamente influenciado por suas premissas, mas em oposição ao que, dentro do contexto brasileiro, ele se tornou. É evidente que existem muitas igrejas pentecostais sérias - o problema não está no movimento em si -, mas há gerações mais recentes do movimento pentecostal que extrapolaram os limites da sanidade bíblica e psicológica - inclusive, todo o contexto evangélico que tenho denunciado aqui faz parte dessas últimas ondas pentecostais. Essa questão, porém, precisa ser analisada com alguma dedicação.

É interessante observar que a história da Igreja, como um pêndulo, comumente nos apresenta movimentos que vão de um apego excessivo às tradições e à Razão para um realce da emoção e da experiência individual - particularmente desde o advento do Renascimento, pois os dois extremos são faces da mesma moeda. Podemos começar nossas observações desde o pietismo, originado no Séc. XVII em nome de uma renovação na mente luterana que, em favor da tradição, estava, segundo seu fundador, Jakob Spener (1635-1705), matando a vida cristã. O pietismo enfatizava o indivíduo e sua fé particular, sua experiência íntima e emocional com o Criador, o que levou a uma negação do mundo - coisa que também aconteceu em contextos calvinistas, que não prezavam pela integridade daquilo que "não tinha alma" e que, portanto, não havia sido predestinado para a salvação. Alguns pietistas logo dividiram os crentes em duas categorias: aqueles que haviam nascido novamente por meio de uma experiência dolorosa e que, portanto, estavam aptos a ensinar, e aqueles que não haviam experimentado tal transformação - ainda assim, a tendência em geral era de negação das diversões "mundanas", o que também aconteceu com membros de confissões reformadas.

O pietismo exerceu forte influência sobre John Wesley (1703-1791), pai do metodismo. John Wesley foi o responsável pelo despertamento espiritual e cultural ocorrido na Inglaterra de sua época, que tinha se perdido nas consequências de uma perspectiva deísta. O metodismo, sabemos, foi uma das denominações fundadoras dos Estados Unidos da América, onde tivemos os Grandes Despertamentos. O Primeiro Despertar (1726-1770) começou nas igrejas reformadas holandesas e se disseminou entre os presbiterianos e congregacionais, tendo sido encabeçado por Jonathan Edwards (1703-1758). George Whitefield (1714-1770), amigo de John Wesley, também propiciou despertamentos em diversos locais dos Estados Unidos. A característica do tipo de fé pregada era semelhante a do pietismo: fomentava uma fé mais emocional e aplicável ao cotidiano. Os outros dois Despertares, ocorridos entre os Sécs. XVIII e XX, foram essenciais para o enriquecimento intelectual e cultural dos EUA. Mas foi justamente nas décadas aproximadas do início do Séc. XX que o fenômeno cristão do fundamentalismo ganhou força.

Contudo, antes de lidarmos com o fundamentalismo, precisamos falar das tendências calvinistas e puritanas predominantes a partir do Séc. XVII, considerando tais movimentos como fundantes dos Estados Unidos. Conforme Hans Rookmaaker (1922-1977) estabelece no A Arte Moderna e a Morte de uma Cultura, o puritanismo nunca foi monolítico: dentre suas correntes, é possível identificar uma tendência mística, subjetivista, legalista e espiritualizada, interessada em se afastar das coisas do "mundo". Tal corrente, portanto, desprezava tudo o que não era espiritual, religioso, e, penso eu, o fazia também como uma oposição ao apego católico às estruturas. Essa lógica de fé logo levou ao adoecimento da arte, da música, da arquitetura e das demais expressões cristãs de cultura - as artes eram, em si mesmas, mundanas e profanas. Há aqui algumas semelhanças com o que falamos acerca do gnosticismo e uma evidente recapitulação do dualismo platônico. Esse tipo de isolamento cultural, que encontrou morada nos Estados Unidos, é uma das fontes do movimento fundamentalista.

É interessante associar a isso outros dois fatores: o típico e prático materialismo mercantil da cultura inglesa, conforme acusado por Maurício Righi em seu livro sobre Theodore Dalrymple - capitalismo tido por Richard M. Weaver, no As Ideias Têm Consequências, como uma das causas da morte dos valores - e a "política da liberdade", apontada por Gertrude Himmelfarb (1922 -) como traço característico do Iluminismo Norte-Americano, fortemente ligado, conforme Lionel Trilling (1905-1975), aos discursos de Thomas Jefferson (1743-1826). Os Estados Unidos foram fundados sob conceitos claríssimos de liberdade e soberania do indivíduo, desenvolvendo uma cultura economicamente forte, profundamente direcionada à produção de bens. Nesse contexto, o interesse pela Razão, pelo abstrato, é menor do que a resolução de questões práticas, que façam prosperar o indivíduo e potencializar o uso de sua propriedade. Uma igreja estabelecida sob tais influências culturais, não seria capaz de lidar adequadamente com confrontos no âmbito das ideias. E realmente não soube - até porque não os priorizava.

Daí, finalmente, podemos tratar do fundamentalismo. Mediante os avanços científicos e tecnológicos dados entre os Sécs. XIX e XX, com a crescente oposição aos preceitos cristão, as igrejas, desconectadas da cultura e desinteressadas pelo desenvolvimento intelectual de seus membros, preferiram se isolar cada vez mais, criando uma animosidade ainda maior ao pensamento científico, ao racional, a tudo o que, pelo "perigoso" uso da mente, pudesse colocar em cheque o vigente fideísmo. Não importava a esses cristãos se questões pertinentes às suas crenças estavam sendo abaladas pelas descobertas científicas: evidências não tinham relevância alguma, bastava a fé e uma interação experiencial com Deus. O terreno cultural que a igreja perdeu desde então é sem precedentes na história do cristianismo.

A criação desse gueto cultural, dessa alienação da sociedade e dos debates e questões pertinentes ao tempo histórico, esse deslocamento das questões reais e caras ao mundo de seu período, apenas intensificou a tendência dualista já vigente na mente cristã. É relevante notar que o liberalismo teológico também crescia nesse período: os confrontos à fé cristã e a aparente - momentânea - vitória das ciências seculares no âmbito das evidências, levou um número cada vez maior de teólogos a uma leitura menos literal das Escrituras, relativizando-as para que continuassem a fazer sentido num mundo dominado pela empiria e pelo racionalismo - o próprio racionalismo foi transferido para a interpretação da Palavra. Diante do imperante dualismo, os liberais entenderam que a fé cristã e a Bíblia se referem apenas às questões de crença subjetivas, sendo a fé algo inteiramente particular do indivíduo, resultante de sua percepção própria das letras bíblicas e da experiência vivida. O mesmo tipo de mentalidade que produziu o relativismo pós-moderno, levou ao alastrar de uma relativização do valor e da mensagem bíblica, totalmente condicionada às singularidades e interesses do leitor, o que é uma modalidade de leitura e interpretação em total conformidade com os ideais Iluministas da absoluta autoridade que o indivíduo possui para a formação de suas ideias e de sua identidade. A frieza liberal fez da Bíblia algo pior do que a leitura alegórica, e a Academia serviu como fonte de autoridade sobre a veracidade da Palavra assim como eram os gnósticos iniciados - conhecedores de segredos exclusivos, formuladores de doutrinas, superiores aos cristãos comuns. Não é por nada que, pela negação de toda a sobrenaturalidade, muitos teólogos liberais não passaram de ateus, conforme Albert Mohler deixa explícito n'O Desaparecimento de Deus. É desse emaranhado de percepções, do fundamentalismo rígido à frieza e frouxidão liberal, que brota o pentecostalismo.

Não é possível falar do movimento pentecostal sem tratar, primeiramente, do Movimento de Santidade, advindo do metodismo no final do Séc. XIX. Com uma interpretação própria da ideia de John Wesley sobre uma crise posterior ao evento da conversão, que os membros desse grupo chamaram de "segunda bênção", experimentada por vários metodistas do Séc. XIX, o Movimento de Santidade começou a falar de um "batismo no Espírito Santo", que pode acontecer com os já convertidos e se evidencia pela glossolalia, ou o dom de línguas. Disso, o movimento alimentou a ideia, em oposição ao racionalismo vigente, de que os dons do Espírito Santo poderiam reaparecer na Igreja moderna, levando a renovações carismáticas. Historicamente, contudo, o pentecostalismo só passa a ser identificado num evento dado na Escola Bíblica Betel, em Topeka, Kansas, Estados Unidos, no ano de 1901, quando vários alunos relataram ter recebido o "batismo no Espírito Santo" seguido do dom de línguas, entendido, no contexto, como incentivo para as missões mundiais. Em seguida, com início no ano de 1906, uma série de eventos do tipo se desenrolaram na Rua Azusa, em Los Angeles, numa igreja multiétnica. Daí, o pentecostalismo se definiu como segmento próprio e se alastrou pelo mundo, encaminhando o neopentecostalismo.

No Brasil, um campo de missionários norte-americano do Séc. XX, o pentecostalismo chegou já em 1910, com o início da primeira onda de igrejas pentecostais, com destaque para as Assembleias de Deus. A segunda onda se desenrolou na década de 50 e início dos anos 60, com a fragmentação do campo pentecostal, mas com grandes grupos de igrejas ainda ligados ao pentecostalismo clássico, como a Igreja do Evangelho Quadrangular e a Igreja Pentecostal Deus é Amor, ambas acentuando a cura divina. Essa onda relaciona-se ao contexto de urbanização e o surgimento de uma sociedade de massas. Também caracterizou-se pelo farto uso dos meios de comunicação, com ênfase no rádio. A terceira onda do pentecostalismo brasileiro começou no final da década de 70 e ganhou força nos anos 80, tendo suas maiores representações na Igreja Universal do Reino de Deus e na Igreja Internacional da Graça de Deus. Esse movimento tem relação com o amadurecimento da sociedade urbana, o findar do milagre econômico e a modernização autoritária do país. Por focar na autonomia das igrejas, esse pentecostalismo se adaptou muito bem à cultura urbana e televisiva e à ética da geração yuppie. Mais separado do pentecostalismo histórico, o pentecostalismo da terceira onda é culturalmente solto. A pregação positiva, característica do movimento, motiva-se, entre outras coisas, no levante de ofertas.

Uma outra influência do pentecostalismo brasileiro foi o movimento de renovação carismática norte-americano, surgido no início dos anos 60 com o desenvolvimento de fenômenos sobrenaturais fora das estruturas denominacionais do pentecostalismo clássico. A novidade desse movimento foi o fato de ter sido abraçado por muitas pessoas de classe média. No Brasil, a renovação carismática rachou quase todas as igrejas históricas.

Além da renovação carismática, o pentecostalismo brasileiro bebeu da Teologia da Prosperidade, também de origem norte-americana. O tipo de teologia adaptada ao mercado de consumo dos Estados Unidos foi incorporado no Brasil como via de ascensão social e suprimento de mazelas, considerando o contexto de maior pobreza que aqui temos. É fácil, portanto, perceber a origem da força do pentecostalismo - com relevo na terceira geração -, tendo em vista sua adaptabilidade e o público que absorveu nos grandes centros urbanos, especialmente durante o processo de urbanização e, consequentemente, de maior pobreza da parte das massas que tentavam vida nova na cidade. É digno de nota que boa parte do público que aderiu ao movimento em questão, por ter migrado para grandes cidades, também se via solto, desprendido, desenraizado de suas origens culturais, sociais e familiares.

O tipo de igreja que queremos enfocar nesse artigo está mais aproximada da terceira onda pentecostal do Brasil, já mais desligada da cultura e da tradição histórica pentecostal e, por isso, mais aberta à perpetuação de religiosidades estranhas ao cristianismo em favor do sincretismo. Temos nalgumas dessas igrejas a exacerbação de características do pentecostalismo norte-americano, relacionado ao mercado de consumo e à prosperidade como sinal da bênção divina, traços do catolicismo ibérico, do kardecismo, de religiões afro-brasileiras, da cultura indígena e do pentecostalismo clássico. O tipo de rejeição da cultura que se fazia presente no movimento dos Estados Unidos prossegue aqui, incorporando o individualismo típico de uma sociedade de consumo e do relativismo característico da Pós-Modernidade, mas, devido à multiculturalidade imperante em nosso território, a justificativa de afastamento da sociedade não se motiva na fuga do confronto de ideias, mas no medo do "Diabo", cujo senhorio é atribuído às culturas cultivadas por outras religiões, especialmente das religiões de onde os fiéis vieram, com ênfase no catolicismo. Nesse sentido, com um movimento solto, carente de identidade própria, cada vez mais difuso e diverso, as pessoas se justificam e qualificam na negação do que não querem ser, não na afirmação do que pretendem se tornar - o que temos disso é um crescente anticatolicismo, que representa, numa sociedade sumariamente católica, a rejeição quase que completa da cultura e uma dificuldade aguda de lidar com aquilo que está fora do círculo pentecostal. O discurso de triunfo e de conflito irradia-se, por exemplo, na política: há um interesse cada vez maior numa imposição das lógicas evangélicas sobre toda a nação por meio de decretos, alimentando por um insensato vitimismo, um evidente revanchismo e exagerada mania de perseguição.

