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A Ânsia por Desconstrução e a Fraqueza Moral

Pandemonium, John Martin 1841
Em 1910, G. K. Chesterton declarou que o que move o homem moderno para o futuro é tão somente seu medo do passado: ele é regurgitado no presente por seu pavor das reivindicações daqueles que já se foram. "Não há nada de novo debaixo do Sol", já disse Salomão! Repare que isso cabe muito bem para os nossos dias: não sabemos para onde estamos indo, apenas temos em mente de quem fugimos - e escapamos não só das atrocidades jazidas nas areias do tempo, mas das cobranças dos gigantes piedosos cujas vozes ainda chegam à nossa consciência, exigindo retidão. Esse repúdio, travestido de superioridade, nos tem levado a uma insana postura de desconstrução do que se foi, chegando ao absurdo de desabrigar o homem de coisas que sempre o acompanharam na jornada por esse mundo hostil, como a família.
O fato é que o que alguns têm por nobreza na ânsia de mudar o presente sempre desconstruindo o passado, eu tenho por preguiça mental e fraqueza moral. Se a cerca de uma propriedade está demarcada de modo errado, ao invés de corrigirem o caso específico, nossos pensadores irão sugerir o fim de todas as cercas do mundo. Essa é outra forma de dizer que, se há um problema com a pobreza, tendemos a empobrecer a todos e não a gerar mais riqueza; se há um problema de ordem sexual, como o machismo, tendemos a relativizar a sexualidade de todo mundo e não a discutir o caso específico; se há um discurso ofensivo para um segmento da sociedade, tendemos a minar toda a liberdade de expressão e não fortalecer a Justiça, o diálogo e a educação - para corrigir a ofensa a uns poucos, ofendemos a todos; se algumas pessoas são mortas por facas, tendemos a proibir o porte de armas brancas e não a investir em segurança e na Justiça; se algumas crianças são indesejadas, tendemos a diminuir o valor de toda a vida humana para justificar o aborto e não a fomentar a valorização dos pequenos; se alguns indivíduos não se enquadram no padrão da família nuclear, tendemos a aniquilar esse conceito de família, assim como procuramos generalizar o sentimento de orfandade porque algumas crianças não possuem pai. Noutras palavras: se tivermos que levar consolo ao adoentado, provavelmente o faremos disseminado a sua enfermidade entre todos nós e não militando pelo seu tratamento.
Nossa sociedade é tremendamente pessimista! Não consigo ver sensatez no anseio por retirar de todos aquilo que alguns não têm. Retomando o que Chesterton disse, noutras palavras: não queremos mais coisas definidas não pelo fato que somos muito audazes, mas por que somos muito fracos.
Caro leitor, quem corre de costas, observando apavorado os leões do passado que o perseguem, pode estar se dirigindo para o abismo sem perceber - e depois que cair, não haverá retorno. As Escrituras nos mostram que nos momentos mais tenebrosos da história de Israel, os profetas fizeram o povo olhar para trás, avaliar seus passos, descobrir onde erraram e, assim, realinhar sua caminhada em direção ao Eterno. Mas eles só puderam fazer isso por que não lançaram na fogueira suas tradições e a sua própria história. Sigamos esse exemplo! Se nossas apostas no futuro fracassarem, que referencial de mudança teremos se tivermos deixado pelo caminho apenas ruína e deformidade? Não removamos os marcos antigos! (Pv 23:10)

Natanael Pedro Castoldi

Publicado no Jornal Opinião, Encantado, Rio Grande do Sul, 14/08/2015

Como Resistir ao Curso de Nosso Mundo

Índice: 1 - O conceito de Verdade Absoluta; 2 - Moralidade; 3 - Deus; 4 - Defesa da Fé Cristã; 5 - Fortalecimento dos vínculos na Igreja; 6 - Fortalecimento dos vínculos familiares e das amizades; 7 - Valorização da pátria; 8 - Cultura; 9 - Ação social; 10 - Devoção individual

Cada vez mais tenho percebido a complexidade dos problemas que a Igreja está enfrentando e projetado um futuro de complicações ainda maiores. Nossa civilização está definhando. Sinto que nós, como cristãos, não teremos muito o que fazer diante do quadro que se levanta, tendo em mente a resistência doutrinária e moral até o limite, seja ele qual for, mas isso não significa que não possamos encontrar meios de viver de modo mais saudável e frutífero nesse "vale da sombra da morte" - é nobre da nossa parte "combater o bom combate", 2 Timóteo 4:7, preservando o que pudermos da Verdade, da moral, da integridade humana. Tendo em mente o crescente relativismo, que levou ao ceticismo e agora desemboca numa puramente estética cultura hedonista, que visa a maximização do prazer e a minimização da dor, infectando a comunicação do homem consigo mesmo e as suas relações com a natureza, outros seres humanos e bens de consumo - quando o próximo não é tido também como um "bem a ser consumido" -, entendendo que não podemos simplesmente viver sem reflexão, sem foco, sem prioridades, pois a ausência de prioridades nos tornará vulneráveis, formulei uma lista de 10 pontos que eu considero serem de especial relevância para o depósito de nossas energias físicas e intelectuais, almejando a transformação do mundo que nos cerca. Que esse esboço te sirva de inspiração e norte para se organizar na defesa do Evangelho e da própria humanidade.

1 - O conceito de Verdade Absoluta: 
É no relativismo que se baseia a nossa cultura hedonista. Quando se pensa que tudo é igualmente verdadeiro e, portanto, falso, não há nada sólido no que se apegar, restando o desespero e o enfoque nos prazeres anestésicos, que distraem. Sem um senso de Verdade Absoluta, o ser humano não encontra sentido para resistir aos seus impulsos bestiais e a vida, nessa espécie de niilismo que não lhe atribui valor e motivação de ser, só é bem vivida se resumida à banalidade, ao estágio animal do ser, ao que não nos diferencia dos outros animais. Isso suprime a moral e a própria crença em Deus, que podem ser desacreditados ou igualmente relativizados em distorções sem sentido. Uma sociedade que não encontra nenhum fundamento sólido sob o qual se estabelecer, está destinada à selvageria, à barbárie. Nossa ênfase inicial diante dos homens, portanto, deve residir na defesa racional da Verdade Absoluta pura e simples.

A civilização grega já experimentou algo parecido com o que temos visto acontecer em nosso mundo ocidental. Seus filósofos mais famosos, como Aristóteles e Platão, forneceram bases morais sólidas justificadas pela suficiência da Razão, do Logos, para a construção da civilização, fundamentos que, afastando a barbárie, puderam organizar a sociedade para o benefício dos homens. Uma demonstração de como o Logos, pensado para justificar a moral, suprimiu a barbárie, está na crítica que esses filósofos fizeram aos deuses do velho panteão grego, tidos como inaceitáveis por sua imoralidade. O desenvolvimento dessa civilização e o crescente ócio levou à ascensão dos céticos e sofistas, que começaram a minar a ideia de que existe uma Verdade que pode ser conhecida fazendo uso da Razão. Aniquilando o conceito de Razão, os sofistas e céticos propiciaram um severo declínio da civilização grega. Foram os cristãos, especialmente o apóstolo João e os Pais da Igreja, que resgataram o conceito de Razão, de Logos, da possibilidade de se encontrar a Verdade Absoluta para sustentar a fé e a moralidade, vindo a salvar tanto a filosofia grega, quanto a própria Civilização Ocidental. Parece-me que mais uma vez esse encargo será nosso.
Fonte: O Livro que Fez o Seu Mundo, Vishal Mangalwadi, Vida, 2013, pgs 103-119.

Vale ressaltar que foi com o abandono da ideia de uma Verdade Absoluta e a resultante degeneração moral, que os epicuristas e cínicos ganharam espaço. Os cínicos, em especial, viviam basicamente regidos por seus instintos mais básicos e eram conhecidos, inclusive, por evacuarem em público. Os epicuristas, por sua vez, tinham o corpo físico como inferior e, portanto, destruíam-no submetendo-o a todo o tipo de depravação. A mentalidade hedonista que permeou esses movimentos também aparece em gente como o francês Marquês de Sade, de quem se tirou a palavra "sádico". Sem ter uma base de verdade na qual se situar, Sade afirmou que os seres humanos são "Criaturas lastimáveis atiradas por um momento sobre a superfície dessa pequena poça de lama" - não é de se surpreender, portanto, que ele tenha defendido o aborto e o infanticídio. Não é curioso como, com o retorno do hedonismo, o aborto, o infanticídio, a pedofilia, a zoofilia e outros comportamentos outrora silenciados,estejam retornando com força argumentativa e determinada aceitação?

Céticos como David Hume (1711-1776) e Edward Gibbon (1737-1794) justificaram a prática da escravidão como um preço "lamentável, mas necessário para a civilização". Para Gibbon, a escravidão é "quase justificada pela lei soberana da autopreservação". Hume vai além: "os negros e, em geral, todas as outras espécies de homens (uma vez que há quatro ou cinco tipos diferentes) [são] naturalmente inferiores em relação aos brancos." Immanuel Kant é ainda mais severo: "Os negros da África não possuem, naturalmente, nenhum sentimento maior do que o de brincadeiras." 

Maquiavel, Thomas Hobbes, Jeremy Bentham e John Austin, entre outros pensadores anticristãos, rejeitaram a ideia dos direitos humanos. Bentham considerava os direitos humanos como sendo "falácias anárquicas"; Maquiavel afirmou que "os homens devem ou ser mimados ou completamente destruídos"; Hobbes tinha como certo que os homens abrissem mão de seus direitos naturais em nome de um Estado totalitário; para Austin, a validade de uma lei reside unicamente no fato de ela ter sido proclamada por um governante.

Outros resultados da descrença numa Verdade Absoluta que sustente a moral:
"Se vais às mulheres, não vos esqueçais de vosso chicote." Friedrich Nietzsche.
"O destino da mulher é ser uma devassa, como a cadela, a loba; ela deve pertencer a todos aqueles que a reivindicam." Marquês de Sade. 
"A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística." Joseph Stálin.
Fontes: Uma História Politicamente Incorreta da Bíblia, Robert J. Hutchinson, Agir, 2007, pgs 16, 21, 87, 97 e 62-163; O Jesus Fabricado, Craig Evans, Cultura Cristã, 2009, pgs 95-100.

