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A Ciência, a Igreja e o Islã

-> Apresentação e Índice
Muitas pessoas não compreendem que o que define "ciência" não é a mera descoberta de fenômenos e o desenvolvimento de tecnologias. Por ciência temos um sistema de busca pelo conhecimento, pautado em método, repousando sobre uma determinada filosofia - a saber, de que a verdade sobre os seres e fenômenos pode ser conhecida e de que o mundo em que vivemos é real e possui leis constantes e que podem ser vislumbradas e entendidas. O método tradicional de pesquisa científica é, obviamente, o "método científico", que valoriza a observação do fenômeno, o experimento e a repetição do mesmo para a tomada de conclusões críveis - os precursores desse pensamento foram os monges Roger Bacon, padre franciscano (1214-1294), e Tomás de Aquino, frade dominicano (1225-1274). Mesmo que uma cultura tenha indivíduos de grande potencial, eles dificilmente buscarão pelas "leis da natureza" se acreditarem que o mundo natural é habitado e governado por milhões de pequenas divindades que controlam, ao seu bel prazer, cada fenômeno.
Fonte: Revista Aventuras na História, Coleção Grandes Guerras, Ed. 8, Abril, novembro de 2005, pg 52.

Observação: esse é um artigo sobre a história da origem da ciência. Nesse caso, não se trata de opinião do autor.

1 - Por qual motivo apenas o Ocidente produziu a ciência?
A Índia antiga produziu grandes cirurgiões, mas não chegou a desenvolver a medicina científica; no século V, o indiano Arybhata sugeriu que a Terra gira entorno do seu eixo e ao redor do Sol, mas sua proposta não gerou debates como no Ocidente. Uso da Índia como primeiro exemplo, pois minha fonte inicial é Vishal Mngalwadi, erudito indiano convertido ao cristianismo. Segundo ele, a Índia, mesmo tendo uma riquíssima tradição histórica de intelectuais, não foi a precursora da ciência porque sua cosmovisão sustentava que o mundo visível não passava de uma ilusão, um sonho. Esse tipo de perspectiva levou tanto os sábios hindus quanto budistas a perder a motivação filosófica - eles buscavam um paraíso psicológico. A mesma busca se deu no Ocidente cristão até o século XVI, quando que "uma porção maior da cristandade teve condições de ler a Bíblia e a levou a sério" - daí em diante se espalhou o entendimento de que, por exemplo, a saída do Éden foi a perda de um paraíso literal, terrestre, e não apenas uma alegoria, como se pensava anteriormente. A paixão Ocidental pela ciência começou precisamente quando os cristãos dedicaram-se no resgate do mandato que Deus deu ao homem: que ele dominasse a natureza.

Os pioneiros da ciência acreditavam que o mundo natural era um reino real, não uma dimensão mágica, dominada por espíritos e demônios. Seu pressuposto era de que o mundo é inteligível, pois Deus o "criou de maneira racional, ordenada e regido por leis naturais" - o mundo não fora criado por uma divindade maligna para fazer a humanidade cair no engano através do contato com a "matéria impura". Os cristãos logo compreenderam que a matéria, tendo sido criada por Deus, não é maligna e que, portanto, é digna de ser estudada - daí começaram a se perceber como gerentes da Criação, podendo administrá-la para o benefício do futuro e da humanidade. Essa mentalidade nasceu com a crítica ao racionalismo aristotélico - o método científico presume que a lógica humana tem valor, mas que os fatos observador estão acima de suas conclusões particulares. Essa lógica é usada, por sua vez, para interpretar e encontrar sentido nos fatos - teorias são formuladas para entender o mundo. Essas teorias, porém, só são científicas se fazem predições quantitativas empiricamente verificáveis ou falseáveis. Para esse sistema funcionar, a ciência precisa de objetividade, de observação e de uma constante atitude cética.

Percepções panteístas impossibilitam o desenvolvimento científico, pois "se Deus e a natureza são um, então a natureza não tem um Legislador, nem há 'leis da natureza' para serem descobertas". Na percepção da natureza como Gaia, a ordem natural não é nada além de uma "dança" imprevisível, sem leis matemáticas quantificáveis. A China antiga também teve seus grande intelectuais e promoveu admiráveis descobertas e inventos, mas igualmente não pôde desenvolver a ciência. Segundo Alfred North Whitehead, a ciência originou-se diretamente do ensino bíblico de que o cosmo é produto da "racionalidade inteligível de um ser pessoal" - a China, portanto, não desenvolveu a ciência porque na maior parte da sua história não nutriu a firme convicção em um Criador todo-poderoso. A posição quanto ao pensamento chinês foi sustentada por Joseph Needhem, historiados marxista: após sua pesquisa, ele concluiu que "não havia boas razões geográficas, raciais, políticas ou econômicas para explicar o fracasso da China para desenvolver a ciência" - os chineses "não desenvolveram a ciência porque nunca lhes ocorreu que esta fosse possível".

Gregos, egípcios, chineses, indianos e muçulmanos pré-modernos nutriram incontáveis percepções da natureza, observando e catalogando fatos, desenvolvendo aptidões, acumulando e transmitindo conhecimento. O astrônomo, geógrafo e poeta grego Eratóstenes (276-196 a.C.), mediu a circunferência da Terra; Arquimedes (287-212 a.C.) desenvolveu princípios matemáticos sobre alavancas, polias e parafusos; Hiparco (190-120 a.C.) calculou o ano solar em 365 dias e 6 horas... mas, ainda assim, os antigos nunca geraram uma cultura da ciência. Ainda que tivessem observado atentamente o mundo natural, eles não se esforçaram para verificar empiricamente as suas explicações - na tentativa de explicar o mundo, eles se valeram da intuição, da lógica, dos mitos, do misticismo e do racionalismo, sem atentar para o empirismo. Por exemplo: a lógica baseada na intuição, de Aristóteles, afirmava que, se duas pedras fossem atiradas de um penhasco, a que tivesse o dobro do peso da outra cairia duas vezes mais rápido - nenhum estudioso aristotélico antigo chegou a testar empiricamente essa afirmação para constatá-la ou reprová-la, até que Galileu Galilei (1564-1642), tomando como fundamento a Bíblia, testou a afirmação e a reprovou.

Intuição, lógica, observação, experimentação, informação, técnica, especulação e a análise de textos imbuídos de autoridade são coisas que precedem o Século XVI, mas elas, por si mesmas, não podem constituir uma ciência sustentável. Foi só na Europa cristã que a astrologia se transformou em astronomia, que a alquimia virou química e que a matemática tomou o posto de linguagem da ciência - e isso só aconteceu nos séculos XVI e XVII, quando a cristandade ocidental levou a sério Gênesis 1:28. É lógico que Gênesis já era conhecido há milhares de anos quando a ciência propriamente dita passou a existir - a novidade dos séculos XVI e XVII, segundo Peter Harrison, foi uma leitura literal do relato, não alegórica:

"Apenas quando a narrativa da Criação foi despida de seus elementos simbólicos é que o mandamento de Deus a Adão pôde ser relacionado a atividades mundanas. Se o jardim do Éden fosse apenas uma alegoria sublime, tal como Fílon, Orígenes e mais tarde Hugo de São Vítor sugeriram, não haveria muito incentivo em tentar restabelecer um paraíso na terra. Se o mandamento de Deus a Adão de cultivar o jardim tivesse um significado primariamente simbólico, como Agostinho acreditava, então a ideia de que o homem deveria estabelecer o paraíso pela jardinagem e pela agricultura não teria tido o impacto que teve na mentalidade do século XVII."

2 - As limitações do pensamento grego antigo:
Primeiramente, a Bíblia não é um livro Europeu e, por esse motivo, dos séculos V ao XI, os eruditos europeus tinham a tendência de observar o mundo sob a ótica platônica. Segundo Platão, o Reino das Ideias é o mundo real e o mundo material não passa de uma sombra. Vishal Mangalwadi exemplifica Platão da seguinte forma: mesmo que as casas tenham grandes diferenças entre si, todas elas são consideradas "casa" porque são sombras da mesma "Ideia" do que é "casa" que existe no mundo real, não material ou espiritual das ideias. Cada objeto real pode ter um número incalculável de sombras no mundo material. Tendo esse princípio em mente, os eruditos medievais inicialmente estudavam a natureza da sombra para, acima de tudo, entender a realidade espiritual.