9 - Não é nada incomum presenciarmos discursos públicos acusando a habitação de demônios em toda a parte, em tudo aquilo que está fora do gueto de onde se está falando - assim, se fomenta uma verdadeira guerra contra as estruturas religiosas tradicionais e norteadoras do contexto sociocultural predominante. Há aqui, além do isolamento, a conclamação de uma guerra espiritual contra o mundo, tido como inerentemente mau. A isso se associa um humor triunfalista que, pelo demérito da cultura em voga, propõe a imposição de uma outra cultura, intrinsecamente pentecostal. A intensa repulsa dos fiéis ao que é "mundano", impossibilita o conhecimento dos fenômenos culturais e sociais reais e, disso, impede a construção de uma via de diálogo, restando, tão somente, o confronto e a negação. Dessa forma, tais igrejas ficam à margem dos debates, dos interesses e das mazelas presentes na sociedade que as cerca, fazendo-se quase que culturalmente irrelevantes. É evidente que um movimento assim constituído não será bem visto pelas pessoas que dele não fazem parte.

10 - A carência de identidade associada à alienação cultural, leva à criação de todo um imaginário particular desse gueto, com um mercado próprio. A igreja passou a ser vista e administrada de maneira comercial - há uma relação explícita de oferta e demanda. Aparentemente, a matéria só é má enquanto não receber sobre si algum tipo de purificação, que pode ser efetuado pela colocação do selo "gospel". Assim, há uma tendência de consumo de músicas, roupas, utilidades, literatura e objetos mágicos que sejam considerados "cristãos" - rejeita-se a "música secular" para criar uma demanda sobre "música cristã", que infelizmente tem sido vítima desse ostracismo cultural, apresentando-se cada vez mais pobre, sem qualidade artística e com letras praticamente irrelevantes, que, pelo corrente uso do dialeto "crentês", apenas evidenciam as dimensões da alienação que essas igrejas têm experimentado. Esse sistema provoca duas consequências péssimas: apenas isola a comunidade evangélica ainda mais da sociedade na qual se insere e leva a uma secularização da vida cristã. Sim, exatamente isso: quando se está proibido de desenvolver relações culturais com quem está fora, as demandas sociais por entretenimento e por bens levam a uma sacralização de comportamentos mundanos - daí temos versões "gospel" de tudo aquilo que é caro ao homem secular, como dança, shows, festas e raves. Essa é a razão de coisas como "funk gospel". Se oferece uma versão "cristã" do "mundo" para as pessoas não procurarem diversão "fora da igreja".

11 - O repúdio pelo que é externo ao "círculo abençoado", que evita qualquer reflexão maior sobre a cultura, perpetuando a animosidade, e isso sem o estímulo para a formulação de categorias e critérios de análise cultural e de julgamento da própria mentalidade gospel, leva à inserção contraditória de elementos "mundanos" no contexto eclesiástico, ligado à ausência de uma sólida identidade histórica e cultural, vindo a reduzir o telos da igreja ao movimento e expansão de um "mercado sacro" - a esse tipo de comércio de bens religiosos ligam-se não apenas objetos, mas serviços, que vão da cura, muitas vezes em nada diferente daquilo que se observa noutros cultos religiosos, outras vezes assemelhada mais a truques e embustes, passando por depósitos "monetários" no "banco celestial", até "ondas de avivamento", que são constantes e sucessivas, sem deixar durabilidade alguma em seus rastros e, pelo vazio de realidade e objetivo inerentes, fracas demais para perdurarem mais que alguns meses. Tais "ondas", que sempre carregam consigo um ar de novidade, projetam novos pregadores, sustém antigos e movimentam os interesses do mercado a que servem, especialmente pela divulgação de literatura a elas associada. Sem clareza de identidade, as igrejas clamam por movimentos que lhes deem algum senso de realização, preservando a motivação de seus membros, sedentos por novas experiências, novos poderes, novas promessas, novas vitórias, ou pelo suprimento de uma expectativa que os moveres anteriores não foram capazes de dar cabo.

É evidente, contudo, que nenhuma transformação duradoura ou avanço nalguma via construtiva é possível quando um corpo de membros está sempre em processo de revolução - mudança só é construtiva se aponta para alguma direção sólida, movendo-se sobre solo firme. Mudar por mudar, só para se deparar com o novo, alimentar o interesse pelo sublime, pelo estranho, não promove legítima evolução ministerial nos moldes estabelecidos pelo Evangelho. O vaidoso circular em torno da preservação e da ampliação de capitais financeiros, "espirituais" e afetivos, não carrega, em si, potencial de transformação qualitativa - tudo se reduz ao quantitativo, em conformidade com a lógica de pensamento de um povo que já não olha mais para cima, que já não discerne os verticais para qualificar os horizontais, que ignora os universais como via de categorização dos particulares. É interessante notar que os fiéis, nesse contexto de igreja, desprovidos de bases sólidas, são movidos ao sabor das ondas, ao sabor dos estímulos. A Pessoa de Deus perde sua pessoalidade e é substituída por uma estrutura fria, uma máquina que esmaga o indivíduo, que passa a ser visto tão somente como um consumidor.

12 - O crescente mercado gospel, entregue à produção em massa em detrimento da qualidade, visando suprir a demanda de um povo que não foi educado para o julgamento artístico e cultural - o que resulta, em parte, dos enfoques do nosso sistema educacional brasileiro -, também se beneficia de outros aspectos da mentalidade de nossos dias, dentre os quais a atomização do indivíduo. Herdamos da mente ocidental uma percepção do homem que tem se desenvolvido, sobretudo, desde Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), muitas vezes mal interpretado: há uma bondade inerente ao ser humano, cada um de nós têm, em si mesmo, o potencial para seu pleno desenvolvimento, sendo a intervenção externa, tão somente, ferramenta de dominação do "sistema" para o aprisionamento de nossas capacidades inatas. A negação da objetividade da Razão enquanto autoridade externa a nós, a rejeição da disciplina, o acirramento do egoísmo e da arrogância, o repúdio a qualquer verdade ofensiva às sensibilidades individuais - o famoso "você não é ninguém pra me julgar" -, a absolutização da opinião pessoal, a exacerbação do ideal de protagonismo, que alastra o narcisismo e o hedonismo - "o importante é ser feliz" -, a fuga da responsabilidade pelos próprios erros, já que a culpa é da sociedade, e outras muitas características que também fazem parte da cosmovisão pós-moderna, também penetraram no imaginário, ainda que inconsciente, de muitas igrejas.

Disso, o Pecado passou a ser tratado, fundamentalmente, como um problema que não pertence ao indivíduo, resultando inteiramente de ações demoníacas externas, alojadas nas estruturas sociais ou no próprio mundo sobrenatural. A luta é contra um invasor, algo estranho à sua constituição natural. Nesse sentido, o afastamento do "sistema", do "Império das Trevas" pela reclusão no gueto eclesiástico, é percebido como via de libertação. A disciplina do corpo e da mente deixa de ser enfatizada, pois o problema não reside na pessoa, já que ela, em si, é boa. Disso brota uma mentalidade de vítima, de merecimento e de potencialidade própria que leva às tentativas de controlar Deus, de usá-Lo, de obter dEle "aquilo que é meu por direito". Soma-se a isso a fomentação de uma autoimagem desequilibrada com relação aos entes demoníacos, que são entendidos como passíveis de serem "amarrados" e manipulados, muitas vezes sem a necessidade de recorrer à autoridade de Cristo. Nesse cenário, o debate teológico também morre - o que está em conformidade com o generalizado desinteresse brasileiro pela discussão de qualquer ideia -, uma vez que a autoridade da opinião individual é posta sobre tudo - mesmo quando a opinião for de que o pastor da igreja está sumamente certo. Chegamos, por fim, ao absurdo que já tem sido visto de crentes queimando bíblias, pois "a letra mata".

13 - Como sabiamente percebeu G. K. Chesterton (1874-1936),  a realidade do Pecado Original é absolutamente democrática: tendo-o em mente, não sobra espaço para a vanglória - todos estão na mesma situação diante de Deus, de maneira que aquilo que vier a acontecer para nos tirar dessa situação é produto da total iniciativa e Graça divina. Assim o homem se percebe em sua real dimensão diante dos outros e do Criador. Quando a ideia do Pecado Original é enfraquecida e já não se percebe o sacrifício de Jesus como plenamente suficiente, portanto, abre-se espaço para uma crescente hierarquização entre as pessoas, típica do pensamento gnóstico, do neoplatonismo. Na percepção neoplatônica, há seres superiores, que estão mais perto de Senhor, mais perto da Pura Luz. Esses são mais "espirituais", enquanto aqueles que estão mais distantes do Criador são mais "carnais". Perceba: a mensagem que transpassa toda a Bíblia, a começar nos primeiros capítulos de Gênesis, se concentra no Pecado e na movimentação de Deus em favor do homem, para quem o Deus Filho fora prometido como substituto salvífico desde antes da fundação do mundo e, de modo mais claro, desde Gênesis 3:15. Se esse entendimento enfraquece, a própria percepção da função da Palavra se esvai, sua autoridade e suficiência enquanto Mensagem é exterminada, passando a servir mais como alavanca para reflexões de caráter utilitarista, que venham a favorecer os egos dos ouvintes e ampliar o poder dos pronunciadores - daí que a leitura alegórica ganha centralidade. Nesse ponto, não é difícil que outras fontes de autoridade doutrinária entrem em campo.

14 - Considere agora a mente típica do latino-americano: há um imenso interesse pelo lúdico, pelo aparente, pelo que pode ser percebido por meio do sistema sensorial, que estimule o organismo e as emoções, o que é mormente condizente com a mente da pós-modernidade, que enfatiza as demandas locais e individuais, centralizando a interpretação e a experiência como fontes de conhecimento e relação com o mundo. Nesse cenário, o fenômeno, o "mover espiritual", mediante um povo facilmente impressionável e sedento pelo estímulo dos seus espectros fisiológicos e psicológicos, logo ganhará status canônico como "Palavra Viva". Quem, portanto, nesse tipo de ambiente, será posto no topo da hierarquia dos seres? Os indivíduos por meio de quem os fenômenos mais se desenrolam. Pela "graça recebida" de terem "acesso direto" ao Pai, advinda principalmente de um esforço pela liberação de sua pureza inata pela libertação das correntes e crostas do "Maligno", suas palavras, suas visões, seus sonhos, suas "revelações", suas "profecias", aquilo que "o Pai me disse", suprimindo a proeminência da Bíblia como direcionamento primeiro da vida dos fiéis, acabam se tornando a grande fonte de autoridade a nortear as decisões do povo.

Na hierarquia dos seres, consequentemente teremos uma classe que reconhecerá a si mesma como menos agraciada, mais carnal, mais distante de Deus. Esses não se verão como suficientemente dignos e buscarão a presença do Criador recorrendo aos "ungidos" como mediadores. Tal complexo de inferioridade, em oposição ao crescente orgulho e arrogância de quem se intercepta "no andar de cima", é potencialmente vil para a saúde mental de ambos os lados, que não veem a si mesmos e nem ao outro nas dimensões adequadas, produzindo uma espécie de conformismo de castas, com uma dependência servil de um lado e um poder corruptor do outro. Nesse jogo hierárquico, o "ungido" não pode ser "tocado", criticado, questionado, sob pena de "juízo divino", e não há espaço para fraqueza: todos estão tentando manter as aparências, preservar ou angariar status - e como aquele que foi agraciado não sofre mais, uma vez que a propaganda da igreja é para "parar de sofrer", quem quer aparentar proximidade do Criador e familiaridade com o favor divino, não pode ser sincero quanto às suas dores. Surge, aqui, o que Carl Jung (1875-1961) definiu como "persona", que é a personagem que construímos para uma interação favorável em determinado contexto. Uma pessoa que não pode demonstrar que sofre, para não ser tida como amaldiçoada e desfavorecida, não está suscetível a receber ajuda dos irmãos, e tenderá a reprimir suas angústias nos porões da alma.