Um argumento muito simples para se defender a Verdade Absoluta pode ser encontrado no livro "Não Tenho Fé Suficiente Para Ser Ateu", de Norman Geisler e Frank Turek, Vida, 2012, que torna questionável a suposta verdade de que não existe verdade absoluta. Segue um resumo da lógica dos autores que eu publiquei no Facebook:

"É engraçado quando alguém afirma que é moralmente correto defender o relativismo moral (é certo dizer que não existe 'certo e errado'?), que é verdade que não existe Verdade Absoluta, ou que é coerente valorizar e definir a inexistência de 'valores absolutos'. Isso tudo é o mesmo que usar da razão para afirmar que só existe o 'irracional' ou, vestindo verde, bradar que tudo o que existe é azul! Você diz que não podemos desferir julgamentos? Então acaba de julgar meu juízo."

Para defender esse ponto, parece-me suficiente disseminar esse tipo de raciocínio, fazendo teus conhecidos refletirem. É interessante, também, observar as ocasiões nas quais os relativistas - qualquer indivíduo que não possa sustentar um padrão moral por meio de suas crenças - se contradizem desferindo julgamentos morais e de valor, e aproveitar tais circunstâncias para acusar a falha e ilustrar a irracionalidade de sua postura.

2 - Moralidade:
Enfatizada a ideia de uma Verdade Absoluta, de um fundamento para a existência, possibilita-se a reflexão sobre um padrão moral estabelecido. Como já trabalhado no ponto anterior, o relativismo, quando irradiado para a moralidade, só pode resultar em caos moral e retorno à barbárie, pois não sobra sustentação alguma para aquilo que é "Certo e Errado". Søren Kierkegaard categorizou o ser humano em três níveis: o banal, que é um estágio infantilizado, regido pelo imediato e pelo instinto animal; o moral, que é quando o homem percebe que existe um padrão de moralidade a ser respeitado e, considerando a suas exigências, decide embasá-lo em Deus ou regressa ao estágio da banalidade; e o estágio religioso, onde a moralidade se sustenta. Se desejamos fazer do homem uma criatura mais humana, tirando-o da "ação e reação" do estágio bestial, precisamos apresentar-lhe a proposta moral. É aqui que se começa a vencer o hedonismo - reconhece-se que há algo que impele o homem a abster-se de certos prazeres em momentos em favor de algo maior.

A moral é universal e todos os seres humanos possuem, em si, um senso de "Certo e Errado", que podem ou não ouvir. Esse sendo moral, com suas exigências, é por muitos parcialmente suprimido por vícios e artifícios de prazer, que anestesiam a consciência, cauterizando-a, mas, ainda que a culpa se amenize diante da transgressão, o entendimento racional do erro prossegue consciente. Quando falamos da moralidade, portanto, estamos atingindo o âmago de todo e qualquer ser humano e, querendo ou não, despertando em qualquer ouvinte um proveitoso conflito interno. Diante desse conflito, muitos respondem com exageradas intelectualizações e filosofias que possam embasar a prática do abominável, o que é esperado e deve ser respeitado, embora respondido com refutações apropriadas. No final das contas, a melhor forma de argumentar a validade da moralidade está num comportamento moralmente reto - todas as pessoas sabem distinguir quando somos coerentes e acham isso benéfico -, assim como, na defesa da Verdade Absoluta, eu não posso me comportar como um relativista, embora seja saudável estar aberto ao diálogo.

Entre os séculos XVII e XVIII, a Inglaterra mergulhou no caos moral resultante de uma sequência lógica de mentalidade: deísmo, racionalismo, ceticismo, ateísmo e, por fim, cinismo. Nesse período, com os clérigos silenciados e a Bíblia fechada, o tráfico de escravos de intensificou, o trabalho passou a ser visto como indigno, a corrupção se alastrou em todos os setores da sociedade, passou a haver severa exploração da classe dominante por sobre os mais pobres, houve piora no cuidado das crianças e maior mortalidade infantil, presenciou-se o alastrar do alcoolismo, da jogatina, da prostituição, da violência, dos assaltos e do assassinato, percebeu-se a ocorrência de fornicação inclusive em locais públicos e durante o dia, desencadeou-se a popularização de lutas entre homens e rinhas de animais, incluindo leões e ursos, testemunhou-se a deterioração da vida acadêmica... o fechamento da Bíblia, portanto, produziu apenas impiedade, ignorância e selvageria. Isso se comprovou, pois John Wesley, ao reapresentar as Escrituras para o povo e pros acadêmicos ingleses, levou a Inglaterra a um reavivamento moral e espiritual que a privou de acabar com uma revolução como a francesa que, sem uma base moral sólida, culminou no extermínio cerca de 40 mil pessoas dentro de apenas um ano.
Fonte: O Livro que Fez o Seu Mundo, Vishal Mangalwadi, Vida, 2013, pgs 302-317.

O declínio moral, que acompanha uma fase estética, sensorial, é, em diversas ocasiões, indício de que uma civilização está chegando ao seu fim. Quando os valores mais elevados são abandonados e as pessoas, envoltas em ceticismo, começam a ocupar-se apenas com o suprir dos anseios animais e com a estética, os anos da civilização da qual fazem parte estão contados. 

Nos últimos séculos do Império Romano, a moral sexual estava profundamente degradada. A promiscuidade generalizada, segundo o satírico Juvenal, levou Roma, inclusive, a abandonar a sua deusa "Castidade". Ovídio observou que as práticas sexuais tinham se rebaixado a um nível especialmente perverso, chegando ao sádico. Tácito, no Século II, afirmava que encontrar uma mulher virgem era algo raríssimo. Um exemplo do lento crepúsculo estético que encaminhou Roma para o colapso também pode ser encontrado em Juvenal, quando este declarou que "se espalhavam como praga" jovens efeminados que vestiam cores vivas e usavam perfumes adocicados, além de rasparem todos os pelos do corpo para exalarem mais jovialidade.
Fontes: Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, Thomas E. Woods Jr., Quadrante, 2008, pg 199; Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo, Leandro Narloch, LeYa, 2013, pg 19.

Um dos exemplos mais claros daquilo que pode acontecer quando não é possível sustentar a moral objetiva está no Século XX, evidente nas movimentações do comunismo, como o Prof. Felipe Aquino define:

"As filosofias de fundo ateísta, como por exemplo o racionalismo do século XIX; o marxismo - comunismo e nazismo, são perigosas porque alimentam sistemas desumanos que não respeitam a dignidade da pessoa humana, como mostrou muito bem a história recente do século XX. Dezenas de milhões foram assassinados no século XX em nome dessas ideologias sem Deus. A negação de Deus leva ao desprezo pelo homem."

Karl Marx (1818-1883) percebia que o ateísmo era essencial para o comunismo se instalar - "O comunismo começa no ateísmo." (K. Marx. Colectânea, über Religion und Kirche. Moscovo 1977, p. 7) -, pois, como ele reconhecia, "há verdades eternas que precisam ser suprimidas", o que não seria possível se houvesse uma sustentação sólida para a moralidade:

"Há verdades eternas como a liberdade, a justiça, etc. Mas o comunismo suprimirá estas verdades eternas, abolirá a religião e a moral em vez de as reorganizar. O comunismo contradiz, portanto a evolução histórica que conhecemos até agora. Seja sob que forma for a exploração foi uma realidade em todas as épocas. A Revolução Comunista é a ruptura mais radical com todas as formas tradicionais de propriedade. Portanto não é de admirar que rompa de maneira tão radical com as ideias tradicionais." (Manifest der Kommunist Partei. in: Reclam Stgt., 1969, p. 45-46).

Sua mentalidade só poderia acarretar nas seguintes máximas: 
"O que é verdadeiro não é já a realidade, mas sim o que me é útil."; "O que é útil para os russos é com, digo abertamente que pomos a violência e a mentira ao nosso serviço." (Die Bibel der Welt. Nr. 4, 1978); "O nosso inimigo é Deus. O ódio a Deus é o princípio da sabedoria."; "Odeio qualquer Deus." (Seg. Giordani. The polit. Atheism: C. Boyer, Philos, of Comm. N.Y., 52.p. 134; Differenz d. demokr. Und epikureischer Naturphilos.: ME. Vol I-1, p.10).

Não é de se admirar que essa percepção de mundo, compartilhada por Lênin, Joseph Stálin e Adolf Hitler, tenha custado, só na URSS, 49 milhões de vidas - sem contar os mortos em batalha. Segundo o Livro Negro do Comunismo, de Stéphane Courtois, o comunismo causou a morte de 100 milhões de pessoas - só na China foram 63 milhões e, na Rússia, 20 milhões. A Comissão sobre Repressão, governo russo, afirma que só os bolchevistas mataram, pelo menos, 43 milhões de pessoas entre 1917 e 1953. Segundo a agência católica Zenit, o comunismo da Coréia do Norte matou de fome 3,5 milhões de pessoas.
Fonte: Fé e Ciência em Harmonia, Prof. Felipe Aquino, Cléofas, 2012, pgs 122-135 e 143.

A preservação da moral objetiva comprovou-se, portanto, essencial para a sobrevivência da nossa civilização, tornando a sua defesa imprescindível para o bom cristão. Uma das formas mais eficazes de demonstrar o valor de se nutrir um padrão moral está na disseminação dos fatos históricos que demonstram o perigo de abandoná-lo. Uma segunda maneira de defender a Lei Natural está na constante acusação e reprovação, justificada, da imoralidade que se expressa em eventos, notícias, literaturas e nas demais formas de arte. Outra abordagem interessante reside no evidenciar de que, de fato, existe uma moral objetiva partilhada entre todos os seres humanos a qual, não encontrando nenhuma fonte de origem no mundo natural, necessariamente veio do próprio Deus e, portanto, precisa ser obedecida. Leia mais sobre isso no seguinte artigo do EOMEAB: Origens: A Moralidade Humana.

3 - Deus:
Conforme Kierkegaard, o estágio mais elevado da existência humana é o religioso, que deve resultar do estágio transitório da Lei, da moral, que, ou aponta para Deus para sustentar-se, ou retrocede para o estágio banal. É necessário, portanto, que os cristãos, diante de uma sociedade hedonista, profundamente encorada no estágio banal, apresentem propostas de mundo morais e de benefício evidente com tanta ou maior ênfase do que defendam a existência do Criador e Legislador, produzindo a antessala da fé. Mas, que fique claro, é impossível defender a moral objetiva sem a ideia de Deus, do contrário, a moralidade não passa de convenção social, não havendo empecilho nenhum, além do incômodo diante dos outros, para burlá-la.