Essa influência grega propiciou a percepção de que o mundo material é inferior ao espiritual, apenas uma imagem transitória e decadente do mundo espiritual, eterno e imutável. A natureza era considerada basicamente um livro pictórico escrito por Deus para transmitir uma mensagem superior: todos os animais, plantas, rochas e fenômenos eram, sobretudo, símbolos destinados a nos levar a compreender melhor as realidades espirituais - eles observavam a formiga mais para extrair ensinamentos e virtudes do seu comportamento trabalhador, do que para compreendê-la como o ser que é em si mesma. O método alegórico foi incorporado justamente para extrair do mundo material, inferior, esses ensinamentos superiores. Esse método fora desenvolvido pelos filósofos gregos para auxiliar na interpretação dos seus poemas, mitos e das suas lendas, objetivando "higienizar narrativas moralmente problemáticas". Fílon, o judeu alexandrino, adotou o método hermenêutico alegórico para encontrar a filosofia grega no Antigo Testamento.

Os cristãos alexandrinos, seguindo o exemplo de Fílon, adotaram a alegoria para ler tanto a Bíblia quanto o mundo natural e, obviamente, essa postura prejudicou a compreensão da natureza. A ciência ocidental só passou a existir quando a Bíblia começou a ser lida literalmente, sem ser obscurecida pela alegoria - a ciência desabrochou quando as Escrituras e a natureza passaram a ler lidas objetiva ou indutivamente, com o objetivo de descobrir a mensagem que traziam por elas mesmas. Segundo Peter Harrison, a ciência só veio a ser tornar "revolução" porque os Reformadores protestantes insistiram que a palavra de Deus inserida na Bíblia e na natureza deve ser interceptada de maneira literal. Os teólogos católicos estabeleceram as bases da ciência nos séculos XIII e XIV e a Reforma estabeleceu a autoridade intelectual da Bíblia e disseminou na cultura popular os ensinamentos da Palavra a respeito de Deus, da criação, do homem, do pecado, da salvação, do conhecimento, da educação e do sacerdócio universal de todos os crentes - ideias cruciais para a Revolução Científica.

Segundo Rodney Stark, 50 dos 52 mais importantes cientistas que foram pioneiros na Revolução Científica eram cristãos. 60% dos homens que criaram a ciência foram cristãos devotos - os demais eram "cristãos nominais". 

3 - A ciência e a Bíblia:
 Ainda que Tomás de Aquino e Roger Bacon tenham sido os responsáveis pelas base do pensamento científico, os fundadores do método científico foram Francis Bacon (1561-1626) e Galileu Galilei (1564-1642), confiando mais na observação empírica do que na lógica ou autoridade humana. Os dois intelectuais cristãos defendiam a acurada leitura dos "dois livros de Deus", a Bíblia e a natureza. Sobre isso, Francis Bacon declarou:

"Pois nosso Salvador disse: 'Vós errais não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus' (Mt 22:29), deixando-nos livres para estudar, se quisermos nos livrar do erro: primeiro, as Escrituras, que revelam a vontade de Deus, e depois as criaturas [ciência natural], que expressam seu poder, sendo o último uma chave para o primeiro: não apenas abrindo o nosso entendimento para conceber o verdadeiro sentido das Escrituras pelas noções gerais da razão e das regras do discurso, mas principalmente por abrir nossa crença, ao nos fazer meditar sobre a onipotência de Deus, que está assinada e esculpida principalmente em suas obras."

Galileu Galilei também declara algo nesse sentido:

"Pois a Bíblia Sagrada e os fenômenos da natureza procedem igualmente da palavra divina, a primeira, dita pelo Espírito Santo, e os últimos como executores obedientes do mandamento de Deus."

Os Estados Unidos da América, como afirma a Declaração de Independência, 1776, foram fundados sobre as "leis da natureza e da natureza de Deus". A abertura intelectual do Ocidente se deu, fundamentalmente, por uma teologia resultante da aproximação da Bíblia e do afastamento de Platão e do Islã. Os nomalistas medievais perceberam que "a doutrina de Deus faz mais sentido que uma lógica subserviente à observação empírica" - ao evitarem a heresia averroísta de pensar que Deus agiu de acordo com uma necessidade intrínseca, sendo a criação um ato totalmente livre do Criador, que configurou a natureza conforme o Seu desejo, descobriram que a ordem do universo não pode ser conhecida por dedução de quaisquer princípios, mas apenas por observação e por revelação. Dessa forma, os nomalistas constataram que o mundo físico só poder ser discernido de modo empírico - Deus poderia fazer tudo o que desejasse independente de qualquer ordem racional que pudesse guiar a mente humana em suas predições, de modo que nada pode ser previsível em absoluto. 

Os filósofos gregos, como Aristóteles e Platão, fitaram a natureza para vislumbrar verdades metafísicas universais, trabalhando de modo abstrato e dedutivo, disso oferecendo conclusões que se tornaram pressuposições "a priori" de gerações futuras, vindo a acorrentar a mentalidade europeia, que só foi solta quando a doutrina da liberdade de Deus foi discernida com base na Bíblia, propiciando o método científico. Além disso, a percepção da natureza boa do mundo material criado por Deus, tornou o elemento material digno de ser estudado. Disso, Vishal Mangalwadi conclui: "A ciência é um estudo objetivo ('secular') das leis da natureza por causa de sua inspiração bíblica como criação de Deus, não apesar disso." A ciência não veio a existir sobre a pressuposição de um materialismo sem Deus.

Até mesmo as teologias bíblicas do Pecado, da Queda e da Salvação influenciaram o desenvolvimento inicial da ciência. Diante da percepção dos males que afligem o homem e o mundo, a conclusão mais óbvia dos antigos, especialmente dos gnósticos, foi a de que a matéria é inerentemente má, de modo que Deus não pode encarnar-Se num corpo humano. O Novo Testamento, em especial João, refuta com poder essa percepção gnóstica e, concordando com o Antigo Testamento, deixa claro que a matéria é boa. Movimentos influenciados por filosofias orientais observam os problemas físicos como meramente ilusórios, enquanto a Palavra os apresenta como problemas reais, resultantes da rebelião de Adão e Eva - a desordem do mundo natural veio a dificultar o mandato humano de domínio da natureza. Essa compreensão, apoiada no sacrifício expiatório de Cristo e na Sua ressurreição, fez o homem compreender que pode vir a restaurar a si mesmo através da entrega ao Salvador e ao mundo através das artes e das ciências, conforme declara Francis Bacon.

Quando a Bíblia começou a ser entendida com mais profundidade, se observou que Adão e Eva conheceram a natureza tal como ela era antes da Queda e que a Queda resultou na perda do conhecimento da natureza, de modo que, para recuperar a imagem do Criador, era necessário ao homem ter a mente renovada e, redescobrindo o mundo, iniciar a sua restauração para a unidade original, isso através do domínio e do controle da natureza.

Mosteiros budistas e hinduístas até hoje não ensinam ciência, mas as universidades europeias - originadas da própria Igreja - a desenvolveram e a divulgam. Por qual motivo isso acontece? Os estudiosos bíblicos aprenderam há muito tempo que a leitura do "livro da natureza" era mais importante do que a análise de livros em grego e em latim - estes foram escritos por homens, mas o primeiro foi escrito pelo próprio Deus. Paracelso disse que o livro da natureza deveria ser lido com mais atenção e proeminência do que as obras de Galeno, Avicena e Aristóteles, pois ao primeiro "Deus mesmo fez, escreveu e encadernou". Houve até os que ousaram afirmar que o estudo da natureza deve preceder o das próprias Escrituras.

Muitos filósofos e cientistas de hoje aproximam-se do niilismo, pois duvidam da possibilidade de se encontrar respostas para as "grandes questões" da humanidade. Quase todos os fundadores da ciência, porém, acreditavam que as "grandes questões" já estavam devidamente respondidas nas Escrituras e que a sua função, dada por Deus, era de estudar as "questões pequenas e específicas" da natureza - como eram e funcionavam, como poderiam ser dominadas para o proveito do homem. Nesse sentido, eles não usavam do método científico para encontrar a Verdade sobre tudo, pois eles estavam convictos que as verdades centrais já estavam reveladas na Palavra - seu método existia para conhecer os seres e fenômenos e, com isso, recuperar o conhecimento e o domínio do homem sobre a natureza.
Fonte: O Livro que Fez o Seu Mundo, Vishal Mangalwadi, Vida, 2013, pgs 259-276, 281-287.