15 - Essa perspectiva também se extravasa no desenvolvimento do culto: há uma maneira especial de atuar no momento do "louvor" para aparentar elevação espiritual, que demanda o cumprimento de uma longa lista de gestos visíveis. As orações também são alteradas, tendo o tom de voz e o vocabulário meticulosamente adaptados ao interesse da ocasião. A ocorrência generalizada da glossolalia a torna requisito fundamental para qualquer ato de louvor e de oração "respeitável" e "admirável". Quedas, pulos, giros e outras enumeráveis performances podem vir a ser adotadas, dependendo do costume e do contexto. O maior perigo, contudo, desse tipo de cultura é a fomentação de competições: a maneira de subir na hierarquia é impressionar tanto os que estão nos níveis abaixo, quanto aqueles que estão acima, e isso envolve a superação dos "excelentes". Note que tudo se trata de relações no nível horizontal, cuja validade é medida pela ótica quantitativa, não qualitativa. Há, com isso, uma verdadeira relação de dominação territorial nessas igrejas - e disso para o desenvolvimento de conflitos fundados nas vaidades individuais, capazes de rachar e até acabar com congregações inteiras, não há grandes barreiras.

16 - É de conhecimento dos historiadores um comportamento típico para determinados grupos de gnósticos da Antiguidade: por se perceberem como escolhidos, como elevados, se sentiam suficientemente fortes e esclarecidos para a realização de atos de pecado. Em seu "imaterialismo", percebiam-se aptos para lidar com quantidades de bens materiais muito maiores do que os "carnais", dando-se o direito de se entregar ao luxo e aos mais diversos prazeres. A mesma tendência tem sido percebida nos gnósticos de hoje, e pelo status elevado na seita, uma vez que a autoridade reside não na coerência moral, mas na realização de fenômenos, esses indivíduos passam impunes pelos seus atos - na verdade, são invejados. Na base da pirâmide, porém, a consciência de inferioridade e de "carnalidade", também propicia um desdém para com o pecado - o indivíduo se entrega a sua condição. Ademais, nada disso interfere no desenvolvimento do culto, pois a vida espiritual é inteiramente medida pela atuação na celebração, despreocupando-se com aquilo que acontece na esfera "mundana". Talvez por isso há uma ocupação cada vez maior da parte dessas igrejas pela construção de templos magníficos e colossais, cujo apelo emocional estimula todo esse espetáculo de talentos, servindo como uma espécie de totem a canalizar o "poder de Deus".

17 - Ainda dentro dos bastidores desse tipo de igreja, é interessante atentar para o entendimento de "testemunho": a qualidade e o status do fiel depende largamente de sua história, de sua gama de experiências, do quanto ele experimentou a materialidade pecaminosa e foi liberto pelo esclarecimento. Evidentemente, só há espaço para falar sobre as mazelas do "velho homem", nunca do "novo". Há uma constante propagandização de si mesmo - o indivíduo precisa "se vender". Na ausência de categorias para desferir julgamentos adequados, pela incapacidade de qualificar o fiel, prendendo-se na lógica infantil das quantidades, não há estranhamento, por exemplo, no fato de o pastor ter casado várias vezes, ou de o ex-bruxo agora "agir no sobrenatural em nome de Cristo".

18 - Com o enfraquecimento do conceito de Pecado Original e a perda da percepção da necessidade do Deus Filho na Cruz, se aniquila o conceito de Graça. Sem o reconhecimento da plena corrupção humana, pensa-se na Salvação de uma maneira estranha às Escrituras e observa-se essa vida, pelo esforço e iniciativa, como passível de se tornar plena, de chegar ao Paraíso por meio de uma vitória completa sobre todas as mazelas. A latente ingenuidade com relação ao ser humano, visto como não plenamente caído, também propicia a confiança exagerada em líder, nas mãos de quem o fiel se deposita inteiramente. Quem recebe um status dessas dimensões terá imensa facilidade em manipular aqueles que o idolatram. Essa lógica também leva ao entendimento de que as lideranças messiânicas cristãs serão capazes, pela tomada de poder político, de encaminhar nossa nação, finalmente, à plenitude. E qual é o critério para que o fiel perceba no seu líder uma figura digna de total devoção? O seu nível de prosperidade material e a quantidade de poder e de autoridade que tem exercido sobre os elementos e as outras pessoas - inclusive quando passa a amaldiçoar, com base em sua própria autoridade, os opositores. Como parte de uma cultura centrada em futebol e em novelas, o povo toma seu partido para assistir as brigas entre os líderes das grandes igrejas por proeminência, defendendo avidamente seus representantes. Faz parte de um sistema de mercado o elencar de celebridades, especialmente quando movido por uma mentalidade pelagiana. Trata-se, novamente, de uma visão de mundo fundamentalmente quantitativa, não qualitativa, desapegada de ideais, de universais, um produto severo do dualismo trabalhado por Schaeffer.

19 - Numa igreja desse tipo, que trabalha com as massas numa relação de empresa e consumidor, onde o fiel é atomizado e deve se ocupar exclusivamente com as suas próprias demandas, com a dedicação de amplos esforços particulares para a obtenção dos favores que deseja, quase sem haver ênfase na família, na comunidade e nas relações sociais, o que temos é apenas a pessoa e o líder, sem a mediação de instituições importantes para dar equilíbrio aos poderes. A busca individualista, que rejeita as interferências externas, mas percebe no pregador uma fonte relevante para a obtenção de "vitória" nas causas particulares, acaba culminando numa dependência exacerbada do poder eclesiástico, que passa a dominar e a se infiltrar em todos os aspectos da vida dessa pessoa, determinando o uso de seus bens, suas decisões, seus projetos, suas buscas. É evidente que o ente isolado está mais vulnerável às ofertas tentadoras do mercado, que sabe exatamente o que ele deseja e como seduzi-lo - e também está ciente de como mantê-lo como cliente, sempre renovando os estoques de novidades. É dessa maneira que pregadores têm conseguido, por exemplo, que fiéis vendam seus carros e residências para depositar os ganhos aos seus pés. Quanto à santidade? Sem interferências entre o fiel e a liderança, cabe o "não julgueis", ou o "somente Deus pode me julgar". É mais ou menos o que o Estado faz quando as instituições mediadoras são suprimidas pela sede individualista e consumista das pessoas, ampliando suas influências e se fazendo cada vez mais necessário - ele se oferece como via necessária de libertação daqueles que se sentem aprisionados pelo "sistema", mas logo se mostra tão, ou mais, escravizante do que aquilo do qual os libertou.

Nesse ponto, é necessário lembrar que tem se produzido no Brasil uma cultura de governo assistencialista, que se reflete nas igrejas na relação do fiel com a congregação e, principalmente, na relação do fiel com Deus. Esse sentimento de que ele é vítima de uma sociedade hostil, de que ele é merecedor de uma recompensa mediante o pagamento de uma dívida histórica, de que ele precisa se submeter ao poder para garantir dele a subsistência, de que é mais vantajoso se colocar a pedir coisas do que tentar obtê-las por meio de disposição ao serviço, sem dúvida nenhuma reduz a sua capacidade de ser grato, de se sentir devedor, de se perceber como alguém que foi resgatado sem merecimento- é mais fácil ele agir em espírito vingativo. Quando a responsabilidade sobre a própria vida é reduzida, elevando-se o outro, seja a igreja, seja o Estado, ao papel de cuidar de todas as suas necessidades, há uma diminuição da sua própria humanidade, pois se perde a soberania sobre si mesmo - responsabilizar é humanizar.

Disso, é evidente que emana um enfraquecimento moral perigosíssimo, que esvai com o senso de dever. Isso se encaixa muito bem com a lógica pós-moderna, pois, além de o erro ser amenizado como consequência de uma estrutura opressiva, os resultados das más decisões recebem como culpado o Estado, a igreja, o próximo - então, quando o fiel erra, por culpar sua presente igreja, procura outra, mais "capaz", mais "poderosa". Assim se cria um contexto de infantilização, de perpetuação da imaturidade, de incapacidade de lidar com a complexidade da realidade e de tratar da própria vida e dos próprios problemas. Está claro, contudo, que essa incapacidade é benéfica para a manutenção da classe eclesiástica que lucra por sobre a dependência vigente - daí, não importa, por exemplo, se o pastor rouba, contanto que prossiga servindo leite ao povo que a ele recorre. A carência na produção de novos líderes dificulta a contestação desse cenário e perpetua famílias inteiras no poder, que se torna hereditário.

O afrouxamento moral é típico de uma espiritualidade dualista. Quando as "coisas de Deus" estão restritas ao momento de culto, quando a estrutura predial de torna a "casa do Senhor", quando se está tendo acesso ao Pai essencialmente por meio do pregador, feito mediador, aquilo que é realizado fora da igreja durante os dias que "não são santos", não é avaliado sob uma ótica moral esclarecida. Até porque, com a carência de conhecimento bíblico e a dependência do fenômeno, do sentimento, do pregador, interessado em obter lucros com base em pregações positivas, tornando proeminente o sentir por sobre a própria Palavra, se impossibilita a real reflexão sobre a moralidade cristã - há ausência de categorias, de conhecimentos. Muitos desses cristãos não entendem os fundamentos da moralidade, as razões alicerçantes do Certo e do Errado, tendo dificuldades de discerní-los. Fomenta-se, dessa maneira, o entendimento de que o pecado está restrito ao tipo de comportamento que se desenvolve diante de Deus, que, por não ser soberano sobre as coisas que não são "espirituais", não está presente nas atividades cotidianas.

20 - É por esse motivo, pela falta de conhecimentos, de conceitos, de clareza teológica, que muitas igrejas têm mergulhado num severo legalismo: como os fiéis não têm consciência cristã madura para a tomada de decisões morais, é mais fácil cercá-los de infindáveis regras, para que não venham a tropeçar. Evidentemente, esse sistema opressivo, que leva a um estilo de discipulado quase servil, no qual o discipulador é autorizado, basicamente, a controlar a vida de "seu" discípulo, apenas amplia a dependência que o crente nutre da liderança, da igreja. Ele não tem em si mesmo categorias suficientes para mediar a sua relação com as coisas do "mundo", de maneira a se tornar dependente da consciência daqueles que se colocarem como autoridades diante dele. É claro que, apesar do peso inerente ao cumprimento de incontáveis regras cuja razão inerente é desconhecida, esse sistema acomoda o indivíduo, deixando a sua mente preguiçosa e minando a sua capacidade de julgamento moral. A vida cristã, então, se resume a uma série de frases prontas e óbvias, quase como mantras e palavras mágicas, que passam a norteá-la de maneira falha, simplista, promovendo resultados nem sempre positivos. A própria Bíblia, que perde a objetividade própria e se reduz ao que "o Espírito Santo revelar", acaba se tornando um livro mágico, poderoso em si - e o cristão vira apenas um acumulador de versículos e informações. Além disso, sem condições próprias para discernir "o que pode e o que não pode", a vítima do legalismo é levada a abrir mão de uma série de oportunidades que lhe seriam verdadeiramente benéficas - a própria impossibilidade de tomar decisões prejudiciais, acaba impedindo o aprendizado baseado no fracasso e no sofrimento.

21 - Uma igreja que aprisiona seus membros em cercados de leis, inviabilizando o livre exercício da consciência e o corrente amadurecimento pelo seu fortalecimento, quer pelo acerto, quer pelo erro, nunca poderá descuidar das regras, urgindo um cuidado constante com cada ato de seus protegidos, que simplesmente não sabem como se comportar fora do círculo eclesiástico, não sabem como tomar decisões difíceis, não sabem como andar sozinhos. Nesse cenário, terá maior status aquele que melhor cumprir as regras, o que o fará ser percebido como mais "espiritual", "menos pecador" - pecado se torna algo a ser sempre ocultado, escondido, nunca comentado, nunca aludido, reprimido. As pessoas continuarão pecando, mas escondidas, para que não percam o status adquirido pelo bom-mocismo.

22 - Não demora, e passa-se a nutrir uma visão incompleta e irrealista do ser humano, como se o pecado fosse uma realidade distante, deslocada do que é o homem cristão e, assim, quando alguma falta de membros da igreja se torna pública, há reações histéricas, desproporcionais, explosões emotivas e reações impensadas, como se as pessoas já não mais soubessem como agir diante do deslize. A imaturidade cobra um preço quase inquisitorial: aqueles que transgrediram as leis serão violentamente abafados e a sua imagem diante da comunidade ficará maculada por tempo indeterminado, como se fossem monstros, como se fossem inimigos da ordem, inimigos de Cristo, bruxas em uma aldeia medieval. O desapego da reflexão sensata, realista, racional e profunda da realidade humana, leva a excessos emocionais, à exacerbação dos mais baixos e primitivos impulsos humanos, tanto na prática do pecado oculto quanto na sua repressão pública.