Somente quando as pessoas reconhecem a existência do Criador, é que elas encontram base suficiente para sustentar um comportamento moral. Além disso, sem Deus, não há razão clara para se viver, resultando em falta de esperança e angústia que, para ser suprimida, exige o anestésico dos contínuos prazeres bestiais. Evidências claras de como a ausência de uma percepção de divindade acarreta em desespero estão na quantidade de suicídios de jovens que leram Werther, de Goethe; no fato de Marcuse também ter levado jovens à morte; no pessimismo e na tristeza disseminados por Schopenhauer; na percepção de Jean Paul Sartre sobre a vida, como algo estúpido e uma agonia sem sentido; no complexo de inferioridade sustentado no pensamento do estoico Zenão; e no relato da jovem que, depois de ler "A Nova Heloísa", de Russeau, estourou a própria cabeça em uma praça de Genebra. Além disso, diversas condenações resultaram da influência d'A Comédia Humana, de Balzac. Todos esses são filósofos desprovidos de fé e, portanto, incapazes de discernir o sofrimento num mundo sem sentido. Em oposição a isso, a atitude positiva dos cristãos diante da vida é que levou o suicídio, que na Antiguidade era considerado o fim mais honroso para o estoico, a uma posição de rejeição, conforme Agostinho: "Grandeza de espírito não é o termo correto para designar alguém que se mata por lhe faltar coragem para enfrentar o sofrimento ou as injustiças dos outros." Não é de se estranhar que cada vez mais as pessoas estão optando por tirar a própria vida, conforme a sociedade se seculariza e paganiza.
Fontes: Ciência e Fé em Harmonia, Prof. Felipe Aquino, Cléofas, 2012, pgs 122-123; Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, Thomas E. Woods Jr., Quadrante, 2008, pg 192.

Vale ressaltar que o Século XX, no qual foram mortas mais pessoas do que nos 19 séculos anteriores somados, foi o primeiro século no qual Deus foi rejeitado no mundo acadêmico, na política e na educação das crianças.
Fonte: Por Que Confiar na Bíblia?, Amy Orr-Ewing, Ultimato, 2008, pg 101.

Para contrastar com aquilo que foi exposto sobre a carência de motivação pró-vida que geralmente reside na descrença - reforço o "geralmente" - é interessante apontar para a generosidade daqueles que creem, como evidência de uma percepção de mundo mais otimista. Apenas um exemplo para ilustrar tal alegação: segundo a Gallup Organization, indivíduos praticantes de alguma forma de religião doam dois terços do total de 280 bilhões de dólares de filantropia que circulam anualmente nos Estados Unidos, o que dá 185 bilhões - as fundações doam 25 bilhões e as corporações norte-americanas, 9 bilhões. O amor cristão já é reconhecido desde o início da Era Cristã, conforme observou Pacômio, um soldado pagão que presenciou a caridade cristã quando, no Século IV, doença e fome assolaram os exércitos de Constantino - a verdade é que um dos motivos que levaram o imperador a oficializar o cristianismo no Império Romano foi o tratamento humanitário que os cristãos destinavam a todos, sem discernir religião, raça ou povo. Um estudo completo sobre o tema você encontrará no seguinte artigo do EOMEAB: A Fé e os Seus Benefícios Para a Sociedade.
Fonte: Uma História Politicamente Incorreta da Bíblia, Robert J. Hutchinson, Agir, 2012, pg 99; Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, Thomas E. Woods Jr., Quadrante, 2008, pg 159; Uma Breve História do Cristianismo, Geoffrey Blainey, Fundamento, 2011, pgs 55-59.

Quando, porém, falamos de argumentar em favor da existência de Deus, estamos pensando no Deus Criador, onipotente, onisciente e onipresente, que pode justificar a existência do mundo natural e sua complexidade absurda partindo do Nada. Um Deus Criador, eterno, imutável. Não se trata, portanto, do deus inexistente do panteísmo que, ao afirmar que "tudo é Deus", declara que "Deus é nada", e nem uma divindade criada de algum politeísmo qualquer. Precisamos de um Deus que pode ser a fonte da moral humana. A defesa dessa ideia vital reside numa argumentação filosófica da existência de Deus, no estudo e divulgação de evidências científicas que atestem para a existência de um Criador - criacionismo, Design Inteligente ou evolucionismo teísta - e na própria preservação de uma fé inabalável no Deus que nos está revelado nas Escrituras. Uma vida de fé, que move o sobrenatural, transmite autenticidade e é, por si só, evidência de que o Criador existe. Quando levamos os outros ao entendimento de que Deus existe e lhes oferecemos o Evangelho, proporcionamos uma base sólida de esperança, identidade e razão de viver e agir de modo moralmente correto.

4 - Defesa da Fé Cristã:
Quem sai do estágio da banalidade para o ético e, então, para o religioso, há de se surpreender ao encontrar nas Escrituras um tratado extremamente coerente sobre aquilo que, em seu coração, de certo modo, já sabia ser "Certo e Errado", e sobre o Deus Criador. Deus é ser de outra instância, único e exclusivo em Si mesmo, de modo que ninguém além dEle pode revelá-Lo, logo, é de se esperar que o Seu conhecimento esteja disposto em revelação que, no caso, é escrita. Não somos relativistas, então não podemos cair no vazio pluralismo religioso que, ao afirmar que todas as religiões e divindades estão certas, deixa entendido que nenhuma é verdadeira. O cristão acredita num único Deus e defende a Bíblia como a Sua revelação.

Quando defendemos a veracidade das Escrituras, procuramos demonstrar que, de fato, ela brota do próprio e único Deus. Isso se faz através, primeiramente, de um profundo estudo da Palavra em si (1), embasado numa vida devocional frutífera e de zelosa erudição. Ninguém que não maneje bem a Bíblia é capaz de defendê-la e, assim, acastelar a fé cristã. Além do estudo do texto em si, faz-se necessário o conhecimento da teologia cristã em toda a sua tradição histórica (2), além das confissões e credos cristãos que foram formulados ao longo dos tempos. Esse ponto nos incentiva a ter uma noção adequada da História da Igreja - e pode exigir um estudo da História de Israel no Antigo Testamento. Sendo as histórias de Israel e da Igreja (3) profundamente entrelaçadas com a História Mundial (4), uma defesa coerente da fé cristã demanda um bom conhecimento de história do mundo e, especialmente, das raízes e do desenvolvimento da Civilização Ocidental (5) - precisamos aprender a defender a nossa fé de uma forma que seja compatível com a nossa cultura. Quando falamos de Civilização Ocidental, lembramo-nos, especialmente, de filosofia, política, moralidade e ciência (6), e essas são quatro esferas para as quais deve ser canalizada grande parte de nossa dedicação. É notável, ao estudarmos a História da Civilização Ocidental, como a Igreja desenvolveu a filosofia, permeou grandes movimentos políticos, fundamentou revoluções morais e deu base para a própria ciência moderna. Se você observar a influência positiva da cosmovisão bíblica no trabalho, na tecnologia, na formulação dos Direitos Humanos, no direito, na arte, na economia, na arquitetura, na política, e em todas as esferas fundamentais da civilização e for capaz de transmitir isso, estará disseminando a ideia de que o cristianismo, quando essencialmente bíblico, possui uma proposta sólida, completa e desejável de civilização.

Nesse momento, porém, poderá se deparar com objeções baseadas em movimentações aparentemente vis ou decididamente antibíblicas da igreja ao longo da história (7) - quando isso acontecer, verifique se há motivações históricas que possam levantar alguma justificativa, mas saiba ser humilde em reconhecer a falta e apontar para a contradição da prática com a teoria contida na Escritura. Outras objeções que podem ser levantadas residem em supostos versículos difíceis da Palavra, que aparentemente sugerem um Deus mau - nesses casos, é da maior importância conhecer os estilos literários contidos na Bíblia (sátira, poesia, narrativa histórica, dentre outros) e as singularidades de cada estilo na cultura judaica (8), além de discernir a autoria e motivação de cada passagem dentro de seu contexto. É importante saber interpretar corretamente os versículos fazendo uso da exegese e da hermenêutica e comparando-os com outros trechos das Escrituras (9). Um entendimento dos costumes e dos momentos históricos dos períodos problemático pode auxiliar numa interpretação coerente (10), além do domínio de recursos que facilitem a compreensão conforme o uso na língua original (11), podendo ser hebraico, aramaico ou grego. Existem excelentes comentários bíblicos, dicionários e bíblias de estudo para auxiliar nessa empreitada, além de bons livros sobre dificuldades e supostas contradições da Bíblia. Tenha em mente a infalibilidade das Escrituras.

A noção profunda da Palavra é, mais do que para que ela seja defendida, interessante para o discernimento da essência da fé cristã: o que está no cerne, o que é indiscutível, e o que é discutível e não demanda tanta energia para discussão. A noção ampla e integral das Escrituras, além de nortear a nossa conduta cristã, suprindo e orientando, como Palavra de Deus, a nossa moral (12), pode promover a aproximação de confissões de fé semelhantes e é de suma importância no combate das heresias e distorções da fé. Por isso, também, é pertinente conhecer a História da Igreja e o tema da heresiologia, já que as mesmas heresias sempre acabam voltando.

A Igreja tem um papel vital na sociedade, considerando tudo o que já foi trabalhado até o momento, então não me parece suficiente para o cristão simplesmente se ater na ideia de que a salvação é individual e seguir indiferente. A Congregação dos Crentes tem potencial para transformar a sociedade para melhor - e ao longo da história comumente fez isso -, de modo que, permitir que heresias envenenem-na, infestando-a da mentalidade esteticista e hedonista do presente século, instalando em seu seio os tumores do escândalo, da manipulação e da corrupção, advindos de severas distorções da Verdade, é o mesmo que sentenciar-nos à inefetividade social. Se não fossem os polemistas, provavelmente o cristianismo genuíno teria sucumbido às heresias já nos primeiros séculos de sua existência. Temos uma proposta completa e valorosa de civilização para oferecer e não podemos permitir que movimento sectários maculem nossa imagem e produzam mais resistência do que já existe naturalmente. Nesse ponto, precisaremos mais de polemistas do que de apologetas: que saibamos, com critério, expor publicamente aquilo que, mesmo dizendo-se de Cristo, é diabólico, fazendo com que a sociedade consiga diferenciar o que é cristianismo e o que não é. Parece-me que duas das melhores formas de fazer isso é viver de modo coerente com as Escrituras e expressar publica e rotineiramente, sob uma configuração clara e sucinta, quem é que Cristo foi o que Ele realmente ensinou, introjetando nas pessoas, aos poucos, a compreensão do que, de fato, é a fé cristã - que Jesus seja o centro das atenções e que o Seu amor e a Sua salvação sejam apresentados insistentemente.