4 - Os muçulmanos e a ciência:
Sendo direto, conforme aquilo que define ciência, podemos afirmar que o Islã não produziu ou desenvolveu a ciência. Mas precisamos ser honestos quanto ao legado muçulmano para o posterior advento da Revolução Científica. 

A Europa Ocidental perdeu quase todos os seus registros da Cultura Clássica quando o Império Romano do Ocidente finalmente foi arruinado - muito do que sobrou foi resgatado e copiado por monges em mosteiros isolados, protegidos dos bárbaros, especialmente os monges da Irlanda que, segundo Thomas Cahill, salvaram a Civilização Ocidental (Como os Irlandeses Salvaram a Civilização Ocidental, Thomas Cahill, Objetiva, 1999) -, havendo uma quantidade significativa de material depositada em cidades antigas do Norte da África, da Ásia Menor e do Oriente Médio - regiões que os maometanos vieram a conquistar em suas campanhas iniciais, confiscando esses documentos gregos e latinos. Outra fonte considerável de manuscritos clássicos o Islã encontrou na Igreja Oriental, que preservara e copiara as obras gregas. Do grego, os muçulmanos passaram esses documentos para o árabe e, com base neles, desenvolveram significativos avanços na astronomia, na medicina, na alquimia e na tecnologia. Quando o mundo muçulmano estava no seu período dourado (séculos VIII ao XIII), sendo muito maior do que a Europa cristã e estando bastante adiantado no desenvolvimento do conhecimento, diversas escolas, observatórios e bibliotecas foram fundadas, assim como hospitais e hospitais-escola. Já no século VIII, o califado de Abbasid montou uma magnífica biblioteca em Bagdá. Ao incorporarem o uso do papel, mais barato, bibliotecas imensas foram fundadas na vastidão das suas terras, como a de Córdoba, com aproximadamente 400 mil volumes. Até o século XVI, os maiores centros na arte de produção de livros ficavam em Herat, Afeganistão, em Tabriz e Shiraz, Irã. A arte da caligrafia se tornou tão importante para os muçulmanos, que eles resistiram ao uso da imprensa, mantendo mais de 100 mil copistas para o abastecimento das bibliotecas e dos estudiosos. Obviamente essa resistência cobrou um preço. 

Com os avanços muçulmanos dentro da Europa cristã, com a conquista de Portugal e Espanha, principalmente, esses manuscritos árabes que continham o conhecimento clássico foram sendo apresentados aos europeus. Ao longo dos séculos, muitos estudantes universitários da Europa compravam material muçulmano para o seu enriquecimento técnico e filosófico. Ainda assim, foi a Europa cristã, e não o mundo muçulmano, que produziu e desenvolveu a ciência. Por qual motivo isso aconteceu?

Primeiramente, o fracasso dos muçulmanos medievais no desenvolvimento da ciência se deve à sua postura acrítica ao pensamento grego. Nos séculos XII e XIII, a pseudociência grego-islâmica quase tragou o Ocidente - o que salvou a Europa da cosmovisão grega, incompatível com a Bíblia, foi a sua leitura das Escrituras. Mesmo que o Islã creia num Criador todo-poderoso, faltou-lhes a Bíblia - ainda que Maomé tenha declarado a Bíblia como divinamente inspirada, ela só é lida pelos maometanos para ser criticada. 

Por volta do século X, os compiladores de uma obra islâmica, Rasa'il, abraçaram a ideia grega de que o mundo é Gaia, abrindo caminho para percepções panteístas, cíclicas, animistas e mágicas, que vieram a permear a cosmovisão islâmica, infectando o Islã com a perspectiva platônica de que o mundo é compreensível a partir das formas eternas dos seus objetos. Para o grego, conhecer algo é conhecer a sua forma e, concebendo a forma, se discerne a essência, culminando em conclusões definitivas, que não se mudam pela experiência. O necessitarianismo metafísico aristotélico e islâmico tornou desnecessária a verificação empírica do "conhecimento verdadeiro". Os mais destacados filósofos muçulmanos medievais, como Avicena (980-1037) e Averróis (1128-1198), acabaram se tornando inflexíveis defensores de Aristóteles, tendo as suas ideias como completas e infalíveis - a observação que contradissesse Aristóteles estaria, de pronto, errada.

Os teólogos europeus também estudaram todos os grandes livros, recebendo e valorizando o conhecimento grego, mesmo que ele viesse por meio dos muçulmanos. A diferença é que os europeus, tendo um compromisso com a Bíblia, se colocavam a criticar as posições gregas quando elas contradiziam as Escrituras. A sua cosmovisão bíblica se desenvolveu sobre Aristóteles, purificando a sua confiança na razão humana da influência animista e fortalecendo-a ao fundamentá-la na imagem de Deus. Sobre isso, M. B. Foster declarou:

"A primeira grande contribuição da teologia cristã ao desenvolvimento da moderna ciência natural foi o fortalecimento que ela forneceu ao elemento científico do próprio Aristóteles; em particular, forneceu uma justificativa para a fé, que para Aristóteles era um pressuposto sem base, já que a razão na natureza pode ser descoberta pelo exercício da razão no homem. O elemento 'racionalista' na filosofia da natureza de Aristóteles era incoerente com o 'animismo'que ele manteve lado a lado com aquele. Esse animismo é completamente incompatível com a doutrina cristã, e precisou ser completamente eliminado de qualquer teoria da natureza que pretendia ser coerente com uma teologia cristã."

As conquistas de Alexandre, o Grande, alastraram as ideias gregas para lugares muito distantes, como a Índia, mas em diversas culturas, o animismo, o gnosticismo e o misticismo suprimiram a razão e a evidência. A Bíblia, por sua vez, reforçou a confiança dos gregos na mente humana e removeu a irracionalidade do animismo. Ainda segundo Foster, o nascimento da ciência se deve mais a discordância de Aristóteles do que a concordância sobre a utilidade da razão - essa discordância, aponta ele, são os elementos não-gregos, ou seja, bíblicos, a que os teólogos medievais recorrerem em sua crítica ao pensamento helenístico.

Dentre os elementos não-gregos, ou bíblicos, que favoreceram o advento da ciência, está a percepção de que o cosmos não é eterno e de que Deus não faz parte do universo - estando Ele fora da matéria e sendo livre para criar qualquer coisa, também não existem formas eternas. Intelectuais como Alberto Magno (1206-1280) introduziram a ciência e a filosofia árabes no mundo medieval e as criticaram, compreendendo que o necessitarianismo de Aristóteles contradizia a liberdade e a onipotência de Deus - pela dedução filosófica, se pressupunha o que o Criador precisava ou não realizar. No Concílio Eclesiástico de 1277, foi rejeitada formalmente a ideia grego-islâmica do que "Deus pode ou não pode fazer" - a crença na liberdade total de Deus acabou por se tornar um dos pilares do método científico: precisamos observar o que Deus fez, não presumir o que ele poderia ou não poderia fazer.

A posição do Concílio de 1277, conclamado pelo bispo de Paris, Etienne Tempier, e pelo arcebispo da Cantuária, Robert Kilwardby, foi reforçada por uma crítica ainda mais forte, realizada pelos teólogos franciscanos nomalistas, como William de Ockham (1285-1349). Ockham, através do princípio da "Navalha de Ockham", derrubou a perspectiva aristotélico-muçulmana, fundamentando a lei natural e todos os valores éticos na vontade de Deus, não na necessidade metafísica ou nas formas. O defensor de Ockham, Pierre d'Ailly (1350-1420), influenciou Martinho Lutero e Zwinglio, levando a perspectiva de Ockham sobre a Bíblia para a Reforma Protestante e, assim, estimulando a ciência empírica.

O fato é que o empenho muçulmano no desenvolvimento do conhecimento e das tecnologias perdeu fôlego. O tipo de pesquisa científica que os maometanos desenvolveram entrou em declínio por  intermédio, principalmente, de mudanças políticas: o conhecimento floresceu em tempos de paz e prosperidade, vindo a enfraquecer quando os recursos foram canalizados para a defesa e a agricultura. A situação piorou quando os europeus requisitaram o Novo Mundo, aquecendo o comércio e a riqueza, levando os governantes muçulmanos a perder a sua proeminência global. Outra causa do declínio do conhecimento entre os maometanos se deu por seu sistema de organização social: os muçulmanos favoreciam, em suas escolas, a transmissão do conhecimento local, de um estudioso para o outro ou em pequenos grupos, estimulando a estabilidade. As universidades europeias, por sua vez, sustentavam o debate acadêmico, pautado no desafio e na subversão do conhecimento estabelecido, atividade que os maometanos ortodoxos tinham como herética, já que valorizavam a aprendizagem como meio de aperfeiçoamento espiritual.
Fontes: O Livro da Ciência, GloboLivros, 2014, pgs 13-14; Uma Breve História da Ciência, Ronei Clécio Mocellin, Nova Didática, 2000, pgs 34-35; Uma Breve História da Ciência, Patricia Fara, Fundamento, 2014, pgs 69-76; O Livro, Uma História Viva, Martyn Lyons, 2011, pgs 47-49; O Livro que Fez o Seu Mundo, Vishal Mangalwadi, Vida, 2013, pgs 277-281.