23 - As pessoas não sabem discernir, pela ausência de categorias, o que devem ou não fazer enquanto seres volitivos e racionais diante de Deus, mas sabem o que podem ou não podem fazer com base nas regras impostas pelos homens - assim, se mergulha numa vida cristã extremamente teatralizada, forçada, fingida, desprovida de humanidade, de autenticidade, de realidade. O pavor do pecado, tratado de uma maneira tão distante e como um ente tão estranho à condição humana, pode levar a profundos exageros comportamentais, como, por exemplo, uma desconfiança aterradora das pessoas de outro sexo, cuja aproximação só poderá significar interesses libidinosos e uma investida do "Inimigo" para levar ao tropeço. É claro que isso prejudica o desenvolvimento de relações de amizade saudáveis. Vive-se sob uma ditadura do medo, pisando-se em ovos, medindo cada ato e palavra. O amor foi suprimido pela ordem.

24 - Não é necessário se esforçar muito para perceber como esse cenário também produz guetos culturais, uma vez que as leis impedem qualquer contato com o "mundo", fomentando uma animosidade com relação à cultura secular, que tem a sua presença ameaçadora repelida pela formulação e pela imposição das regras. Como um contexto de fingimento, que lida com os cristãos de uma maneira a não percebê-los como pecadores praticantes, que repele ostensivamente qualquer fagulha de fraqueza e impureza que porventura se revelar, enquanto observa aqueles que não são cristãos como pessoas que só sabem pecar incansavelmente, que tudo fazem com intenções perniciosas, poderá entrar em saudável e produtivo contato com a sociedade e suas mazelas? Sem senso de arrogância e superioridade? Sem a expressão de nojo e repulsa? Sem a face horrorizada, tomada pelo medo? Como esse tipo de cristão, que até mesmo possui no "crentês" um vocabulário mais "santo", indicativo de pureza, é visto e entendido por aquele que não faz parte de seu círculo?

25 - É interessante que se observe aqui outro fenômeno típico desse tipo de igreja: o aniquilamento da personalidade. Como não se enfatiza o desenvolvimento e o aperfeiçoamento da mente, das ideias, em favor de um aprofundamento da maturidade cristã, as pessoas se limitam a imitar comportamentos, a seguir modelos, a copiar trejeitos e movimentos, ainda que não saibam a razão de fazê-lo - só sabem que esse é o tipo de atitude que as tornará aceitáveis e visíveis na igreja da qual fazem parte. Assim, pela exposição exaustiva de regras que devem ser seguidas sem questionamento, se substitui o indivíduo com as suas singularidades pela reprodução de um padrão agradável aos líderes, seja lá quais forem os seus interesses. Uma igreja assim progressivamente perde vitalidade, perde riqueza humana, perde humanidade, perde realidade. Todos são formatados sob o pretexto de se tornarem diferentes das pessoas do "mundo", de serem "originais", "exemplares". Quem não se encaixa nesse padrão se sente desconfortável, excluído, inferior, e tende a aplicar um esforço hercúleo na amputação de si mesmo para, em sofrimento, perceber-se em conformidade com os outros. Veja: ao invés de promover sacrifício em favor da semelhança com Cristo, o faz pela semelhança com os outros. Esse cenário me é familiar, não por eu pertencer a uma igreja assim, mas por acompanhar uma congregação se desenvolvendo nesse sentido e aconselhar uma moça angustiada, que se sentia excluída e desconfortável por não ser igual, a não abrir mão de si mesma, pois o Criador a fez daquela maneira por alguma razão especial - o que recomendei foi, tão somente, o trabalho de mudança por sobre as falhas de personalidade. Não é possível que um ambiente que rejeita o diferente possa estar aberto para as pessoas de fora, com suas infinitas variedades de ser e de pensar!

26 - Essa visão desequilibrada, irreal que se nutre das pessoas, aliada ao angustiante medo de se deparar com qualquer situação potencialmente pecaminosa e ao contexto de despreparo intelectual, emocional e espiritual pelo parco incentivo ao exercício da consciência cristã individual, que culmina na incapacidade de resolução de conflitos e num certo comodismo mental, pode desembocar na famosa espera pelo "príncipe encantado", pelo "parceiro ideal", "perfeitamente compatível". Ora, essa angustiante e quase sempre frustrante expectativa, só é possível quando se pensa no ser humano sem atentar adequadamente para a questão do Pecado, da corrupção que lhe é própria. Isso é singularmente atraente quando o indivíduo não está amadurecido para lidar com as mazelas do próximo, para administrar situações difíceis, que demandem estabilidade psicológica e esforço cognitivo. Essa mentalidade que se desloca da realidade tem produzido, em inúmeros casos, o efeito inverso a que se propõe: a ingenuidade de quem nutre esse tipo de esperança, produz a ilusão de que a pessoa que lhe é atraente e com quem tem se envolvido emocionalmente é "a pessoa certa, a única, aquela que Deus separou para mim", desejo justificado por "profecias" do tipo "Deus me disse", da parte de irmãos próximos ou de um dos dois envolvidos, ou aquele famoso "estou sentindo paz". A parte que tem o outro por imaculado tenderá a se lançar quase que sem reservas nas mãos dele, tendo, em semelhança às dimensões de suas expectativas, a dor da lógica frustração ao se deparar com a realidade humana. No lugar de ampliar os critérios e dificultar o interesse por alguém, esse entendimento pode reduzir consideravelmente as defesas racionais e psicológicas. Noutras circunstâncias, a espera por um tipo de pessoa que não existe, principalmente quando seu rosto "foi revelado" em sonho ou visão, pode acarretar na perpetuação da condição de solteiro, o que é especialmente angustiante para quem passou anos "procurando a pessoa certa".

27 - Os potenciais problemas que esse tipo de mentalidade pode gerar não se limitam ao momento de procura pelo parceiro, mas poderão adentrar pelas portas do matrimônio. Veja só: se um relacionamento de namoro foi iniciado com base num certo nível de ingenuidade com relação ao que de fato é o ser humano e carecendo de critérios e defesas mentais para a tomada de uma decisão sensata, essa mesma lógica de pensamento pode acarretar num casamento perigosamente apressado. Como se nutre uma visão do pecado como algo distante, estranho, histericamente apavorante, a aproximação sexual que o namoro proporciona causa um desconforto que, pela instigação do desejo, culmina em casamentos-relâmpago, quase que exclusivamente motivados na consumação de um ato sexual, para que se evite "correr o risco de cair em pecado". É evidente que o pecado da fornicação deve ser repelido a todo custo, mas, assimile: se o indivíduo não é capaz de administrar minimamente o conflito fisiológico, moral e psicológico envolvido no controle de sua sexualidade, de seu desejo, nem deveria estar desenvolvendo um namoro. Não se pode cometer um erro incorrigível, que é o casamento com uma pessoa incompatível, quase que desconhecida, para evitar outro erro.

Note: o despreparo mental e intelectual, pela superficialidade e imaturidade da consciência desses jovens, leva-os, em razão da incapacidade de administrar qualquer tipo de decisão moral complexa, exaustiva, dolorosa, a fugir, escapar da pior forma, que é se associar para a vida toda com alguém em nome da satisfação de um dos impulsos mais elementares do ente biológico que somos - especialmente quando este passou vários anos idealizando o "príncipe". É evidente que isso resulta do desinteresse pela disciplina, do repúdio por qualquer forma de sofrimento e fraqueza - então, para evitar ser visto como "fraco" por, num contexto legalista, cair em tentação, ele opta pela fraqueza de recorrer ao casamento precipitadamente.

28 - Uma outra consequência da perpetuação desse sistema está na constante dependência daquilo que se chama "vontade de Deus". Perceba, leitor: se o indivíduo não está psicológica e cognitivamente preparado para a tomada de decisões e para a resolução de conflitos, carregará um insuportável medo de ter que se arriscar e arcar com as consequências de seus atos. Uma maneira de silenciar a mente está no constante apego a sinais, confirmações e revelações, quase sempre envolvendo sentimentos, sobretudo o de "paz", como uma via de garantia de que ele está tomando a decisão mais certeira. Confissões positivas logo se fazem presentes: ele fará de tudo para determinar que aquilo que pretende fazer ou conquistar é da "vontade de Deus" e que será por Ele orientado. A vidência, os oráculos, farão parte de sua vida - com isso, provavelmente passará a depender exageradamente de "profetas". Mesmo tendo as Escrituras e os conselheiros como diretriz mais acertada, o que evidentemente demandará esforço mental interpretativo, estabilidade psicológica e coragem para decidir e agir, ele basicamente só se ocupará na busca por garantias inquestionáveis de que não correrá maiores riscos e não se submeterá a esforços e sofrimentos desconfortáveis. No final, dificilmente aprenderá com as possíveis falhas, pois não se terá como completo responsável pelas consequências dos seus atos - culpados serão Deus e os "profetas".

29 - Como já trabalhado, o legalismo e o enfoque exagerado no "espiritual" desincentivam o desenvolvimento intelectual e o aprofundamento nos conhecimentos "seculares". Isso, contudo, não impede os jovens de ingressarem nas universidade - e é aqui que se inicia outro problema. O vazio identitário, o apego excessivo às emoções e o dualismo que tem o ambiente acadêmico como fora do círculo de atuação de Deus, precipitam muitos jovens cristãos ao ateísmo, ao agnosticismo, ao abandono da fé. Uma vez que a crença é baseada na experiência, mas a experiência acadêmica aparentemente demonstra que a fé não faz sentido, não há razões maiores para se permanecer cristão. Sem preparo cognitivo, psicológico e intelectual, os jovens se impressionam muito facilmente diante das palavras e desafios perpetrados pelos professores e colegas. Eles não entendem a própria crença, mas foram ensinados que suas opiniões são suficiente regra de fé, de modo que, ao serem desafiados e subjugados, culpam não a si mesmos e seu desconhecimento, mas o próprio cristianismo. Sem encontrarem cristãos intelectualmente capacitados em suas igrejas, a tendência é que passem a identificar e imitar modelos seculares - é por isso que muitos desses indivíduos vão tão rapidamente de uma condição de "comportamento elevadamente cristão" para uma rebelde e desequilibrada libertação de desejos num estilo de vida totalmente mundano. Aquilo que estava sendo reprimido pelo sistema eclesiástico legalista, não encontra mais resistências - e seus conselheiros anticristãos são mais capacitados e convincentes do que a maioria de seus antigos irmãos de fé.

Em outras situações, o dualismo leva o jovem a viver duas vidas, dois mundos, principalmente se não for observado por irmãos da congregação a que pertence em sua atuação no ambiente acadêmico. Nesse caso, ele pode vir a adotar, pela falta de categorias cristãs para analisar o mundo e a cultura, bandeiras das mais diversas militâncias que se vendem nas instituições de ensino superior, sobretudo se a sua igreja apresentar dificuldades de realizar qualquer tipo de ação social - assim, ele irá transferir seu ímpeto juvenil de transformação do mundo para o envolvimento em movimentos e coletivos, geralmente de estirpe marxista. Não demora e, mesmo sendo cristão, ele se tornará um ferrenho defensor de ideologias - e elas lhe farão mais sentido que a própria fé, já que condizem com o mundo real. Em qualquer um dos casos trabalhados nos últimos parágrafos, a tendência da igreja anti-intelectual não será ver na origem do desvio dos jovens a mazela que ela mesma tem deixado em seu ensino, mas, sim, ter no ambiente acadêmico um território completamente dominado por "Satanás", passando a alimentar ainda mais a "necessidade cristã" de fuga da razão e do conhecimento, sendo vias usadas pelo "Inimigo" para seduzir a juventude. O acirramento da anti-intelectualidade apenas fechará ainda mais o gueto cultural já imperante - e os que ousarem levantar questionamentos sinceros sobre a fé, serão repelidos e vistos como "espiritualmente fragilizados".

30 - É mais fácil entender tal tipo de reação quando percebemos o óbvio: esses movimentos, pela lei, pela centralidade no homem - vide as letras de vitória e autocentradas dos "louvores" de nossos dias -, diminuem Deus e ampliam assombrosamente o Diabo. O mundo inteiro foi milimetricamente projetado pelo "Inimigo" para abocanhar os fiéis - perceba isso na histeria dos evangélicos em torno das supostas "mensagens subliminares", inseridas em músicas "mundanas", obras de arte, filmes, e todo o tipo de expressão cultural, além do pavor mediante a possibilidade de algum produto ter sido "dedicado ao Diabo", indo da maionese até a motocicleta. Vê-se aqui, indubitavelmente, alguns sintomas típicos da esquizofrenia, notadamente aquele que se resume num constante senso de perseguição. Nesse cenário, não cabe às igrejas, segundo a ideia vigente, o entendimento da cultura e a inserção cultural na sociedade, mas uma destruição da cultura imperante, que servem aos interesses "Anticristo", para substituí-la pela sua mística espiritualista e suas leis. Dentro disso ainda é possível somar a quase onipresente, ao longo da história da Igreja, sensação de que Jesus Cristo pode chegar a qualquer momento, o que, em si, é uma excelente e necessária expectativa, mas dentro da perspectiva evangélica tem levado a exageros alarmantes, como a rejeição das atividades "seculares" e um desprezo pelo futuro daqueles que não são cristãos - "para Jesus voltar, o Apocalipse tem que se cumprir".