Um complemento importante para a lida com as heresias e seitas está no entendimento geral das religiões, crenças e crendices mais significativas do mundo e, em especial, do Brasil (13). A compreensão das diferentes cosmovisões religiosas e o discernimento das suas bases possibilita a comparação dessas religiões com o cristianismo e, através disso, a verificação da razoabilidade da fé cristã, principalmente se considerarmos pontos como a Criação e a moralidade universal. É muito importante entender algo sobre a história e a configuração de outras religiões, pois a defesa da fé cristã exige diálogo (14).

Assim como é necessário que o defensor da fé esteja familiarizado com os grandes nomes da apologética cristã (C. S. Lewis, Chesterton, Pascal, Kierkegaard, Schaeffer, Rookmaaker, Craig, McDowell, Yancey, dentre outros), é pertinente que conheça os argumentos mais comuns que os céticos têm lançado contra a Igreja, a Bíblia, a existência de Deus, a Verdade Absoluta e a Lei Natural (15). Confrontar o ceticismo é importantíssimo, pois é esse tipo de mentalidade que tem alimentado o hedonismo. Desde o início da Era Cristã, a Igreja tem ampliado seu espaço de atuação com o apoio da apologética e com base no confronto das acusações desferidas contra ela, e tem sido assim ao longo de toda a história eclesiástica. Nossa efetividade depende muito de como as pessoas vêem o cristianismo - e nós podemos propiciar uma visão menos turva removendo o máximo de bloqueios que têm sido erigidos contra o seu alastrar. Normalmente, as acusações contra a Igreja se resolvem com um bom entendimento de teologia e da história cristã; as acusações contra a Bíblia se resolvem com uma análise da autoria, do processo de redação e da preservação do texto bíblico, assim como da distância entre os originais e as cópias mais antigas, do número de manuscritos existentes, da Crítica Textual, da Arqueologia Bíblica e doutras evidências para a historicidade e integridade das Escrituras, enfocando nas constatações em favor da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo; as questões da existência de Deus geralmente se solucionam com a demonstração de uma Verdade Absoluta, no uso da boa filosofia e ciência para apontar para a necessidade do Criador, e na própria evidência interna da Palavra, como o cumprimento das profecias; as acusações contra a Lei Natural podem ser facilmente solucionadas quando se aponta para a existência de Deus e da Verdade Absoluta, e da demonstração da existência de um padrão moral universal e da impossibilidade de ele ter sido extraído da natureza.

Algumas precauções são interessantes para a defesa da fé: apenas use fontes confiáveis, evitando vídeos e artigos sensacionalistas; nutra a disposição para um diálogo amoroso, e não uma afronta agressiva que venha a macular a imagem dos cristãos e afastar aquele com quem conversa sobre a fé, uma vez que o objetivo sumo da apologética é evangelístico, por isso ela deve ser, sempre que possível, cristocêntrica; e cuide para não criar um "Deus das lacunas", tornando evidência da existência do Criador qualquer coisa que a ciência ainda não tenha conseguido explicar, pois é possível que as explicações, cedo ou tarde, sejam apresentadas. O objetivo do cristão apologeta não é destruir forçadamente outro sistema de crença, mas apresentar a sua contraposição, oferecer uma alternativa, criticar respeitosamente e levantar questionamentos, sempre valorizando o ser humano acima da discussão.

Alguns cristãos podem ter esse ponto como exageradamente exaustivo, mas são requisitos nossos o conhecimento da Palavra - 2 Timóteo 2:15 - e a capacidade de explicar a "razão da nossa esperança" quando questionados - 1 Pedro 3:15. Infelizmente, a ideia hedonista da maximização do prazer e da minimização do esforço já penetrou na igreja e tem levado a maioria dos cristãos a supervalorizar a emoção e a experiência de euforia e a desprezar a profundidade do conhecimento da Bíblia e dos conhecimentos que podem favorecer o esclarecimento da Palavra diante daqueles que não são cristãos. Uma forma de lutar contra a cultura hedonista pode começar aqui: abrindo mão da preguiça e se disciplinando na busca por conhecimento e capacitação. O saber é uma das nossas mais poderosas armas! O entendimento das Escrituras historicamente promoveu as mudanças mais significativas no Ocidente, por favorecer a ideia de Deus e da Lei Natural sustentada inquestionavelmente no evento histórico da Ressurreição de Cristo, que veio ao mundo para nos salvar das consequências do afastamento do Criador por meio do Seu sangue, mostrando que somos amados e que nEle e para Ele temos razão de ser e viver, daqui para a eternidade - e é esse senso de eternidade que possibilita que vivamos distantes da agonia da desesperança, agonia que leva ao desespero que, por sua vez, precisa ser silenciado com o saciar dos prazeres carnais. Mas tudo isso é revelação e só se encontra na Bíblia, e é por isso que não podemos assistir passivamente à sociedade a desprezando - nós sabemos das consequências desse tipo de comportamento. Segue um trecho do artigo do EOMEAB de nome "Como a Bíblia Salvou a Razão":

"Uma história engraçada sobre a Bíblia se deu quando o rei Henrique VIII, pensando que o povo ficaria mais submisso ao ter acesso às Escrituras, presenteou cada paróquia com uma Bíblia em inglês. O resultado lhe foi desastroso: com a Bíblia acessível, as tabernas e cervejarias da Inglaterra se tornaram sociedades de debate - as pessoas começaram a questionar e julgar cada tradição da Igreja e decisão do rei. As autoridade religiosas e políticas foram analisadas criticamente. Essa grande revolução intelectual se espalhou por todos os cidadãos alfabetizados, não se restringido ao ambiente acadêmico. Todos os aspectos da vida foram atingidos pelo instigar da mente do povo, desde a área social e política, até as vias econômicas - note que, uma vez que os ingleses começaram a usar a lógica para interpretar a Bíblia, foram impelidos para a dianteira da política, da economia e do pensamento mundial. Nos dias de Henrique VIII, as potências mundiais eram as nações católicas de Portugal, Espanha e França, mas algo colocou povos protestantes muito menores, como Inglaterra e a Holanda, na frente delas - e isso não se explica apenas com 'armas, germes e aço'." Que nos sirva de lição!
Fonte: O Livro que Fez o Seu Mundo, Vishal Mangalwadi, Vida, 2013, pgs 114-115.

5 - Fortalecimento dos vínculos na Igreja:
Para combater a cultura hedonista que promove o caos, a Igreja precisa reconhecer, primeiramente, o quanto ela já foi infectada por ela. Deve-se verificar a existência dos erros de ter a emoção como fator de definição doutrinária, de objetificar o outro, de ter por certo aquilo que promove sensações boas, de perceber o amor como sentimentalismo e algo que não exige compromisso. Aqui retorna o papel de todos nós, conscientes da mensagem cristã, como polemistas.

Somente uma Igreja que se move numa sintonia diferente daquela que rege mundo derredor pode ser efetiva. Nossa sociedade hedonista, da maximização do prazer e minimização do esforço, é incapaz de sustentar vínculos duradouros entre as pessoas, já que a ideia presente para o relacionamento reside no uso do outro e no afastamento quando os inevitáveis incômodos surgirem. Para combater essa mentalidade é da maior relevância que os cristãos se interessem em encontros e em manterem-se reunidos mesmo depois dos conflitos que surgirem, sendo aperfeiçoados e aprendendo a resistir aos seus impulsos bestiais de desintegração grupal. Lutar contra o egoísmo e orgulho, submetendo-se em humildade ao próximo e ao Criador, é essencial para a vida reta exigida do cristão e isso torna-se possível na preservação da vida em comunidade.

É nessa comunidade que buscaremos força e suporte para viver e sobreviver num mundo regido pela banalidade - a Igreja será, portanto, um recanto onde os relacionamentos, situados em Cristo, poderão atingir níveis mais profundos. A Comunidade Cristã, então, seguirá como um bastião das relações genuínas e naturais, que não se desfalecem mediante qualquer ofensa, que não visam apenas o consumo, que se suportam e enriquecem. É uma extensão da família - sempre deveria ter sido assim, pois esse é o ideal observado no Novo Testamento e na Igreja Primitiva. Devemos, por conseguinte, enfrentar o inflamado hedonismo dos desigrejados, que, por sua incapacidade de estabelecer vínculos de corresponsabilização e sua ênfase no bem-estar e na experiência estética, preferem viver fora do Corpo de Cristo. Só podemos alterar e melhorar a estrutura se fizermos parte dela.

6 - Fortalecimento dos vínculos familiares e das amizades:
A família estruturada é a base de uma igreja sólida e é em uma congregação de cristãos coerentes que as famílias buscarão suporte para manterem a sua estrutura. Precisamos preservar a família nuclear - pai, mãe e filhos -, que toma como base muito mais do que a mera relação estética de troca de favores, que dificilmente ultrapassa o nível estético. É também numa configuração familiar, com geração de descendentes, que os valores podem ser transmitidos com mais eficácia.

Um dos motivos de a mídia e o mercado favorecerem o hedonismo está no fato de que o fomentar da busca do prazer imediato resulta em enormes lucros em produtos e entretenimento. Geralmente, o indivíduo que não possui vínculos fortes, como o jovem solteiro, é o que está mais propenso a se deixar levar pelas ofertas do mercado. O pertencimento à família gera mais sentido de ser, produz segurança, sustenta com mais poder os valores e ameniza a angústia, de modo que o círculo familiar - também da comunidade cristã e dos amigos verdadeiros - protege-nos das tentações desse mundo de aparências, movido por estetas. É claro que isso torna a instituição familiar um objeto indesejável e que, na nova engenharia social que nos está sendo empurrada, deverá ser superado. E é aqui que resistiremos. Aproxime-se da sua família e dos seus amigos, almejando relacionar-se com eles não como com objetos, mas humanos, e dissemine notícias e estudos que demonstrem a importância da família tradicional.

7 - Valorização da pátria:
Considerei esse ponto importante tendo em vista o quanto, nessa nova engenharia social que se estabelece, a ideia de pátria tem sido desprezada. É interessante que criemos senso de identidade nacional, de pertencimento e de interesse por conhecer a alta cultura que nosso país, em sua tradição histórica, tem a oferecer. O Brasil é considerado uma nação cristã e, de fato, muito do que hoje faz parte de sua constituição é resultado de séculos de interação com o cristianismo - a Constituição, muitas das leis, aspectos da religião dominante, a configuração familiar tradicional... 