Conclusão:
É comum ouvir ou lermos que o cristianismo apenas obscureceu a ciência, atrasando-a, mas, como vimos, aconteceu justamente o oposto! A única civilização do mundo a ter desenvolvido por conta a ciência foi justamente aquela que orbitava entorno da Igreja e da Bíblia. Também é comum nos depararmos com o argumento de que os muçulmanos foram muito mais longe do que os cristãos no desenvolvimento científico e que, se não fosse o seu declínio, hoje estaríamos muito mais desenvolvidos, o que também não é verdade. É claro que a produção de tecnologias mais primitivas não necessariamente depende de uma visão de mundo pautada na ciência, mas muito do que temos hoje, que faz parte das nossas vidas diárias, é fruto direto de uma visão científica de mundo, que critica, que observa, que experimenta, que tem o mundo material como bom, útil, e dominável para o bem da própria natureza e do homem. A visão grego-islâmica de mundo não foi a causa do desenvolvimento tecnológico os maometanos, mas ela certamente limitaria avanços mais profundos se não fosse contestada e suprimida, na Europa, pela percepção bíblica de mundo. Bastaram apenas alguns séculos depois de a Palavra começar a ser lida e entendida literalmente para termos a ciência como "revolução", para presenciarmos o incrível momento histórico conhecido como Revolução Científica.

Leve na mente algumas questões sobre o artigo:
- Ao contrário do que muitos dizem, a filosofia grega provavelmente não levaria o homem aos avanços científicos que presenciamos na história dos últimos séculos.
- A Bíblia foi a peça fundamental para o esclarecimento, aperfeiçoamento e purificação do pensamento grego. O pensamento grego, por si só, não produziu ciência, pois ele se alastrou no mundo muçulmano e até a Índia e a ciência só veio a existir na Europa, onde havia uma forte tradição cristã.
- Os fundadores da ciência não a percebiam como fonte de autoridade para se descobrir a verdade sobre tudo. A teologia mantinha seu posto central no tratamento das "grandes questões" e a ciência se ocupava com as "pequenas", restritas mais ao funcionamento dos elementos e o seu domínio.

Natanael Pedro Castoldi

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Revisitando o Julgamento de Galileu Galilei

-> Apresentação e Índice
Infelizmente, o caso de Galileu Galilei entrou para a história como um trunfo contra a Igreja e em favor de uma cisão entre a ciência e a religião. Com o estímulo da propaganda anticristã Iluminista, a verdade dos fatos sobre o julgamento do grande cientista foi distorcida e a distorção acabou ocupando o lugar dos eventos reais, adentrando nos livros didáticos, revistas e até mesmo em documentários. A história de que Galileu foi torturado e morto pela Igreja, "inimiga da ciência", se enraizou de tal modo no imaginário popular que, segundo uma pesquisa realizada pelo Conselho da Europa com estudantes de ciências de todo o Continente, 30% dos acadêmicos acreditavam na morte do cientista na fogueira e 97% imaginavam que ele fora torturado. De fato é esse tipo de impressão que os artistas eternizaram ao longo de três séculos de pinturas sobre o julgamento do astrônomo. A verdade é que Galileu não foi aprisionado numa cela, não foi torturado e, muito menos, morto na fogueira. João Paulo II, em 1981, nomeou uma qualificada equipe para a análise profunda e rigorosa do julgamento de que falamos e, após onze anos de estudos, todo o processo foi devidamente esclarecido, abrindo um fecundo campo de debates sobre a questão. Hoje é possível estabelecer com elevado grau de certeza o que de fato aconteceu com Galileu Galilei.

1 - Precedentes e resumo dos fatos:
Galileu Galilei, nascido em Pisa no ano de 1564, tornou-se um homem de temperamento difícil. Por volta dos 25 anos, depois de nomeado assistente de matemática na Universidade de Pisa, redigiu um panfleto contra os seus colegas e foi agressivo num debate contra uma pessoa próxima ao grão-duque, tornando-se em "persona non grata". Esse último acontecimento obrigou-o a sair da Universidade de Pisa. Protegido do cardeal Guidobaldo del Monte, Galileu conseguiu a cátedra da Universidade de Pádua.

Durante seu tempo em Pádua, Galileu encontrou uma luneta holandesa e fabricou um exemplar mais potente. Com ela realizou extensas observações da Lua, suas crateras e montes, da superfície do Sol, de luas de Júpiter, da observação de Saturno e de diversos outros pontos da Via Láctea. Ao observar Vênus, percebeu a existência de fases como as da Lua e concebeu que a sua órbita estava centrada no Sol, não na Terra, em concordância com Copérnico, clérigo cristão que cogitou no heliocentrismo anteriormente. Galileu produziu e publicou um folheto com suas constatações, "O mensageiro celeste", dedicado ao seu antigo aluno Cosme II de Médicis, grão-duque da Toscana no momento. Quando o grão-duque soube que Galileu nomeara as luas de Júpiter de "satélites medicianos", presenteou-o com um colar de ouro e uma medalha. Sob influência do grão-duque, o astrônomo também foi nomeado primeiro-matemático da Universidade de Pisa. Esse cargo não exigia que morasse em Pisa e nem lecionasse, podendo permanecer em Pádua com sua elevada renda, mas a insaciável sede por reconhecimento fez Galilei retornar para Pisa. Ele queria ser admitido nos círculos dos sábios e frequentar o ambiente das autoridades eclesiásticas, e sabia que, caso viesse a comprovar a tese de Copérnico, jamais cairia no esquecimento.

O problema é que, em 1619, a obra de Copérnico fora incluída no Index, levando Galileu a agir com cautela. Somente quando o seu amigo, o cardeal Maffeo Barberini se tornou o papa Urbano VIII, o astrônomo sentiu-se seguro para o desenvolvimento de suas teses. O pontífice recebeu-o com honrarias e o cientista aproveitou para apresentar o projeto de uma obra polêmica, que exporia as teses (a de Copérnico e a vigente na época, a aristotélica) sobre o regimento dos planetas através do colóquio entre três amigos. O papa permitiu a publicação do opúsculo, mas exigiu que nenhum dos lados fosse favorecido. O problema é que, na obra ("Diálogo sobre os dois grandes sistemas do mundo"), o defensor do antigo sistema chama-se Simplício ("simples") e defende seu ponto desferindo os mesmos argumentos que o papa. Além disso, Galileu fez uso de um estratagema para obter o "imprimatur", que é a declaração eclesiástica de que uma obra não vai contra os pilares da Igreja, submetendo apenas uma parte dela para a censura. Descumprindo a promessa feita ao papa, o cientista se coloca abertamente ao lado de Copérnico. 

Apesar de tudo isso - de ter sido comparado ao "simples" (Simplício) e de Galileu defender Copérnico -, o papa estava disposto a perdoar, mas havia algo entre ele e o sábio: a Congregação do Santo Ofício, o Tribunal da Inquisição. Mesmo evitando demonstrar fraqueza, Urbano VIII procurou auxiliar Galileu da melhor forma, encarregando uma comissão de teólogos para examinar a sua obra na esperança de que ele fosse absolvido. Não foi o que aconteceu e Galileu precisou passar pelo julgamento.

O papa Urbano VIII, embora cético quanto a capacidade humana de desvendar os segredos do Cosmos, era amigo de Galileu. Leandro Narloch explica o processo com mais detalhes: o papa permitiu a publicação do livro do astrônomo com a condição de que o heliocentrismo e o geocentrismo foram tratados apenas como teorias, e representantes da Inquisição, depois de analisarem o texto e proporem algumas emendas, chegaram a recomendar a publicação. Galileu, porém, manteve a versão favorável ao heliocentrismo, pelo que foi repreendido pelo papa e, um ano depois de publicado o livro, chamado para o Tribunal da Inquisição, em Roma.