31 - Todos os exemplos até aqui trabalhados, leitor, têm o mesmo potencial de produzir fanatismos, partidarismos, sectarismos. Quando a pessoa humana, com sua singularidade, é amputada e absorvida por abstrações impessoais, sendo direcionada pelos mais baixos impulsos fisiológicos e emocionais, mantida aprisionada por promessas absurdas e discursos de medo, indo da possibilidade de ser "amaldiçoada" em caso de sair da igreja, até o pavor do mundo externo, que está mais para uma fantasia, uma realidade imaginária, sobeja espaço para extremismos alienantes. Para que a seita se consolide, basta que um líder carismático e com intenções escusas decida se aproveitar da situação.

Esse tipo de cenário muito me preocupa, pois, além de oprimir e escravizar o ser humano, que passa a servir às vaidades daqueles que detém o poder, o fiel pode ser levado, pelo desconhecimento e por discursos inflamados, a agir violentamente contra membros ou locais de outras igrejas e religiões - não é possível, nessa mentalidade, que se consiga desenvolver diálogo com o "diferente". Identificadas como igrejas evangélicas, essas entidades polêmicas tenderão a ser vistas com desconfiança, medo e desprezo por aqueles que não são cristãos, e estes, por sua vez, rotularão todos os cristãos como mentalmente doentes e, disso, os terão como causa de muitos os problemas sociais - especialmente agora que os evangélicos representam uma grossa fatia da população brasileira. A surpreendente histeria e os evidentes embustes e recursos manipulativos que são cada vez mais vistos em cultos filmados e divulgados, também afetarão a respeitabilidade pública de todo o movimento. Urge denunciarmos, como polemistas, e procurarmos mudar essa realidade pela consolidação e disseminação de uma cultura cristã mais cristocêntrica, motivados, em primeiro lugar, pela saúde física, psicológica, intelectual e espiritual daqueles que têm sido absorvidos pelas ondas desse mar revolto.

32 - Quais benefícios para a integridade do ser produz a Teologia da Prosperidade? O que de bom pode vir das competições para ver quem é mais "abençoado", mais "poderoso", mais "ungido"? E quanto aos fingimentos que visam ostentar uma plenitude não alcançada e reprimir sofrimentos legítimos? Que de bom há na doentia negação da realidade por meio de "determinações" e "profecias"? Que frutos o discurso de culpa e de terror produz na mente do fiel? Que de bom há na submissão incondicional a líderes dados como messiânicos? É saudável alimentar expectativas insanas em troca de gordas ofertas e dízimos? Que tipo de família temos produzido com o fomentar de casamentos apressados como fuga da "tentação"? Quantas decisões precipitadas e desastrosas têm sido motivadas pelas palavras "Deus me disse" ou "eu senti paz"? Qual a mentalidade que emerge da imputação de culpa no "Inimigo" pelas consequências nefastas dos próprios atos? Quanta angústia tem sido gerada no coração de adolescentes crentes na existência do "príncipe perfeito"? O que se constrói com a supressão da dúvida e do questionamento como "sinal de falta de fé"? Que transformação há na vida de pessoas que, pelo orgulho, evitam confessar quaisquer pecados e fraquezas? Como a negação da razão e da matéria poderá ser benéfica para o cristão? De que maneira a alienação da cultura e da sociedade mediante um pavor incontrolável do "Anticristo" e do "Maligno" ajudará em nosso enriquecimento cultural e intelectual? Leitor, nós estamos, definitivamente, cercados por igrejas psicóticas, doentes, tóxicas. Como um sistema de fé que humilha e aprisiona o fiel pode ser cristão? Como a sacralização da demência pode representar Cristo nesse mundo?

Natanael Pedro Castoldi

Obras consultadas:

- Lendo as Escrituras com os Pais da Igreja, Christopher A. Hall, Ultimato, 2007.
- Fé Cristã e Misticismo, Alderi Souza de Matos, Francisco Solano Portela Neto, Heber Carlos de Campos e Augustus Nicodemus Lopes, Cultura Cristã, 2013.
- Hereges, G. K. Chesterton, Ecclesiae, 2014.
- Ortodoxia, G. K. Chesterton, Mundo Cristão, 2011.
- A Morte da Razão, Francis Schaeffer, Fiel e ABU, 1997.
- A Poluição e a Morte do Homem, Francis Schaeffer, Cultura Cristã, 2003.
- A Arte Moderna e a Morte de Uma Cultura, H. R. Rookmaaker, Ultimato, 2015.
- O Homem, Ernest Hello, Ecclesiae, 2015.
- Theodore Dalrymple, Maurício G. Righi, É Realizações, 2015.
- Gertrude Himmelfarb, José Luiz Bueno, É Realizações, 2015.
- A Mente do Mundo Moderno, Lionel Trilling, É Realizações, 2015.
- Pós-Modernidade, Stanley J Grenz, Vida Nova, 2008.
- As Ideias Têm Consequências, Richard M. Weaver, É Realizações, 2012.
- Uma Outra História das Religiões, Odon Vallet, Globo, 2002.
- Os Cristãos, Tim Dowley, Martins Fontes, 2009.
- Guia Ilustrado Zahar Mitologia, Philip Wilkinson e Neil Philip, Zahar, 2010.
- Patrística, J. N. D. Kelly, Vida Nova, 2009.
- Os Pais da Igreja, Hans von Campenhausen, CPAD, 2013.

Roma, Poitiers, Paris - A Queda da Civilização



         Ainda estamos perplexos com a dimensão dos recentes ataques terroristas em Paris. Além do tamanho desses atos, assusta-nos a frequência com que têm ocorrido e as péssimas perspectivas para o futuro próximo. Estamos numa hora de sensibilidade e emotividade, o que dificulta a reflexão lógica sobre os eventos. É provável que, otimistas, saudosistas e românticos, não estejamos psicologicamente dispostos a refletir sobre a realidade de nosso tempo e sobre o período transicional da Civilização Ocidental, mas a negação dos fatos não nos trará nenhum benefício. Precisamos entender o que está acontecendo, e para além das respostas simplistas e comerciais apresentadas por nossas mídias: urge dedicarmos algum tempo para o discernimento do espírito de nosso século, transcendendo as manchetes e meras informações sobre dados pontuais. Há algo existencial a ser perscrutado e uma análise histórica a ser desenvolvida. E é justamente isso, caro leitor, que proponho com esse artigo, obviamente considerando as minhas limitações de pesquisa e de cognição. Espero, contudo, que essa leitura lhe seja proveitosa.

         A gênese da desrazão:

         Outubro de 732 d.C.: os francos, liderados por Carlos Martel, avô de Carlos Magno, se digladiam com os berberes maometanos entre Tours e Poitiers, no coração da França. O destino da grande nação cristã e, com isso, de toda a cristandade, esteve por um fio: se Martel não saísse vitorioso, os sarracenos, que já dominavam a Península Ibérica, abririam as portas para possível a subjugação de toda a Europa. O cenário que os atacantes encontraram pelo caminho lhes era propício: as nações bárbaras que sucederam o Império Romano Ocidental ainda estavam num lento processo de organização, e as bases civilizatórias preservadas pela Igreja, fragilizadas. Apesar das condições práticas, contudo, os anfitriões eram aguerridos - e não estavam dispostos a repetir o erro dos romanos, que subjugaram alguns séculos antes.¹

         Roma, no limiar da Queda: "As poucas casas nas quais o culto da inteligência ainda recebia homenagens foram invadidas pelo gosto dos prazeres, filhos da preguiça (...). Os cantores expulsaram os filósofos, e os professores de oratória cederam lugar aos mestres da voluptuosidade. Cerram-se as bibliotecas como se fossem túmulos. Os artesãos não se dedicam senão a fabricar órgãos e liras colossais, flautas e outros instrumentos de música gigantescos, para acompanhar em pleno palco a pantomima dos bufões" (Amiano Marcelino, Res gestae, XIV, 6, 18).²

         Costuma-se dizer que o estágio estético geralmente representa os momentos finais de uma civilização, sendo esse correspondente ao momento que Kierkegaard definiu para a etapa existencial do homem que não atenta para a Lei e para Deus, sem o qual não é capaz de sustentar a moralidade que sustém a Lei, e, por isso, se lança em banalidades e aparências, numa vida regidas pelas sensações. Era assim que Roma estava nos seus últimos suspiros: os bárbaros só derrubaram seus muros rochosos depois de a Cidade Eterna perder a sua solidez intelectual, cultural e religiosa. As classes senhoriais, imersas nesse espírito, também se entregaram às banalidades e corrupções, despreocupadas com o destino do Império, envolvidas de tal forma por seu discurso fantasioso, que já não percebiam a real condição e vulnerabilidade de Roma. Não era agradável abrir mão do estilo de vida pomposo que os incontáveis anos de conquistas e enriquecimento do Império lhes renderam, e a entrega aos prazeres ilimitados, assim como a distribuição de "pão e circo" à plebe, produziu um contexto de centralização na fisiologia, no impulso biológico e emocional. Roma caía enquanto os nobres se entregavam aos bacanais.³


         "A não ser que os homens creiam que têm um aliado todo-poderoso fora do tempo, eles inevitavelmente abandonarão o ideal de um progresso moral sobrenatural ou antinatural e farão o melhor do mundo como o encontram, conformando-se às leis de interesse próprio e de autopreservação que governam o resto da natureza." Christopher Dawson.4

         Luiz Felipe Pondé, no artigo "Putin Contra o Sexo dos Anjos", disponível no site da Folha, fala dos dramáticos suspiros finais da escolástica medieval, da baixa escolástica, que, tal como os sofistas gregos, desinteressados nas grandes questões levantadas pelos primeiros filósofos, ocupavam-se em debater frivolidades, como a sexualidade dos anjos. Enquanto isso, os muçulmanos estavam derrubando Constantinopla.

         Paris, 13 de novembro de 2015: a capital do país que teve seu rumo determinado, há mais de mil anos, por Carlos Martel na batalha de Poitiers, mais uma vez é o núcleo do choque entre dois mundos. Contudo, os descendentes dos francos que se confrontaram com os berberes no Século VIII, não mais se parecem com aquele povo guerreiro, da juventude das nações em processo de cristianização que despontavam das ruínas do Império Romano, mais práticas, ocupadas com questões sólidas, como um maior domínio da agricultura e das tecnologias para a construção de paredes maiores e a alfabetização de parcelas da população. A Paris de hoje, assim como boa parte das grandes cidades ocidentais, está mais para uma Roma nos últimos batimentos civilizacionais: chegamos ao estágio estético. Discutimos se bebês têm sexo, tal como os últimos escolásticos discutiram o sexo dos anjos, e questionamos a objetividade do nosso corpo. Isso enquanto nossas "Constantinoplas" são alvejadas. Perdemo-nos das questões práticas, adentrando um mundo de delírios sofismáticos. Mas as explosões são reais. Os corpos que se explodem são reais. E qual a reação que muitos têm sugerido, em "retaliação" ao terrorismo? Bacanais e demais "atos simbólicos".

         "Quanto ao populacho, que não tem residência fixa ou bens, passa a noite nos cabarés, ou dorme sob o abrigo desses toldos (...). Ou bem a ralé se entrega, com furor, ao jogo de dados, prendendo a respiração, que ela libera em seguida com um estrondo que choca as orelhas; ou ainda (e é esse o gosto dominante) pode-se vê-la de manhã à noite, enfrentando sol e chuva, esgotando-se em debates sem fim às menores circunstâncias de mérito ou da inferioridade relativa de um tal cavalo ou de um tal condutor. Estranha inclinação de todo um povo que mal ousa respirar à espera do resultado de uma corrida de carros! São essas as preocupações às quais Roma se entrega, e que não deixa lugar para nada sério" (Res gestae, XIV, 6, 25-26).5

         As similaridades com os eventos que levaram ao final de outras civilizações são gritantes. As explosões no centro de Paris não aconteceram antes de muitos dos fundamentos da Civilização Ocidental terem sido dinamitados por nós mesmos. A frivolidade e superficialidade da nossa civilização, adoentada por um presentismo vil, açoitada pelo relativismo, pela Pós-Modernidade, pelo medo de suas próprias tradições e de seu passado recente, abrem um vazio sobre a qual toda a sua megaestrutura, especialmente grande em tempos estéticos e hedonistas, há de ruir. A tentativa de associar mecanicamente aquilo que é incompatível organicamente, de ter em total unidade toda a diversidade e antagonia, juntamente com a consequente urgência histérica de silenciar os movimentos "politicamente incorretos" e "inimigos do progresso", só pode acarretar numa configuração civilizatória aparente, por demais artificial, que entra em rota de colisão com qualquer ameaça de realidade. Fez de si uma medusa, mas evita ver a realidade de si mesma, sob pena de esfacelar-se. Teme virar sal se olhar atentamente para a própria desgraça.