Antes de tomarmos como base o que a nossa tradição nacional oferece, porém, está aquilo que definitivamente consta nas Escrituras e o que aprendemos com a própria Igreja. Consideradas a Palavra e o legado da Igreja, a cultura histórica de nossa nação pode ser uma boa fonte de sustentação de valores. Aqui reside, também, o verdadeiro patriotismo: não um otimismo irracional, que não observa as mazelas, e nem um pessimismo desonesto, que só vê o lado ruim, mas um realismo inconformado que, amando a nação, visa a sua melhora.

Devemos conhecer as estruturas de nosso país para melhor nos movermos nele, pois é aqui dentro, fazendo uso da língua portuguesa e inseridos em sua cultura, que temos o nosso imediato solo de atuação, sendo também onde poderemos ser mais efetivos.

8 - Cultura:
Os cristãos precisam reencontrar a cultura como forma de contestação daquilo que está estabelecido. A música, a arte poética, a arte desenhada ou pintada, o teatro, o cinema, e as demais demonstrações artísticas, são ferramentas poderosíssimas para transmitir mensagens que possam ser entendidas pela maioria das pessoas, penetrando em sua mente e coração e instigando suas emoções e seu intelecto. Através do oferecimento de cultura de qualidade e de valor, que seja pertinente para nossos dias, os cristãos podem acusar os males do humanismo, alertar sobre o retorno da barbárie, solidificar os valores, expressar verdades bíblicas, transmitir o amor salvífico de Cristo e promover o auto-conhecimento e o amadurecimento do "eu". O estímulo para a reflexão, que freia a correria hedonista e possibilita que a razão encontre seu lugar por alguns instantes, é essencial para uma gradativa mudança de paradigma, pelo menos para um certo número de pessoas. A arte também ajuda a preservar a nossa própria identidade como cristãos, guardando-nos da crescente influência da mentalidade secular.

O uso da cultura de contestação, porém, exige um profundo conhecimento de nosso mundo contemporâneo e da configuração específica do Brasil hoje, para que se ofereça algo propício para o nosso tempo - não necessariamente que seja aceito, mas que possa vir a criticar as coisas certas e de modo correto.

Outra forma de produção cultural está no desenvolvimento de material analítico, de base teórica que possa alimentar a arte, de reflexão profunda e acadêmica da nossa sociedade, promovendo críticas substanciais, adentrando nos debates acadêmicos, participando das discussões pertinentes de nossos dias, envolvendo e inspirando eruditos e leigos. Precisamos, urgentemente, fornecer artigos e livros de grosso teor argumentativo e farta referência bibliográfica para nossos irmãos cristãos e para aqueles que não são cristãos, fomentando a introspecção e movimentos de reação.

Divulguemos e produzamos cultura pertinente para o nosso tempo!

9 - Ação social:
*Observo que a listagem não está, necessariamente, em ordem de importância.
Foi a caridade cristã um dos fatores que gerou a maior aceitação da Igreja no início da Era Cristã e através dela é que a Igreja promoveu algumas das suas maiores e mais positivas mudanças sociais. Foi por meio da ação social, ao lado do ensino e da cultura, que John Wesley resgatou a Inglaterra das consequências nefastas do hedonismo, como comentado anteriormente. O fato é que o amor de Cristo fomentado entre os cristãos foi tido pelo próprio Jesus como a maior evidência de que "somos Seus discípulos" - João 13:34-35 -, sendo, através dele, acompanhado de uma mensagem coerente, que o Mestre é apresentado ao mundo por Sua Igreja.

A ação social, mais do que evidenciar para a sociedade que somos cristãos genuínos e cooperar, em nosso coração, com o controle de nossos impulsos bestiais narcísicos, tem como enfoque o amor genuíno pelo próximo e o desejo de vê-lo bem, especialmente de vê-lo salvo em Cristo através do evangelismo que deve acompanhar o auxílio material, psicológico e intelectual. Só Jesus Cristo é que tem real poder de vencer a nossa velha natureza e nos levar à excelência de vida, a um patamar de alegria no controle dos impulsos carnais, embasado na paz e na esperança da eternidade de Deus.

É a nossa coerência que manterá, mesmo que minimamente, os ouvidos daqueles que não são cristãos abertos à Mensagem. As pessoas sempre saberão valorizar o amor sincero, mesmo quando quase ninguém mais conseguir colocá-lo em prática. Não podemos viver de discursos vazios, mas praticar o que pregamos e defendemos, e é nos vínculos - amigos, família, igreja e sociedade, através da cultura e da ação social - que o nosso discurso intelectual encontrará quase todo o seu espaço de disseminação, isso através de conversas profundas realizadas no dia-a-dia, no convívio com o outro, com aquele com quem nos relacionamos de modo mais profundo, que está disposto a nos ouvir e a ser ouvido por nós. É assim que o Reino, conforme extraímos da mensagem de Cristo, deve ser disseminado: por meio de relacionamentos, da proximidade, do gradativo fermentar de ideias, e não como um movimento de massas. Nesse ponto, faço questão de deixar claro o quão efetivo é, para o cristão, realizar tudo para a glória de Deus, incluindo o seu trabalho, qualquer que seja - se o seguidor de Cristo tentar imitar o Mestre, por exemplo, no escritório onde trabalha, sua conduta e os vínculos singulares que conseguirá formar serão, por si sós, mantenedores dos valores cristãos, recursos evangelísticos e focos de resistência ao curso hedonista da nossa sociedade.

10 - Devoção individual:
Esse ponto permeia todos os outros. Só Jesus pode vencer nossa velha natureza e, portanto, é dEle que devemos, diariamente, extrair forças e sentido. É na Sua morte que encontramos a nossa vida, é na Sua divindade que encontramos esperança e é na sua plena humanidade que encontramos a completude e excelência do ser humano. Só é possível transmitir a Mensagem de modo seguro e eficaz quando demonstramos que ela brota de nosso coração mais do que de nosso intelecto, só é possível resistir aos apelos bestais e ao mergulhar na banalidade se vivemos, constantemente, crucificando juntamente com Cristo os nossos pecados e desejos inoportunos.

Não existe força motivadora maior para o cristão do que a experiência sobrenatural com Deus, do que o experimentar do Seu infinito amor. Essa deve ser uma busca diária. Antes de tentar fazer com que algo encontre sentido nos outros, devemos conquistar o nosso próprio "eu" e fazer a teoria ter sentido prático em nossa própria vida.

Em nossa vida particular, individual, é que treinamos nossos apetites orgânicos, é que nos disciplinamos. É com o tempo de luta e dedicação na arte do domínio próprio que começamos a incorporar comportamentos salutares, de modo a torná-los praticamente naturais. Isso não significa que não possamos usufruir de prazer algum, pois o próprio prazer é criação de Deus - nós podemos e devemos suprir os desejos de nosso corpo, mas de modo sábio, na quantidade e no tempo certo, sem permitir que o apetite nos controle, tudo sob a estrita orientação bíblica. Embora a perseverança no interesse por viver uma humanidade mais plena, menos bestial, possa culminar numa maior facilidade de ser coerente, nunca podemos relaxar completamente - é necessário que um compromisso de conflito contínuo com nossa própria natureza seja estabelecido. Aqui encontramos o valor das disciplinas do jejum, da solitude e do silêncio, que possibilitam um maior controle de nós mesmos, física e mentalmente. Esse autocontrole também é favorecido pelos vínculos com amigos e irmãos cristãos com quem podemos desabafar e buscar conselhos.

Considerações finais:
Esses são os dez pontos que eu tive como focos de interesse para uma resistência eficaz aos movimentos do nosso mundo atual, mas a lista não é fechada e cada leitor poderá encontrar outros pontos relevantes e estabelecer-lhes como referência. A questão aqui foi mais de dar um Norte, propôr uma ideia, direcionar a defesa da fé, que na maioria dos casos está bastante difusa, para pontos específicos de maior relevância e que merecem ser mais enfatizados. Gostaria de finalizar dando, ainda, alguns conselhos, que possam auxiliar na boa aplicação dos princípios trabalhados:
- Ser firme na resistência, mas não mate o amor. Deus é Amor e, ao representá-Lo, precisamos amar. Lembrando que amor, no sentido cristão, é decisão, não sentimento.
- Não se trata de viver um ascetismo doentio, mas de disciplinar-se e proteger-se de modo a conseguir sair do curso auto-destrutivo da sociedade e ser capaz de administrar os impulsos e apetites, possibilitando uma vida intelectual mais fecunda, abrindo as portas para uma realidade mais consistente e satisfatória, para além da prisão do prazer imediato. Nesse ponto, conseguirmos cultivar os prazeres da alma, que demandam disciplinas como o jejum e a oração. Aprendendo a administrar nossos instintos, temos a possibilidade de desenvolver práticas que alimentem nossa vida interior, que tornem nossa alma mais densa: alta cultura, amizades duradouras, devoção. Quando nos tornamos mais consistentes, com mais vida interior, não cedemos tão facilmente aos estímulos do entretenimento e conseguimos praticar a solitude com excelência - por solitude, entenda a capacidade de não se dissipar no turbilhão do entretenimento.
- Devemos ter consciência de que não sabemos tudo e aceitar aprender mesmo com aqueles de quem discordamos. É essencial que nosso engajamento esteja acompanhado de constante atualização e aprendizado.
- Que aprendamos a praticar a hospitalidade, abrindo nossas casas para receber pessoas, proporcionando-lhes uma experiência vincular poderosa, partilhando com elas nosso alimento físico, intelectual e espiritual.
- Lembrar que, mesmo diante dos desafios de nosso tempo, temos em Cristo o firme fundamento da nossa esperança e que, portanto, verdadeiramente livres das amarras desse mundo - física, emocional, intelectual e espiritualmente -, podemos ser realmente felizes. Sejamos alegres - que a alegria seja a nossa marca num mundo de crescente depressão e suicídio.

"Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos.", Filipenses 4:4

Natanael Pedro Castoldi

O Que Pensar Sobre o Pluralismo Religioso?