Em Roma, na Basílica de Santa Maria della Minerva, no dia 22 de junho de 1633, Galileu recebeu seu veredicto: sua obra não poderia ser publicada, ele seria preso e deveria abjurar os seus erros. Mesmo se disponibilizando a ensinar apenas o geocentrismo, Galileu Galilei foi tido como suspeito de heresia e, condenado à prisão na sede do Santo Ofício, passou por um "exame rigoroso" de suas crenças, o que foi erroneamente entendido como "tortura" - cópias dessa condenação espalharam-se pela Europa, consolidando a crença de que ele fora, de fato, torturado. Voltaire ajudou a solidificar essa percepção. De fato, Galileu padeceu algum nível de humilhação, mas jamais fora torturado - os modos comuns de tortura eram severos demais para alguém com 69 anos e como Galileu sobreviveu sem sequelas, não pode ter sofrido flagelos. As próprias normas da Inquisição livravam idosos, crianças, doentes e mulheres grávidas da tortura - Galileu era velho e sofria de artrite e hérnia. O grande astrônomo não padeceu maus-tratos.

A sentença foi dada - vários juízes e o próprio papa se negaram a subscrevê-la: o astrônomo iria cumprir pena em prisão domiciliar, por consideração do papa. A prisão de Galileu começou no palácio renascentista do embaixador de Florença, seguiu para os aposentos de um oficial e para a casa do arcebispo Piccolomini - ele nunca ficou um dia numa cela comum. Viveu em palácios de amigos, alguns da alta hierarquia católica, e, por fim, na própria casa. Durante esse tempo, segundo Alfonso Aguiló, ele teve a liberdade de continuar a trabalhar na sua ciência, de receber visitas e de publicar as suas obras. Assim foi até a sua morte natural. Segundo seu discípulo e biógrafo, Vicenzo Viviani, Galileu morreu com firmeza filosófica e cristã aos 77 anos de idade, pacificamente em casa (Arcetri, perto de Florença), na sua cama, depois de ter recebido indulgência plenária e a bênção do papa - segundo ele, o astrônomo viveu e morreu como um bom cristão. Ao contrário do que se faz parecer hoje, o julgamento do cientista foi feito com relativa mansidão.
Fonte: Revista História Viva, nº 45, Eles Mudaram o Mundo, pgs 28-31; Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo, Leandro Narloch, LeYa, 2013, pgs 80-81; Luzes e Sombras na Igreja, Alfonso Aguiló, Quadrante, 2011, pgs 44-45.

2 - O pensamento da época:
Um dos maiores erros com relação do caso de Galileu está em pensar que na sua época havia um grande atrito entre os cientistas, "detentores da razão", e os clérigos, "amantes dos dogmas". Na verdade, havia cientistas que defendiam dogmas e clérigos profundamente apegados ao pensamento científico - inclusive monges cientistas. É interessante observar, por exemplo, que os cientistas da época chegaram a desenvolver complexos cálculos para saber quando Jesus voltaria. Em oposição ao que Galileu e Copérnico defendiam não estava apenas a classe sacerdotal, mas toda uma classe científica secular, e ao lado de Copérnico e Galileu se encontravam muitos abades, freis, monges, padres, bispos, cardeais e até o papa.

O fato é que o heliocentrismo de Copérnico já tinha quase dois mil anos quando proibido pela Igreja. Aristarco, séc. 3 a.C., propôs a teoria de que o Sol estava no centro do Universo e de que a Terra girava entorno de si própria e entorno dele. Mas desde a Grécia Antiga essa percepção fora rejeitada por uma série de observações da época. Vigorou a percepção aristotélica de mundo, com a Terra ao centro, e tal filosofia se encontrava ainda bastante rígida nos dias de Galileu, sendo defendida pela maioria dos sacerdotes e cientistas seculares.

Quando o astrônomo observou que Copérnico estava certo, toda uma teologia entorno da necessidade de a Terra estar no centro do Universo, que sustentava a ideia de o homem ser o projeto central de Deus, se abalou. A cosmovisão predominante há diversos séculos estava sendo agredida. Alfonso Aguiló lamenta que interpretações errôneas do texto bíblico, considerado literalmente quando deveria ser entendido poeticamente, tenham dado sustentação para paradigmas inquestionáveis. É por isso que a maior parte dos astrônomos da época de Galileu preferiu não tomar partido, como Tycho Brahe e William Gilbert, sugerindo teorias bastante peculiares - Tycho, astrônomo mais famoso daqueles dias, dizia que os planetas se moviam entorno do Sol, mas que o Sol e a Lua giravam ao redor da Terra, que estava fixa no centro do Universo; Gilbert não engolia a ideia do movimento de translação do nosso planeta. Mas o próprio Galileu não era de todo razoável - por exemplo, fez pouco das análises de Johannes Kepler, que mais tarde se mostraram verazes, como a órbita elíptica dos planetas. Considere que na época não havia uma divisão muito clara entre ciência, misticismo e imaginação fértil - Galileu chegou a calcular o tamanho do Diabo, baseado nas descrições de Dante Alighieri. O famoso astrônomo também eram considerado um bom astrólogo. A astronomia estava começando a se tornar independente da astrologia e a química estava se separando da alquimia, que visava, sobretudo, transformar metais comuns em ouro. É interessante notar que Isaac Newton, um século depois, foi ridicularizado pelos mais brilhantes matemáticos ao afirmar que a força de atração é proporcional à massa dos corpos - ele foi acusado de acreditar em magias e milagres.

Diversos cientistas e filósofos se colocaram em franca oposição ao heliocentrismo. Muitos chegaram a duvidar das próprias observações no telescópio: segundo Cesare Cremonini, mais destacado filósofo naturalista da Universidade de Pádua, as imagens que apareciam no telescópio de Galileu Galilei eram ilusão de ótica. Giovanni Magini, matemático da Universidade de Bolonha, também não confiava nas imagens do telescópio. Martin Horky, discípulo de Magini, escreveu um livro inteiro para atacar as ideias do astrônomo italiano - chegou a dizer que Galileu se preocupou em anunciar a descoberta dos satélites de Júpiter apenas por interesse financeiro, criticou a sua aparência e afirmou que o telescópio do astrônomo era uma fraude. Dentre os ataques sofridos por Galileu na época, o mais sólido foi escrito pelo filósofo, poeta e matemático Ludovico delle Colombe, e publicado no livro "Contra o Movimento da Terra", no qual considera a teoria de Copérnico "perigosa" e "louca". Um dos argumentos desferidos contra as observações de Galileu foi o de que a Lua, embora aparente ter montanhas e crateras, continuava a ser uma esfera perfeita, como previa a filosofia aristotélica: uma camada cristalina cobria todo o seu relevo. Foram Colombe e Francesco Sizzi, filósofos e não sacerdotes, os maiores responsáveis por acusar o heliocentrismo perante a teologia e, com isso, alimentar a controvérsia. Textos como o de Salmos 104:5 foram apontados para desqualificar a tese defendida por Galileu. É claro que o astrônomo italiano, considerando o seu temperamento, não fugiu da briga e não evitou ridicularizar seus adversários.

Além de o pensamento aristotélico estar consolidado no ambiente eclesiástico e secular há muitos séculos, havia forte resistência à mudanças da parte dos professores de astronomia da época, em geral pouco qualificados, já que astronomia era uma disciplina básica que fazia parte dos cursos introdutórios, ensinada somente até o nível elementar. As percepções de Galileu ameaçavam aquilo que esses professores ensinavam e tinham o potencial de minar a sua posição na comunidade acadêmica. Se já não bastasse essa posição dos acadêmicos, Galileu e outros matemáticos da época desrespeitavam a hierarquia das artes liberais demonstrando as suas descobertas para além dos modelos matemáticos, descrevendo-as dentro dos parâmetros físicos de mundo, coisa que cabia apenas aos filósofos - a matemática era observada como uma disciplina inferior.

Segundo o historiador Stillman Drake, autor de 130 livros e estudos sobre Galileu, é estranho que os historiadores ainda hoje prefiram culpar os teólogos no lugar dos filósofos no caso de Galileu Galilei, sendo que foram os filósofos aqueles que exigiram a intervenção dos teólogos.