         Muitos dos mesmos bárbaros que saquearam Roma, como Alarico, em 410 d.C., foram adotados e produzidos pelo Império em crise.6 A Cidade Eterna criou e empoderou os próprios algozes, que viram a soma de seu poder ampliar-se conforme as massas migratórias povos bárbaros inteiros penetravam nas frágeis fronteiras do Império.7 A França, especialmente nesse ano de 2015, tem sido atacada de modo particular por muitos dos filhos da Civilização Ocidental: numerosos terroristas são franceses. O próprio Estado Islâmico tem sido o destino de muitos jovens ocidentais revoltados contra o mundo no qual nasceram. São jovens sem raízes: foram postos num berço que já não mais é capaz de definir nem a sexualidade ou a própria humanidade de um feto. Eles são filhos da pós-modernidade, da conjugação e entrelaçamento de contraditórios, da Morte da Razão. Os que não fogem para seus computadores e jogos virtuais, os que não fogem para a vida cínica e hedonista, os que não fogem do Ocidente abraçando filosofias e religiões orientais, os que não procuram subverter os "antigos valores" adotando como dogmas as ideologias que preencheram o vácuo deixado pela queda da URSS, estão procurando solidez entre os extremistas. Eles são filhos do niilismo, são filhos de um insólito e confuso mundo de abstrações e verdades individuais, contra o qual reagem como os deuses do Olimpo diante de Cronos, que comia os seus filhos vivos.8

         O Ocidente tem enfrentado um doloroso processo de secularização e de paganização ao longo dos últimos séculos. O retorno vigoroso do aristotelismo com a escolástica deu início a uma ênfase maior no mundo dos particulares e relativos do que no mundo dos universais e absolutos, uma ênfase maior na criatura do que no Criador9. Isso, no contexto do dualismo platônico já estabelecido, levou a uma secularização e consequênte paganização da arte, da política e da vida cotidiana, com a reserva de "algum tempo para Deus" no templo aos domingos. É esse o movimento que vemos no Renascimento, com o retorno às raízes pagãs greco-romanas, e no Iluminismo, que foi anti-romano desde a gênese. Com Deus excluído do entendimento geral da vida, a visão de mundo se construiu com ênfase naquilo que se podia obter das coisas, mas, sem universais dando significado aos entes em suas categorias, o mundo perdeu sua objetividade, restringindo-se às percepções do indivíduo que observa. Essa perspectiva vai se encorpando em pensadores como Descartes, Locke, Hume, Kant, Hegel, Schopenhauer e Nietzsche.10 Daqui pro relativismo pós-moderno o caminho é plano e largo.

         A perda dos ideais, dos significados e da objetividade fica explícita nas artes, com o advento de movimentos como o impressionismo, que retrata aquilo que o observador sente com relação ao objeto externo, e o expressionismo, no qual já não há mais uma conexão perceptível do observador com a realidade extrínseca. Nessa configuração, a morte do conceito de Belo é mais do que esperada - se não há definidores para além da subjetividade, não pode haver padrão sobre qualquer assunto. A beleza, a moral, a religião e todo o mais se relativiza. Não há nada fixo a favor do qual o homem pós-moderno pode se mover: resta obedecer ao fluxo do organismo e procurar algum escape existencial. Se Deus não define o homem, o homem deve definir-se a si mesmo, mas será que ele é capaz de fazê-lo? Essa exaustiva empreitada comumente leva ao desespero e à desistência hedonista, da rendição ao fluxo e do abandono da Razão, que apenas gera desconforto existencial - é doloroso pensar demais sobre a própria desgraça.

         A Inglaterra dos Séculos XVII e XVIII experimentou as consequências práticas da desventurada sequência de eventos que a acometeram: o que começou com a adoção de ideais deístas advindos do dualismo platônico, caminhou para racionalismo, acarretando no ceticismo, no ateísmo e, por fim, no cinismo. Nesse período, com os clérigos silenciados e a Bíblia fechada, o tráfico de escravos de intensificou, o trabalho passou a ser visto como indigno, a corrupção se alastrou em todos os setores da sociedade, passou a haver severa exploração da classe dominante por sobre os mais pobres, houve piora no cuidado das crianças e maior mortalidade infantil, presenciou-se o alastrar do alcoolismo, da jogatina, da prostituição, da violência, dos assaltos e do assassinato, percebeu-se a ocorrência de fornicação inclusive em locais públicos e durante o dia, desencadeou-se a popularização de lutas entre homens e rinhas de animais, incluindo leões e ursos, testemunhou-se a deterioração da vida acadêmica... o fechamento da Bíblia, portanto, produziu apenas impiedade, ignorância e selvageria. Isso se comprovou, pois John Wesley, ao reapresentar as Escrituras para o povo e pros acadêmicos ingleses, levou a Inglaterra a um reavivamento moral e espiritual que a privou de acabar com uma revolução como a francesa que, sem uma base moral sólida, culminou no extermínio cerca de 40 mil pessoas dentro de apenas um ano.11

         Os antigos gregos também experimentaram algo parecido nos seus últimos dias. A desistência das grandes questões cosmológicas levantadas pelos filósofos levou ao florescimento do pensamento dos sofistas: ao invés de se ocuparem tanto com o entendimento das origens, da composição e do funcionamento do Universo, os sofistas desejavam se projetar em questões mais práticas, usando da argumentação para angariar benefícios imediatos. Os particulares foram enfatizados. Ao lado dos sofistas, cresceram os céticos, que questionavam a própria possibilidade de o ser humano saber algo com algum grau de certeza. O questionamento da validade da Razão e o uso da Razão como recurso meramente utilitarista, culminou no esquecimento do conceito de Logos e, com isso, os sofistas e os céticos quase destruíram a filosofia. É notável perceber o decorrente crescimento antigo politeísmo naturalista grego, desapegado da Moral, nesse cenário de morte da Razão12. Esse período, com a perda de bases objetivas para a moralidade, levou a um cenário hedonista, cínico. Não fosse gente como os apóstolos João e Paulo, e os pais apostólicos Agostinho e Boécio, o conceito de "Razão" ter-se-ia perdido.13

         É notável, dentro da lógica até aqui trabalhada, que o retorno do paganismo pontua a transição entre a Civilização Ocidental cristã e pagã. Vivemos o que se pode chamar de Era Pós-Cristã, que vivencia o crescimento do neo-paganismo. Há um interesse religioso monista por detrás desse movimento, que tem sido abraçado por dezenas de nações ocidentalizadas, como uma reação traumática aos devaneios nacionalistas do Século XX: para o bem da humanidade, deve-se construir a mais plena unidade entre todos e sobre todos os assuntos, mesmo os incompatíveis. A rejeição do Projeto Iluminista de um modelo de civilização uniforme, que propiciou as atrocidades vislumbradas nas Duas Grandes Guerras e nos regimes totalitários do século passado, tem favorecido o ressurgimento das tradições culturais e religiosas locais, com prontas reações aos produtos externos, como narrativas de dominação, discursos de poder - e, nisso, os paganismos europeus e americanos têm ganhado novos adeptos como fundamentos de identidade local, em detrimento do cristianismo, associado ao Mundo Moderno e seu projeto de poder, ainda que o Mundo Moderno não tenha sido construído por sobre ideais cristãos - na verdade, o próprio Iluminismo se justificou demonizando a Europa cristã da Idade Média.

         Sabemos, contudo, que nenhuma forma de paganismo, por sua profunda dependência de culturas, singularidades e comunidades locais, resiste por muito tempo às influências externas. São sistemas de pensamento com pouco teor lógico, o que combina com a anti-intelectualidade anti-Moderna da pós-modernidade, profundamente dependentes de elementos relativos e desprovidos, em si mesmos, de uma significação maior, que lhes dê sentido para fora do saudosismo e da perpetuação de suas práticas ritualísticas. A "significação maior" que tem sido proposta para essas incontáveis religiosidades e idolatrias, que surgem do vazio deixado pelo abandono de Deus, está em algo que tem sido chamado de "Aldeia Global": todas as crenças, todas as verdades, todas as culturas, devem cooperar para o bom funcionamento do "organismo" universal, de Gaia, da "Mãe Terra", da humanidade e seu progresso catártico em prol da tão sonhada Paz, na sua desesperada fuga dos fantasmas do próprio passado. Então, o culto à Mãe Natureza, uma espécie de panteísmo regido pelo conceito totêmico da Força Vital da qual todos fazem parte, tem sido colocado como uma fé unificadora de toda a diversidade antagônica. Cada religião e cultura corresponde a uma pequena janela de onde se vislumbra uma parte de "Deus".

         Na antiga Roma, por questões de ordem e expansão, as culturas e religiões eram facilmente assimiladas, com os panteões de cada povo conquistado sendo inseridos no panteão romano. Contudo, para não haver o esfacelamento do Império na diversidade de crenças, uma religião universal foi proposta e imposta a todos: a divinização de Roma e do imperador. Contanto que todos os povos conquistados adorassem ao imperador romano, seus cultos locais poderiam ser realizados sem intervenções. Qualquer sistema de fé que não se submetesse à adoração da figura imperial era tido como "inimigo da Civilização", opositor do progresso e responsável pelas desgraças.14 Os cristãos, por exemplo, se recusaram a adorar ao imperador e a incluir Cristo no panteão romano e, por isso, foram severamente perseguidos. Isso faz sentido, pois todo o monoteísmo é incompatível com o sistema de fé do qual temos falado, uma vez que o monoteísmo sempre é exclusivista.

         Tal como na Roma dos últimos suspiros, o espírito de nosso século, aqui no Ocidente, tem enfatizado o relativismo de tudo em favor de uma unidade forçada pelo interesse instintivo e hedonista por sobrevivência: no caso, a punição por não adorar Gaia está nas profecias cataclismáticas do dito "Aquecimento Global", e a consequênte perseguição de todos os infratores desse culto. O Politicamente Correto é a ferramenta de silenciamento e higienização mais eficaz nesse contexto de incerteza, de medo do passado e de medo do futuro: em teoria, todas as tuas crenças individuais devem ser respeitadas, pois não existe nenhuma objetividade e verdade através das quais medi-las, mas, na realidade, qualquer posicionamento que ameace a estabilidade frágil e forçada dessa associação mecânica de ideias antagônicas será repelida judicial ou socialmente. Estamos tentando equilibrar o que restou de dois mil anos de civilização na ponta de uma agulha: o menor sopro pode fazer tudo desmoronar.

         Num contexto de crescente rejeição do monoteísmo cristão, e de qualquer teísmo, em favor de um monismo panteísta, alimentado pelo contato com as filosofias orientais nesse mundo globalizado, objetivando a Paz universal e uma relação menos pecaminosa com a "Mãe Terra", em oposição à exploração do mundo natural pelo jazido Homem Moderno, não pode haver nada de sólido em termos de moralidade e Razão. Para manter a estabilidade num mundo desabrigado de um senso de moral objetivo, num mundo hedonista, estético, de multidões ocupadas essencialmente com a satisfação de seu sistema sensorial, numa bestialização, barbarização da civilização, faz-se necessário o constante alimentar de bilhões de egos absolutos, para os quais as próprias opiniões são a verdade total e fechada do mundo inteiro e, por isso, qualquer posicionamento que outorgue para si o posto de Verdade, declarando ter por inverdades os demais discursos, é imediatamente dado por ofensivo e desestabilizante, "inimigo da Civilização", sendo, ainda que tenha em si uma boa base argumentativa, é expurgado como inoportuno, arrogante, perigoso e academicista.

         O cristianismo, enquanto neotestamentário, tem passado justamente por isso: sua fundamentação total no Deus Criador, em Cristo Jesus, e sua insistência em não permitir que Cristo seja absorvido por Gaia, sustentando a pregação de uma moral absoluta e objetiva, assim como de uma Verdade final sobre o Universo, sobre o ser humano e todas as demais coisas, apontando para a ideia de que, havendo finalidade, há uma maneira correta de o homem funcionar, tem levantado forte oposição dentro do hemisfério que já fora chamado de "Mundo Cristão". Por um lado, têm-se tentado "domesticar", pós-modernizar o cristianismo, e muitos líderes cristãos têm sido angariados para as fileiras místicas e liberais, gnósticas e ateísticas da religião universal, se tornando "teólogos da corte" e sacerdotes de Gaia. A esses, as mídias têm coroado como representantes "dignos" da fé cristã, seguidores genuínos de um suposto Cristo fabricado, mais parecido com um xamã do que com o Messias apresentado pelas Escrituras. Dos que resistem, a patrulha do Politicamente Correto tem conseguido calar social e judicialmente os mais temerários e inconsequêntes, que ousam questionar os dogmas e totens vigentes em nossos dias, enquanto os demais têm sido entregues ao silêncio e à obscuridade.