Noutro dia, quando eu estava passeando em um bom sebo, deparei-me com um interessante livro de Jeffrey Moses, "Unidade", publicado pela Sextante em 2009. O subtítulo me pescou: "Os princípios comuns a todas as religiões", e, logo abaixo, uma citação do Dalai-Lama, descrito como "Sua Santidade". É claro que esse material me provocou! Mas não de maneira ofensiva - muito pelo contrário. Embora o objetivo do autor seja, de certo modo, mostrar que não importa muito qual religião você segue, já que a maioria prega basicamente a mesma coisa, logo brotaram na minha mente alguns dizeres de C. S. Lewis sobre o tema - o argumento em prol do pluralismo, em minhas maquinações mentais, foi revertido para uma defesa da fé cristã. Considerando preço do livro, não resisti e o comprei. Vejamos alguns dos seus dizeres:

A obra de Moses se divide em dezenas de tópicos morais, oferecendo, em cada um, as regras das mais diversas religiões que o favorecem. Alguns dos tópicos são: ama o teu próximo; há um só Deus; preserva a Terra; colhemos o que semeamos; honra teu pai e tua mãe; não julgues; ama teu inimigo; a bênção da hospitalidade; a bênção da caridade; dar sem esperar receber... Ele é provocador ao intitular essas regras universais fazendo uso, geralmente, da ordem conforme está na Bíblia, reduzindo, intencionalmente ou não, o cristianismo às demais religiões. Trata-se de um reducionismo, de uma simplificação, que, embora nutra interesses políticos pela paz, ignora as diferenças incontáveis e irreconciliáveis que existem entre as crenças e que lhes atribuem valor e singularidade.

a - Ama o teu próximo:
- Judaísmo: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo."
- Cristianismo: "Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei... assim sereis reconhecidos como meus discípulos, se tiverdes o mesmo amor uns pelos outros."
- Hinduísmo: "Um homem adquire uma boa regra de conduta quando vê o próximo como a si mesmo."
- Budismo: "Só é feliz o homem pleno de amor por todas as coisas do mundo e que pratica a virtude em benefício dos outros."
- Confucionismo: "Procura estar em harmonia com todos; sê amigo dos teus irmãos."
- Islamismo: "Ninguém é crente se não tiver amor ao próximo e se não amar seu irmão como ele é."

b - Há um só Deus:
- Judaísmo: "O Senhor é Deus no Céu e na Terra; não há nenhum outro."
- Cristianismo: "Há um só Deus e pai de todos, que está acima de todos, e em todos vós."
- Hinduísmo: "Ele é o Deus único oculto em todos os seres, que a tudo permeia, o Eu dentro de todos os seres, vigiando todos os mundos, habitando em todos os seres."
- Siquismo: "Há apenas um Deus cujo nome é verdadeiro. Ele é o criador, imortal, eterno, sem princípio nem fim."
- Sufismo: "Tudo isso é Deus. Deus é tudo o que existe."
- Bahaísmo: "Ele, na verdade, é, em toda a eternidade, único na Sua Essência, único nos Seus atributos, único nas Suas obras."

c- Ama teu inimigo:
- Judaísmo: "Se teu inimigo tem fome, dá-lhe pão para comer; e se ele está sedento, dá-lhe água para beber."
- Cristianismo: "Ama os teus inimigos, faz bem àqueles que te odeiam."
- Islamismo: "Não digas que se as pessoas te fizerem o bem, tu farás o bem a elas; e que se as pessoas te oprimirem, tu as oprimirás. Mas determina que se as pessoas te fizerem bem, tu lhes farás o bem; e se elas te oprimirem, tu não as oprimirás."
- Confucionismo: "Indagaram a Confúcio: 'O que dizes do comentário: 'Retribui a inimizade com bondade?' E ele respondeu: 'Como retribuirias a bondade bondade então? Retribui a bondade com bondade e a inimizade com justiça'."
- Hinduísmo: "Conquista com presentes um homem que nunca dá nada; domina os mentirosos com a verdade; derrota um homem irado com a gentileza; e vence o homem mau com a bondade."
- Jainismo: "Vence a ira com o perdão... e a mentira com a honestidade."
Fonte: Unidade, Jeffrey Moses, Sextante, 2009, pgs 21, 25 e 51.

Não acho necessário copiar aqui uma lista exaustiva. Tenhamos esses três pontos como amostra suficiente para as nossas reflexões, conscientes de que o livro aborda várias dezenas deles. E não é problema algum que encontremos tais semelhanças! Acho, porém, que pode ser um tiro no pé buscar a paz mundial afirmando que todas as religiões são a mesma coisa, pois se todas estão certas, todas, em certo sentido, estão erradas - já que, nesse caso, não há, em absoluto, um "certo". Se qualquer coisa é Deus, com Deus sendo tudo, então Deus não é nada - é apenas um nome diferente para chamar qualquer coisa. O pluralismo, com seu relativismo, tenta buscar uma consciência moral universal aniquilando, justamente, a única coisa que atribui sentido à moralidade, que é a existência de um Criador - você percebe que, para o pluralista, que almeja a paz, o que importa não é tanto se Deus existe ou não, mas que as pessoas vivam de modo moralmente correto. Até porque, não tem como afirmar que existe um único Deus e, ao mesmo tempo, sustentar a existência de vários - e de divindades antagônicas, que se anulam. Duas divindades distintas que pregam o exclusivismo não podem coexistir , como é o caso de Alá e YHWH. Quando eu prego que os deuses pagãos existem todos ao lado de Cristo e de Alá, estou simplesmente anulando qualquer base sólida para a possibilidade racional da religião, reduzindo-a a um mero acordo político entre os homens. 

Quando eu impossibilito a existência de Deus através do relativismo, a paz que eu quero universalizar, que toma como base a moral comum*, simplesmente não se sustenta, pois não há fontes naturais para a moral - e nem motivos de ser moral que possam vir a ser observados na natureza, principalmente para a moral sacrificial. Já existe uma moral universal, logo, eu não preciso criar uma religião sintética que abarca toda a crença e crendice artificialmente, ou reduzir todas as existentes ao mesmo ponto, para favorecer a paz - onde a moral se sustentará quando não houver mais divindade? Ela será como o pluralismo: um mero acordo político baseado em conveniência humana e tão volúvel quanto. De qualquer forma, a paz que procuramos não deve ser dissociada da coerência, da verdade - não creio que seja viável forçar uma união doutrinária inconcebível para produzir uma suposta paz. Existem outros caminhos, como a sustentação da moralidade universal para, preservando as singularidades das religiões - e assim protegendo os fundamentos da moralidade -, instigar a tolerância, o amor e o diálogo. A paz que vem disso é uma paz inteligente, não embasada na covardia e na omissão. Se é que se pode acreditar que, algum dia, de fato exista paz em nosso mundo depravado - que se condena pela própria moral que sustenta. Vale a pena arriscar as bases da moralidade em favor de uma utopia? 

Outra questão interessante a ser abordada aqui é, independentemente de as religiões pregarem uma moral parecida, se todas têm como objeto de existência a pregação moral. Uma coisa é a moral fazer parte de uma religião, outra muito diferente é essa religião existir simplesmente para a pregação da moralidade. Acredito que todas as religiões realmente seriam a mesma coisa se, pregando moralidade parecida, objetivassem unanimemente o instaurar de uma sociedade moralmente aceitável. Mas não é o caso! Religiões sapienciais, como o budismo e o hinduísmo, podem até ter como objetivo a disposição de uma série de normas de conduta que sirvam para aperfeiçoar o homem, mas as religiões proféticas, como o islamismo, o judaísmo e o cristianismo, apesar de apresentarem semelhante código de regras e orientações, militam por outra coisa. O cristianismo, por exemplo, é categórico ao informar que, embora as boas obras e intenções sejam de grande valor, a aproximação da divindade se dá apenas pela iniciativa da própria divindade, que aperfeiçoa o homem - não é o homem que se aperfeiçoa para aproximar-se dela -, logo, a mensagem cristã não é moral, é profética: trata-se de uma revelação divina objetivando o reatar dos laços entre Deus e os homens, não apenas instruir o ser humano sobre como construir, com seu esforço, um mundo mais agradável. É por esse motivo que as Escrituras cristãs não pregam a moralidade artificial maquinada pelo pluralismo religioso: quando entram em conflito a paz com o Estado ou o próximo e a fé em Cristo Jesus, o fiel deve optar pela fé, desrespeitando a norma que atrapalhe sua adoração ou produzindo a ira de familiares opositores - ele deve escolher pelo Sumo Bem, que é o próprio Criador. Não se trata da moral pela moral - de covarde omissão com objetivos conciliatórios, egoístas e políticos. De forma alguma, portanto, o cerne do cristianismo reside no erigir uma sociedade perfeita - isso é o próprio Deus que o fará. A fé cristã é bastante sóbria nesse sentido, desapegando-se da utopia.

Moses, ao apresentar a lista de similaridades entre as religiões, nos presenteia com outra conclusão, mesmo que não seja intencional da sua parte: ele favorece a moralidade universal, a chamada Lei Natural, e faz-nos perceber que a moralidade humana sempre foi entendida pelo homem como algo associado ao divino. Aqui nós temos a demonstração de que, ao longo de quase toda a nossa história, percebemos que a moralidade não é algo que extraímos do ambiente natural - na verdade, a natureza, sempre tão hostil ao ser humano, mais facilmente nos faria caminhar numa direção oposta às veredas do "fazer o bem". A moral não foi uma conquista, algo que o homem desenterrou desse mundo ou de si mesmo, como criatura semelhante às demais, que são amorais: segundo nós mesmos reconhecemos, e que está expressado na ligação entre fé e moral, a noção de certo e de errado é produto e está intimamente associada ao Eterno. Esse é um ponto que, por si só, desfavorece o pluralismo, comentado anteriormente: a moral depende de Deus, pois veio diretamente dEle, e, portanto, afirmar que Deus é tudo - e, por conclusão, que Ele é coisa nenhuma -, é o mesmo que dinamitar todos os fundamentos para uma vida reta. É claro que, havendo uma moral universal, que carregamos desde o nascimento - e que é inata, já que todas as pessoas do mundo inteiro tendem a discerni-la -, o fim da religião não impossibilitaria o "fazer o bem", apenas o deslegitimaria e, o deslegitimando, favoreceria construções filosóficas capazes de burlá-lo sem culpa, promovendo atrocidades do tipo que presenciamos no Século XX, o primeiro desde o início da Era Cristã no qual Deus esteve isolado do andamento da sociedade. Seguiríamos comportando-nos moralmente mesmo sem o Criador por inércia, por costume e conveniência, mas não passaríamos muito tempo com a tão sonhada "paz" - perceba que as sociedades comunistas do Século XX, desprovidas de um observador moral externo, do guardião divino da moral, mataram aproximadamente 100 milhões de pessoas.