3 - Galileu e a Igreja:
Sem conseguir persuadir os astrônomos e filósofos, o cientista italiano recorreu ao Colégio Romano, grande centro astronômico do século XVII e fundado pelos jesuítas. Dentre os seus eminentes membros estava o padre Clávio, considerado por alguns como sendo o maior matemático da época. Galileu manteve bastante contato com Clávio e foi convencendo-o aos poucos, através das observações telescópicas, da tese que defendia. Em abril de 1611, o Colégio Romano homenageou o grande astrônomo, quando o jesuíta Odon van Maelcot disse que Galileu era "digno de ser citado entre os astrônomos mais célebres e felizes".

Ainda assim, o debate teológico acerca do pensamento de Copérnico se acirrava. Houve filósofos, cientistas seculares e sacerdotes contra e a favor de Galileu. Em 1584, o eremita agostiniano, Diego Zúñiga, professor de teologia na Universidade de Salamanca, já havia utilizado de Jó 9:6 para fundamentar a ideia de que a Terra se movia. O teólogo carmelita Paolo Antonio Foscarini defendeu a ideia de que, se a observação sustentasse o movimento da Terra, o certo era conciliar a interpretação bíblica com a natureza. O debate teológico estava em desenvolvimento e Galileu decidiu participar dele.

Mesmo afirmando que a natureza trazia mais verdades sobre Deus do que a Letra Sagrada, Galileu era um bom católico e sabia dividir bem as coisas terrenas e espirituais. A percepção de que a Bíblia nem sempre precisava ser interpretada literalmente, pois muitas vezes fazia uso de linguagem poética ou utilizava de percepções mais antigas, compatíveis com os povos do passado, havia sido trabalhada e defendida por gente como Tomás de Aquino, no século XIII, que percebeu que as ideias de Aristóteles sobre a perfeição e eternidade dos astros iam contra princípios cristãos. O astrônomo italiano em momento algum lutou contra a Igreja, mas se esforçou para torná-la mais aberta às descobertas. A verdade é que Galileu, segundo Stillman Drake, "se sentiu compelido a fazer tudo o que podia para prevenir um erro por parte da Igreja que poderia colocar a sabedoria dela em descrédito". Acerca disso, Leandro Narloch conclui que Galileu "deixa de ser um inimigo e passa a ser fruto da melhor tradição do catolicismo."

É fácil compreender, ao menos em parte, a reação da Igreja aos posicionamentos de Galileu, tanto seu comportamento quanto as suas ideias: a Reforma Protestante tinha se alastrado para quase todo o Norte da Europa, ameaçando a Igreja Católica Apostólica Romana em quase todos os sentidos - números, territórios, poder, prestígio... Como reação, foi convocado o Concílio de Trento, que reafirmou a autoridade do papa, ampliou a luta contra os hereges e firmou a ICAR como a autoridade máxima na interpretação da Bíblia. Diante desse quadro, a oposição ao tradicional sistema aristotélico era a última coisa que a Igreja desejava, e um conflito teológico, encabeçado pelas ideias de um único astrônomo, que chegou a zombar do papa, apenas dificultava as coisas. Foi justamente nesse período turbulento que os textos de Copérnico e de outras influências de Galileu foram banidos. Com a Contrarreforma, houve um recuo teológico e os filósofos, matemáticos e sacerdotes de maior prestígio se posicionavam contra a nova astronomia.

Essa mudança de postura, por advento da Contrarreforma, é melhor entendida quando percebemos que as ideias de Copérnico, algumas décadas antes, foram recebidas com entusiasmo pelo papa Clemente VII e por outras autoridades eclesiásticas.

Em 1741, o erro do tribunal que julgou Galileu Galilei fora reconhecido e Bento XIV ordenou que o Santo Ofício desse o imprimatur à primeira edição das obras completas do astrônomo. Em 1822, a sentença errônea foi reformada sob o aval do papa Pio VII.
Fontes: Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo, Leandro Narloch, LeYa, 2013, pgs 65-83; Luzes e Sombras na Igreja, Alfonso Aguiló, Quadrante, 2011, pgs 40-46.

Conclusão:
Uma das piores formas de analisar o passado é vê-lo com os olhos do presente. O cientista do século XVI não entra nas mesmas definições do cientista do século XXI, assim como o sacerdote. Uma característica essencial da ciência é a mutação: ela sempre se movimenta e se altera, de modo que é incoerente avaliar a relação entre a ciência e a religião no passado com base naquilo que a ciência é hoje. Infelizmente, a história tem sido constantemente reescrita para favorecer determinados grupos e ideologias. Não caiamos no erro de pensar no passado apenas como ferramente de combate para as militâncias de hoje e isso serve tanto para os cristãos quanto para os seus inimigos intelectuais.

Se fizermos uso dos critérios frouxos que colocam Galileu como representante da razão contra uma Igreja "irracional" por matar cientistas, seríamos obrigados a ver a Revolução Francesa, tida como centrada na deusa Razão, como inimiga do conhecimento, pois nela fora guilhotinado, por exemplo, o francês protagonista da revolução científica da química no seu tempo, Antoine Laurent Lavoisier - naquela mesma ocasião, o presidente do tribunal declarou que "a República não precisa de sábios".
Fonte: Luzes e Sombras na Igreja, Alfonso Aguiló, Quadrante, 2011, pg 41.

Natanael Pedro Castoldi

Leia também:
- O Caso de Galileu Galilei
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- A Religião Ateísta

A Religião Ateísta

É estranho quando vemos ateus utilizando a Teoria da Evolução e a Teoria do Big Bang como baluartes contra o cristianismo, uma vez que essas teorias são compatíveis com o relato bíblico; em nada invalidam a existência de Deus; foram filósofos e cientistas ateus os maiores oponentes do Big Bang, inicialmente sugerido por um padre, Georges Lemaître; e que, nas primeiras décadas, a TE foi amplamente aceita por comunidades cristãs. Sobre a relação da Teoria da Evolução com a Igreja e a origem do bizarro debate entre "fé e ciência", leia o artigo do meu irmão, Ticiano Castoldi, graduando em História, publicado no seu blog, minasdraug.blogspot.com.br, no dia 1º de dezembro de 2012, sob o título "Darwinismo e Igreja: os primeiros contatos" - aconselho, ainda, a leitura de outro trabalho seu, publicado no mesmo blog, sob o título "Seria Deus um evolucionista?". Segue um breve relato da luta dos ateus do Séc. XIX e início do Séc. XX contra a Teoria do Big Bang.

Resumo do que segue: 1 - A percepção grega do Universo; 2 - A superioridade do pensamento hebraico; 3 - As conclusões da ciência; 4 - A incoerência dos ateus; 5 - Sobre a metafísica; 6 - Teorias mirabolantes; 7 - A religião da ciência; 8 - Sacrifícios em nome da "deusa Razão"; Conclusão.

1 - A percepção grega do Universo:
Para os gregos antigos, o mundo não tivera início e não teria fim, sendo algo fixo, sem evolução, sem mudança e sem desgaste, divino em si mesmo e incriado. Parmênides (Séc. VI-V a.C.) dizia que o mundo era divino e estático; Demócrito (460-370 a.C.) e Leucipo (Séc. V a.C.) afirmavam que a matéria não tinha origem e nem composição. Os antigos pensadores pré-socráticos, como Platão, Aristóteles e Plotino, julgavam que os astros fossem feitos de substâncias divinas e que jamais evoluíam ou envelheciam, sendo deuses em absoluto. 

2 - A superioridade do pensamento hebraico:
Antes de produzidas as antigas reflexões gregas e, logicamente, muito antes do advento da Ciência Moderna, os hebreus já percebiam que o Universo tivera uma origem e que, no processo de criação, passou por um estágio caótico, no qual era nada além de uma "substância informe" - eles receberam a revelação de que a tudo o que viam era fruto de um processo evolutivo, de uma Criação coordenada por Deus e dada em seis etapas distintas. Tal percepção de mundo fez com que os hebreus vissem a História como algo linear, apontando para a degradação da vida e da matéria e, então, para um mergulho na perfeição e na eternidade de Deus. É por esse motivo que os hebreus sempre se preocuparam em registrar honestamente a sua história como povo. Leia mais sobre isso na seguinte postagem do EOMEAB: "A Bíblia e a Ciência".