         As próprias Escrituras cristãs têm sido tratadas como fontes para as "heresias monoteístas" que os cristãos insistem em sustentar. É evidente que a Bíblia, ainda que absolutamente fundamental para o surgimento e desenvolvimento da Civilização Ocidental, será posta em xeque: ela é anti-pagã por natureza, enquanto o paganismo é, por natureza, anticristão. A instrução bíblica de evangelismo implica, literalmente, no abandono de quaisquer práticas religiosas que não encontrem respaldo bíblico e no início de uma vida moldada inteiramente pela pessoa de Cristo - não se trata de uma mera absorção pagã do cristianismo e de uma tentativa de harmonizar mecanicamente os dois. Não surpreende que, em nossos dias de contestação, o material gnóstico, tardio, mais místico e pagão, tem sido posto como biblicamente mais excelente que a própria Bíblia. A ortodoxia virou heresia.

         É importante enfatizar que, no Ocidente, os movimentos que têm militado em favor de Gaia são, basicamente, progressistas de Esquerda, que encontram suas raízes no marxismo e na Revolução Sexual da metade final do Século XX. Não é espantoso que o ideal de um "internacional comunismo" combine com a ideia da Aldeia Global. Evidentemente, o que temos hoje em circulação não é um comunismo como o soviético, mas uma infiltração gradativa e adaptada de ideais marxistas na Civilização Ocidental, no que chamamos de Marxismo Cultural, que tem cooperado, especialmente, na paganização da sexualidade e do corpo, e na relativização da moral, da verdade e da religião. Presencia-se, especialmente nos ambientes acadêmicos, uma erotização da vida e uma contestação aberta a tudo o que constitui o cristianismo, se o mesmo não for reduzido ao aspecto materialista e social. 

         O renascimento pagão está evidente na crescente dualização de tudo, na lógica binária de pensamento: tal como Heráclito, filósofo grego que voltou-se ao paganismo, adotado por Nietzsche, que teve por discípulo Foucault, a realidade inteira emana do Caos, do conflito de opostos.15 E, assim, faz-se o "nós contra eles": a sociedade está dividida entre os diversos que conseguem se harmonizar e aqueles que resistem ao discurso. Atualmente, a maioria dos movimentos sociais sobrevive ideologicamente com a criação desse tipo de espantalho, que legitima a sua empreitada contra o anti-Gaia, em última instância, contra o monoteísmo cristão e os seus valores. Daí temos muito do que é, por exemplo, o movimento feminista de nossos dias, e do que vemos na militância neo-ateísta, também envolvida por uma espécie de mística panteísta. Todos esses, no fundo, estão dando um salto de fé, um salto existencialista num mundo que perdeu todo o sentido e no qual o exercício racional, dentro dos atuais paradigmas, se tornou irrelevante e, até mesmo, nocivo, uma vez que só evidencia a realidade da "medusa", que foge de si em entorpecimentos: sem Deus, sobra o fatalismo, o niilismo, a máquina biológica e a ausência de sentido. Nenhum ser humano é capaz de viver assim, e é por isso que o paganismo é frágil.

         É no materialismo dialético de Marx, inspirado na ingenuidade de Rousseou sobre o potencial de bondade inerente ao ser humano, que os atuais movimentos progressistas têm alicerçado as suas apostas no desenvolvimento da humanidade com base no conhecimento, na tecnologia e na tolerância. As três vias são boas, mas insuficientes para garantir os progressos do ente humano e da própria Civilização - o único elemento novo com relação ao Projeto Iluminista é a tolerância, que, em si, é valorosa, mas ganha ares de utopia quando se observa que os próprios movimentos progressistas são intolerantes com relação aos discordantes. Eles costumam justificar sua intolerância como uma via necessária para o "mundo melhor" - quando os fins justificaram os meios, tivemos as centenas de milhões de mortes presenciadas no Século XX, resultantes, em sua maioria, justamente da busca por esse "mundo melhor".

         O cristianismo, em seus fundamentos, também encontra elevado grau de incompatibilidade com o Projeto Iluminista e o ideal progressista: o cristão acredita na Queda e na corrupção total do ser humano, que é incapaz de construir um mundo ideal por si próprio, uma vez que o Pecado sempre o levará ao tropeço. Aqui é que Cristo realmente encontra a Sua centralidade: o cristão acredita que o sacrifício do Deus Filho na Cruz, somente ele, é suficiente para sanar a corrupção humana, que só será devidamente revertida em sua totalidade quando o cristão estiver nos Novos Céus e na Nova Terra com o Deus Trino. Por isso os cristãos apostam no poder da comunidade, ainda que valorizem a soberania do indivíduo, e é por isso que os cristãos, tendo Cristo como medidor da realidade, não atribuem messianidade a nenhum líder político ou divinizam o Estado.

         Nenhum tipo de paganismo regional tem poder, em si, para se tornar universal, e nenhum tem substância existencial suficiente para encarar por longos períodos o contato com a realidade do coração humano e do mundo real. Ou ele definha, como na Grécia Antiga e em Roma, ou ele segue se atualizando indefinidamente, como foi com Roma até sua queda. Geralmente, ele é absorvido por algum movimento externo de imposição, um movimento mais encorpado: foi assim que Roma e o culto ao imperador ganharam terreno por uma vasta região da Europa, Norte da África, Palestina e Ásia Menor. O Evangelho Romano, acompanhado do gládio, era mais robusto do que as crenças tribais. E o cristianismo, pela evangelização cristã principalmente nas insulae romanas, mostrou-se mais poderoso que todo o conjunto de crenças de Roma. Hoje, o fator de ressurgimento e unificação dos paganismos locais, falo de paganismo não só em termos de divindades específicas, mas de comportamentos, filosofias de vida e idolatrias, é a ideia e a divinização de um Estado internacional, que fatalmente será encabeçado por alguma figura a quem se atribuirá messianidade, para que nos salve do terrorismo, dos rumores de guerras e do iminente colapso ambiental.

         O dualismo dos últimos séculos levou a um afastamento cada vez maior do homem ocidental com relação à fé cristã, e o cristianismo, por sua vez, constantemente atacado na ânsia derredor pela "morte de Deus", tendeu a fechar-se e fundamentalizar-se, desobrigando-se de seu mandato nas áreas "seculares" da vida, como a arte, a cultura e a intelectualidade. Essa postura apenas reduziu a sua influência, fazendo-o, aos poucos, ser considerado quase que como um "corpo estranho" no seu próprio contexto. Filosofias como o positivismo não tardaram em associar o cristianismo, e as religiões em geral, com uma fase mais primitiva e felizmente superada da Civilização Ocidental. Mas, como já comentado, toda a forma de vida embasada no ideário pagão tem prazo de validade, e um povo exaurido está disposto a abraçar qualquer novidade minimante vigorosa - ainda que só na propaganda.

         Enquanto o Oriente esteve sob o controle das nações ocidentais, que ocidentalizaram povos como o Japão e a Coreia do Sul, e mantiveram controle imperial ou produtivo em territórios do Oriente Médio, que dependiam, inclusive, de petrolíferas ocidentais para fazer uso de suas riquezas, o hedonismo da nossa civilização não se apresentava como fragilidade para ameaças externas. Desde o enriquecimento das nações européias na Era Moderna, com a descoberta do Novo Mundo, da imprensa e da indústria, essa foi a tendência. Evidentemente, a ameaça de holocausto nuclear durante a Guerra Fria e a crescente militarização das nações ocidentais, propiciou um período de ânimos contidos entre a desilusão com o Mundo Moderno pela observação das Duas Guerras Mundiais e o "degelamento" dos atritos entre as nações ocidentais e os países soviéticos. O vácuo que sobrou logo foi preenchido e uma nova peça, produto de uma revolução no islã e dos conflitos e dominações norte-americanas e soviéticas no Oriente Médio, entrou em jogo. A radicalização do islamismo despontou no período mais dramático para a história ocidental.

         Desde então, um outro monoteísmo tem penetrado nos vazios do Ocidente e dado cabo de muitas das demandas morais e com relação à Verdade, fornecendo alguma solidez aos que, tendo rejeitado o cristianismo, o secularismo e o paganismo, buscam algum sentido existencial não perecível. As nações muçulmanas, ainda que carreguem as suas singularidades, não comportam muito do vemos no pós-moderno ocidental: para elas, toda a verdade sobre a vida está centrada em Alá e no Alcorão, não havendo interesse na harmonização mecânica dos incompatíveis, mas, sim, no carregamento e consolidação de sua própria tradição e cultura em qualquer contexto no qual o Islã se inserir. É isso que tem sido presenciado especialmente na Europa das últimas décadas e é exatamente isso que tem sido declarado por grupos de representantes dessa religião.

         Uma Roma com sua cultura empobrecida foi rapidamente engolfada pelas massivas ondas de imigrações de povos não-romanos. Um Ocidente enfraquecido será facilmente absorvido pela cultura e pela fé desses imigrantes que o estão requisitando em massa. E o cartão de visitas que temos dado é precisamente o da religião universal, de Gaia, que é incompatível com a fé proferida pela maioria dos imigrantes. O choque entre as civilizações é inevitável, e é exatamente isso que as últimas duas décadas têm nos indicado.

         A Civilização Ocidental não tem capital moral, ou qualquer outro fundamento, a não ser a causa prática e utilitarista, para se acomodar adequadamente às novas situações e, tampouco, para reagir ao extremismo e terrorismo que lhe tem sido impostos. Uma sensibilização exagerada, embasada pelo discurso pacifista advindo dos traumas de guerras de poucas décadas, associado a um cristianismo domesticado e uma carga de filosofias orientais, que pregam um tipo diferente de paz, que o ocidental ainda não assimilou por ter convivido com a cosmovisão cristã por dois mil anos - filosofias essas que pensam no tipo de paz de quem não se importa com a vida real -, numa associação mecânica de ideias, tem repreendido qualquer movimentação militar de retaliação aos grupos terroristas que têm se responsabilizado pelos atentados recentes. Esse cenário de imobilidade e do dogma da possibilidade de unidade absoluta em toda a diversidade, tem levado ao abandono de qualquer consciência de valorização histórica e cultural do Ocidente, e permitido, contra os "discursos de poder", o "imperialismo" e o Projeto Iluminista, apenas a consciência humanitária, ecológica, ecumênica, acarretando na perda de identidade e potência, o que impossibilita uma efetiva reação coletiva que fuja da histeria generalizada. Realizar uma orgia para protestar contra o Estado Islâmico não é um ato de resistência, é um ato de desistência.

         Alguns eruditos já estão reconhecendo que a Civilização Ocidental não terá como preservar-se, em suas particularidades, diante do quadro que se levanta. O mundo ocidental, como o conhecemos, está deixando de existir. Essa é a lógica dos fatos e o espírito do nosso século: as fissuras foram abertas pelos próprios ocidentais, e estamos tão amortecidos pelos nossos delírios e sofismas, que nem o banho de realidade das imigrações e dos terrorismos será capaz de nos tirar do transe. Reconhecendo a severidade da situação e a dificuldade de um Ocidente insólito de lidar com questões pertinentes ao mundo real, Angela Merkel, chanceler alemã, há poucos meses nesse ano de 2015, encorajou os alemães a retornar à Igreja e à Bíblia, a retornar à realidade.16

         E o que nós, cristãos, devemos fazer nessas condições?

         a - Escatologia:
         Particularmente, eu penso que a Primeira Vinda de Cristo inaugurou a Era Cristã e que a Segunda se dará quando, em definitivo, a Era Cristã terá findado. Conforme as profecias de Daniel (capítulos 2 e 7), Roma, ou a cultura das nações que partilham da herança ocidental romana, será derrubada, sendo substituída pelos povos por ela suprimidos. A meu ver, é exatamente isso que tem acontecido. Mas, no final, quem subjugará todos os povos será Deus, a Rocha, e tudo aquilo que se perdeu com a Queda será reintroduzido na Eternidade. Tenho em mente que a primeira coisa que devemos preservar, portanto, é uma firme esperança escatológica e a convicção da importância de termos toda a vida centralizada em Deus.

         b - Moral, Verdade e Razão:
         Nós, cristãos, podemos ser verdadeiramente efetivos nesse contexto de caos pós-moderno e de desamparo civilizacional, pois a Civilização Ocidental foi, por muitos séculos, uma civilização cristã. Nós temos respostas que só quem nutre uma fé exclusivista e centralizada no único Deus pode carregar: nós temos um sistema moral sólido e determinado, nós temos uma fundamentação para a Verdade, nós temos uma base sólida através da qual pensar sobre o mundo, sobre a realidade, por meio da qual filosofar. Ora, se o ocidental, mais uma vez, está matando a filosofia, mais uma vez caberá a nós, cristãos, o seu salvamento.

         c - Intelectualidade:
         Com o abandono da Razão, a própria Academia, enquanto ambiente de debates e florescimento de ideias, tem morrido no Ocidente. Na Idade Média, as Universidades foram essenciais na resolução tardia do conflito de civilizações que teve seu ápice nas Cruzadas. Num contexto no qual as universidades têm sido usadas basicamente para a perpetuação dos ideais de Gaia, os seminários e ambientes de estudos cristãos terão sua proeminência: a preservação do clima de reverência e a insistência no debate, no exercício da retórica e da dialética, colocarão sobre nós o encardo de fornecer respostas profundas para um povo desesperado, mas, por enfatizar os prazeres, superficial.