É interessante, nesse ponto, observar algumas colocações de C. S. Lewis na introdução d'O Problema do Sofrimento, reimpresso pela Vida em 2013: para Lewis, tanto a crença em Deus quanto a moralidade não podem ser absorvidas do mundo natural. O medo de seres sobrenaturais sempre acompanhou o ente humano e esse pavor é tão singular que recebeu um nome específico, uma vez que é um medo de categoria diferente daquele que temos diante de perigos naturais: Numioso. O medo do assombro, o pavor, não pode ter saído da simples relação do homem com a natureza. Para justificar a posição, Lewis nos oferece a seguinte ilustração: pense no tipo de medo que você teria diante de um tigre e no medo que teria diante de um fantasma. Não é necessário desenvolver muito a questão, pois quem reflete sobre o que foi sugerido, instintivamente sabe que há diferença. O pensador faz-nos, então, perceber que não há somente uma diferença de quantidade de medo entre tigre e fantasma, mas uma diferença na qualidade do medo: é de outro tipo. Temos pavor do Estranho - o fantasma é temido não por ser perigoso, mas "diferente". Há os que afirmam que o medo de tigres evoluiu para o medo de fantasmas por influência da reverência aos chefes tribais, o que suscita a seguinte interrogação: de onde, então, veio tal reverência? O assombro, a reverência ao Estranho, o Numioso, não encontra raízes lógicas no ambiente natural. Mas o Numioso, por si só, não é moral - ele é neutro.

Apesar de o Numioso em si mesmo ser neutro, o ser humano é uma criatura moral. Em comum com o Numioso, a moralidade também é um salto para além de qualquer coisa que a natureza possa sugerir, mas, de qualquer forma, existe e, assim como o Numioso, pode ser tão antiga quanto a humanidade. É engraçado como, além de ser algo isolado do ambiente natural, a moralidade apresentou-se ao ser humano, em todas as culturas, prescrevendo um comportamento que as pessoas que o adotam não conseguem colocar em prática e, assim, todos os seres humanos reconhecem que estão condenados. Sendo a ideia do Numioso amoral, é possível que uma sociedade moral o tenha e que a moralidade e o Espanto não entrem em contato - existiram vários povos que desenvolveram filosofias profundas, mas mantiveram cultos tribais focados em rituais que objetivavam o apetecer da implacável divindade, suprimindo o medo.

Há, porém, uma outra categoria de religião, resultante da fusão entre a moral e o Espanto. Nesse tipo de religião, o pavoroso Numioso se torna o guardião da moralidade. São duas coisas péssimas unidas: o Numioso, por si só, já faz o homem estremecer, enquanto a moral, com sua exigência, naturalmente promove senso de culpa e demérito. Colocar o Espanto como guardião da moral é o maior dos pesadelos, pois o erro, agora, é passível do movimento retaliativo do Numioso. Através dessa demonstração, Lewis conclui que, da mesma forma que é impossível que a moral e o Espanto tenham saído da natureza, é absolutamente inconcebível que o homem tenha desejado fundir os dois. Sendo assim, a associação entre a moral e a divindade não é criação humana, mas algo que existe por si mesma. É necessário que, para passar das religiões primitivas, baseadas no medo, para os monoteísmos mais sofisticados, ocorra um salto para o qual não há comando evolutivo. Essa relação só é possível quando Deus instila em nós um temor espiritual que esteja unido ao Deus que tudo criou e que dirige a moralidade.
Fonte: O Problema do Sofrimento, C. S. Lewis, Vida, 2013, pgs 17-31.

Onde quero chegar com tudo isso? Ao simples fato de que religião e moralidade são tão antigas quanto o ser humano e que não são criação humana, mas coisas com as quais já nascemos. O movimento de afirmar que tudo é Deus e que, portanto, Deus é o mesmo que nada - e que todos os caminhos levam para o Nada -, é um atentado contra as nossas convicções mais básicas. O pluralismo pode ser existencialmente mais insuportável do que a ausência de paz plena no mundo, já que nos afasta, querendo ou não, de coisas que fundamentam a nossa identidade. Aquilo que há de mais fundamental em nossa alma e em nossa mente não suporta a ideia de todas as religiões são exatamente a mesma coisa. Em outros momentos da história predominou algo como um pluralismo religioso, como nos últimos séculos do Império Romano, mas raramente esse tipo de sistema se sustentou - tanto a religião clássica, que apresentava incoerentemente deuses imorais como guardiões da moral (um dos objetos das mais ácidas críticas dos filósofos gregos), quanto o pluralismo religioso, que pelo relativismo não sustenta a moral, mais cedo ou mais tarde se curvaram ao tipo de fé que a maioria dos seres humanos almeja: num único e exclusivo Deus, que é moralmente compatível com o comportamento reto que exige dos seres humanos. 

Existem ainda hoje religiões inclusivas, que abraçam todas as formas de crença, entendendo que por detrás de tudo há um único Deus. Dentre essas religiões, podemos citar o hinduísmo e o budismo. Para o hinduísta, que sustenta a existência de centenas de milhões de divindades - o número de adeptos se parece com o número de deuses -, aceitar que divindades doutras raízes existam como emanações do Deus Verdadeiro, não é problema. Mas é impossível que YHWH tenha emanado da divindade primordial hindu, pois, por definição, YHWH é a própria divindade eterna e exclusiva - Ele não pode ser aceito como "apenas mais uma divindade". Tampouco pode ser YHWH um outro nome para a divindade criadora hindu (Prajapati ou Brahma), pois a natureza e as características dessas divindades são antagônicas: YHWH é relacional e pessoal, Prajapati só aparece para criar Brahma; YHWH não se manifesta em divindades menores, enquanto a divindade primordial do hinduísmo tem todos os outros deuses, "bons" ou "maus", como reflexos seus; YHWH é um Deus moral, é Bom, não é neutro, enquanto, para o hinduísmo, a divindade está para além do bem e do mal, sendo tanto o bem quanto o mal meras ilusões. No hinduísmo, portanto, ainda que a pregação de boa conduta esteja associada ao divino, a moralidade não encontra uma boa base de sustentação, já que bem e mal, em absoluto, não existem. A pregação moral hindu, por consequência, se entrelaça apenas superficialmente com a religião, acompanhando-a e não necessariamente emanando dela, sendo apenas mais uma parte de todo o conjunto de fatores que constituem a sociedade a que pertence. Eis aqui mais uma evidência de que o inclusivismo religioso sempre acaba promovendo o afastamento da moralidade - uma religião relativista não é capaz de sustentar a moral e esta, por sua vez, precisa sobreviver através de outros meios. A situação é tal, que muitos estão considerando essa religião - se é que é uma religião só - mais como uma cultura do que um credo. Geralmente, o culto hinduísta permanece como uma série de rituais desenvolvidos somente para obter o favorecimento da divindade, aplacando a sua ira.

O budismo, que brotou do hinduísmo, pode ser considerado inclusivista, pois seu desenvolvimento está dissociado de uma divindade específica, sendo mais uma filosofia antropocêntrica de vida, que objetiva o aperfeiçoamento humano e a auto-salvação, que ocorre quando o homem, através de um comportamento moral aceitável, consegue chegar ao Nirvana, que é o estado de "não-ser", uma realidade eterna de impessoalidade, sendo um com a energia cósmica. Essa realidade final também é amoral, revelando que, no fundo, bem e mal são apenas ilusões, percepções de uma realidade menos elevada. Novamente, o inclusivismo é consequência ou gerador do afastamento da moralidade. Apesar de ser considerado como ateísta por alguns, o budismo propicia um comportamento reto na obtenção da impessoalidade e amoralidade do Nirvana, mas, para além disso, a moral não encontra fundamentos sólidos. É um meio desprendido de qualquer divindade para chegar ao estágio divino - a moral, por si mesma, não encontra justificativa de ser. Por ser mais um modo de vida, diversas formas de budismo estão se espalhando atualmente e o budismo está em ascensão: ele conseguiu, de certa forma, burlar a associação entre a moral e o Numioso, tornando-se humanamente mais aceitável - se mostrando fruto de algo que o ser humano gostaria muito de criar -, e, como não há um guardião da moral, sendo o homem o responsável por protegê-la e administrá-la, largando o peso de suas atitudes na conta daquele que for a sua próxima encarnação, na vida vindoura, diminui-se a culpa e o medo. Por isso essa religião, se é que se pode considerá-la como tal, depende muito da moralidade inata e do sentimento de culpa que reside no ser humano para além de qualquer construção filosófica que o negue: em si mesma, a moral não encontra sentido, se não nos interesses individualistas do ser humano, que se comporta de determinado modo esperando recompensa, e no que há de compaixão no nosso coração, almejando, para além da mera razão, a preservação do próximo - nem que "o próximo" seja o "eu" da próxima vida.

Retornando para Lewis, tanto a moral quanto a religião vieram de fatores externos à natureza e não necessariamente se associam com profundidade. Os preceitos morais inseridos numa religião que relativiza a moral, como o hinduísmo, são mais fruto da comunicação da religião com a moral inerente ao ser humano, do que aspectos primordiais da religião em si - a religião foi moralizada pela moralidade, não tendo sido ela a responsável por apresentar essa moral. De alguma forma, porém, os hindus conseguiram colocar o comportamento moral sob a vigilância dos deuses, mesmo que, em última instância, a sua fé não ofereça bases para legitimar o que é certo e o que é errado. Temos aqui um exemplo claro do que Lewis falou sobre a caminhada simultânea da fé e da moral sem que elas dependam intensamente uma da outra. São dois aspectos exclusivamente humanos e deslocados da natureza caminhando em coordenação, como resultado de um contato natural entre eles - as religiões decorrentes disso poderiam ser tranquilamente, por conclusão, resultado de maquinações humanas. Como a fé dessa natureza tende a moralizar-se sob a influência humana, ela, por si só, é desmoralizante: a moral que a acompanha vem de uma fonte e de um esforço externos e o seu relativismo inclusivista está em contínuo conflito com a moral inata que carregamos. Não me parece possível, sob nenhum aspecto, afirmar que todas as religiões são iguais. Até mesmo os fundamentos morais que ostentam, por mais parecidos que sejam, não falam muito sobre unidade.

Agora foquemos nas religiões exclusivistas que carregam, como as inclusivistas, a moral acompanhada da divindade. Não estamos falando do animismo e do panteísmo, que, por terem tudo como se fosse Deus, na verdade sustentam que Deus não é nada. Nesse ponto, saindo da categoria das religiões sapienciais, só podemos falar das religiões teístas, que pregam um Deus Eterno e externo ao universo, e das religiões proféticas, que resultam não de uma descoberta, mas de uma revelação do próprio Deus. Diferentemente das religiões sapienciais, que apresentam modos de vida que podem associar-se a outras espiritualidades, as religiões proféticas são fundamentalmente exclusivas: nada que está fora delas pode, em hipótese alguma, estar correto. Elas são monoteístas - judaísmo, cristianismo e islamismo -, crendo que apenas um único Deus combina com o ideal de perfeição moral - e eis o diferencial dessas religiões: nelas o divino é indissociável da moralidade. Esse passo pavoroso, de ter a moral sob o cuidado do divino, é antinatural, diferentemente da relação entre fé e moral nas religiões inclusivistas, como fruto de uma moralização gradativa e muito humana da religião. É por isso que a religião profética se posiciona como resultado de revelação: o homem, por conta, jamais inventaria nem a moral, nem a religião e, muito menos, colocaria a moral sob a tutela divina somente para ser julgado e inevitavelmente condenado. O que fica claro nesse tipo de religião é que a moral encontra sua justificativa no próprio Deus, emanando dEle, que é relacional e moralmente perfeito - eis uma base sólida para a moralidade, que não vislumbra alicerces no mundo natural e nem razão plena de ser numa religião moralmente relativista.