3 - As conclusões da ciência:
Não gosto da ideia de tratar das conclusões científicas pelo singular "a ciência", pois a ciência não é como um organismo completo e unânime, estando mais para um bosque repleto de seres distintos e antagônicos, mas vou abrir uma exceção aqui, considerando as conclusões mais universalmente aceitas pelos cientistas. O fato é que os avanços científicos derrubaram todas as citadas pressuposições gregas - descobriu-se que a matéria é constituída por uma grande variedade de átomos, formadores de moléculas e macromoléculas. Das macromoléculas verificou-se a existência das moléculas-gigantes que, unidas, carregam uma quantidade praticamente imensurável de informação genética que, por sua vez, é a base para as numerosas formas de vida. Tudo isso indica um processo evolutivo, que inicia com os átomos e suas partes menores, caminhando até as moléculas-gigantes, cujas fundamentais são: adenina, guanina, timina, citosina e uracila - unidas as quatro primeiras, combinadas de três a três, temos os caracteres genéticos e as estruturas básicas dos seres vivos, dos unicelulares até o ser humano. Disso também temos as cadeias moleculares que formam as proteínas, com seus vinte aminoácidos fundamentais. Das bases moleculares, podemos, ainda, perceber a evolução biológica, que culmina na formação de sistema biológicos principais.

Percebida a composição da matéria e os diferentes níveis de complexidade, que apontam para uma relação de continuidade, os pesquisadores são levados a concluir que o Universo está num processo de evolução irreversível. Consideremos os elementos mais simples que compõem a matéria: cada estrela é uma massa de hidrogênio que se transforma, gradativamente, em hélio e, terminada essa transformação, a estrela morre, tornando-se uma "anã branca". É fácil perceber que nada no Universo é eterno, sempre se modificando, desgastando-se, virando outra coisa e, por fim, morrendo. A percepção de um Universo eterno é a negação de começo e transformação e é impossível sustentar tais percepções em nossos dias.

Mesmo havendo farto material para contestar a macroevolução e tendo o darwinismo tradicional, com a ideia do gradualismo, como uma pressuposição falida, até mesmo o mais literal dos cristãos há de conceber que existem variações na matéria e nos seres, principalmente considerando que na Arca de Noé entraram, necessariamente, apenas as espécies fundamentais da fauna que, posteriormente, foram se diversificando para o que temos hoje. No final das contas, a conclusão é uma só: tudo o que há no Universo teve um começo. A ideia de um começo retira do Universo o status de um "deus em absoluto" e exige uma influência externa, eterna e onipotente - um Iniciador, uma Vontade, uma Inteligência, um Projetista.

4 - A incoerência dos ateus:
Mesmo que a Ciência Moderna tenha desconstruído todas as principais percepções sobre o Universo que haviam sido sustentadas desde o tempo dos antigos gregos, muitos pensadores racionalistas e ateus do Séc. XIX, para não pronunciar o nome de Deus, retomaram a jazida visão de mundo da Antiguidade Clássica. Dentre eles podemos citar: Marx, Engels (1857), Friederich Nietzsche (1900) e Augusto Comte (1857).

Era conveniente para o ateísmo que se entendesse o Universo como um "movimento cíclico eterno", um Ser Absoluto, algo infindável, que nunca envelhecia. Tal percepção de mundo foi trabalhada ou restaurada mesmo com a plena consciência das conclusões científicas mais coerentes - eles ignoraram a lógica científica que eles mesmos supostamente defendiam. O princípio termodinâmico de Carnot (1832) e Clausius (1888), que aponta para a degradação da energia, foi apenas uma das muitas ideias científicas daquele período que os racionalistas sumariamente ignoraram.

- Friedrich Nietzsche (1900): retomando a concepção grega antiga, rejeitou a ideia de um Universo cuja história fosse linear, progressiva e irreversível. Ele pensou no Universo como algo caótico e destituído de qualquer forma.
- Augusto Comte (1857): em sua empreitada ateísta, proibiu que seus discípulos estudassem o espectro, através do qual se pode perceber a composição química das estrelas.
- Engels, Nietzsche e Heidegger fazem frequentes referências aos mais antigos filósofos gregos, como Heráclito, Parmênides, Xenófanes e Anaximandro. Outros ateus se apoiam em Demócrito e Leucipo, atomistas gregos cujas ideias poderiam sustentar seu ateísmo. Tudo era válido para rejeitar o conceito de um Deus Criador e distinto do mundo.
- Jean-Paul Sartre pretendeu ignorar as ciências experimentais e desprezou a pesquisa das realidades físicas e biológicas. O existencialista Martin Heidegger e Albert Camus (1913-1960), fizeram o mesmo. Camus tinha o mundo como algo absurdo.
- É sabido que os filósofos marxistas da antiga Cortina de Ferro, defensores do ateísmo, entraram em severa crise quando os físicos quiseram estudar melhor as consequências da lei da entropia - o seu ateísmo, para subsistir, dependia da eternidade da matéria.

A verdade é que o ateísmo moderno não superou toda a influência negativa desses pensadores. Está mais gritante do que nunca a percepção de que o Cosmos é um "deus em si mesmo", uma entidade impessoal que se auto-gerou e arquitetou. Essa perspectiva ganha força ao lado do crescimento do neopaganismo, característico do movimento da Nova Era, que quer adorar um deus sem rosto, etéreo; tal pregação ateísta também encontra bases no pensamento dos estoicos antigos, retomado por muitos pensadores ateus de nosso tempo, que admitem uma Razão imanente no Universo, tornando-o inteligente e harmonioso sem a necessidade de Deus - trata-se de um Universo que explica a si mesmo, uma verdadeira entidade divina. Em oposição aos mais significativos desenvolvimentos filosóficos e científicos do Séc. XIX, os pensadores ateus do período proclamaram o ateísmo como um dogma, como a única filosofia científica possível - tal crença no ateísmo está bastante evidente em nossos dias, de tal modo que o mesmo tornou-se uma verdadeira religião para muitos dos seus seguidores.

Por esses e outros motivos é que alguns ramos da ciência, em especial a astronomia, que felizmente é estudada sem preconceitos, não se concilia mais com o ateísmo, considerando-o inconcebível e impensável.

5 - Sobre a metafísica:
É inerente ao ser humano entender o porquê das coisas - de onde as coisas vieram? Por qual motivo elas existem? Quem as criou? Tais questionamentos muitas vezes entram no ramo da metafísica, que significa "além das coisas naturais". Trata-se do estudo dos fenômenos para além do que observamos, uma reflexão que transpassa os limites físicos e naturais - quando alguém deseja saber não só as causas próximas, mas a "causa das causas", envereda-se nas especulações metafísicas. Até a época moderna a metafísica foi muito valorizada pelos intelectuais, mas sofreu severos abalos com os trabalhos de Immanuel Kant (1804), Sigmund Freud (1939), Augusto Comte (1857) e Friedrich Nietzsche (1900), que levantaram a pressuposição de que só conhecemos os fenômenos sem poder penetrar nas suas causas, sem jamais poder atingir a realidade em si mesma - todo o conhecimento além das ciências naturais foi desprezado.

Infelizmente, muitos cristãos também foram influenciados pelo materialismo e pela impossibilidade de conhecer aquilo que está além das percepções naturais e, mesmo crendo em Deus e nos valores morais, pregam que estes jamais podem ser pensados através da razão, mas somente desejados pela fé - ora, a Igreja nunca pregou isso. O fato é que a negação da metafísica exige o uso da própria metafísica, assim como é necessário filosofar se desejarmos argumentar contra a filosofia.
Fonte: Ciência e Fé em Harmonia, Prof. Felipe Aquino, Cléofas, 2012, pgs 116-121.

6 - Teorias mirabolantes:
Diante das inúmeras evidências em favor do Big Bang, alguns dos grandes pensadores ateus de nossos dias estão formulando teorias para não terem de engolir as implicações teístas da descoberta da "Origem do Universo". Algumas delas são:

- O "ricochete cósmico": sugere que o Universo está em expansão e contração contínuas, ajudando a evitar um início definido. Ocorre que não há evidência para um número infinito de explosões! A única coisa que podemos sabe é que o Universo explodiu somente uma vez; não existe matéria suficiente no Universo para que ele continue explodindo indefinidamente; não há matéria suficiente no Universo para fazer com que ele se contraia e venha a explodir novamente - a "teoria do ricochete" contradiz a lei da termodinâmica, supondo que nenhuma energia seria perdida em cada contração e explosão; o Universo não pode suportar um ciclo eterno de expansão e contração - ele já estaria parado, congelado, inerte; um número infinito de explosões é algo verdadeiramente impossível e, havendo um número finito delas, teríamos que explicar de onde veio a primeira de todas - isso não resolve o problema que o Big Bang levanta.