         A dependência cristã da filosofia e do entendimento da história do desenvolvimento do pensamento teológico e filosófico ocidental, assim como das línguas originais das Escrituras, dos princípios de interpretação de texto, da exegese e da hermenêutica, da arqueologia, da história e da cultura Antiga, de noções de psicologia, dentre outras esferas do pensamento, todas unificadas em Deus, nos colocará naturalmente numa posição relevante num cenário de generalizada supremacia da subjetividade e das verdades individuais. É da maior importância termos respostas cristãs profundas para a existência da Verdade, para a Moral objetiva, para o Belo, para a sexualidade, para a política, e para outros temas pertinentes ao nosso tempo.

         Dentro desse tópico, tenho por relevante o empenho no estudo da cultura e do pensamento pós-moderno, assim como das fundações da cosmovisão muçulmana. Devemos saber quem somos e também quem os próximos são, para que a comunicação se torne possível, para que não tenhamos medo, pelo desconhecimento, de principiar uma conversa. A intolerância, enquanto medo de conviver, geralmente é produto da ignorância, da fuga daquele tido por desconhecido e, por isso, imprevisível. Se nos tornarmos conhecedores de nossa cultura e daquela que nela está influindo, poderemos reintroduzir na mente pós-moderna o senso de identidade civilizacional cristão e, ao imigrante, apresentar, com sabedoria, a nossa fé, sabendo o que ele pensa sobre nós e tendo em mente as pressuposições de suas crenças religiosas. Para tal, o aprofundamento apologético se faz determinante.

         d - Arte e Cultura:
         O conceito de Belo e a vívida esperança em Cristo, nutrindo-nos de um entusiasmo saudável, levar-nos-á a um aperfeiçoamento das artes e da cultura, e isso, indubitavelmente, será fator de refrigério pras almas exauridas pelos dadaísmos pós-modernos. Por meio de uma arte centrada em Deus, será possível transmitir os valores cristãos e fundantes da Civilização de uma maneira cativante.

         e - Vida cotidiana:
         Vivendo para a glória de Deus, teremos motivos mais profundos para a excelência na lida com tudo aquilo que colocarmos nossas mãos, pois não realizaremos nada nessa vida com enfoque num "eu absoluto", por vias totalmente utilitaristas, mas essencialmente para glorificar ao Criador. Dessa maneira, seremos boas testemunhas de Cristo e disseminadores dos valores cristãos em qualquer profissão e atividade. Precisamos dar respostas práticas!

         f - Política e Responsabilidade Social:
         Na política, não devemos nos deixar absorver e ideologizar por nenhuma vertente do pensamento desde século. Definir-se, enquanto ente humano, por qualquer coisa que não é Deus, é idolatria. Podemos nos alinhar melhor a uma determina perspectiva política, mas se reduzirmos a nossa fé à ideologia, nos tornaremos volúveis. Contudo, por mais que não nos enquadremos no ideário progressista, não devemos, de modo algum, outorgar ao Estado e aos movimentos sociais a nossa responsabilidade social e caritativa cristã. Devemos lutar em favor da mulher, sim! Em favor dos pobres, em favor dos estrangeiros! Em favor dos excluídos, sempre! O que não devemos, porém, é nos deixar absorver por um romantismo irrealista e encabeçar movimentos sociais com interesses que não estejam associados ao amor pelo próximo.

         g - Realismo e Objetividade:
         Esse movimento, para nós, não é tão difícil, pois, sabendo que temos uma vida eterna em Cristo, não somos levados a procurar irrealidades e messianidades nesse mundo, o que sempre acarreta num otimismo, que ignora as mazelas, ou num pessimismo, típico de quem procurou redenção e, não encontrando-a em lugar algum, desistiu de procurá-la. Não somos pessimistas, por sabemos que tudo tornará ao Criador, que estamos seguros em Seu amor e soberania. Por isso, também, podemos olhar para o mundo e apreciá-lo pelo que ele é, sem necessidade de procurar nele algum significado existencial que lhe tire a objetividade. Nós podemos nos relacionar com um mundo objetivo!

         h- Ecologia:
         Nesse sentido, também seremos relevantes no que concerne à ecologia. Enquanto o ocidental tenta proteger a natureza como parte de seu culto egoísta ao panteísmo de Gaia, visando a sua própria sobrevivência pelo afastamento do "Aquecimento Global", para tal retirando a objetividade e a realidade da natureza, que humaniza ao transferir para ela suas próprias demandas existenciais, nós somos levados a protegê-la pelo que ela é: criatura do mesmo Deus que nos fez, que nos ama e que a ama. Para a glória do Criador e em respeito ao que Ele fez como algo bom em nosso favor, deveremos nos relacionar com o meio ambiente de uma maneira saudável, admirável.

         i - Casamento, Família, Lares e Igrejas:
         O nosso relacionamento moral com os outros e com nosso próprio corpo é fundamental para essa empreitada. Da mesma maneira, a preservação do casamento e da família enquanto instituições cristãs e produtoras de capital moral, para a glória de Deus, será ferramenta da mais elevada importância. A perpetuação de hospitaleiros lares cristãos é a essência de igrejas e comunidades cristãs fortes, que venham a suster todos os movimentos de que temos falado nesses últimos parágrafos.

         j - Senso de Oportunidade e de Perseverança:
         Seguro em Cristo, tenho visto no atual cenário do Ocidente uma preciosa oportunidade para a Igreja se purificar e ser, efetivamente, sal e luz, conforme Mateus 5:13-16. Nós fazemos parte da sociedade ocidental, nós somos responsáveis pelo que tem acontecido e também temos responsabilidade pelo que virá. Apesar de tudo, numa era pós-cristã, o Ocidente se divide em algo que podemos ter por duas civilizações, a cristã e a pagã/secular, de modo que o atrito é inevitável. Basta, porém, mantermo-nos corajosos e dispostos, capazes de amar o mundo seguindo o exemplo sacrificial de Jesus, resolutos na preservação dos pilares da fé, mas abertos ao diálogo e, inclusive, ao sofrimento. Quando temos certeza de que Ele sofreu por nós, de que Ele está conosco, de que sofremos por Ele e por amor aos que Ele ama, abrir mão de vaidades e conveniências se torna mais fácil. 

         Por isso digo que não podemos carregar em nós a mesma paz que a de nossa atual cultura, a paz oriental de quem não se importa com a vida: a paz de Cristo é que devemos carregar, e essa é uma paz aguerrida, ardente em amor por aqueles para quem Deus quer apresentar a Sua paz, que excede todo o entendimento. A paz que devemos carregar é a paz de quem ama a vida, é uma paz dinâmica, alerta, realista. E é assim que seremos, de fato, usados pelo próprio Criador, efetivos diante dos outros dois povos, dos pagãos/seculares e dos muçulmanos. Que Cristo seja visto em nós, e que mais visto seja quanto mais tivermos que sofrer por não negá-Lo como Senhor e Salvador.

Natanael Pedro Castoldi

         Bibliografia:


1 As Grandes Batalhas da História, 1, Larousse, 2009, pgs 44-45; Revista Leituras da História, Escala, nº 58, 2013, pgs 24-31.

2 Revista História Viva, Roma, Os Últimos Dias do Império, pg 32.

3 Compreender Kierkegaard, France Farago, Vozes, 2009, pgs 119-128.


4 Progresso e Religião, Christopher Dawson, É Realizações, 2012, pg 12.

5 Fonte: Revista História Viva, Roma, Os Últimos Dias do Império, pg 33.

6 Revista História Viva, Roma, Os Últimos Dias do Império, pg 23.

7 Como os Monges Irlandeses Salvaram a Civilização Ocidental, Thomas Cahill, Objetiva, 1999, pgs 21-43.

8 Guia Ilustrado Zahar de Mitologia, Zahar, 2010, pgs 38-39.

9  História das Religiões, Crenças e Práticas Religiosas do Século XII aos Nossos Dias, Folio, 2008, pg 14; A Morte da Razão, Francis Schaeffer, Fiel / ABU, 1997, pgs 7-10.

10 O Livro da Filosofia, Globo Livros, 2012, pgs 116-123, 130-133, 148-153, 164-171, 178-188, 214-221.

11 O Livro que Fez o Seu Mundo, Vishal Mangalwadi, Vida, 2013, pgs 302-313.

12 Curso de Filosofia, 1, Battista Mondin, Edições Paulinas, 1982, pgs 9-14.

13 Curso de Filosofia, 1, Battista Mondin, Edições Paulinas, 1982, pgs 39-40; O Livro que Fez o Seu Mundo, Vishal Mangalwadi, Vida, 2013, pgs 103-119.

14 O Cristianismo Através dos Séculos, Earle E. Cairns, Vida Nova, 2008, pg 76-77.

15 Ameaça Pagã, Peter Jones, Cultura Cristã, 2002, pgs 51, 55 e 57; Curso de Filosofia, 1, Battista Mondin, Edições Paulinas, 1982, pgs 26-28; Pós-Modernismo, Stanley J. Grenz, Vida Nova, 2011, pgs 179-182.

16 Angela Merkel: os europeus deveriam ter a coragem de voltar à Igreja e à bíblia, Aleteia, 05/10/2015, acessado em 20/11/2015. http://pt.aleteia.org/2015/10/05/angela-merkel-os-europeus-deveriam-ter-a-coragem-de-voltar-a-igreja-e-a-biblia/

         Literatura recomendada:
         Toda a bibliografia utilizada no artigo é recomendada. Outras indicações, abaixo.
         - O Deus que Intervém, O Deus que se Revela e Poluição e a Morte do Homem, de Francis Schaeffer, pela Cultura Cristã, 2009, 2007 e 2003, respectivamente.
         - Calvinismo, Abraham Kuyper, Cultura Cristã, 2014.
         - Raízes da Cultura Ocidental, Herman Dooyeweerd, Cultura Cristã, 2015.
         - A Arte Moderna e a Morte de uma Cultura, Hans Rookmaaker, Ultimato, 2015.
         - Ortodoxia e O Homem Eterno, G. K. Chesterton, Mundo Cristão, 2008 e 2010, respectivamente, e O Que Há de Errado Com o Mundo e Hereges, de G. K. Chesterton, Ecclesiae, 2013 e 2014, respectivamente.
         - Cristianismo Puro e Simples e A Abolição do Homem, C. S. Lewis, Martins Fontes, 2014 e 2005, respectivamente.
         - Apologética Cristã, Cornelius Van Til, Org. William Edgar, Cultura Cristã, 2010.
         - Apologética Cristã Para o Século XXI, Louis Markos, Central Gospel, 2013.
         - Não Tenho Fé Suficiente para Ser Ateu, Norman Geisler e Frank Turek, Vida, 2012.
         - Heresia, Alister McGrath, Hagnos, 2014.
         - A Heresia da Ortodoxia, Andreas J. Köstenberger e Michael J. Kruger, Vida Nova, 2014.
         - O Jesus Fabricado, Craig Evans, Cultura Cristã, 2009.
         - Cristo Entre Outros Deuses, Erwin E. Lutzer, CPAD, 2011.
         - Visões e Ilusões Políticas, David T. Zoyziz, Vida Nova, 2014.
         - Fé Cristã e Cultura Contemporânea, Orgs. Leonardo Ramos, Marcel Camargo e Rodolfo Amorim, Ultimato, 2009.
         - Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, Thomas E. Woods Jr., Quadrante, 2013.
         - Uma História Politicamente Incorreta da Bíblia, Robert J. Hutchinson, Agir, 2012.