Como já foi introduzido, a moralidade não pode vir da natureza - do mundo natural nós podemos colher coisas como "eu quero" ou "eu não quero", mas nunca o "eu devo" ou "eu não devo". Como conclusão, temos que atestar que ela foi inserida no homem pela própria divindade. É fácil imaginar no que esse raciocínio vai dar: se a moral foi inserida no ser humano pela divindade, então essa divindade não pode favorecer uma religião desprovida de uma moralidade absoluta. Bem e mal são coisas objetivas, não ilusões, e, portanto, a religião proveniente do Criador que nos fez morais não pode relativizar a moralidade ou se desenvolver sem considerá-la, como que apenas superficialmente associada a ela. Nesse caso, as religiões inclusivistas não podem representar a verdade sobre a divindade. Apenas um Deus chamado de Bom pode responder às exigências de uma moral objetiva e, para além de preservá-la, supri-la. O caminho é justamente o contrário das religiões inclusivistas, que comprometem a moral para se sustentarem: o senso de certo e errado é fortalecido. O cristianismo, por sua vez, além de sustentar com poder a Lei Natural, deixa muito claro que nós não podemos nos comportar moralmente bem com base em desejos egoístas, tentando merecer a aceitação divina - o que, por si só, é uma imoralidade. Na sua sobriedade, o cristianismo reconhece que a depravação humana é tal que o homem, imperfeito, é incapaz de merecer qualquer coisa do Deus perfeito - é a divindade que se aproxima do ser humano e, depois de resgatá-Lo, o estimula a viver a moral que já lhe é inata da maneira correta. Eis outra diferença: nas religiões sapienciais, a moral, por mais que seja, em certo nível, relativa, é necessária como um meio para elevar o homem ao nível de divindade - sendo ela tida de modo interesseiro -, se caracterizando, logo, por um tipo de fé que prega o homem moralmente correto como um meio para um fim amoral, enquanto o cristianismo, não tendo a moral como um meio e nem um fim, mas apenas o Deus moralmente perfeito, a observa como resultado de uma vida centrada no Criador, quando este já nos aceitou - a moral já existe antes de o homem tornar-se cristão, mas ganha novo sentido e outra intensidade quando este se converte.

Feito todo esse movimento lógico, concluímos que a Lei Natural, tendo sido inserida no homem pelo Deus Verdadeiro, acompanhou-nos em nossa jornada religiosa e amoral - ou até mesmo imoral - animista, que veio a constituir religiões como o hinduísmo e, posteriormente, o budismo. As religiões animistas primordiais não relacionavam-se com a moral, mas o contato delas com a moralidade foi, ao longo de seu processo de sofisticação, carregando-as de certo teor de moralidade. Entretanto, a outra perspectiva de religião, que pode ter precedido o próprio animismo, associa a moral ao divino desde o começo, com o senso de certo e errado emanando dEle - associação que pode perdurar até hoje, em maior ou menor grau, nas diversas crenças, mas que está latente nas religiões exclusivistas, como se elas preservassem de modo mais gritante a combinação entre a verdade moral e o Numioso, herdada do próprio Criador desde os primórdios e reascendida em Abraão pela revelação do divino, tornando-o o pai do grosso dessas religiões, pai de praticamente todas as religiões proféticas. A conclusão imediata de tudo isso é que o pluralismo não faz sentido algum, pois as religiões são qualitativamente diferentes e até mesmo a sua abordagem sobre a moralidade, ainda que os preceitos morais sejam parecidos, é incompatível - uma prega a moral apesar da religião e a outra a prega por causa da religião.

Leitor, perceba isso: o que une as religiões de nosso mundo não é a mesma divindade, como se existisse um Deus por detrás de todos os deuses, mas a Lei Natural, que é aquilo que toda a humanidade, de todos os tempos, sabe que é certo e errado independentemente da religião, mas que pode vir a ser propagado e preservado por ela. É fato que a moral veio de Deus e esteve presente na experiência humana edênica, sobrevivendo em nossa mente desde então, persistindo com, por meio ou apesar da religião, fazendo-se presente no comportamento, nas filosofias e nas máximas religiosas, sejam elas de interesse espiritual ou meramente político. A única coisa que essas religiões tem de semelhante é o fator humano e o ser humano, como já dissemos, é moral - elas não falam sobre as mesmas coisas em tudo, apenas, quanto muito, concordam em aspectos de comportamento, nalgumas histórias mitológicas, percepções de mundo e rituais. Elas não são a mesma coisa! No islamismo a salvação exige o cumprimento dos deveres dos Cinco Pilares do Islamismo: recitar o credo islâmico, orar cinco vezes ao dia, jejuar, dar esmola e fazer peregrinações para Meca; no hinduísmo, os fiéis se submetem ao carma, enquanto aprendem através de uma série de reencarnações a viver corretamente, até submergirem no divino; no budismo busca-se a extinção dos desejos e a conquista da inexistência do Nirvana como fim para inúmeras reencarnações – As Quatro Verdades Nobres de Oito Desdobramentos mostram o caminho para o Nirvana: os caminhos são diversos, porém assemelham-se no sentido de que o homem é o responsável por chegar até Deus; no cristianismo, por sua vez, crê-se que Deus veio até o homem na figura de Cristo e morreu para reaproximá-lo do Criador, de modo que o homem não chega a Deus com base em seu esforço. São pontos de partida e de chegada muito diferentes e divindades e jornadas de naturezas incompatíveis. Há mais diferenças do que semelhanças, no final das contas.

Pode até ser que algumas das semelhanças entre as religiões, considerando alguns dogmas, comportamentos e mitologias, revelem uma memória coletiva, preservada em maior ou menos grau nos mais distantes pontos do mundo, de uma religião primordial**, resultante da revelação divina que associa a moral e a divindade. Mas um começo em unanimidade não pode ser suficiente para sustentarmos que, atualmente, cada fé representa um dos aspectos de uma única divindade, plurirreligiosa. Ou YHWH é o único Deus***, completo, inteiro, ou Prajapati o é. Tentar forjar uma religião artificial em prol da paz mundial é absurdo lógico! Mas o homem não suportará viver tempo demais nesse sistema: o abandono dos gregos, através da filosofia, da sua incoerente religião politeísta, produziu um insuportável relativismo, regado pelos céticos e sofistas, que, no sufoco da crise existencial gerada pela incompreensão de uma verdade absoluta, criou um solo fértil, bastante receptivo para a disseminação do cristianismo, fortemente exclusivista e resiliente na defesa de sua revelação histórica, racional e mística. Sigamos pregando a verdade, sustentando a Razão! Foi assim que os cristãos salvaram a lógica grega dos sofistas e céticos****.

Distanciando ainda mais as religiões dentre si, faço questão de, como conclusão, ressaltar o fundamento essencial do cristianismo: a Ressurreição de Cristo. Nesse ponto, não importa muito que as religiões sustentem ou demonstrem uma moralidade comum, pois essa não é, em hipótese alguma, a essência da fé cristã. Como disse o Apóstolo Paulo: "E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé." 1 Coríntios 15:14. Paulo de Tarso deixa claro, em Romanos 2:14, que compreende a existência da Lei Natural, presente tanto entre os judeus, quanto entre os gentios, cristãos ou não, de modo que o cristianismo, sem a vitória de Cristo sobre a morte, se torna apenas um propagador dessa moralidade e, portanto, irrelevante para uma humanidade já suprida de mestres morais. Nós temos na Ressurreição de Cristo a confirmação de Sua divindade e da veracidade da fé cristã, que, além de concordar moralmente com outras crenças, se sustenta, sobretudo, num evento histórico de caráter inquestionável ***** - em oposição aos mitos doutras religiões, perdidos em mundos distantes e eras remotas -, que vem a demonstrar a aprovação do Deus Pai quanto ao que Cristo, o Deus Filho, pregou e fez, especialmente quando afirmou ser Ele o próprio YHWH, a Segunda Pessoa do Deus Trino, tornando inescapáveis as Suas declarações sobre ser Ele o único Deus, o caminho exclusivo para a Salvação - não é apenas sobre viver uma vida moralmente bela, é sobre aceitar a Sua Salvação e a Soberania, declarando crer nas implicações espirituais dos eventos históricos da crucificação, da Ressurreição e da Ascensão. Fora disso, não há salvação. Sem isso, o cristianismo não tem valor. Não, as religiões não são todas iguais!

Natanael Pedro Castoldi

Notas:

* A demonstração da moralidade universal:
- ORIGENS: A MORALIDADE HUMANA, Entre o Malho e a Bigorna, 2014
ORIGENS: O SENTIMENTO DE CULPA, Entre o Malho e a Bigorna, 2014

** A possibilidade do monoteísmo primordial:
- ORIGENS: A RELIGIÃO, Entre o Malho e a Bigorna, 2014

*** O Verdadeiro Deus:
- QUEM É O VERDADEIRO DEUS?, Entre o Malho e a Bigorna, 2015

**** Os cristãos e a defesa da Razão:
- COMO A BÍBLIA SALVOU A RAZÃO, Entre o Malho e a Bigorna, 2014

***** A historicidade da Ressurreição:
- EXISTEM EVIDÊNCIAS DA RESSURREIÇÃO DE CRISTO?, Entre o Malho e a Bigorna, 2013

Origens - Introdução e Índice

Pouca coisa é mais fascinante do que a exploração das origens da humanidade - através desse profundo, ainda que incerto, estudo, podemos compreender melhor o nosso mundo e, principalmente, a nós mesmos. De onde vem a moralidade? Qual é a origem da religião? Por que sentimos culpa? E as línguas, de onde partiram? Tendo tais questões em mente, eu te convido a se aventurar pelas raízes daquilo que somos. Segue a lista de artigos dessa série:


Natanael Pedro Castoldi