- Tempo imaginário: para evitar o início absoluto, Stepehn Hawking formulou uma teoria que utiliza o "tempo imaginário" - sua teoria pode ser chamada de "teoria imaginária", já que seu teórico afirmou que se trata de uma suposição metafísica que não pode explicar o que aconteceu no tempo real. O próprio Hawking, tendo em vista que quase todo mundo acredita que o Universo e o próprio tempo tiveram origem no Big Bang, sugere o fracasso da sua teoria quando aplicada ao tempo real. Trata-se de apenas um vislumbre imaginativo.

- Incerteza: sendo decisiva a comprovação do início do Universo, muitos ateus passaram a questionar a primeira premissa do argumento cosmológico: a lei da casualidade. A lei da casualidade é o fundamento de toda a ciência e seu questionamento coloca os ateus em uma situação complicada, já que se orgulham tanto de serem os supostos "campeões da razão e da ciência". Seu questionamento toma bases na física quântica, especialmente no princípio da incerteza de Heisenberg - esse princípio aponta a impossibilidade de predizer a posição e a velocidade de partículas subatômicas. Os ateus que tomam base nesse princípio sugerem que, sendo a casualidade desnecessária no reino subatômico, talvez ela também não se aplique ao resto do Universo. Há, porém, um severo erro nesse pressuposto: ele confunde casualidade com previsibilidade. Heisenberg não prova que o movimento dos elétrons não tem causa, apenas afirma que nós não temos a capacidade de predizer a sua posição e velocidade em um determinado momento. A verdade é que os teóricos quânticos reconhecem que é possível que não sejamos capazes de prever simultaneamente a velocidade e a posição dos elétrons, pois a nossa tentativa de observá-los é a própria causa de seu comportamento estranho.

7 - A religião da ciência:
O astrônomo agnóstico Robert Jastrow faz uma interessante observação sobre o comportamento religioso dos cientistas ateus:

"Os teólogos geralmente ficam alegres com a comprovação de que o Universo teve um começo, mas os astrônomos ficam curiosamente perturbados. Suas reações dão uma interessante demonstração da resposta da mente científica, supostamente algo bastante objetivo - quando as provas reveladas pela ciência levam a um conflito com os artigos de fé que professamos. Resulta que os cientistas comportam-se como o resto de nós quando nossas crenças estão em conflito com as provas. Ficamos irritados, fingimos que o conflito não existe ou descrevemos por meio de frases sem sentido." De fato, a sugestão de Atkins sobre os "pontos matemáticos" e a ideia de "energia negativa" de Asimov, se encaixam na percepção de Jastrow.

Einstein também se incomodou com as conclusões de seus estudos: o seu trabalho estava apontando para a ideia de que o Universo teve um começo, possibilidade que o afligia. Jastrow descreve o comportamento de Einstein: "Essa é uma linguagem curiosamente emocional para uma discussão sobre algumas fórmulas matemáticas. Suponho que a ideia de um início do tempo perturbou Einstein por causa de suas implicações teológicas." De fato, os cientistas ateus e panteístas também têm crenças teológicas. 
Fonte: Não Tenho Fé Suficiente Para Ser Ateu, Norman Geisler e Frank Turek, Vida, 2012, pgs 86-89.

8 - Sacrifícios em nome da "deusa Razão":
Não poderia concluir esse artigo sem citar algumas das atrocidades cometidas durante a Revolução Francesa, que pregou uma religião devotada à deusa Razão, um culto que pretendia substituir o cristianismo. Vamos aos fatos:

Inspirados por Russeau, líderes como Robespierre e Danton, tentaram implantar uma utopia na França - sonhavam num sistema no qual somente os mais virtuosos teriam voz. Em nome da causa, os partidários da revolução enfiaram, em 1792, a cabeça da Princesa de Lamballe numa lança, depois dançaram entorno dela. Um ano depois o rei Luís XVI foi guilhotinado - depois foia vez da rainha Maria Antonieta, que nunca disse que "comia brioches" ao saber da fome do povo. Padeiros foram executados por causa do preço do pão, além de carpinteiros, camponeses, mendigos e adolescentes. Louis Saint-Just chegou a afirmar que "A república consiste no extermínio de todos que se opõem a ela." Ele também morreu guilhotinado. Um panfleto da época diz "que nas cidades o sangue dos traidores seja o primeiro holocausto à liberdade."

Em um ano, contando a partir de setembro de 1793, cerca de 40 mil pessoas foram sacrificadas em nome da "nova humanidade" - pelo menos 16 mil delas morreram na guilhotina. Esse total é cerca de cinco vezes o da Inquisição espanhola - o fanatismo por detrás do culto à "deusa Razão" foi, portanto, muito maior do que aquele esteve por detrás da Inquisição. 

No final das contas, até Danton e Robespierre foram guilhotinados. Dez anos depois a monarquia foi restituída por Napoleão, terminando a Revolução com um líder mais despótico que Luís XVI.
Fonte: Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo, Leandro Narloch. Leya, 2013, pgs 258-259.

Consideremos, ainda, o pensamento de alguns dos maiores pensadores do Iluminismo:
- David Hume (1711-1776) e Edward Gibbon (1737-1794) justificaram a prática da escravidão como um preço "lamentável, mas necessário para a civilização". Para Gibbon, a escravidão é "quase justificada pela lei soberana da autopreservação". Hume vai além: "os negros e, em geral, todas as outras espécies de homens (uma vez que há quatro ou cinco tipos diferentes) [são] naturalmente inferiores em relação aos brancos." Immanuel Kant é ainda mais severo: "Os negros da África não possuem, naturalmente, nenhum sentimento maior do que o de brincadeiras."
Fonte: Uma História Politicamente Incorreta da Bíblia, Robert J. Hutchinson, Agir, 2007, pgs 162-163.
- Maquiavel, Thomas Hobbes, Jeremy Bentham e John Austin, entre outros pensadores anticristãos, rejeitaram a ideia dos direitos humanos. Bentham considerava os direitos humanos como sendo "falácias anárquicas"; Maquiavel afirmou que "os homens devem ou ser mimados ou completamente destruídos"; Hobbes tinha como certo que os homens abrissem mão de seus direitos naturais em nome de um Estado totalitário; para Austin, a validade de uma lei reside unicamente no fato de ela ter sido proclamada por um governante.

Outras frases bizarras:
"Se vais às mulheres, não vos esqueçais de vosso chicote." Friedrich Nietzsche. Hutchinson, pg 16.

"O destino da mulher é ser uma devassa, como a cadela, a loba; ela deve pertencer a todos aqueles que a reivindicam." Marquês de Sade.  Hutchinson, pg 87.

"A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística." Joseph Stálin.  Hutchinson, pg 21.

Conclusão:
Fica evidente que a ideia de uma origem para o Universo sempre perturbou os ateus, especialmente até a primeira metade do Séc. XX, sendo preferíveis as percepções de mundo nutridas pelos antigos filósofos gregos. Para fugir das conclusões teológicas inevitáveis do Big Bang, muitos ateus sumariamente censuraram o conhecimento científico de seu tempo e sustentaram, através de teorias bizarras, suas visões de mundo, plenamente baseadas no interesse pessoal, na vaidade e numa luta pessoal contra Deus - e em diversas ocasiões essas vaidades promoveram massacres. Infelizmente muitos ateus ainda fantasiam, afirmando que todos os cristãos são ignorantes e inimigos da ciência e que eles, "os únicos amigos" do Big Bang e da Teoria da Evolução, são íntimos da verdade - o fazem, porém, sem a menor noção de que a história do ateísmo foi continuamente maculada por dogmas e lutas declaradas contra o próprio avanço da ciência. Com base nisso tudo, não é de se estranhar que o neopaganismo tem crescido de modo intenso em países de vasta tradição secular e ateísta. 

Finalizo esse artigo questionando a suposta segurança que os ateus nutrem numa igualmente suposta ciência - será que nós, não passando de máquinas que leem o mundo através de receptores sensoriais e interpretações de nosso cérebro, criaturas que brotaram do acaso e do aleatório, que vivem e pensam com base em impulsos químicos e físicos irracionais, podemos confiar tanto em nossas leituras do mundo? Como podemos ter certeza de que aquilo que nos cerca é real? A verdade é que o tão adorado -mas desprezado- método científico, que, em teoria, sustenta as crenças dos ateus, não pode comprovar a própria ciência - ou a ciência pode ser analisada pelo método científico? Quantas outras crenças que os ateus sustentam e que servem de base para o ateísmo jamais serão atingidas pelo método científico? A quanto ao próprio método?

Natanael Pedro Castoldi

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